X

Deu a louca no diesel e desaqueceu o motor

Klaus Kleber Diz o velho pragmatismo comercial que o produtor ou comerciante deve fixar o preço dos bens em um nível o que o mercado seja capaz de suportar. E, […]

28/05/18

Klaus Kleber

Diz o velho pragmatismo comercial que o produtor ou comerciante deve fixar o preço dos bens em um nível o que o mercado seja capaz de suportar. E, como se viu nesta semana caótica, o mercado não suportou o preço do diesel, reajustado pela Petrobrás 38 vezes desde o início do ano. Isso significou um aumente de 15,5% nos últimos 12 meses, para uma inflação de 3,70% no período, o que parece uma loucura.

Certamente, não só os caminheiros autônomos. mas também as empresas transportadoras que apoiaram ativamente a greve que paralisou o País tinham motivo para protestar. Os caminhoneiros porque o frete pago pelas empresas era absorvido pelo custo do combustível. Já as empresas transportadoras, que se aventuraram em um locaute, se viram tolhidas pela fraca demanda a aumentar mis uma vez o preço do frete. Deu no que deu.

O pior é que, a essa altura, ninguém sabe como será a repercussão do desaquecimento do motor sobre a lenta retomada que a economia vinha apresentando.

Seria injusto crucificar Pedro Parente, presidente da Petrobrás, e o conselho de administração da companhia pelo ocorrido. Com o petróleo a US$ 80 o barril e com a disparada da cotação do dólar, a estatal deu continuidade à sua atual política de reajustar os preços, às vezes diariamente, tomando como parâmetro a cotação internacional do petróleo e esta se multiplicou com a alta do dólar.

Isso favorecia a recuperação da empresa, altamente endividada e permite uma remuneração melhor aos acionistas, entre os quais, é bom que se saliente, se encontram milhares de trabalhadores que usaram parte de seu FGTS para aplicar em ações da estatal.

É verdade que as grandes petroleiras reajustamos combustíveis de acordo com a variação da cotação internacional do óleo, como se verifica nos EUA, por exemplo. Os consumidores gritam, mas suportam.

Mas aqui há diferenças importantes: o abastecimento é muito, mas muito mais dependente do transporte rodoviário do que nos EUA. E lá, claro, a moeda não flutua no mercado interno de acordo com sua cotação internacional, sendo o dólar a principal moeda de intercâmbio no mundo.

Encostado à parede, o governo concordou em dar um desconto de 10% no diesel nas refinarias, o que deve se refletir no preço cobrado nos postos e prometeu não fazer novo reajuste do combustível por 30 dias, além de outras concessões aos caminhoneiros autônomos.

Passada essa crise, que, esperamos seja o mais breve possível, o simples bom senso aconselha que se mude a fórmula de calcular o preço dos combustíveis, ampliando prazo entre um reajuste e outro. De fato, a cotação do dólar, que chegou a R$ 3,73 em 18/5 caiu para R$ 3,66 em 25/05 em função das intervenções do Banco Central no câmbio. A cotação do petróleo tipo Brent também recuou de US$ 79,17 em 17/05 para US$ 76,19 em 25/5.

Não é preciso ser matemático para concluir que seria mais justo reajustar os preços dos combustíveis com base em uma média mensal, tratando-se de cotações tão voláteis, como as do petróleo como do dólar.

Estão certos aqueles consideram desastrosas as intervenções do governo na Petrobrás, com resultados tão danosos em passado recente. Contudo, deve haver espaço para que a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) atue para moderar os reajustes. Não se ouve mais falar em ANP, mas agência reguladora existe para que?


Todos os direitos reservados, 2018.