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Intolerância, o mal no ótimo “Em Pedaços”

Claudia Bozzo Às vezes dá vontade de pegar a relação de filmes em exibição em São Paulo e fazer de conta que aquilo é um globo, desses de mesa, que […]

25/03/18

Claudia Bozzo

Às vezes dá vontade de pegar a relação de filmes em exibição em São Paulo e fazer de conta que aquilo é um globo, desses de mesa, que você vai rodar, fechar os olhos e colocar um dedo sobre um país para ver o que vai dar. Quem sabe descobre um lugar para onde viajar em suas próximas férias?
Mas quando se trata de escolher um filme, o método não funciona. Já pensou o seu dedo ir parar em “Os Farofeiros”? Ou “Cinquenta Tons de Liberdade”? Melhor navegar com segurança e informar-se sobre diretor, atores, história. As chances de acerto aumentam exponencialmente. Mesmo porque gostar de um diretor ou ator não significa que tudo que eles fazem ou fizeram tenha o mesmo nível de qualidade. O que dizer do último filme de Woody Allen, o desnecessário e inexplicável “Roda Gigante” (2017). Ou do talentoso Matt Damon em “A Grande Muralha” (2017), uma “pisada de bola” de um ator que tem muito bom gosto para escolher filmes. Bem ele repetiu a (má) façanha em “Pequena Grande Vida” (2017), mas não é o caso de perder a fé no seu talento.

O bom é saber que sempre existem aqueles diretores que não deixam você “na mão”. Um deles é o alemão, de origem turca, Fatih Akin, cujo filme, “Em Pedaços” (2017) é um dilacerante grito de horror contra a intolerância e um retrato da Europa de hoje e das dores de adaptação a uma nova realidade. A realidade da exclusão, do medo, da xenofobia, da síndrome de direita-volver que se abate sobre tantos países.

A história não é segredo, o trailer já entrega tudo: uma mulher perde o marido e o filho em um atentado no bairro de predominância turca, e luta pela condenação dos autores da chacina. A antiga Alemanha mostra que não é tão antiga assim.

Diane Kruger, no papel de Katja Sekerci, a mulher que perde a família, chegou a receber a Palma de Ouro em Cannes, pela sua interpretação. É alemã, mas fez vários filmes na França (um deles, “Eu, Mamãe e os Meninos”, 2013) até mesmo um seriado, “The Bridge”, rodado na fronteira entre México e Estados Unidos, cuja origem é uma produção sueco-dinamarquesa, “A Ponte”, que também teve uma versão franco-britânica, “The Tunnel”).

No filme “Em Pedaços” ela mostra até onde vai a dor de uma mulher que perde o homem que ama e o filho de ambos. O drama não se dilui pelo filme e Akin leva a dor até onde é possível.

E esse diretor é o mesmo do divertido “Soul Kitchen”, de 2009, no qual o dono de um restaurante em Hamburgo acaba com a paz local, contratando um chef talentoso. Na falta de palavra menos gasta, o interessante é a homenagem à ‘diversidade’ que os filmes de Akin trazem.

É dele também “Do Outro Lado”, exibido em 2008 no Brasil, sobre um rapaz turco que viaja a Istambul em busca de um parente. E o interessante documentário “Atravessando a Ponte, O Som de Istambul” de 2005. Nele, Akin nos leva em uma excursão pela música de uma cidade fascinante onde uma ponte une o Ocidente e o Oriente, e os sons que a associam à dança, como a tradição dos dervixes e as influências atuais do rock e hip-hop.

Então, sabendo que o cinema traz o filme de um diretor já testado e aprovado, para quê procurar outra coisa, e arriscar-se a duas horas de tédio? Não custa nada, antes de ir ao cinema, pesquisar diretor, atores, roteirista. Isso é fácil, Google no filme. Melhor ainda, tornar-se um frequentador do Internet Movie Database (IMDb.com). Pode ter certeza: se o IMDb não tem, é bem provável que o filme não exista.

Tem a vantagem de não contar o fim do filme ou detalhes que façam perder a vontade de assisti-lo. No meu caso, meu maior medo é cruzar com pessoas que estão saindo do cinema, falando sobre o filme. Sempre tem um estraga-prazer que fala, para quem quiser – ou não quiser – ouvir; “é, mas ele não precisava matar a mulher…” Já ouvi, na saída de um filme daqueles vencedores de muitos Oscar, uma moça dizer para a amiga; “Pena que ele morre no fim”. Não, não vou dizer qual é filme. Porque, como uma piada, sempre tem alguém que ainda não o assistiu ou não a conhece


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