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De “toma lá, dá cá” para “em troca de quê?

Klaus Kleber Poucas vezes o jogo político foi tão claro. O ministro da Economia Paulo Guedes já disse que o governo vai liberar novamente as contas inativas do FGTS, que […]

02/06/19

Klaus Kleber

Poucas vezes o jogo político foi tão claro. O ministro da Economia Paulo Guedes já disse que o governo vai liberar novamente as contas inativas do FGTS, que já devem ser poucas, junto com PIS/Pasep. Esse dinheirinho viria a calhar para muitos desempregados ou empregados com salários deprimidos. Isso, contudo, só será feito depois de a Câmara aprovar o projeto de reforma da Previdência.

Pouco importa para algumas autoridades que o Produto Interno Bruto (PIB) tenha caído 0,2% no 1º. trimestre em comparação com os último três meses de 2018. A economia já está estagnada e só os mais otimistas creem, a essa altura, que o PIB deste ano feche no terreno positivo, ente 0,5% e 1%.

Enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro cuida do lado político. De repente, passou a conceder longas entrevistas à TV e à revista Veja, entre outras publicações (aparentemente, a Rede Globo, pelo menos por enquanto, é anátema para o presidente).

Ele procura manter a chama acesa entre seu eleitorado, tomando outras medidas prometidas em campanha, como a liberação de armas para uma grande parcela de cidadãos, mas visando especialmente os integrantes da bancada ruralista, e tenta mobilizar os evangélicos, batendo na tecla de gênero e lembrando que falta um crente no Supremo Tribunal Federal (STF). 

Há sempre resistências no Congresso, mas, pelo que se tem visto, a maioria aprova à última hora boa parte da enxurrada de Medidas Provisórias que atulham a pauta.  Com um favorzinho aqui outro ali, o governo consegue o que deseja.

Agora, a maior movimentação se dá em torno da MP que necessita do aval do Congresso para uma suplementação orçamentária de R$ 248 bilhões. Se não obtiver esse aval, o governo não poderá arcar daqui a pouco com despesas correntes sem ferir a chamada regra de ouro.

O governo pode obter o que deseja, mas não o fará com tranquilidade. Fala-se que há uma forte facção no Congresso disposta a só votar pelo aval se o governo se comprometer que a reforma da Previdência não atinja os funcionários dos governos estaduais, isto é, deixando aberta uma brecha que poderá sangrar bilhões nos próximos anos.

Há governadores, como João Doria, que acham que o governo federal não pode permitir essa hemorragia, já que os Estados também estão com a corda no pescoço para pagar aposentadorias. Tudo vai depender de negociações. O “toma lá, dá cá” pode ter acabado em termos de cargos, mas a turma de parlamentares dispostos a defender a autonomia dos Estados na Previdência vai querer alguma compensação. Vê-se que o “toma lá, dá cá” evoluiu para “em troca de quê”?


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