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“Decisão de Risco”: moral e relações públicas, o diálogo inviável na guerra cibernética

Claudia Bozzo Às vezes o serviço de streaming Netflix, pelo seu sofisticado sistema de algorítimos, localiza quais filmes ou séries podem se encaixar nas suas preferências. Quando se está em […]

12/03/17

Claudia Bozzo
Às vezes o serviço de streaming Netflix, pelo seu sofisticado sistema de algorítimos, localiza quais filmes ou séries podem se encaixar nas suas preferências. Quando se está em busca de algo diferente, a mágica acontece. E é possível encontrar um ótimo filme, como “Decisão de Risco” (ou “Eye in the Sky”).

Achar tais tesouros não é tão difícil assim. Por exemplo, ajuda saber que a atriz principal é Helen Mirren, que fora alguns blockbusters, dona de grande talento na escolha de filmes e diretores. Depois, entram também Alan Rickman (esse foi o último filme dele como ator, antes de falecer, embora tenha participado de outros dois, como narrador) e Iain Glenn (o charmoso detetive Jack Taylor e o Mormont de 43 episódios de “Game of Thrones”). Com um time desses, é difícil que o escolhido seja ruim.

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O tema da produção, uma associação entre Reino Unido e África do Sul é atualíssimo: a nova modalidade de guerra, por controle remoto. Dos gabinetes chegam ordens para a equipe que acompanha, com drones e espiões, a atividade de terroristas em Nairobi, no Quênia. A tecnologia impressiona: os veículos operados à distância (a sede da operação fica em Nevada, nos Estados Unidos e em um quartel no Reino Unido, enquanto as decisões partem de Londres).

Helen Mirren é a coronel Katherine Powell, chefe de uma missão secreta para localizar terroristas no Quênia. A captura, porém, transforma-se em operação de assassinato, para eliminar homens-bomba. Tudo é acompanhado pelo drone, e um espião, em terra, aciona outro equipamento, do tamanho de uma mosca varejeira, que entra nas casas, enviando imagens da reunião dos supostos terroristas, cujas atividades são controladas há mais de seis anos pela militar. Outro mecanismo, em forma de pássaro, também faz a vigilância da área.

O sul-africano Gavin Hood (que já dirigiu um dos filmes da franquia Wolverine) maneja com destreza o suspense, com a montagem ágil, intercalando cenas entre o comando, o ministério britânico das Relações Exteriores, as “salas de situação”, o local que está sendo vigiado e tudo mais que abrange a ação secreta. Todos os envolvidos na operação a acompanham em tempo real, com imagens nítidas de toda a área.

A decisão de transformar a operação de captura em um ato de extermínio dos suspeitos – quando se comprova que eles vão mesmo enviar os suicidas em uma missão – traz para o filme o que para alguns é uma opção moral e para outras apenas uma questão de Relações Públicas. Acontece que, ao lado da moradia que será o alvo do ataque, uma menina instala sua barraquinha para vender os pães que a mãe acabou de assar, em uma casa vizinha. Confronto que resume a complicada “moralidade” da guerra moderna.

Como observa um dos altos funcionários reunidos no Foreign Affairs, deve-se levar em conta que, caso os terroristas matem 80 pessoas em um atentado, “nós ganhamos a guerra da propaganda. Se matarmos uma criança, nós perdemos”. Há mesmo quem mencione o fato de ser difícil escapar dos problemas causados por um vídeo postado na internet, com imagens de um massacre de civis.

Ao contrario da telefonia brasileira, as comunicações são perfeitas entre os envolvidos na ação e por telefone, pede-se ao espião que compre todos os pães da menina, para que ela saia do local. Mas quando as coisas começam a dar errado… 

De Nevada chegam os pedidos para que se decida sobre a ação. Mesmo porque há procedimentos a serem adotados, como o cálculo das probabilidades de que a morte da criança seja inevitável. O que não escapa a uma das chefes da ação, que teme “colocar toda a operação em risco por conta de uma questão de dano colateral”.

Ninguém quer assumir a responsabilidade de apertar aquele gatilho. De cima, invisível e impessoal, há a complexa criação voltada para o controle militar e político. No solo, sendo vista por todos da operação, uma menina de nove anos vende pão. É a alta tecnologia fazendo o serviço. Mas os envolvidos todos sabem que de uma mão humana será detonado o mecanismo de explosivos. E de uma das mentes pode sair a ordem de extermínio.


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