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“Lunchbox”: marmitas com ternura, afeto e muito talento

Claudia Bozzo Entre tantas atrações que rondam as salas de cinema nessa antecipação de Oscar, há uma verdadeira preciosidade, a qual a academia ignorou, talvez porque a seleção de filmes […]

02/03/14

Claudia Bozzo

Entre tantas atrações que rondam as salas de cinema nessa antecipação de Oscar, há uma verdadeira preciosidade, a qual a academia ignorou, talvez porque a seleção de filmes estrangeiros seja a mais bem servida.

O filme indiano “Lunchbox” traz por certo uma das grandes histórias do cinema, com atores de primeira e uma originalidade e leveza inéditas na direção e interpretação.

“Lunchbox” aborda um caso praticamente improvável, pois trata de um engano no celebrado sistema de entrega de marmitas de Mumbai. Na cidade, há cinco mil entregadores (os dabbahwallahs) que há 120 anos, todos os dias levam, das residências dos funcionários aos seus escritórios, mais de 160 mil marmitas com a refeição quentinha.

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Esse é um sistema que graças à familiaridade dos indianos com a matemática, tem um índice de sucesso notável; apenas um conjunto de marmitas é entregue no endereço errado, em cada oito milhões. O sistema virou case de sucesso e como se menciona no próprio filme, foi estudado por Harvard. E já foi apresentado em programas de culinária, como o de Anthony Bourdain, ou com a alucinada equipe de “Top Gear”, que consegue errar tudo, numa tarefa na qual os indianos acertam tudo.

Os entregadores (profissão que passa de pai para filho) são em sua maioria analfabetos e baseiam-se num sistema de códigos de cores e sinais, anotado em cada jogo de marmitas, para garantir que o almoço de seus clientes atravesse com sucesso a caótica Mumbai de bicicleta e trem.

O acaso da marmita entregue por engano é como uma das frases do filme, “o trem errado que chega à estação certa”.

A bela Ila Singh (Nimrat Kaur), sentindo o distanciamento do marido, tenta conquistá-lo com almoços cada vez mais saborosos, contando com o apoio da tia, que mora no andar de cima e da qual só ouvimos a voz. Mas o acaso faz com que tais refeições cheguem a outra pessoa: o solitário e circunspecto servidor público, viúvo, na véspera da aposentadoria, Saajan Fernandes,  interpretado por Irrfan Khan, que já conhecemos de “Quem quer ser um Milionário”, de 2010, no qual faz o policial que ouve incrédulo as histórias do improvável herói. Ou em “Aventuras de Pi”, de 2012 ou mesmo como um dos pacientes do dr. Paul Weston na terceira temporada de “Em Terapia”.

Saajan percebe o engano com grande prazer e por carta (mais um toque de suavidade, pois como observa o assessor do funcionário – “quem manda cartas hoje em dia, se existe o e-mail?”) elogia o tempero e as iguarias. Ela responde e dessa correspondência nasce uma afetuosa e sincera relação, ingredientes que faltavam ao dia a dia dos personagens.

O diretor de “Lunchbox”, Ritesh Batra – é seu primeiro longa metragem – contou em uma entrevista ter escrito em um cartaz sempre à sua frente algo para não se esquecer: “Menos é mais”. E não esquece. Ele traz uma observação neorealista de Mumbai e arredores e sua classe média. A interpretação dos atores é contida, a turbulenta Mumbai um cenário, não um estado de espírito. E a comida, como em outros filmes do tipo, marca a associação entre o alimento e o afeto. Além disso, a interpretação dos atores torna “Lunchbox” uma refeição suntuosa. Isso somado à bela, sutil e cativante história torna esse um dos filmes do tipo “quero mais”, o alimento para o espírito que queremos repetir


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