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Hollywood tenta lamber as feridas dos americanos com filmes de crítica a Wall Street

Claudia Bozzo “Cair a ficha” é uma expressão muito interessante. Ainda mais quando temos noção de que o fato está acontecendo com a gente, naquele instante, e várias dúvidas tornam-se […]

05/06/16

Claudia Bozzo
“Cair a ficha” é uma expressão muito interessante. Ainda mais quando temos noção de que o fato está acontecendo com a gente, naquele instante, e várias dúvidas tornam-se constatações, de um momento para o outro. Foi o que aconteceu comigo ao ler um artigo do The Wall Street Journal esta semana, no jornal Valor. Gerald F. Selb, ao buscar explicações para o “clima político bizarro” que os Estados Unidos vivem, encontrou as explicações na recessão iniciada em 2007 e na crise financeira de 2008-2009.

Segundo ele, tais acontecimentos “amedrontaram e traumatizaram os eleitores americanos de uma maneira mais profunda e mais permanente do que se constatou antes”. Isso explica uma dúvida que me acompanhava há semanas, depois de assistir a dois filmes sobre essa crise: “A Grande Aposta”(2015), dirigido por Adam McKay, que chegou a receber um Oscar por melhor roteiro adaptado (baseou-se em livro de grande sucesso nos Estados Unidos). O outro, mais recente, junta o “dream team” de qualquer produtor deste planeta: une George Clooney, Julia Roberts e Jodie Foster (esta última dirigindo), em “Jogo do Dinheiro” (2016).

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O trunfo de “A Grande Aposta” é conduzir um elenco que une atores com reputação de engajamento em projetos mais ousados e compromissos artísticos mais consistentes, como Christian Bale, Brad Pitt, Marisa Tomei, com outros mais populares, chegados mesmo a chanchadas, como Steve Carell. Nno tapete vermelho do Oscar, Carell foi entrevistado por um dos famosos âncoras da TV americana, Matt Lauer, que perguntou ao ator se entendia dos assuntos financeiros tratados no filme. Uma “saia justa” contornada com brincadeiras, mas que faz todo sentido para quem viu o filme.

Talvez esse seja o mérito do filme: tratar daqueles temas tão enigmáticos para o cidadão comum, como o subprime, hipotecas, vendas a descoberto e fundos de hedge, dando um jeito de explicá-los, recorrendo a loiras em banho de espuma ou um chef como o conhecido Anthony Bourdain, em termos mais simples. E sempre misturando humor, sem esquecer de umas pitadas de raiva. Não foi nada engraçado o que aconteceu, detectado pelo personagem de Christian Bale, Michael Burry, um gênio rondando o diagnóstico de autismo que enfrenta a ansiedade com rock pesado. Ele analisa o comportamento do mercado e percebe que a bolha imobiliária já deveria ter-se rompido há muito tempo. E investe apostando contra o mercado, algo que leva dois a três anos para surgir.

O personagem de Bale tem clones por perto. Brad Pitt é Ben Rickert, um trader intrigado com as descobertas de dois candidatos a operador do mercado financeiro, além de Steve Carell, que interpreta Mark Baum, diretor de uma pequena equipe de fundos de investimento, revoltado com o caminhar dos negócios, que prega sempre uma conduta mais ética e mostrar ter dramas de consciência. Tá bom, a gente acredita.

Esses personagens vão mostrando como se chegou à trágica situação de 2008-2009, mas sempre apostando e torcendo para estarem certos e faturarem fortunas. O quanto pior melhor é a visão de paraíso deles, lamentavelmente. Inesquecível é a personagem interpretada pela diretora da Comissão de Valores Imobiliários (SEC), que não enxerga um centímetro à sua frente, literalmente, por um problema com os olhos, uma boa metáfora.

Em “Jogo do Dinheiro”, a crise já aconteceu, mas como doença autoimune, a cobiça continua instalada no âmago das aspirações do americano e George Clooney interpreta Lee Gates, uma espécie de guru financeiro, que dá conselhos sobre ações e investimentos em um programa de TV ao vivo. E ele acaba recomendando as ações de um grupo envolvido em atividades pouco transparentes. De novo surge o grande perdedor, na figura de Jack O’Connell (interpretando Kyle Budwell, que perdeu tudo ao investir na sugestão dada por Gates em seu programa).

Ele invade o show, cuja diretora é Julia Roberts (no papel de Patty Fein) e exige que o apresentador explique, para ele, e para os espectadores, o que foi que realmente aconteceu. Começa uma busca frenética pelo dono da empresa cujas ações viraram pó, a Ibis Clear Capital, dirigida por Walt Camby (Dominic West). O filme segue bem a estética norte-americana de suspense, tiros, ameaças de bombas, muita polícia no meio. E dá uma explicação meio fraquinha – além da famosa “foi uma pane dos computadores” – para práticas que são usuais no mercado.

Mas esses dois filmes reforçam fortemente o argumento exposto no artigo do The Wall Street Journal , segundo o qual muitos americanos nunca se recuperaram de tais acontecimentos e talvez nunca se recuperem. E a analogia apresentada pelo cronista Gerald F. Seib é forte: cita um pesquisador do Partido Democrata, Peter Hart, segundo o qual, “o que o país está experimentando é a diferença entre uma batida de carro e ver sua casa pegar fogo; Uma batida é algo que desaparece depois de três ou seis meses. Ver sua casa pegando fogo é algo que jamais se esquece. Fica para sempre e não há meia-vida”.

Esse é o fato, segundo ele, que explica porque tantos fracassaram em prever o que viria à frente na campanha presidencial de 2016 – até o presente momento, indefinida. Segundo Seib, isso explica o poder renitente do Senador Bernie Sanders, as dificuldades de Hillary Clinton. Há tantas opiniões negativas sobre Clinton e o candidato Republicano, Donald Trump, que indicam o desejo dos americanos de deixar para trás um sistema que os trouxe ao pódio.

Dados consistentes, sempre lembrados por Sanders e um de seus grandes defensores, o ex-ministro do Trabalho de Bill Clinton, Robert Reich, indicam que embora há seis anos a economia dê sinais de recuperação, a cada dia mais e mais americanos tomam consciência do grande fosso que existe entre eles e o 1% de mais ricos, uma desigualdade crescente e até assustadora, acelerada pela crise de 2008-2009.

Segundo um estudo do Pew Research Center, no início deste ano, 70% dos americanos estavam insatisfeitos com o estado da economia, índice comparado com os 61% de 2007, no início do que viria a ser a recessão. O artigo de Seib é pessimista. Segundo ele, “as cicatrizes são muito profundas” e dificilmente se poderá esperar “que algum sentimento de satisfação e unidade nacional apareça milagrosamente nos EUA após a eleição presidencial de 2016, não importa o seu resultado.”


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