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Em “As Confissões”, o uso eloquente do silêncio fala de economia e crise

Claudia Bozzo Toni Servillo, o premiado ator de “A Grande Beleza” (2013) de Paolo Sorrentino, é o grande astro do cinema italiano atual. E está de volta, em “As Confissões” […]

20/11/16

Claudia Bozzo
Toni Servillo, o premiado ator de “A Grande Beleza” (2013) de Paolo Sorrentino, é o grande astro do cinema italiano atual. E está de volta, em “As Confissões” (2016), sob a direção de Roberto Andò, o mesmo diretor com o qual filmou o interessante “Viva a Liberdade” (2014). E tudo indica que em breve poderemos assistir a um dos primeiros filmes da parceria entre Servillo e Sorrentino, o ótimo “Um Homem a Mais”, de 2001, apresentado na Mostra de Cinema este ano. Mostra que homenageou, com a retrospectiva de suas obras, o italiano Marco Bellochio, autor do cartaz oficial do evento.

“As Confissões”, estabelece uma ponte entre a imaginação e a realidade, como o próprio Andò definiu em entrevista a um site italiano, e o enredo faz uma interessante junção entre a condução da economia global e um thriller no melhor estilo Agatha Christie, ao reunir em um hotel em Heiligendamm, Alemanha, às margens do Báltico, os representantes do G8 e o presidente do FMI. Uma reunião com a receita usual desse tipo de encontro, pois além dos líderes dos países, há uma escritora de livros para crianças, um cantor (referência a Bono, habituée dos encontros do WEF?) e mais surpreendente – e extremamente italiano – um monge, daqueles mais rigorosamente despojados, retirados e ascéticos, interpretado por Servillo.

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O monge foi convidado pelo próprio diretor gerente do FMI, interpretado por Daniel Auteuil. Andò opta, no seu filme, pelo “uso eloquente do silêncio”. Palavras são de ouro e como nos filmes de mistério, elas servem de pistas para o rumo dos acontecimentos. Depois de um jantar, na primeira noite do encontro, o personagem de Auteuil, Daniel Roché, é homenageado pelo aniversário, e faz um breve discurso, mencionando o economista John M. Keynes, ao citar a parábola da maçã: num gesto teatral, larga uma maçã que cai sobre um copo e o quebra. Em seguida comenta: “para o melhor ou o pior, não somos Deus e não podemos antever todas as consequências de nossos atos”. Aí vem coisa, já se percebe.

Os convites aos personagens “de fora” foram feitos pelo próprio diretor do FMI, que mais tarde revela querer confessar-se, ao dialogar com o monge. Disse tê-lo convidado depois de ler um de seus livros. Com flashbacks, Ricardo Andò nos leva, durante o filme, a mais e mais mistérios, atiçados pelo inesperado suicídio do francês que comanda o FMI. E a grande pergunta é saber o que os levou à reunião, pois insinua-se que seriam adotadas medidas extremamente rigorosas com catastróficos resultados ao mundo. A Grécia é citada mais de uma vez. Alguém menciona mesmo a “destruição criativa”, conceito popularizado pelo economista austríaco Joseph Schumpeter em Capitalismo, Socialismo e Democracia (1942). Com a explicação: “é como um incêndio em uma floresta. Tudo limpo, parte-se do zero para criar uma outra”.

Para não deixar dúvidas sobre as simpatias (ou aversões) de Andò, um dos personagens lembra que no dia antes do suicídio, o diretor do FMI até contou uma piada: “um cardiologista diz ao seu paciente que ele precisará de um transplante. E diz: ‘tenho o coração de um menino de sete anos’. ‘Não, é muito jovem’, responde o paciente. ‘Então tenho o de um gerente de um fundo de hedge, com 40 anos’, diz o médico. ‘Também não, esse não tem coração’. ‘Bom, então tenho o coração de um banqueiro de 70 anos’. ‘Esse eu aceito, pois nunca foi usado’, replica o paciente”.

O filme e seus silêncios prendem a atenção, mesmo sem a mesma vivacidade e originalidade de “Viva a Liberdade”, no qual o secretário-geral de um partido de oposição, Enrico Oliveri, interpretado por Servillo, entediado, contrariado, simplesmente faz as malas e se manda para Paris, em busca do abrigo da amiga e antiga namorada. Seu desaparecimento gera problemas aos assessores, na véspera de importante votação, e estes recorrem ao seu irmão, internado em um hospital psiquiátrico, que não hesita e substituí-lo. Os gêmeos são interpretados pelo sempre brilhante Servillo.

No livro sobre “As Confissões”, editado na Itália com o roteiro escrito por Andò e Angelo Pasquini, o diretor explica seu ponto de vista sobre a economia atual, “que já se configura mais como uma teologia que como uma ciência. Ainda mais agora, depois que a economia foi obrigada, pela crise, a rever seus próprios parâmetros doutrinários, com o declínio de seu papel de oráculo e a série de clamorosos fracassos registrados nos últimos anos.” Andò realizou, portanto, um “giallo” (novela policial, em italiano) econômico-moral. Tese discutível ou válida, o importante é que se trata de obra com denso conteúdo, que não nos foge da cabeça ao sair do cinema e procurar pelo cartão do estacionamento.


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