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“Estado Zero” mostra drama de refugiados na Austrália

Claudia Bozzo  Onde há um refugiado, o preconceito e a intolerância encontram o clima ideal para proliferar, como musgo em terra úmida. E não são poucos. Calcula-se que mais de […]

29/07/20

Claudia Bozzo 

Onde há um refugiado, o preconceito e a intolerância encontram o clima ideal para proliferar, como musgo em terra úmida. E não são poucos. Calcula-se que mais de setenta milhões de pessoas estejam nessa situação pelo mundo. Esse é o tema da série “Estado Zero” (“Stateless”, da Netflix) que por uma questão de dias, escapou da pandemia e da impossibilidade de se gerar legendagem ou dublagem, como a que se abateu, sobre outras séries como “Billions”, “Expresso do Amanhã”, “Line of Duty” e a tão aguardada “Peaky Blinders”. As duas últimas sequer entraram em linha de produção, por causa das exigências de lockdown.

Em muitos desses casos a Netflix apresenta as atrações com o aviso de que não deu para trazer a dublagem. Explica-se: a legendagem pode ser feita em home office, enquanto a fase de dublagem exige estúdios de gravação e portanto, a mobilidade do dublador.

Então, é bom aproveitar a chegada de “Estado Zero”, uma história adulta, séria, comprometida e acima de tudo, muito interessante.

A produção, inspirada na história real de uma comissária de bordo, a australiana Cornelia Rau (Sofie), centra-se nas desventuras de um grupo de  pessoas que acabam detidas em um centro mantido pelo governo australiano, que como muitos outros governos, não tem uma política de asilo para migrantes que chegam em barcos à procura de uma vida mais segura, decente e com trabalho. O mesmo drama mostrado, por exemplo, no documentário italiano “Fogo no Mar” sobre fugitivos africanos que vão parar em Lampedusa, sul da Itália.

O governo australiano, como muitos outros, possui uma legislação que determina o envio dos refugiados e indocumentados para campos de detenção. Esse que é mostrado no seriado, produzido graças à dedicação de Cate Blanchet, há anos empenhada em realizá-lo é ficcional. Mas não irreal.

A comissária Sofie Werner, interpretada por Yvonne Strahovsk, é alemã, mas chegou à Austrália com apenas 18 meses, portanto com nacionalidade australiana. De mal entendido em mal entendido ela acaba sendo incorporada ao grupo de detidos que inclui uma família afegã, vítima das quadrilhas que exploram refugiados, seja na distante Austrália ou na fronteira mexicana, mais próxima de nós. E é exatamente a denúncia sobre sua prisão que desata uma série de acontecimentos.

A série mostra em seis episódios, de forma realística, o emaranhado legal que envolve os detidos jogados em um verdadeiro limbo jurídico e separa as famílias, algo que o dia a dia traz para os jornais e que o cinema tem mostrado com tanto realismo.

A história inclui um estranho culto, disfarçado em uma entidade de autoajuda, da qual participam Cate Blanchett e Dominic West. Episódio que ajuda a mostrar o estado mental da confusa Sofie. Sem grandes concessões ao espectador, a trama se revela um emaranhado de difícil mapeamento, mas aos poucos vamos chegando às razões. Mesmo porque a personagem principal, não se explica nem pede ajuda.

Em uma entrevista, Cate Blanchett explicou em entrevista durante  a Berlinale que a obra é mais do que uma história australiana, “é algo que ressoa globalmente”, além de mostrar a detenção sem prazo que aflige os refugiados, pessoas que “acabam achando serem invisíveis”  também por conta da “falta de humanidade com a qual são tratados”. Segundo a atriz, “se nós damos as costas às pessoas que buscam ajuda, nós nos afastamos de nossa própria humanidade”. Ela lutou durante sete anos para levar a história às telas.

O roteiro vai atando os nós e revelando aos poucos a trama toda, com personagens muito bem delineados, como o guarda de prisão Cam Sandford, interpretado por Jai Courtney, trabalho que rende a ele o salário necessário para melhorar a vida de sua família, mas que lhe traz um grande custo no plano emocional. E Cam tem uma irmã ativista na defesa de direitos humanos, agravando suas dúvidas e princípios morais sobre a atividade.

Mais uma contribuição preciosa da Netflix, a grande companheira de muita gente no mundo todo durante essa época de isolamento, com sua determinação em privilegiar os conteúdos de qualidade e abrindo para nós territórios antes desconhecidos, como as produções nórdicas, as boas séries inglesas, produções da América Latina e documentários fascinantes. Que sorte existir uma Netflix.


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