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Documentário mostra método de ação da obsolescência planejada

Claudia Bozzo Um artigo publicado no “O Estado de S. Paulo” de hoje (12/10/2014), “Luz Perpétua”, fala da lâmpada que brilha Há 113 anos no quartel do Corpo de Bombeiros […]

12/10/14

Claudia Bozzo

Um artigo publicado no “O Estado de S. Paulo” de hoje (12/10/2014), “Luz Perpétua”, fala da lâmpada que brilha Há 113 anos no quartel do Corpo de Bombeiros em Livermore, na Califórnia e nos remete a um dos mais interessantes  documentários já feitos. Trata-se da produção franco-espanhola “A Conspiração da Lâmpada Elétrica”, exibida há pouco pelo canal +Globosat, da Net, que traça o histórico da obsolescência planejada.

A lâmpada mencionada no artigo publicado no Caderno Aliás é um dos personagens centrais do documentário, que também pode ser visto pela internet, seja no interessante site “Top Documentary Films” (em inglês) ou no YouTube, onde há uma versão com legendas em português e outra dublada em espanhol.   Pode-se fazer a busca por “The Light Bulb Conspiracy” ou “A Conspiração da Lâmpada Elétrica”.

A tal lâmpada, que resiste há tanto tempo, acesa 24 horas por dia, está na origem da necessidade da indústria de criar produtos cada vez mais frágeis, com vida útil cada vez menor, para mobilizar o consumidor a trocar seus equipamentos sempre mais cedo, seja pela função, seja pelo visual.

Captura de Tela 2014-10-12 às 12.26.04

O filme começa com a saga do proprietário de uma impressora que “nega fogo” – e quem não passou por isso inúmeras vezes? Ele vai de um serviço autorizado a outro e sempre recebe a recomendação: “é caro demais consertar, é mais barato comprar outra” ou “não tem conserto”. E quem de nós não passou por essa situação mais vezes do que seria necessário?

Pois o dono da impressora não desiste – e sua saga é a linha condutora do documentário – que aproveita para relatar o fato de a economia baseada no desperdício ter nascido na década de 1920, quando os fabricantes de lâmpadas elétricas – entre eles os mesmo daquela que até hoje brilha no quartel dos bombeiros californianos – decidem formar um cartel para reduzir a vida útil do produto.

Dito e feito, cada vez as lâmpadas duram menos e o conceito se dissemina, contaminando toda a indústria. E poluindo todo o planeta com os restos mortais de produtos tóxicos, numa sociedade cada vez mais dominada pela necessidade do novo, do moderno, da inovação. Ninguém fala, pois afinal, a imagem da marca é forte, poderosa. Mas será que a gente realmente precisa de tantas versões de I-phones e I-pads e Macs? Pois quem tem um antiguinho que ainda funciona bem, sempre vai defrontar-se com a resposta quase em forma de insulto, de que seu aparelho, por ser antigo, não suporta o download de certos aplicativos! Antigo, antiquado. Palavrões na era cibernética.

Trocar de celular é quase uma obrigação social – quase todos preocupam-se com versão do seu portátil, e isso faz parte da cultura atual. Mas será que não se deve levar em conta que tantas mudanças, de um sistema para outro, são um atraso e não um avanço? Atualizar listas telefônicas, deixar o aparelho da forma que melhor serve a você, com os utilitários mais usados, com as funções mais requisitadas e outras tarefas trazem um desperdício considerável de tempo? Sem contar com a adaptação que cada um exige. Bom, está cheio de gente que gosta disso, pois como sabemos, a real diferença entre um brinquedo para adultos e para crianças é o preço.

Mas retornando à impressora do documentário, os esforços do seu proprietário, em trazê-la de volta à vida acabam dando certo. E a constatação é quase que previsível: da Rússia ele recebe o e-mail de um outro usuário, revelando que o equipamento possui um chip que contabiliza a quantidade de folhas impressas, e comanda o encerramento de atividades da impressora, quando esse número é atingido. Com um programa, ele consegue desativar tal chip e “salve!” a máquina volta a funcionar. Não se trata de um ‘spoiler’ contar o fim do documentário. Mesmo porque ele dá o tom do seu recheio. São 52 minutos de argumentação solida, de fatos interessantes, de uma realidade que nos afronta.

O que fazer com os eletrônicos que morreram? Como ter certeza de que o descarte será seguro, mesmo enviando a postos de reciclagem? O que o documentário mostra são efeitos perversos desse descarte, com países da África inundados por carcaças “antigas”.

Parece mesmo que está na hora de reler Vance Packard, o jornalista norte-americano que ainda na década de 1960 escreveu o livro “A Estratpegia do Desperdício”, contando as técnicas adotadas pelas empresas para tornar obsoletos seus produtos. Ele conta até a tática das companhias farmacêuticas, de deixar de incluir o nome de medicamentos nas embalagens, para que ele fosse descartado, por ser desconhecido. Certamente suas advertências serviram de base à criação de um avançado sistema de defesa do consumidor, como o que existe atualmente nos Estados Unidos.

Antes disso, Packard, que morreu em 1998, escreveu em 1957 “Novas Técnicas de Convencer” (The Hidden Persuaders), sobre técnicas de persuasão “Toda uma legião de especialistas se acha hoje a soldo de grandes empresas, sondando as profundezas da mente humana a fim de descobrir os mais íntimos motivos que levam as pessoas a aceitar como verdade aquilo que enxergam e ouvem com o objetivo de convencer o público à aquisição dos mais variados artigos”.

Visionário é pouco para descrever esse estudioso do comportamento humano, que  teve seguidores de respeito em todo mundo.

Complica muito a vida de uma pessoa fazer parte de uma geração na qual a poupança era o normal, o desperdício uma espécie de “pecado”. O caminho para o progresso é o consumo desvairado? Ou esse é o caminho para o esgotamento de nossos recursos mais preciosos e o emporcalhamento do ambiente no qual vivemos? Há uma nova onda de consciência a se impor, vinda do movimento ambientalista. Claro que vem de pessoas chamadas de tolas e delirantes.  Alguns realmente são. Mas o que sobrar talvez dê origem a uma legislação efetiva em defesa do meio ambiente. Como foram as leis do consumidor, que pouco a pouco conquistam seu espaço.


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