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Estão apostando demais em Davos

Klaus Kleber Para buscar investimentos, o presidente Jair Bolsonaro, o ministro da Economia Paulo Guedes e o ministro da Justiça Sério Moro e um punhado de assessores vão enfrentar o […]

21/01/19

Klaus Kleber

Para buscar investimentos, o presidente Jair Bolsonaro, o ministro da Economia Paulo Guedes e o ministro da Justiça Sério Moro e um punhado de assessores vão enfrentar o frio de Davos, na Suíça, onde devem ficar mais tempo que o normal.

O papo das autoridades brasileiras na cidade será a disposição de levar adiante a tão falada reforma da previdência, fazer outras reformas que torne o País “mais amigável” para investidores externos, abrir o mercado para mais importações e, como não podia deixar e ser, prometer um combate sem tréguas à corrupção (para isso é que Moro foi integrado à comitiva).   

Bolsonaro e sua turma terão sucesso? A Bolsa vem subindo, mas não é por causa de aplicações do exterior, que, em grande volume, bateram asas do Brasil em 2018. Segundo as últimas informações, os investimentos diretos estrangeiros (IED) em 2018 (até novembro) não passaram de US$ 58,4 bilhões até novembro, 9% a menos que em 2017. 

Os IED não fizeram falta para o balanço de pagamentos, que, graças ao saldo da balança comercial, permitiu que o déficit em conta corrente ficasse em US$ 795 milhões em novembro, bem abaixo da expectativa do Banco Central (BC), que era de US$ 1,7 bilhão para o mês. Isso, sem falar nas reservas que estão na casa dos US$ 380 bilhões.

Quer dizer, o Brasil não está precisando de dinheiro externo para saldar seus compromissos no exterior. Precisa dessa grana para promover as privatizações ou aumento do capital de estatais — para fazer caixa, enfim. Os dólares que virão dessas operações serão convertidos em reais  servirão para abater a dívida pública interna, que o ministro Guedes prometeu zerar em um ano.

Ninguém acredita nessa promessa, mas, em geral, a expectativa é de que o governo brasileiro, que tenta projetar uma imagem de democracia liberal, será capaz de trazer  investimentos de vulto, se não no primeiro semestre, mas mais adiante.

Uma chuva de dólares pode ser controlada, mas, se houver, uma tromba d’água, com raios e trovões, a coisa pode complicar. Isso porque com uma enchente de dólares o real, ainda da casa dos R$ 3,70 por dólar em que está atualmente, pode cair para R$ 3,20 ou até menos.

Isso atrapalhará as exportações, principalmente se os preços das commodities agrícolas baixarem muito. O saldo da conta de comércio será diretamente afetado, tanto mais considerando que o governo tem intenção de baixar tarifas de importação.

Esse exercício de futurologia pode ser falho, mas a coisa pode se complicar para o agronegócio e para os empresários industriais em futuro próximo.

De qualquer forma, Davos não deve passar de um teste e é arriscado apostar demais no que virá do encontro do novo governo com o grande capital.


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