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Em tom discreto, “Dois Dias, Uma Noite” fascina pelo brilho de Marion Cotillard

Claudia Bozzo Está demorando muito para entrar em cartaz o novo e comovente filme dos irmãos Dardenne, “Dois Dias, Uma Noite”, embora vários cinemas já exibam seus cartazes e ele […]

01/02/15

Claudia Bozzo

Está demorando muito para entrar em cartaz o novo e comovente filme dos irmãos Dardenne, “Dois Dias, Uma Noite”, embora vários cinemas já exibam seus cartazes e ele tenha entrado na fase de pré-estreia, mas só no Reserva Cultural. Mas não dá para se queixar muito, afinal, existem ótimas opções pela cidade, tais como “Birdman”, “O Jogo da Imitação” (em horários limitados, e também como pré estreia), “Whiplash”, “Relatos Selvagens”, “Leviatã”, “A Teoria de Tudo”, “Timbuktu”, “Grande Hotel Budapeste”, “Boyhood”, “Acima das Nuvens” e alguns outros. Todos brigando por espaço nas salas, entre tantos blockbusters.“

Dois Dias, Uma Noite”, com Marion Cotillard é uma história de superação. Mas com o estilo Dardenne, ou seja, sem lantejoulas, ‘standing ovations’ e fogos de artifício ou a quase obrigatória recompensa imediata de filmes que entram nessa categoria. Pelo menos na linguagem de Hollywood, como por exemplo na personagem de  Julia Roberts em “Erin Brockovich: Uma Mulher de Talento” (2000), filme de Steven Soderbergh, com grandes méritos, claro. A comparação vale para se ressaltar que o estilo Dardenne é bem “less is more”.

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Cotillard, indicada para o Oscar pelo papel – ela que já levou um, por “Piaf, Um Hino ao Amor”, de 2008 (além do Bafta, César, Globo de Ouro e outros), interpreta Sandra, funcionária de uma fábrica de painéis solares, que depois de um afastamento, por enfrentar uma depressão, fica sabendo que será demitida. Isso para que seus outros companheiros de fábrica mantenham o abono de final de ano. A empresa quer cortar custos e é a cabeça dela que vai rolar. A decisão foi tomada em uma votação da qual participaram seus colegas de trabalho, que não querem ou não podem abrir mão do bônus, para que ela mantenha o emprego.

Mal saída dos problemas que a levaram à licença no trabalho, ela tem dois dias e uma noite para tentar reverter aquela decisão, e com a ajuda do marido e de amigos, vai conversar com os companheiros, um a um, pedindo a eles que participem de uma nova votação. No início, muito relutante, sabendo o quanto custa para cada um dos companheiros abrir mão do bônus aguardado o ano todo, trava diálogos tocantes, mas não apelativos.

Os belgas Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne são também os autores do roteiro e mestres no domínio da técnica e arte cinematográfica (são deles os excelentes “O Garoto de Bicicleta” (2011), “O Silêncio de Lorna” (2000), “A Criança” (2005), “O Filho” (2002). Sem contar os filmes de primeira linha que produziram, entre eles “O Exercício do Poder” (2011) e dezenas de outros do mesmo nível.

Pois a operária Sandra, no diálogo com seus muitos companheiros de fábrica vai reencontrando sua própria força. Sua volta à vida real, sem o uso de tranquilizantes ou qualquer tipo de muletas, fazem dela uma personagem verdadeira, concreta, real. É uma mulher igual a tantas outras que conhecemos no dia a dia, não uma espécie de super-heroína. E Marion Cotillard brilha com seu olhar tristonho, desanimado e desamparado, que aos poucos fai encontrando um ponto de luz, um foco para mobilizar-se internamente. É um filme sobre solidariedade, companheirismo e compreensão. Não como se poderia imaginar pelo drama envolvido – trocar um abono pela manutenção de uma companheira no trabalho. O grande mérito do roteiro é evitar julgamentos apressados ou de cunho moral. A generosidade e solidariedade dos autores do roteiro se sobrepõem a questões mesquinhas. Um filme emocionante.

Marion Cotillard, que acaba de interpretar Lady Macbeth em “Macbeth”, de Justin Kurzel, filme ainda em fase de pós-produção, tem uma interpretação comovente, sensível e digna de grandes atrizes. Algo que ela é, sem dúvida.


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