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“Desigualdade para Todos”, outra verdade inconveniente?

Claudia Bozzo Ainda sem data de lançamento nos cinemas, o documentário “Desigualdade para Todos”, exibido na Mostra de Cinema de São Paulo – e vindo de um grande sucesso ao […]

24/11/13

Claudia Bozzo

Ainda sem data de lançamento nos cinemas, o documentário “Desigualdade para Todos”, exibido na Mostra de Cinema de São Paulo – e vindo de um grande sucesso ao ser apresentado no Sundance – é bem mais interessante que a maioria dos filmes sobre economia que, têm aflorado nas telas de cinemas e TVs a cabo. É um dos melhores e mais didáticos.

O mais recente dos filmes dessa safra visto em São Paulo foi “O Capital” do engajadíssimo diretor Costa-Gavras, baseado em um romance do economista francês Stéphane Osmont. Bons atores, como o irlandês Garbiel Byrne, o francês Hippolyte Girardot e um surpreendentemente discreto e competente Gad Elmaleh (mais conhecido por chanchadas) garantem o filme, talvez um dos melhores de tão importante diretor, que teve uma passagem bastante discreta. Mas Costa-Gavras, o diretor de “Z”, “A Confissão”, “Sessão Especial de Justiça”, “O Corte” e tantos outros, não passa em branco, para quem gosta de cinema com densidade e coerência.

Mas voltando ao tema de hoje, a desigualdade, o próprio diretor do documentário, Jacob Kornbluth, o compara a “Uma Verdade Inconveniente”, de Al Gore, e espera que o mesmo conscientize os norte-americanos sobre o que levou o país à atual situação econômica, expondo de forma didática as razões pelas quais tantos empobreceram e tão poucos ficaram ainda mais ricos nos últimos anos.

Para explicar a situação, formou-se uma parceria muito interessante: Kornbluth e o ex-secretário do Trabalho do primeiro governo Bill Clinton (quando Clinton ainda era um verdadeiro democrata e tinha grandes planos para o país) – Robert Reich. Atualmente professor na Universidade da Califórnia em Berkeley e autor de pelo menos 13 livros, Reich é de certa forma um missionário e o tema de sua evangelização é mostrar quais os motivos que levaram o país a tornar-se tão desigual.

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Reich é uma figura. Como bom professor, consegue manter a atenção para mostrar suas teses. Tem senso de humor. Logo no início, dirigindo seu carro, um Mini Cooper, explica que há uma coerência em ter um carro pequeno como ele, afetado por uma rara doença genética que o deixou com 1m47. “Sinto que estamos em proporção, eu e meu carro.” E não se envergonha de dizer que é obrigado a levar um caixote para poder subir nele e alcançar o microfone em certos eventos.

Mas o assunto do qual fala é sério, até mesmo dramático. Ele quer que os americanos entendam como foi que o país chegou ao ponto de ter 400 pessoas dominando metade da riqueza do país. E por que em 1978 o salário mínimo era de US$ 40 mil/ ano e em 2010 é de R$ 33mil/ano. Ao mesmo tempo, o ganho médio de alguém no grupo dos 1% era US$ 390 mil/ ano e em 2010 essa quantia saltou para US$ 1.1 milhão/ano (dados ajustados pela inflação). Os cidadãos da classe média nunca trabalharam tanto, a produtividade nunca foi tão alta e no entanto, há cada vez mais pobres.

O diretor do documentário explicou que não entende de economia, e que em conversa com amigos, familiares e conhecidos, sempre se chegava a um ponto: mas por que isso acontece? E em busca de explicações encontrou Reich. O filme vai direto na veia dos americanos e na apresentação em Sundance, foram vistas muitas lágrimas disfarçadas. Pelo menos um terço dos espectadores admitiu ter chorado em pontos do filme. Para eles é uma realidade extremamente palpável e concreta, não se admira, portanto a emoção, embora Reich, impecável como mestre, faça questão de dizer que o filme é entretenimento.

As explicações são dadas para uma imensa sala de aula, na universidade onde Reich leciona e aos poucos – e com um certo senso de suspense – vamos chegando de forma clara (com gráficos que podem ser encontrados na internet) às razões de tão perversa desigualdade. Primeiro, ele explica, na década de 1970 começou a ofensiva contra o sindicalismo ao mesmo tempo em que os mercados passavam por uma desregulamentação. É nessa época também que o país passa a reduzir seu investimento em educação superior e começam a aumentar as mensalidades e taxas de admissão nas universidades. Depois vieram a automação, a globalização e a ação do governo, em reduzir a tributação sobre os ricos. A receita do desastre deu certo e o desastre chegou.

Reich, que se diz um otimista apesar de tudo isso – “economia não é como o clima, situações podem ser revertidas” – teme pelo próprio futuro da democracia. O que se vê atualmente nos Estados Unidos é a radicalização gerada pela incerteza econômica, que gera campo fértil aos extremismos, seja do Tea Party, seja de movimentos como o Occupy Wall Street. “É a política do ódio. A política do medo. Já estamos vendo isso”, diz ele em entrevista ao The Guardian.

Para quem se interessa pelo tema, o filme é imperdível, mesmo. Ainda que tenha havido uma enorme quantidade de documentários e filmes sobre esse tema, que vão do premiado “Trabalho Interno” e “Margin Call – O Dia Antes do Fim” (que em ficção relata situação idêntica à das últimas horas antes da quebra do Lehman Brothers), ou na mesma tecla, “Grande Demais para Quebrar” ou “Wall Street 2 – O Dinheiro Nunca Dorme” e “A Grande Virada”.

Uma das coisas que mais impressiona – alguém já chamou esse tipo de filme de “as mais lucrativas apresentações em Powerpoint” – é o gráfico que Reich apresenta, com a concentração de riqueza que ocorre na década de 1920 e nos anos 2010 formando picos de crescimento e queda, semelhante a uma ponte pênsil. Uma imagem forte. Explicada em detalhes. Útil até para quem é “do ramo”, pois a simplicidade com que os fatos são expostos, o didatismo, são exemplares.


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