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“Infiltrado na Klan” traz de volta o bom Spike Lee

Claudia Bozzo Spike Lee foi chamado por um importante crítico de um “cineasta admiravelmente indisciplinado”, pela sua escolha recente de filmes, que incluíram peças discutíveis como a refilmagem do coreano […]

02/12/18

Claudia Bozzo

Spike Lee foi chamado por um importante crítico de um “cineasta admiravelmente indisciplinado”, pela sua escolha recente de filmes, que incluíram peças discutíveis como a refilmagem do coreano “Oldboy, Dias de Vingança” (2013) e outros. Mas ele está de volta à forma com o último, “Infiltrado na Klan”, baseado em uma história quase inverossímil, mas absolutamente real.

Indisciplinado ou não, não lhe faltam irreverência, atrevimento e coerência, e Spike Lee continua, tanto tempo depois de “Faça a Coisa Certa” (1989) Ou “Febre na Selva” (1991), filmes que tanta fama lhe renderam.

“Infiltrado” conta a ousadia de um policial, o primeiro negro na polícia de Colorado Springs, no início da década de 1970 que conseguiu infiltrar-se na Ku Klux Klan com a ajuda de outro policial – este judeu – depois de um simples telefonema. Autor de um livro publicado em 2014 sobre o tema, Ron Stallworth (interpretado pelo ator John David Washington, filho de Denzel Washington).

O policial Stallworth hoje aos 65 anos, está aposentado e só revelou em uma entrevista em 2006 a um jornal de Salt Lake City o seu trabalho como agente infiltrado e nada mencionou sobre o fato, durante os 20 anos nos quais trabalhou como policial em Utah.

Embora o filme tome algumas liberdades com os fatos, a essência do que ocorreu está lá: Stallworth tem a ideia de infiltrar-se ao ver um anúncio num jornal, sobre um encontro da Klan e resolve telefonar para o número indicado, dizendo que gostaria de participar do encontro contra negros, judeus, mexicanos… Entre as discussões dos outros policiais, que dizem ser impossível telefonar e se passar por um branco, ele consegue marcar um encontro com um dos representantes da Klan local. Mas se a voz e o vocabulário enganam, a cor não tem disfarce. Aí ele resolve recorrer à ajuda de um colega, Flip Zimmerman (interpretado por Adam Driver) que vai aos encontros levando uma escuta. Zimmerman, um judeu que pouco fora educado em sua religião, ao tomar contato com aqueles brucutus da Klan, vai tomando consciência de sua condição.

O tempo todo é realçado o jargão “América em Primeiro Lugar” e sim, Donald Trump está presente tanto em imagens (as cenas finais, mostrando o conflito entre supremacistas brancos e outros manifestantes em 2017 em Charlottesville, Virgínia, que resultou na morte de uma mulher. O presidente é visto com sua famosa declaração de que “havia pessoas más” nos dois lados, frase que passou para a posteridade e foi incluída a ferro e fogo no seu currículo, por opositores.

Também as cenas iniciais, mostrando  uma espécie de jornal cinematográfico, numa excelente participação de Alec Baldwin remetem à postura assumida pelo comando da política atual dos Estados Unidos. Outro participante muito especial é Harry Belafonte, que fala a estudantes negros contando histórias da discriminação racial no país.

Além de mostrar cenas de “E o Vento Levou” (1939) Spike Lee faz menção aos filmes sobre negros da década,  como “Shaft” (1971), “Superfly” (1972) e “Cleopatra Jones” (1973) e outros alguns incluídos na categoria de “blackexploitation”.

O que choca mesmo é mostrar “Nascimento de Uma Nação” (1915) de D.W. Griffith e seu despudorado racismo. É triste saber que os EUA ainda têm um longo caminho à frente na luta contra a discriminação, mesmo depois de terem tido por dois mandatos um presidente negro. Cuja herança Trump vem tentando devastar. É aguardar para ver se terá algum sucesso nisso, além de convulsionar o cenário global e patrocinar a causa do conservadorismo num nível “globalista”, como ele gosta de dizer. E resta a pergunta: será que Margaret Thatcher, a grande musa da globalização era uma comunista disfarçada? Vai saber…


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