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“Euforia”, um ótimo filme italiano que merece ser visto no cinema

Sim, ir ao cinema está cada dia mais complicado. Para começar o preço elevado dos ingressos que afasta as pessoas. Sem contar o preço do estacionamento. Em segundo lugar, o […]

28/10/19

Sim, ir ao cinema está cada dia mais complicado. Para começar o preço elevado dos ingressos que afasta as pessoas. Sem contar o preço do estacionamento. Em segundo lugar, o público. As pessoas só estão deixando de levar o controle remoto ao cinema. Mesmo porque, felizmente, não adiantaria nada. Mas cada vez se conversa mais no cinema, como se estivesse na própria sala de casa. A pipoca é digerida cada vez com mais ruído (será que precisa sacudir tanto o saquinho de pipoca?) E essa história de que a poltrona do vizinho é território do vizinho, “já era, ponho o pé onde quiser…”

Mas continua sendo irresistível entregar-se a uma história bem contada e a imagens inesquecíveis, naquele território que os mais antigos, como eu, por exemplo, sempre consideramos mítico, mágico.

Alguns filmes funcionam melhor nesse ambiente. É exatamente o caso de “Euforia”, o belo filme italiano dirigido pela também atriz Valéria Golino (ela atuou em “Caos Calmo” (2008), de Nanni Moretti, em “36” (2004), policial do francês Olivier Marchal, ao lado de Daniel Auteuil e Gerard Depardieu e no momento ela tem vários filmes em fase de pós-produção. Além dos muitos filmes no qual atuou, também dirigiu quatro, um dos quais chega agora ao Brasil, “Euforia” (2019), com os ótimos atores Riccardo Scamarcio (Matteo) e Valerio Mastandrea (Ettore).

Ambos já conhecidos do público paulistano. Scamarcio fez entre outros, o ótimo “O primeiro que Disse” (2010) e o inesquecível “Meu Irmão é Filho Único” (2007). Mastrandea está em “Perfeitos Desconhecidos” (2016), caso raro de um filme italiano que os franceses adaptaram, e está na Netflix como “Nada a Esconder” (2018).

Neste “Euforia”, um belo retrato do cinema italiano contemporâneo, eles interpretam dois irmãos que há muito distantes, reencontram-se em função da doença de Ettore. Ele tem um câncer no cérebro e Matteo vai buscá-lo na cidade onde mora com a mulher e filho, para levá-lo a Roma, onde terá acesso aos melhores médicos. Matteo é muito bem-sucedido, trabalha em uma empresa de relações públicas e eventos e apesar da distância física e de relacionamento, ambos fazem um grande esforço para se reencontrar e retomar os laços de amor e amizade que sempre os uniram.

Ettore, professor em sua cidade, de início fica meio constrangido com o elevado padrão de vida de seu irmão, mas aos poucos eles reencontram o elo que os unia. Mesmo assim, Matteo continua ocultando dele e da família sua verdadeira situação de saúde. E aos poucos vamos vendo a razão de o filme se chamar “Euforia”. É uma alusão ao estado de espírito de Matteo, que assombrado pelos seus demônios internos, recorre a todo tipo de estímulo para não se deixar desanimar, ou entrar em contato com a realidade ou melhor, sua tristeza mais íntima.

O tratamento aproxima os irmãos e revela a Matteo suas próprias dificuldades, por mais resolvido que ele possa parecer. Scamarcio recebeu um David di Donatello (o Oscar italiano) pela sua interpretação como Matteo.

E apesar de tudo que foi dito acima – sobre ir ao cinema – a direção de fotografia também faz com que valha a pena ver “Euforia” in loco. Mostrando maturidade tanto no roteiro como na direção de atores, Valéria Golino tem a valiosa colaboração de Gergely Pohárnok na fotografia e do compositor Nicola Tescari. Isso resulta em um filme belíssimo, com cenas memoráveis e tomadas que são verdadeiras obras de arte. Só numa telona dá para desfrutar de tudo isso, envolto pela sala às escuras, de preferência sem gente falando ao lado.

Esse filme e a atividade recente dos atores e diretora mostram que o cinema italiano está vigoroso, moderno, atual, sensível e como sempre, com histórias muito bem contadas. Elogio que poucos outros centros cinematográficos merecem.


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