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Diplomacia econômica complicada sob Bolsonaro

Klaus Kleber Quem se aventurar a aceitar a pasta de Relações Exteriores no governo de Jair Bolsonaro precisará enfrentar alguns imbróglios que talvez nenhum chanceler nas últimas décadas tenha encontrado […]

04/11/18

Klaus Kleber

Quem se aventurar a aceitar a pasta de Relações Exteriores no governo de Jair Bolsonaro precisará enfrentar alguns imbróglios que talvez nenhum chanceler nas últimas décadas tenha encontrado pela frente. O futuro chanceler — que pode ser ou não da carreira diplomática, esperando-se que não seja um militar – terá de ser extremamente hábil para equacionar três grandes questões, que não existiam antes, e foram criadas pela retórica dita anti-globalista de Bolsonaro durante a campanha e depois de vitorioso nas urnas.

E tudo ficou ainda mais complicado com a irritação do futuro czar da Economia, Paulo Guedes, em tumultuada entrevista à imprensa nacional e estrangeira, fazendo pouco do Mercosul.

Quase nada sei sobre a imprensa chinesa, mas duvido que o porta-voz jornalístico de Pequim – o China Daily – tenha alguma vez dedicado um editorial às relações do país com o Brasil. Não só o governo chinês se irritou com as declarações de Bolsonaro de que não pretende “vender” o País para China, mas o editorial alerta para os riscos do futuro presidente brasileiro “imitar Trump” no relacionamento comercial bilateral, o que ocasionaria grandes prejuízos ao Brasil.

Como já foi salientado, a China é o principal parceiro comercial do Brasil, que é superavitário no comércio bilateral. Além disso, empresas estatais chinesas são grandes investidoras em infraestrutura aqui, especialmente no setor elétrico.

“Imitar Trump” não seria o caso, pois se há queixas de empresários quanto a uma “invasão” de produtos chineses no mercado brasileiro, Paulo Guedes promete atacar o protecionismo brasileiro através de redução gradual de tarifas de importação. O problema é: poderia o Brasil baixar tarifas aduaneiras para importação de todos os países e elevá-las apenas para aqueles procedentes da China?

Já tratamos nesse blog de como seria problemático excluir estatais chinesas de projetos diversos no País, citando como exemplo a Equinor (antiga Statoil), cujo controle acionário está nas mãos do governo da Noruega, que está investindo cada vez mais pesado no País não só no pré-sal, mas em outras áreas. Outras estatais europeias têm feito o mesmo. O Brasil faria restrições apenas a investimentos de empresas controladas pelo governo da China?

Os problemas de diplomacia econômica do próximo governo não param aí. Guedes, com certa empáfia, disse a um jornalista argentino que o Mercosul “não é prioritário” para o futuro governo. O que repercutiu muito mal na Argentina, Uruguai e Paraguai. Vá que o governo Bolsonaro não queira mais negociar em conjunto com o Mercosul um acordo com a União Europeia (UE), preferindo negociar sozinho ou simplesmente exclui qualquer acordo com a UE e outros blocos econômicos.

Tudo isso não seria problema se a Argentina, particularmente, não fosse a maior importadora de veículos fabricados no Brasil. O país vizinho está atravessando uma séria crise, mas tem sido durante anos o principal mercado para produtos manufaturados brasileiros em geral. É oportuno lembrar que o parceiro incômodo do Mercosul – a Venezuela – já foi afastada do bloco, talvez definitivamente.

Além disso, uma atitude de negligência quanto ao Mercosul poderia afetar uma aproximação com a Aliança do Pacífico, que inclui os vizinhos sul-americanos Chile, Peru e Colômbia. Afinal, o futuro governo pretende tal aproximação? Como foi aventado, Bolsonaro e sua turma prefeririam um pacto com os EUA e Colômbia sobre segurança e combate ao tráfico de drogas.

E, para completar, o presidente eleito já afirmou que pretende que o Brasil transfira sua embaixada em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Nesse caso, o Brasil não estaria imitando Trump, mas, sim, Jimmy Morales, presidente da Guatemala. Em ato de subserviência incompreensível, pois não obteve nada em troca de Washington ou de Israel, Morales também transferiu a embaixada de Guatemala de Tel Aviv para Jerusalém, sendo até agora o único país latino-americano a fazê-lo. O Paraguai ensaiou um gesto semelhante, mas o governo mudou de ideia.

A Câmara de Comércio Árabe-Brasileira tem procurado alertar o próximo governo brasileiro dos potenciais danos comerciais e sobre investimentos que essa atitude pode ocasionar ao Brasil. Mas, por enquanto, Bolsonaro não se mostra surdo a tais argumentos.

Pelo menos, pelo que se tem noticiado, o presidente eleito desistiu da ideia de o Brasil abandonar o Acordo de Paris sobre o clima.

 


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