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Deneuve, uma guerreira solitária em “O Homem que Elas Amavam Demais”

Claudia Bozzo Baseado em uma história verdadeira, que há trinta anos mantém um grande clima de mistério e drama, temperado com pitadas de charme, o filme “O Homem que Elas […]

31/05/15

Claudia Bozzo
Baseado em uma história verdadeira, que há trinta anos mantém um grande clima de mistério e drama, temperado com pitadas de charme, o filme “O Homem que Elas Amavam Demais”, do consagrado diretor André Techiné, com seu elenco de primeira, incluindo Catherine Deneuve, a promissora Adèle Haenel e Guillaume Canet, mantém a trama que atraiu a atenção dos franceses. No centro da história, o que acontecia entre a dama que controlava um grande cassino em Nice, sua filha, um assessor, e a atuação da máfia.

No papel de uma guerreira solitária, Catherine Deneuve interpreta Renée Le Roux, dona e gerente do célebre cassino Palais de la Méditerranée. O filme foi livremente adaptado do livro “Une femme face à la Mafia”, de Albin Michel, 1989, e das memórias de Renée escritas por seu filho Jean-Charles, que também participou da redação do roteiro do filme que acompanha com fidelidade o julgamento que levou trinta anos e só em 2014 teve algum resultado.

Com a máfia de olho em seu cassino – para construir condomínios, como se sugere – a então poderosa Renée, que comandava um exército de 300 e tantos funcionários, tem como assistente o ambicioso advogado Maurice Agnelet, interpretado por Canet, quando chega a filha, Agnés, que vivia na África, vivida por Adèle Haenel. Ela vem reclamar sua parte na herança deixada pelo pai, o que complica a vida da mãe, diante do assédio dos compradores do cassino. Para complicar, ela tem um romance com o advogado (Canet), apesar dos avisos da mãe, de que ele é um namorador incorrigível.

O relacionamento entre mãe e filha é dos mais complicados e aqui entra a sensibilidade de Téchiné. Ele é o diretor de “Minha Estação Preferida”, por exemplo, de 1983 – exibido há poucos dias pela TV5 – onde Catherine Deneuve e Daniel Auteil são irmãos que se reencontram depois de muitos anos, para cuidar da mãe. Téchiné, sem dúvida é um dos melhores do cinema francês. Ele já fez filmes como “Os Ladrões” de 1996, com os mesmos Deneuve e Auteil, o emocionante “Alice e Martin” de 1998, com Juliette Binoche e Mathieu Amalric, “Les temps qui changent”, de 2004 com Deneuve e Gérard Depardieu, “As Testemunhas” de 2007, com Michel Blanc, que conta histórias a partir de 1985, quando surge a Aids e as mudanças que a doença traz à sociedade e a um determinado grupo de pessoas.

Já ouvi muita gente saindo do cinema depois de ver um filme francês reclamando da falta de um final claro e explicadinho. Embora a vida, como os filmes franceses, também seja assim: nem sempre tudo é claro, explicadinho e vem amarrado para presente, neste interessante “O Homem que Elas Amavam Demais”, pouco resta a ser dito. O importante é a profundidade com a qual Techiné expõe cada um dos personagens, em particular a relação mãe-filha. Ou como ele retrata o personagem do advogado.

Um belo filme, bons atores, história interessante – ainda mais que quase nada conhecida por aqui, por limitar-se a fatos extremamente regionais. Na França foi um grande tema para os jornais (na sessão de geral, que eles chamam de ‘faits divers’). Mais um bom Téchiné.

E agora que o Festival de Cinema de Cannes já terminou, com importantes prêmios para o cinema francês, entre eles o de melhor ator para o ótimo Vincent Lindon, que passa da comédia para o drama mais escancarado, ou do romance mais lírico para a biografia mais comovente, sempre com a intensidade de um verdadeiro animal nascido para o palco. Vamos torcer para que os filmes exibidos este ano cheguem logo. Em geral, estão demorando mais de um ano para vir às nossas salas, embora a Mostra de Cinema, em outubro, seja uma boa chance de vê-los (pelo menos alguns) um pouquinho antes.


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