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Como um bom vinho, o cinquentão “Blow-up” mantém a qualidade

Claudia Bozzo Em estudo no qual analisa a atividade cinematográfica no Reino Unido, mencionando “a grande virada dos anos 1960”, o cineasta francês Bertrand Tavernier afirma que “o cinema britânico […]

22/01/17

Claudia Bozzo
Em estudo no qual analisa a atividade cinematográfica no Reino Unido, mencionando “a grande virada dos anos 1960”, o cineasta francês Bertrand Tavernier afirma que “o cinema britânico permaneceu durante longo tempo ligado às memórias da adolescência, no que ela tinha mais burguesa”. Era um cinema, segundo ele, que se baseava “em convenções, regras, códigos de linguagem, comportamentos que muitas vezes paralisam toda veleidade criativa”. E prossegue: “o povo inglês, como escreveu Ernest Bevin, sofre de uma pobreza de desejo”.

Só essa “virada”, então, explica a chegada do revolucionário “Blow-up”, em 1966, numa produção ítalo-britânica com a presença do produtor Carlo Ponti e dos roteiristas Michelangelo Antonioni e Tonino Guerra, com direção do primeiro.

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“Blow-up” ganha outra dimensão, 51 anos após seu lançamento ao retornar ao seu ambiente nativo, as telas dos cinemas, depois de muitas exibições em TV, lançamento em DVD e até com versão completa em sites da internet. Está no Caixa-Belas Artes, e mostra que as verdadeiras obras-primas não envelhecem.

É uma saudável tendência que chega ao circuito comercial paulista, com a apresentação de importantes filmes “antigos”, como é o caso no momento, de “O Homem que Caiu na Terra”(1976), de Nicholas Roeg, com David Bowie, obra que traz preocupações ambientais, vinda de uma época em que isso nem era moda nem preocupação das mais importantes, mesmo porque o mundo vivia a Guerra Fria e o aumento do poder bélico pelas grandes potências. Que venham pois os velhinhos: as telonas e seus fãs agradecem, sem precisar esperar pelas retrospectivas da Mostra de Cinema!

“Blow-up” tem uma importância ímpar na história do cinema. Foi premiado em Cannes, rendeu fortunas aos produtores e serviu de trampolim para os filmes sobre a liberação sexual dos anos 1960 e trouxe uma inesperada sensualidade ao cinema britânico, com as primeiras cenas de nu frontal de sua história. O que se repete em “O Homem que Caiu na Terra”, bem ousado, em relação ao cinema comercial de hoje em dia, assolado pela vulgaridade, mas avesso à sutileza e bom gosto. Também abriu as portas do cinema norte-americano a Antonioni, chamado para dirigir “Zabriskie Point” (1970) e “Profissão Repórter” (1976).

Em época onde o talento era matéria-prima em efervescência, “Blow-up” foi livremente adaptado a partir de um conto de Júlio Cortázar, “As babas do diabo” e volta-se para o suspense, ao mostrar um fotógrafo de moda, com o jovem David Hemmings em seus 24 anos – encarnando figuras, entre outras, de David Bailey, um dos mais famosos retratistas da época – que, ao passear por um parque resolve fotografar um casal. O inesperado assédio da jovem que foi flagrada na companhia de um homem mais idoso, e exige a entrega do rolo de filme, deixa-o intrigado. A jovem é a bela Vanessa Redgrave, e no diálogo com o fotógrafo, acusa-o de invadir sua privacidade.

Ao chegar ao seu estúdio na icônica Nothing Hill, O fotógrafo Michael resolve revelar as fotos (isso mesmo, nada de câmeras digitais, e sim, as chapas de contato também estão presentes) e ao ampliar uma delas, percebe que a personagem de Redgrave olha para o lado. De ampliação em ampliação (blow-up, em inglês) vai descobrindo um possível crime, pois apesar de toda granulação das imagens, consegue ver um revólver e um homem caído.

O filme traz grandes presenças, além da competente trilha sonora que mistura o jazz de Herbie Hancock e o rock dos Yardbirds, em uma apresentação num clube noturno.

No conto, Cortázar afirma: “Entre as muitas maneiras de se combater o nada, uma das melhores é tirar fotografias, atividade que deveria ser ensinada desde muito cedo às crianças, pois exige disciplina, educação estética, bom olho e dedos seguros. Não se trata de estar tocaiando a mentira como qualquer repórter, e agarrar a estúpida silhueta do personagem que sai do número 10 de Downing Street, mas seja como for quando se anda com a câmara tem-se o dever de estar atento, de não perder este brusco e delicioso rebote de um raio de sol numa velha pedra, ou a carreira, tranças ao vento, de uma menininha que volta com o pão ou uma garrafa de leite. Michel sabia que o fotógrafo age sempre como uma permutação de sua maneira pessoal de ver o mundo por outra qual a câmara lhe impõe, insidiosa (agora passa uma grande nuvem quase negra), mas não desconfiava, sabedor de que bastava sair sem a Cóntax para recuperar o tom distraído, a visão sem enquadramento, a luz sem diafragma nem 1/250. Agora mesmo (que palavra,agora, que mentira estúpida) podia ficar sentado no parapeito sobre o rio, olhando passar as barcaças vermelhas e negras sem que me ocorresse pensar fotograficamente as cenas, nada mais que deixando-me ir das coisas, correndo imóvel com o tempo. E o vento já não soprava.” Esse conto faz parte de “As armas secretas”.

“Blow-up” chegou a servir de inspiração para dois outros filmes excepcionais, um deles “A Conversação” (1974) de Francis Ford Coppola, que mostra o trabalho de um investigador particular, interpretado por Gene Hackman e “Um Tiro na Noite” (1981), de Brian de Palma, com John Travolta no papel de um técnico de sonoplastia que ao gravar ruídos noturnos acaba registrando o som de um carro que cai num rio (uma referência nada sutil a acidente que aconteceu com Ted Kennedy e encerrou suas pretensões à Casa Branca).

David Hemmings, que dois anos mais tarde seria o anjo de “Barbarella”, onde atuou com Jane Fonda, disputou a participação em “Blow-up”, entre outros com o belo e talentoso Terence Stamp, inesquecível como Bernadette de “Priscilla a Rainha do Deserto” (1994) e famoso pelos casos com Julie Christie, Brigitte Bardot e Jean Shrimpton. No papel do fotógrafo Michael, transmite todo o entusiasmo do período que passou para a história como a Swinging London dos anos 1960, época em que os britânicos em vez de passarem recibo de pouca imaginação ao adotar o Brexit, fizeram fama como povo criativo e inovador, nas artes, na moda, arquitetura.

O filme traz ainda a participação da jovenzinha Jane Birkin, como uma das adolescentes que deseja ser fotografada por Michael, além de Sarah Miles e a modelo Veruschka, uma das mais famosas naquela época. Há até mesmo quem tenha notado a presença de Michael Palin (um dos Monthy Pyton), mas essa é mais difícil de localizar que Wally.


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