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Em busca de uma diplomacia de resultados

Klaus Kleber A política externa a ser posta em prática pelo governo Temer, conduzida pelo seu ambicioso chanceler José Serra, não será “apartidária”, com ele disse em seu discurso de […]

23/05/16

Klaus Kleber
A política externa a ser posta em prática pelo governo Temer, conduzida pelo seu ambicioso chanceler José Serra, não será “apartidária”, com ele disse em seu discurso de posse. Nem representará “uma “guinada à direita”, como a classificou o ex-chanceler Celso Amorim. Será sobretudo uma diplomacia de resultados. Será muito difícil que, em pouco mais de dois anos e meio, Serra consiga obter alguns êxitos que consagrem sua gestão e o credenciem a ser candidato à Presidência nas eleições de 2018, mas é o que ele vai tentar.

Já nesta semana, como se anuncia, Serra embarca para a Argentina e seu objetivo é claro. Como o governo Mauricio Macri já manifestou o desejo de obter um acordo de livre comércio om a União Europeia (UE), o ministro vai lhe dizer que o Brasil está disposto a formar uma frente única com o país vizinho para chegar a esse entendimento o mais cedo possível. Dando de barato que Uruguai e Paraguai também aderirão à iniciativa, ela iria em frente mesmo sem consultar a Venezuela, que tenderia a ficar cada vez mais isolada dentro do bloco.

Há problemas, é claro. Para o Brasil, que vem obtendo gordos saldos na balança comercial e que dispõe de reservas internacionais de US$ 374 bilhões, não haverá problemas em negociar com os europeus a rebaixa de tarifas de certos produtos. Para a Argentina, a situação é mais delicada. Suas reservas eram estimadas em US$ 30 bilhões em janeiro antes do acordo feito no fim de fevereiro com os seus renitentes credores, antes chamados de abutres, o que exigirá consideráveis aportes de recursos. A balança comercial não vai tão bem, mas pode ser que, com a mudança da imagem do país no exterior, haja maior entrada de investimentos estrangeiros, compensando as saídas de capital.

Mas, enfim, é um primeiro passo., Se Serra conseguir, pelo menos, que haja uma diminuição das barreiras no comércio bilateral entre Brasil e Argentina já será um avanço importante. O Brasil pode fazer mais concessões, nas importações de trigo, por exemplo, para que o governo de Buenos Aires se engaje com mais entusiasmo no esforço de realizar um acordo com a UE.

Esse é apenas um aspecto. Adepto da bilateralidade, Serra vai buscar, como declarou, um acordo com o Irã. E vai trabalhar para uma aproximação com os países latino-americanos da Aliança do Pacífico (Chile, Peru e Colômbia). Com os EUA, a situação parece difícil. Mesmo se Hillary Clinton for eleita, não haveria condições para fazer um acordo como o que os EUA têm com o Chile e a Colômbia. Mas podem ser realizados acordos de cooperação em certas áreas. Já a Apex, passando para o Itamaraty, deve tornar mais ativa a promoção de exportações.

A questão de buscar um assento no Conselho de Segurança da ONU vai para o segundo plano e o resto é corte: Brasil pode retirar, mais cedo que se pensa, tropas que mantém no Haiti e fechar embaixadas na África em países do Caribe.

O que vai atrapalhar as iniciativas de Serra é a Lava Jato. Não que ele ou o Itamaraty estejam implicados na Operação. Mas as iniciativas de exportação de serviços , que tanto prosperaram nos últimos anos, financiadas pelo BNDES, foram realizadas por grandes empreiteiras nacionais, todas elas processadas por corrupção.


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