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Contra a epidemia de blockbusters nos cinemas, o Netflix tem boas opções, entre elas “Boss”

Claudia Bozzo Nem estamos em julho ainda, a época das férias escolares, em que as salas de cinema ficam tomadas por todo tipo de filmes de ação, infantis ou infantilizados, […]

01/06/14

Claudia Bozzo

Nem estamos em julho ainda, a época das férias escolares, em que as salas de cinema ficam tomadas por todo tipo de filmes de ação, infantis ou infantilizados, comédias bizarras, e a invasão já começou. Só “o filme da Angelina Jolie”, como comentam as pessoas nas filas do cinema, “Malévola”, está em 32 complexos, e na maioria deles ocupando duas ou três salas! Sem contar “Godzilla”e outros.

Fica difícil sobrar um bom horário para um filme de melhor qualidade. Que parecem ter-se retirado em sinal de protesto pela ruidosa vizinhança. Pouca coisa restou, mas em horários tão limitados que a seleção é complicada. Sem contar que algumas promessas são só promessas, como o espanhol “O que os Homens Falam”, que traz Ricardo Darín, normalmente uma garantia de qualidade. Mas um argentino só não faz um filmão. (Na verdade são dois, incluindo Leonardo Sbaraglia, ator de “Epitáfios”, interessante série da TV argentina.) O que faltou para esse filme foi um dos bons e confiáveis roteiristas argentinos.

Ainda há “Getúlio”, de João Jardim, com Tony Ramos, sobre os últimos dias de um dos mais importantes homens da nossa história. O filme vai de 5 de agosto de 1954, data do atentado contra Carlos Lacerda, no qual morreu o major Vaz, até o fatídico dia 24 de agosto. Mas os horários disponíveis são infames, e as salas poucas. O mesmo para franceses e inesperados filmes da América Latina. O paraguaio “7 Caixas” resiste, firme, no Espaço Unibanco Frei Caneca, mas “Pelo Malo” uma insólita co-produção da Venezuela , Peru, Argentina e Alemanha” está em uma única sala.

Como daqui para a frente só vai piorar, o jeito é criar rotas de fuga. O Netflix tem atendido a casos urgentes de “clientes” mais interessados em qualidade. Além do incensado “House of Cards”, com Kevin Spacey, já na segunda temporada, o serviço traz outra série sobre política, originalmente apresentada pelo canal TNT: “Boss”.

Trata-se da história do corrupto e maquiavélico prefeito de Chicago, Tom, Kane, interpretado por Kelsey Grammer, uma mistura de Ricardo III com Richard Nixon. A história, do iraniano Farhad Safinia, formado em economia por Cambridge, tem produção executiva de Grammer e  Gus Van Sant, cujo currículo como diretor tem pontos altos como “Milk: A Voz da Igualdade” e como produtor o interessante “Laurence Anyways”, do canadense Xavier Dolan.

Grammer, que de 1984 a 2004 foi um dos maiores sucessos da TV americana, com os seriados “Cheers” e “Frasier”, abandona a comédia e interpreta o sombrio prefeito Tom Kane, que sofre de uma doença degenerativa e incurável, um tipo de demência que afeta sua fala, traz delírios e instabilidade. Ele esconde a doença de todos e como cada qual está preocupado com seus próprios interesses, ninguém nota, mesmo quando os sinais são fortes.

Sua esposa, uma espécie de Lady Macbeth é a inimiga, que por questões de conveniência e apego ao poder torna-se a aliada oportuna. A filha, viciada em drogas, pouco ajuda Kane, às voltas com seus demônios internos. O pai, ex-prefeito de Chicago, preso a uma cadeira de rodas e ao seu próprio mundo interior traz mais um elemento de tragédia shakesperiana à trama. A construção dos personagens é de uma densidade elogiável, e a narrativa é tensa, muitas vezes tétrica, com personagens que parecem competir para mostrar-se mais e mais corruptos ou fisiológicos. Poucos escapam na história.

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Grammer teve o trabalho reconhecido, e recebeu Emmys e o Golden Globe por sua atuação. Está mesmo muito bom como Tom Kane, e dá ao seu papel toda a força fragilizada da qual ele necessita.

Pena que o seriado não fez sucesso nos Estados Unidos e ficará limitado às duas temporadas iniciais, com 18 episódios. De qualquer forma, para quem gosta de uma série política mais intensa, “Boss” é uma ideia. Assim como, pelo mesmo Netflix, a série britânica “The Hour”. Ainda há a oportunidade de se ver bons filmes de Darín, que procurando, dá para encontrar. O sistema é “espertinho” e pelas suas escolhas vai percebendo qual é a sua praia e acaba trazendo sugestões interessantes. Imperdíveis também as série “Wallander”, com Kenneth Branagh, “Luther”, com Idris Elba e “Sherlock” com o onipresente Benedict Cumberbatch.

O bom do Netflix é garimpar. Há muitas pepitas a serem encontradas.


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