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Dois filmes argentinos, “Koblic” e “No Fim do Túnel”, garantia de qualidade

Claudia Bozzo Melhor que um filme argentino? Essa é fácil: dois filmes argentinos. Ou três, pois além de “No Fim do Tunel” e “Kóblic”, continua no Belas Artes a exibição […]

16/10/16

Claudia Bozzo
Melhor que um filme argentino? Essa é fácil: dois filmes argentinos. Ou três, pois além de “No Fim do Tunel” e “Kóblic”, continua no Belas Artes a exibição de “Relatos Selvagens”. Sem contar “O Silêncio do Céu”, de 2016, dirigido pelo paulista Mauro Dutra, com Leonardo Sbaraglia, Carolina Dieckmann e Chino Darín (filho de Ricardo Darín).

Então, vamos por partes. O muito aguardado “Kóblic” (2016) , de Sebastián Borensztein, o mesmo diretor do excelente “Um Conto Chinês” (2011) traz uma das muitas histórias da ditadura, que os cineastas argentinos não deixaram passar em branco, desde o corajoso “História Oficial” de Luis Puenzo, de 1985.

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“Kóblic” parte do ponto até onde vai “Garagem Olimpo” de 1999, um dos filmes mais significativos dessa negra página da história de nosso vizinho, obra apresentada apenas na Mostra de Cinema e que não entrou em circuito normal. Esse filme é uma co-produção que une Itália, Argentina e França. Pode ser visto no YouTube (ou mesmo baixado, é só colocar ‘Garage Olimpo’ no Google), e recebeu prêmios pela defesa de direitos humanos em vários países. É o trágico relato das torturas às quais eram submetidos os dissidentes, e de todo tipo de perseguição e mesmo roubo de propriedades pessoais, confiscos, perda de filhos e netos, sofridos por pessoas que caiam nas garras dos poderosos de então. A garagem do título era o purgatório por onde passavam os presos, antes do inferno, as águas do Atlântico.

Já o personagem Kóblic, vivido por Ricardo Darín, é um militar que se recusa a cumprir ordens e decide refugiar-se no interior do país – mesmo faltando pouco para aposentar-se – onde acredita que estará a salvo. Não fica por muito tempo, pois o filme recria os maus fluidos da época, na qual a mais preciosa mercadoria era a informação: todos querem saber se é possível subir nas graças da ditadura, encontrando um subversivo, um suspeito. É uma cadeia de interesses que envolve ódios, ambições, interesses escusos, inveja e pequenos seres em busca do reconhecimento. As famosas “pequenas autoridades”. E como a maioria dos filmes argentinos, traz um roteiro de primeira, o que concretiza uma história bem contada. Precisa mais?

Já “No Fim do Túnel” (2016), dirigido Rodrigo Grande, traz o também talentoso Leonardo Sbaraglia. Em “Relatos Selvagens” ele é o executivo, que em uma rodovia tenta ultrapassar uma caminhonete e acaba entrando em conflito direto com o outro motorista.
Também já fez o vilão num seriado para a HBO, “Epitáfios” (2009), atuou em muitos filmes na Espanha e informalmente é reconhecido como “o embaixador argentino para atores argentinos na Espanha”. No “Fim do Túnel” ele interpreta Joaquín, um engenheiro que, preso a uma cadeira de rodas e vivendo com um cão enfermo, passa os dias no porão da casa, reparando eletrônicos.

A ambientação é sombria, dá a dimensão da vida solitária na qual está imerso. Até que aparece em sua porta Berta, uma bailarina de striptease com a filha Betty, interessada em alugar o andar de cima de sua casa. A presença das duas acaba por aliviar o tenso clima e até mesmo o cão mostra sinais de melhora, graças à presença da menina. Seu passado é revelado por detalhes sutis.
Curioso, inteligente, Joaquín percebe sons estranhos e por meio de engenhocas que ele mesmo cria, vê que há um grupo de homens que tenta assaltar o banco ao lado de sua casa, por meio de um túnel. É um verdadeiro filme de suspense, com aquele tipo de trama que, quando percebemos, estamos com a respiração suspensa, à espera dos próximos movimentos.


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