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Fino humor, ironia e política no italiano “Viva a Liberdade”

Claudia Bozzo Um bom filme aqui, outro fora de série ali, depois um regular. E então? Será que estamos vendo o renascimento do cinema italiano? Depois do excelente “A Grande […]

27/07/14

Claudia Bozzo

Um bom filme aqui, outro fora de série ali, depois um regular. E então? Será que estamos vendo o renascimento do cinema italiano? Depois do excelente “A Grande Beleza”, temos o fantástico “Que Estranho Chamar-se Federico”, de Ettore Scola e inesperadamente – mesmo porque os mesmos jornais que dedicam páginas e páginas ao grotesco delírio de Abel Ferrara, ao desagradável “Bem-vindo a Nova York”, ignoraram solenemente este interessante filme político – “Viva a Liberdade”. É baseado no romance “O Trono Vazio”, de Roberto Andó, dirigido pelo próprio.

Não foi certamente por falta de estrelas, pois o filme tem pelo menos duas, de primeira grandeza. Toni Servillo, perfeito em “A Grande Beleza” e Valeria Bruni Tedeschi, atriz e diretora, que vimos em “As Atrizes” , “Um Bom Ano” de Ridley Scott, e em filmes de Nanni Moretti.

E tem mais: é um filme político, gênero que italianos dominaram por décadas e tomara estejam voltando ao tema, trazendo companhia à resistência de Quixotes como Moretti.

Captura de Tela 2014-07-27 às 12.34.33

Trata-se da “fuga”do secretário-geral de um partido de oposição, Enrico Oliveri, interpretado por Servillo, que parece ter perdido o rumo, o interesse e a ‘manha’, o que fica muito claro pelo seu ar de tédio e pelo choque ao ser confrontado, durante uma reunião importante do partido, por uma das presentes, que contesta sua postura e suas declarações.

Simplesmente faz as malas e se manda para Paris, em busca do abrigo da amiga e antiga namorada, no caso Danielle (Valeria Bruni-Tedeschi), que está casada com um importante diretor de cinema e tem uma filha, além de trabalhar no meio. Seu desaparecimento gera problemas ao assessor Andrea, interpretado por Valerio Mastandrea, que não sabe mais que desculpas inventar para os companheiros do partido e decide procurá-lo em toda parte. Lembra-se de um irmão, internado em um hospital psiquiátrico e não hesita.

Seu susto ao se deparar com o gêmeo idêntico de Enrico, Giovanni, só vai passando quando os dois começam a conversar e ele percebe que além de receber uma carta do hospital, dando-o como curado, o irmão é articulado, tem senso de humor e dá um nó nos jornalistas que o cercam, confundindo-o com o irmão. Ele é um pensador original, que se tratou de uma depressão por ser bipolar. A partir daí se cria um afresco sobre a Itália de hoje, uma fábula filosófica sobre a política e os mistérios da vida. Giovanni assume o papel do irmão, inclusive com a concordância da esposa de Enrico, Anna (Michela Cescon).

Servillo brilha, pois na tela vemos duas pessoas. Sua postura, o modo de falar, o olhar – antes vazio, agora resplandecente – denunciam o excepcional ator que interpreta o gêmeo com perfeição.

Do tédio anterior, o filme segue em uma espiral de renascimento, conduzido pela sadia e sábia “loucura” de Giovanni, que a todos seduz com sua retórica. E com a reação nas pesquisas de opinião pública. Interessante que durante uma das reuniões, o que se vê ao fundo do personagem Giovanni é uma foto de Enrico Berlinger, o ex-secretário geral do Partido Comunista Italiano, morto há 30 anos (em junho de 1984).

Certamente o dono do “trono vazio” do qual fala o livro do diretor Roberto Andó, que também assina o roteiro desse filme, de 2013. Andó, que alterna sua atividade cinematográfica com direção em teatro e na ópera, trabalhou com cineastas de primeira linha, como Francesco Rosi (que considera seu mestre) além de Giacomo Battiato, Federico Fellini (“E la nave va”), Michael Cimino (“O Siciliano”), Francis Ford Coppola (“O Poderoso Chefão”, parte III). E teve como mentor, na literatura, Leonardo Sciascia que o incentivou a escrever, introduzindo-o, muito jovem, como colaborador para jornais.

Como se vê, é muito “sangue azul” reunido em um filme para se desperdiçar. É um retorno aos filmes com diálogos inteligentes, atores comprometidos, despejando fino humor e ironia para falar de um tema dos mais difíceis: a política italiana de hoje.


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