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Em “Spotlight”, uma história real e emocionante

Claudia Bozzo “Spotlight – Segredos Revelados” é um ótimo filme sobre uma história real, apurada por um grupo de jornalistas investigativos e chega num momento em que a imprensa passa […]

10/01/16

Claudia Bozzo
“Spotlight – Segredos Revelados” é um ótimo filme sobre uma história real, apurada por um grupo de jornalistas investigativos e chega num momento em que a imprensa passa por difíceis situações. A publicidade migra para fontes de informação mais “leves” e a notícia vai sendo deixada em segundo plano, pelas “opiniões” rápidas, sem fundamentação e sem apuração, das chamadas “redes sociais”. Como disse o visionário Marshall McLuhan. “o meio é a mensagem”.

O filme mostra a verdadeira história do acobertamento dos abusos de padres da igreja católica de Boston – que depois se espalha para o resto dos Estados Unidos e pelo mundo – contra crianças. O fato foi levantado pelo jornal Boston Globe em 2002, que conquistou o maior prêmio do jornalismo norte-americano, o Pulitzer.

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E não é uma história de heroísmo ou aventura ou lances rocambolescos. Passa-se na maior parte do tempo na redação, em escritórios de advogados, nos empoeirados arquivos municipais ou no banco de dados do jornal, no trabalho de formiguinhas que cruzam informações de recortes de jornais, com entrevistas, ouvindo vítimas, advogados, autoridades e até mesmo representantes do clero.

Tudo é checado e o trabalho leva mais de um ano. Começa com a chegada de um novo editor chefe, Marty Baron, interpretado por Liev Schreiber, que chega de Miami (hoje Baron é editor do The Washington Post). Ele ficou no Boston Globe de 2001 até 2012. E na primeira reunião com todos os editores ele vem com a incômoda pergunta: se o jornal já noticiou o fato de haver padres que abusaram de crianças, por que a história não foi levada adiante?

A partir daí, mobiliza-se a editoria de Spotlight, encarregada de matérias de jornalismo investigativo, chefiada por Walter “Robby” Robinson, interpretado pelo excelente Michael Keaton e integrada pelos Michael Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Adams (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian d’Arcy James). Uma equipe afinada, dedicada e persistente.

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O diretor, Tom McCarthy é o mesmo de “O Visitante” (2007), e também é ator, com extenso trabalho em cinema e em TV. Um dos fatos interessantes a seu respeito é que na melhor das séries já apresentadas pela TV norte-americana, “The Wire” (“A Escuta”, 2008), ele interpreta, na quinta e última temporada um ambicioso jornalista de Baltimore que cria duvidosos atalhos para conquistar seu espaço na primeira página, sem grandes escrúpulos, e torna-se vítima da sagacidade de um dos policiais.

Pois integridade é o que não falta à equipe de “Spotlight”, que executa um trabalho criterioso, bem pesquisado. Entre os destaques na redação está o editor Ben Bradlee Jr., interpretado por John Slattery (de “Mad Men”) que é nada mais, nada menos, que o filho do famoso Ben Bradlee, editor executivo doThe Washington Post de 1968 a 1991, responsável por dar luz verde aos jornalistas que revelaram os famosos Papéis do Pentágono, denúncia que resultou na renúncia de Richard Nixon.

Michael Keaton, que já interpretou um frenético editor de cidades em “O Jornal”, filme de 1994 dirigido por Ron Howard, adota um tom bastante discreto como editor da seção Spotlight, mas nem por isso menos incisivo. Tem um importante diálogo com o procurador geral, ao afirmar, incisivo. “Temos duas histórias aqui: a de um clero degenerado e de um grupo de advogados transformando o abuso de crianças em um lucrativo negócio. Qual delas você prefere que nós publiquemos?”

Outro dos bons atores presentes é o sempre correto Stanley Tucci, no papel de Mitchell Garabedian, um advogado de várias das vítimas de abuso, que dá várias dicas aos repórteres. Em conversa com o jornalista interpretado por Mark Ruffalo, ele pergunta se o novo editor do jornal, Baron, é judeu e em seguida comenta: “É, eu sou armênio, e precisava ser alguém de fora de Boston” para enfrentar o establishment. Mesmo porque a longa história de abusos só se manteve e ficou fora de qualquer punição pelo acobertamento do clero, unido à elite local.

A história vai crescendo e de 13 suspeitos iniciais, chega-se a um número quase inacreditável. O trabalho só é interrompido porque em 11 de setembro há o ataque às Torres Gêmeas em Nova York. Mas assim que a justiça dá ganho de causa à petição do jornal, de tornar públicas as primeiras denúncias (que estavam sob segredo de justiça) o caso deslancha. Na época, o pedido era encarado por todas as pessoas: “O que, vocês vão processar a Igreja Católica?”. Não, não era um processo contra a igreja, mas era difícil estabelecer a diferença.

Pois o jornal fez a diferença. Publicou a reportagem num domingo e esta entrou para a história como um dos grandes feitos do jornalismo. Uma história exemplar. Mas de dias que estão acabando, pois o clima anda rarefeito para esse tipo de fôlego enquanto não se encontra uma saída para as boas façanhas do jornalismo. De qualquer forma, um dos grandes filmes do ano, sem qualquer dúvida.


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