X

Fábricas brasileiras estão mesmo fechando?

Apesar de parecer surpresa de  manhã de sexta-feira, o Banco Central avisou hoje, a quem interessar possa, que não estava dormindo e muito menos tinha “abandonado o ringue”: vai conter […]

por Leonardo Trevisan
03/12/10

Apesar de parecer surpresa de  manhã de sexta-feira, o Banco Central avisou hoje, a quem interessar possa, que não estava dormindo e muito menos tinha “abandonado o ringue”: vai conter o crédito. E o sr. Meirelles aproveitou para lembrar que reunião do Copom existe também para subir a taxa básica de juros.

É interessante como essa “ressurreição” do ator BC ocorreu depois que certos dados e certos debates na economia brasileira começavam a ganhar corpo . Talvez, o maior deles em torno dos dados da balança comercial.

Era a palavra “desindustrialização”, que como quem não quer nada, voltava ao vocabulário predileto da mídia. Um movimento curioso, para dizer o mínimo.

Primeiro, convém falar,  para quem não é do ramo, que desindustrialização, quer dizer que o Brasil estaria fabricando menos produtos, que exigem investimento em uma fábrica e geram bons empregos,  por diversas razões, a maioria ligada ao comércio externo.

Nesse argumento aparecia a conversa de que o País exportava menos produtos industrializados e mais produtos primários – agrícolas e minérios. Ao mesmo tempo em que as importações inundavam as prateleiras dos supermercados, matando as “nossas fábricas”.

Nesse ponto, a conversa virava para questão cambial e, pronto, começava o pranto de que o dólar está muito barato e com isso o País não consegue exportar.

Os dados, porém, teimavam em não confirmar bem toda essa história de desindustrialização. Ontem, a Secretaria de Comércio Exterior divulgou que as exportações brasileiras, em 2010, devem ultrapassar os US$ 198 bilhões. Isto quer dizer: serão iguais ou maiores do que o total vendido para fora em 2008. Nesse ano, nos dez meses anteriores à crise do subprime, o mundo estava comprador e o Brasil vendeu muito.

É fato que há movimentos na pauta de exportações brasileira. Porém,  tanto em volume, como em preços, as exportações aumentaram em 2010. Por exemplo, em novembro, foram 69% maiores do que no mesmo mês de 2009.

Decomposto esse dado, se pode ver que o aumento das exportações no mês passado foi bem diferenciado . Por exemplo: seminufaturados (óleo de soja) avançou 45% em relação a novembro do ano passado e os manufaturados só 18%.

Pronto, está aqui a prova da desindustrialização, principalmente porque as importações avançaram 43% em novembro de 2010 em relação a novembro de 2009.

Antes de mais nada convém saber que em novembro  ocorrem as importações de Natal, que corresponderam neste ano a 53% do total; são bens duráveis, típicos das vendas da época.

Depois é preciso prestar mais atenção nas condições reais do comércio internacional. É tão estranho, mas certos dados referentes a comércio exterior não ganham as manchetes.

Quando a Organização Mundial do Comércio (OMC) divulgou que o Brasil era o campeão mundial das importações, nos dez primeiros meses de 2010, foi uma inundação de críticas. Pois bem, ontem a OMC também divulgou que o Brasil, no mesmo período, também é o lider de alta nas exportações no mundo, em valor, dólar corrente, superando a expansão chinesa. Entre 70 países, donos de 90% do comércio mundial, entre janeiro e outubro, o Brasil avançou 33% em suas exportações , enquanto a China cresceu 32%. ´

É verdade que a alta de 15% no preço das commodities é uma explicação. Porém, as exportações mundiais cresceram muito pouco nesse período: por exemplo, apenas 3% entre o segundo e o terceiro trimestre.

Isto quer dizer que as exportações brasileiras avançaram dez vezes mais que o crescimento médio das exportações globais. Ou seja, o Brasil vendeu muito, mesmo quando os países ricos estavam bem encalacrados na crise.

De modo geral, essa notícia não apareceu na mídia Apenas o Valor Econômico a registrou e na página A6.

O que essa, digamos, desatenção revela é uma certa vontade de não destacar que importações cresceram no Brasil, mas exportações cresceram também, apesar de todas as difíceis condições do comércio externo.

Esconder dados não é bem o melhor meio de fazer um debate sobre tema tão relevante como desindustrialização.

Os que não são do ramo entendem que, quando se desindustrializa um país, lá se vão, seus melhores empregos, sua capacidade de investimentos com melhor expectativa de futuro .

Os dados da OMC não sugerem que o drama de desindustrialização brasileira tem toda essa gravidade, proposta por tanto espaço que o tema obteve na mídia.

Aliás, país que se desindustrializa perde produção e geralmente desinflaciona. A preocupação de hoje de manhã do Banco Central vai em outra direção. A inflação bate à porta e o BC já percebeu.


Todos os direitos reservados, 2019.