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“Francês demais”, mas interessante, “O Palácio Francês” diverte

Claudia Bozzo Alguns filmes deveriam vir com “instruções de uso”. Como “O Palácio Francês”, de Bertrand Tavernier, que foi considerado por muitos críticos, de vários países, como “francês demais”. E […]

20/04/14

Claudia Bozzo

Alguns filmes deveriam vir com “instruções de uso”. Como “O Palácio Francês”, de Bertrand Tavernier, que foi considerado por muitos críticos, de vários países, como “francês demais”.

E é. Se alguém vai ao cinema sem conhecimento prévio do conteúdo, ou da situação ao menos, as fichas só começam a cair algum tempo depois de o filme começar. Mesmo porque seu ritmo é o de um turbilhão.

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Mas aos poucos vamos percebendo o mais importante: a época em que se passa a ação. Trata-se de 2002-2003, no período pré-guerra do Iraque, quando o presidente George W. Bush se dedicava a pressionar o Conselho de Segurança da ONU a aceitar sua alegação de que o país possuía armas de destruição de massa e o ataque preventivo era a única forma de resolver o problema. E a questão mais importante, que ninguém responde no Quai D’Orsay, é: vamos apoiar a Alemanha ou não?

Pois França e Alemanha opuseram-se ao ataque. O filme é baseado em uma história em quadrinhos – levadas muito a sério no país de Tintin e Asterix – da qual um dos autores é Antonin Baudry, que durante cinco anos escreveu discursos para o então ministro das Relações Exteriores de Jacques Chirac, Dominique de Villepin. Mostra os preparativos para a apresentação do chanceler francês na ONU. Um ministro, no filme, extremamente preocupado com o crescimento dos “neocons”, os novos conservadores como Bush, seu vice, Dick Cheney, e muitos, muitos, outros do gabinete americano. Palavra que em francês serve a uma ironia, pois “con” é o mesmo que imbecil, idiota.

O ritmo é mesmo dos quadrinhos (em dois volumes), que a direção de arte reproduziu com maestria. E no papel do ministro Alexandre Taillard de Worms, Thierry Lhermitte mostra porque é um dos melhores atores franceses: brilha no papel do charmoso, hiperativo, agitado, acelerado, culto, obsessivo e muitas vezes dispersivo ministro, que mantém sua equipe sempre sobre o fio da navalha.

O filme faz uma incursão na cultura da equipe da diplomacia francesa (pouco diferente de outras) e traz uma outra curiosidade: no papel de conselheira para assuntos relacionados à África, está a atriz Julie Gayet, com a qual o atual presidente François Hollande manteria um relacionamento (semanários de escândalos já falam de um possível afastamento entre os dois), responsável pela separação de Valérie Trierweiler, sua esposa ao ser eleito.

Começa com a chegada do jovem Artur Vlaminck (interpretado por Raphael Personnaz) – cuja indumentária é motivo de risos, pois foge do estilo Saville Row dominante – à equipe da diplomacia francesa, na qual ele ficará encarregado, segundo explica o ministro, de uma das coisas mais importantes: a linguagem!  Isso junto de mantras que ele repete o tempo todo: legitimidade, responsabilidade, unidade e eficiência!

Aceito, ele é levado pelos corredores do Quai D’Orsay (o Itamaraty francês) ao chefe de gabinete, o excelente ator Niels Arestrup, uma ilha de calma naquele redemoinho instável representado pelo ministro.

É a explosiva energia cômica de Lhermitte (ele trabalha em “O Jantar dos Mala” e “O Closet”, por exemplo), seus exuberantes “camarada!” ou seus solilóquios sobre a importância de marcadores (para ele, o que dá valor a um livro é a quantidade de passagens realçadas com marcadores) que dão os efeitos especiais ao filme. Ou citando Heráclito, seu autor predileto ou mesmo Tintin. Suas idas e vindas são notadas pelo bater de portas e papéis voando das mesas, e no final, o filme traz a advertência: “nenhuma das portas do Quai D’Orsay foi danificada durante as filmagens”, um toque a mais de ironia.

Nessa comédia irreverente e inteligente sobre a burocracia e o nonsense dos bastidores do poder pode-se muito bem encontrar pontos de contato com qualquer realidade. Mas o filme continua sendo muito francês. Pode-se dizer que “viaja mal” para o exterior.

O veterano diretor Bertrand Tavernier retratou como poucos o mundo do álcool e drogas em torno de um músico em “Por volta da Meia-noite”, de 1986, que sempre merece ser revisto, com o saxofonista Dexter Gordon no papel principal. Também é dele o comovente “Quando Tudo Começa”, de 1999 mostrando como a crise gerada pelo fim da produção de carvão em uma cidade se reflete nos alunos de uma escola infantil. E “Às Margens de um Crime” de 2009, na Nova Orleãns pós-Katrina com Tommy Lee Jones e John Goodman.


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