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Ettore Scola filma suas lembranças de Fellini. E emociona

Claudia Bozzo Num tempo em que a política tinha lá sua graça e mesmo um folclore bem-humorado, contava-se a famosa saída do político mineiro que, chegando a uma cidade pergunta […]

08/06/14

Claudia Bozzo

Num tempo em que a política tinha lá sua graça e mesmo um folclore bem-humorado, contava-se a famosa saída do político mineiro que, chegando a uma cidade pergunta ao filho de importante político local:

“Como vai seu pai?”

“Ele morreu, o senhor não sabia?”

“Morreu para você, filho ingrato.”

O filme-documentário de Ettore Scola, sobre Federico Fellini, “Que Estranho Chamar-se Federico” circunda essa ideia, reforçada pelo velório do “Maestro”, no Estúdio 5 de Cinecittá, onde ele rodou seus filmes. É um dos mais belos momentos dessa nova obra de arte do também mestre Scola, sobre o gênio dos gênios, já exibida na Mostra de Cinema e que emocionou a plateia em Cannes em 2013.

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Fellini, que entre seus fãs tem até mesmo o papa Francisco, está mais vivo que nunca. E o grande amigo, Ettore Scola, aos 83 anos, lembra-se dele de uma forma tão mágica quanto os filmes do gênio que nos deixou, como diretor ou roteirista, “Roma Cidade Aberta”(roteiro, 1945), “La Dolce Vita” (1960), “Amarcord” (1973), “A Estrada da Vida” (1954), “E La Nave Va” (1983)“Os Boas Vidas”(1953) “Roma de Fellini” (1972), “Ensaio de Orquestra”(1978), “81/2” (1963) . “Ginger e Fred” (1986) e tantos, tantos outros. Cada um tem seu favorito.

O que move Scola, o amigo de longa data – e parceiro – em suas lembranças segue entre o imaginado e a emoção. Isso num clima de fantasia descarada, a qual tanto servia a Fellini.

É bom ir preparado: o filme vai tocar em pontos sensíveis da sua história pessoal, das suas próprias lembranças e emoções. É com cada um de nós que Scola está falando. Nós que os amamos tanto. Entre as cenas de filmes apresentadas, há a participação de Fellini, como Fellini, dirigindo Marcello Mastroianni e Anita Eckberg na famosa cena da Fontana di Trevi, em “La Dolce Vita”. No caso, ele participa de outra das obras-primas do cinema italiano, “Nós que nos Amávamos Tanto”, rodado em 1974 por Scola.

Eles se conheceram na década de 1940, numa Itália ainda dominada pelo fascismo, trabalharam juntos em um jornal e juntos passeavam por Roma, à noite, conversando com amigos, prostitutas, artistas de rua. O “Amarcord” (em italiano ‘eu me lembro’) de Scola sobre o amigo e aqueles tempos, retoma esses passeios noturnos. Quando, por exemplo, eles dão carona a uma prostituta e ela lhes conta uma história acontecida com ela – do casal que pagou, apenas para saber qual a sensação de “far l’amore” na cama de uma prostituta, na mesma hora nos vem a lembrança de Marcello Mastroiani e Anouk Aimeé em “A Doce Vida”.

Outro desses passeios inclui um artista de rua, no caso o excelente Sergio Rubini, e o diálogo entre os três – sim Scola era um dos parceiros frequentes dessas excursões pela vida romana – sobre arte, é de uma sensibilidade e inteligência raramente vistos hoje em dia. Sentir que eles tratavam o espectador como um ser que pensa não faz nada mal. É revigorante. E explica por que esses mestres são reverenciados até hoje. Quem diria, já são 20 anos sem Fellini, que morreu aos 73 anos. Mas cujas pegadas pela arte vemos ainda hoje, seja no ótimo “A Grande Beleza”, de Paolo Sorrentino, que faz descaradas homenagens aos dois mestres, Scola e Fellini.

O filme de Scola resgata imagens de Alberto Sordi, Ugo Tognazzi, Marcello Mastroiani, Vittorio Gassman, Sophia Loren, Anna Magnani. Uma emoção depois da outra. Ele faz a seleção de atores para Casanova – e os deixa extremamente desconfortáveis, como era de seu costume. O maestro muitas vezes fazia os atores recitarem números, ou falaram o que quer que lhes vinha à cabeça, para depois dublá-los.  No caso de Casanova, acabou optando por Donald Sutherland, e coube a Scola filmar Mastroianni nesse papel em “A noite de Varennes”.

Os dois amigos que formavam um trio com Mastroiani conversam à beira do mar – um mar tão improvável quanto o de “La Nave Va” e em uma dessas conversas surge a mamma de Marcello, e pergunta a Scola por que ele deixa seu filho tão feio, enquanto Fellini o retrata belo como é?

Sorte que existe o DVD e a internet. Podemos ver cada um desses filmes a qualquer hora, em qualquer situação. Embora o bom mesmo seja uma sala de cinema, com pessoas que assistam ao filme, em vez de conversar entre si.

O Cinemark está com uma promoção interessante, e que deveria render uma ideia aos outros exibidores. Está reprisando, até julho, filmes como “Laranja Mecânica”,  “Pulp Fiction”, “Taxi Driver” , “Bonequinha de Luxo”. E promete a seguir até “Lawrence da Arábia”. A telona muda tudo e deixa os filmes em seu ambiente natural. Pois bem, a volta do Belas Artes está sendo anunciada para breve. Que tal deixar uma sala para Fellini, Scola, Resnais, Truffaut, e tudo mais que já vem com os gênios da sétima arte? Os verdadeiros pais do cinema de qualidade. Como esse Fellini que Scola nos traz com tanto amor?


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