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Daniel Auteuil, um diretor à altura do ator

Claudia Bozzo O melhor do Festival Varilux (realizado este ano de 7 a 20 de junho, em todo o país) é que, se a gente perder algum dos filmes – […]

20/08/18

Claudia Bozzo

O melhor do Festival Varilux (realizado este ano de 7 a 20 de junho, em todo o país) é que, se a gente perder algum dos filmes – ou todos – depois pode recuperá-los, pois entram rapidamente no circuito comercial normal. No momento, há quatro deles em exibição em São Paulo: “Custódia”, “Troca de Rainhas”, “A Aparição” e “O Orgulho”.

Para quem gosta de cinema francês – e não se importa em sair do cinema carregando certezas – ainda há uma obra do excelente diretor Robert Guédiguian (“Uma casa à Beira-mar” de 2007). Sem contar o novo filme dirigido por Daniel Auteuil com base em roteiro adaptado de Marcel Pagnol (falecido em 1974), “A Outra Mulher” de 2018.

Algo a celebrar a presença de tantas obras de qualidade, embora lamentando a ausência de mais filmes ingleses – “A Festa” ainda está em cartaz.

Daniel Auteuil prossegue em seu “plano B” de se manter no circuito do cinema, agora como diretor, sem abrir mão de sua presença como ator, nesse novo filme, “A Outra Mulher”, no qual conta com atores à sua altura, como Gerard Depardieu, Sandrine Kiberlain e a bela espanhola Adriana Ugarte (Emma), que já havia interpretado a Julieta jovem no filme de 2016 de Pedro Almodóver, “Julieta”. Antes desse, fez o tocante “A Filha do Pai” (2010, também com roteiro adaptado de Marcel Pagnol, exibido em 2012 em São Paulo) e agora prepara-se para lançar o último da chamada trilogia de Marselha, do mesmo Pagnol.

O filme tem um roteiro muito interessante. Quatro amigos reúnem-se para um jantar e Daniel, o personagem de Daniel Auteuil, um editor, é dono de uma imaginação das mais férteis e durante a conversa com os amigos, “viaja na maionese” imaginando coisas, sempre com a bela Emma. Às vezes não dá para perceber quando é a imaginação dele que se soltou das rédeas, e quando é a realidade presente, principal qualidade do roteiro, que amarra bem todas as situações, apesar da aparente confusão. E com atores como esses, o que poderia dar errado?

Uma das cenas inesperadas é quando, durante a degustação das entradas, a jovem Emma, aspirante a atriz, levanta-se e delicadamente abaixa o zíper do chamativo vestido vermelho que modela seu corpo escultural. Verdade ou imaginação? As surpresas se sucedem. O casal Depardieu-Ugarte acaba de se unir, e antes ele fora casado por vinte anos com uma amiga do casal Auteuil-Kiberlain, o que trava o relacionamento no princípio. Mas vinho, champagne e boa comida aliviam o ambiente e o diálogo flui tranquilo. Mas não a irrefreável imaginação de Auteuil, que literalmente alça voos inesperados.

O roteiro inteligente e os bons atores fazem do filme uma atração leve e divertida. O que não é assim tão comum no cinema francês.

Outro dos filmes em cartaz, “A Aparição” (2018), com Vincent Lindon como ator principal, é dirigido por Xavier Gianolli, o mesmo de “Marguerite” (2015) no qual Catherine Frot está no mesmo personagem interpretado por Meryl Streep em “Florence: Quem é Essa Mulher?” (2016), de Stephen Frears.

“A Aparição” começa em meio aos conflitos no Oriente Médio, provavelmente na Síria, onde o jornalista Jacques Mayano é ferido na explosão de uma bomba e no atentado, perde um amigo. De volta à França, recebe o convite para apurar uma história totalmente diferente. Uma jovem, Anna, está sendo alvo de adoração em uma pequena cidade do sul da França, pois alega ter todo uma visão da Virgem Maria.

O Vaticano, desconfiado, contrata o jornalista para investigar o caso, ao lado de uma comissão de religiosos, que inclui estudiosos e uma psiquiatra. O filme segue por caminhos inesperados, e o melhor é não adiantar nada, pois é no incerto que está o interesse. Mas o caminho é o mesmo que por outras vias, tomam tantos filmes engajados da atualidade, incluindo “Uma Casa à Beira-Mar”, do sempre político marselhês Robert Guédiguian.

Daniel Auteuil está também em “O Orgulho”, onde é um mal-humorado professor de direito, que abriga sob suas asas uma jovem de origem árabe, tanto pelo que percebe de potencial nela, quanto pela sua necessidade de fazer as pazes com a direção da Faculdade, pois seu temperamento não é dos mais fáceis de engolir. Outro filme que vai na rota da convivência entre os diferentes estratos da sociedade francesa.


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