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Deus, quem diria, acabou no divã

Claudia Bozzo Como definiu a atriz Irene Ravache, em recente entrevista, a peça ”Meu Deus!” parte de uma ideia simples, mas nunca antes explorada: e se Deus de repente tivesse […]

13/04/14

Claudia Bozzo

Como definiu a atriz Irene Ravache, em recente entrevista, a peça ”Meu Deus!” parte de uma ideia simples, mas nunca antes explorada: e se Deus de repente tivesse dúvidas e colocasse em questão sua obra? Mais ainda; e se ele recorresse a uma psicóloga para discutir isso (jamais a um psiquiatra!, como o texto da peça faz questão de ressaltar).

Esse é o tema da israelense Anat Gov, que tem uma carreira muito bem sucedida no Teatro Faap, com direção de Elias Andreato e a participação dos atores Irene Ravache, Dan Stulbach e Padro Carvalho. E chega em hora oportuna, pois nos cinemas temos “Noé”, que nos permitirá cruzar os dois textos. “Noé”, com Russell Crowe, é dirigido por Darren Aronofsky, o mesmo de “Cisne Negro”, e parece ter irritado fieis de todas as religiões. A se conferir, apesar do jeitão de blockbuster que o cerca.

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Ana, interpretada por Ravache, é uma psicóloga separada, mãe de um filho autista, que se diz ateia, e embora dedique-se a tratar de crianças, recebe o telefonema de um homem angustiado, que quer uma sessão e tem grande necessidade de ser ouvido. Eis que ele chega, meio que sorrateiramente, e se inicia um diálogo bem divertido. Ele não quer fornecer o nome, por ser muito conhecido, e ela pergunta: “Você é do governo?” “É do Mossad?” Qual o seu nome?.

“Se eu disser você não vai acreditar”, ele responde.

O silêncio que se segue à revelação do nome, diz tudo. Os diálogos iniciais são muito divertidos, e aos poucos o paciente vai revelando a fonte de suas angústias, algo que pode muito bem acontecer com qualquer mortal: a desilusão com uma parte de sua criação, no caso o ser humano. A quem ele se queixa de ter entregue o mundo em uma bandeja de prata, e  agora só pensa em destruir esse mundo com a poluição do ar, dos mares, e matar seus semelhantes.

Aos poucos, o humor vai cedendo espaço às reflexões mais profundas e nos encaminha ao aprofundamento de questões como religiosidade e a condição humana no decorrer do tempo.

É uma peça com diálogos inteligentes, com a magnífica presença de Irene Ravache, por certo uma de nossas mais talentosas, coerentes e consistentes atrizes, com uma carreira das mais respeitáveis, de escolhas muito felizes, seja de filmes ou peças de teatro e –  sorte da TV – uma galeria de personagens em novelas que vem desde Beto Rockfeller. No cinema, fez recentemente ”A Memória que me Contam” de Lúcia Murat, sobre um grupo de amigos que relembram os difíceis dias da resistência à ditadura. E no momento, tem dois outros filmes em fase de pós-produção. Qualidade é algo que jamais faltou ao seu trabalho. A Dan Stulbach, correto, talvez falte um pouco da força que a experiência confere, para um papel de deus. Mas há química entre os atores e a peça avança.

A única nota triste é que ao pesquisar sobre a diretora, Anat Gov, ficamos sabendo que ela morreu em 2012, aos 58 anos, vítima de um câncer diagnosticado cinco anos antes. Isso deu a ele tempo para escrever uma outra peça, “Final Feliz”, exatamente sobre uma mulher que enfrenta a doença, negando-se a aceitar a quimioterapia, optando pela qualidade de vida contra a longa luta contra a enfermidade.

Segundo reportagem do jornal Haaretz sobre sua morte, Gov “preparou-se para a morte como atores preparam-se para o papel de suas vidas. Decidiu onde seria sepultada e até mesmo fez uma visita ao cemitério. Escolheu a música que a acompanharia em sua jornada final e até mesmo aqueles que a amavam, os que participavam de sua vida e admiradores que a homenageariam”. Em conversa com amigo, disse que aceitava sua morte sem medo e que na vida teve tudo o que quis: um casamento feliz, filhos, netos e muito mais.

Bem, o caminho está aberto com “Meu Deus!”. Talvez tenhamos novas peças de Anat Gov em breve. Sem dúvida o sucesso dessa sua peça, em exibição no Teatro Faap, às sextas, sábados e domingos (com uma apresentação extra na sexta-feira dia 18 de abril) abrirá o caminho para outras.


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