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Delicado filme sobre mulheres marca presença do Paraguai

Claudia Bozzo Os dedos de uma só mão servem para contar o número de filmes que o Paraguai faz por ano: são quatro. Aqui em São Paulo já vimos um […]

03/09/18

Claudia Bozzo

Os dedos de uma só mão servem para contar o número de filmes que o Paraguai faz por ano: são quatro. Aqui em São Paulo já vimos um deles, em 2014, o ótimo “Sete Caixas” (2012), de Juan Carlos Maneglia, filmado em apenas 44 dias. Procurando, é possível encontra-lo para download na internet, pois à venda ele não está.

Pois agora esse nosso vizinho, que só tem uma faculdade de Cinema desde 2013, chega com mais um filme, “As Herdeiras”, com um currículo dos mais importantes: recebeu três ursos de prata em Berlim e seis prêmios no Festival de Gramado 2018 nas categorias, filme, direção e atrizes. O que certamente deverá impulsionar a produção de filmes no país, mesmo porque em Berlim foram fechados 30 contratos de compra de “As Herdeiras”, para diferentes países.

A obra, uma coprodução de Paraguai, Alemanha, Brasil, Noruega e França recebeu aprovação de 100% no júri popular do site Rotten Tomatoes (o tomatômetro) e de 86% dos críticos.

Muito merecidamente. Dirigido com grande sensibilidade por Marcelo Martinessi, é um filme sobre mulheres, idade, condição social e redescoberta. O ambiente é a rica gerontocracia paraguaia, e foca na vida de duas mulheres, Chela (Ana Brun) e Chiquita (Margarita Irún), herdeiras de uma família abastada que vivem juntas há 30 anos e nesse ponto de suas vidas, enfrentam uma crise financeira, sendo obrigadas a desfazer-se de quadros móveis e cristais da bela mansão onde vivem.

O verdadeiro nome de Ana Brun, que recebeu o Urso de Prata como melhor atriz, das mãos do celebrado Ryuichi Sakamoto, é Patricia Abente. É o seu primeiro e único filme e foi convidada para o papel pelo diretor Marcelo Martinessi. Aceitou, pois ao contrário de sua personagem, a tímida, retraída e submissa Chela, disse “adorar desafios”. O pseudônimo para atuar veio de sua reação ao ler o roteiro, pois receou a reação do público diante de um tema tão polêmico. Afinal, se trata da história de um casal de lésbicas sexagenárias que se veem obrigadas a lidar com uma mudança drástica em suas vidas.

O tema é tratado com grande delicadeza, e fica bem claro que naquele relacionamento Chiquita é a dominante e Chela a que se submete a tudo. Até mesmo à sugestão de venda do carro que elas possuem, um presente do pai de Chela, que nem mesmo carta de motorista possui.

As dívidas amontoam-se e Chiquita acaba sendo obrigada a cumprir um tempo de cadeia (Chela conta aos conhecidos que ela foi para Mar del Plata). Entregue a uma profunda depressão que a impede até mesmo de sair e encontrar amigos, com a distância de Chiquita, Chela acaba lançando-se em tímidas “aventuras”, como por exemplo, servir de motorista para as amigas ricas que se reúnem às tardes para jogar. Vai conquistando segurança no volante e quando Ana, filha de uma das colegas do grupo lhe pede apara ir até um ponto mais distante – enfrentando uma rodovia – sobre mais uns degraus no rumo da autoconfiança.

Aos poucos vai reencontrando pequenos prazeres da vida, como arrumar-se, colocar uma roupa mais cuidada, pintar as unhas, usar óculos escuros, um presente da sensual Angy, (Ana Ivanova) que traz de volta para ela emoções que estavam adormecidas e uma sensualidade sem angústias.

Continua visitando Chiquita – cenas filmadas em uma prisão de Assunção – e a realidade paraguaia está presente também na presença da empregada doméstica, Pati (Nilda Gonzalez), que lhe massageia os pés e cuida de tudo na casa. O fato de mulheres em tal situação manterem uma doméstica, segundo o diretor Martinessi, pode parecer inverossímil ao público de países europeus e asiáticos, “Mas, na vida real, vive-se assim. As domésticas no Paraguai são tão mal pagas que acabarão sendo o último luxo ao qual essas mulheres se agarraram”, explica o diretor e roteirista.

Mas não é um filme sobre o Paraguai. É sobretudo um filme sobre mulheres, sentimentos, idade, condição social, sexualidade. Temas universais que variam de local para local em detalhes sutis, mas cuja universalidade o filme conseguiu captar com grande talento.


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