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Com Trump, qual raposa tomará conta do galinheiro econômico?

Leonardo Trevisan É sempre a moeda. Não importam muito os disfarces usados pelo candidato Donald Trump. Na hora do “vamos ver”, o presidente Trump cuidou do essencial. A escolha do […]

por Leonardo Trevisan
02/12/16

Leonardo Trevisan
É sempre a moeda. Não importam muito os disfarces usados pelo candidato Donald Trump. Na hora do “vamos ver”, o presidente Trump cuidou do essencial. A escolha do secretário do Tesouro (mais ou menos o nosso ministro da Economia), Steve Mnuchin, foi “esclarecedora”. Tanto quanto a nomeação do secretário do Comércio, Wilbur Ross, quem cuida do que os EUA devem comprar e vender do mundo.

Os disfarces para ganhar eleição, a guerra ao imigrante e ao politicamente correto, o apoio a posse de armas e `”supremacia branca” apenas sustentavam o discurso de Trump. Esse discurso, típico da nossa era, bem longe de ser só americano, era só herdeiro direto do desastre financeiro de 2008. Nada muito diferente do que já vinha sendo praticado lá (o segundo governo Obama expulsou quase 3 milhões de “ilegais”), tudo rigidamente definido pelo Congresso, bem controlado nas duas Casas pela direita republicana.

Nenhuma grande novidade nisso. Quem duvida pense, por exemplo, na tragédia operacional do Obamacare, que foi até aprovado pela Suprema Corte, mas pouco saiu do papel. Sem exageros, o discurso eleitoreiro de Trump, bem olhado os usos e costumes americanos dos últimos anos, era só “mais do mesmo”. De novo, quem duvida lembre do sucesso da “lógica Tea Party” das candidaturas republicanas nas duas eleições de Obama.

Outra coisa, bem diferente, foi a nomeação de Mnuchin para cuidar da economia americana. Nesse ponto aparece a face verdadeira da candidatura Trump que tanto assustava até a cúpula do Partido Republicano. É preciso olhar com mais cuidado quem é – e o que quer fazer – esse legítimo representante de um tipo de pensamento vigente em Wall Street. Em outras palavras, que tipo de raposa de Wall Street foi nomeada para cuidar do galinheiro econômico americano.

O fato de ser mais um banqueiro da Goldman Sachs neste posto não assusta em si mesmo. Os últimos secretários do Tesouro tiveram a mesma origem, tanto faz o presidente: Timothy Geithner, de Obama, Hank Paulson, de Bush, ou Robert Rubin, de Clinton, para lembrar três nomes. Mnuchin é mais um dessa mesma “família”. Mas, é um pouco “diferente” dos demais, para dizer o mínimo. Principalmente na coragem de dizer o que vai fazer, sem cerimonias. Desde Ronald Reagan, um representante de Wall Street nunca foi “tão Wall Street” ao exercer este o posto de secretário do Tesouro.

O histórico profissional de Mnuchin causou preocupação. A Bloomberg (matéria de Saleha Mohsin) lembrou que o Senado terá de fazer “exame rigoroso” da decisão de Mnuchin de comprar em 2009, no auge da crise, a falida instituição de crédito imobiliário Indy Mac, rebatiza-la de One West, recapitaliza-la de forma “inovadora” e revende-la depois, o que significa, “na prática lucrar muito pesado com a crise do crédito imobiliário, o subprime”. Em San Francisco há acusação formal à One West de “más práticas na retomada judicial de imóveis”.

A empresa de Mnuchin, One West, foi uma das maiores beneficiados pela quebra do mercado hipotecário americano como mostrou matéria do El Páis, assinada por Sandro Pozzi. Este texto relembra que Mnuchin e um irmão dele foram arrolados no processo para compensar os prejudicados pela enorme fraude de Bernard Madoff. A íntegra deste artigo está no endereço: http://internacional.elpais.com/internacional/2016/11/30/actualidad/1480462226_775020.html

Os problemas com tais “práticas” levaram Mnuchin a trocar de ramo, migrando para Hollywood. Os lucros com o negócio de títulos de “crédito podre” justificam o investimento na produtora de filmes Rat-PacDune, responsável por 34 blockbusters de altíssimo retorno como “Avatar”, por exemplo, a maior bilheteria da história do cinema, US$2,7 bilhões.

Quanto ao que fará, Mnuchin já avisou a que veio em termos de reforma fiscal. Como mostrou artigo detalhado de Amanda Mars no El País, o programa fiscal do secretário de Trump irá reduzir a três faixas o imposto de renda (12%, 25% e 33%) frente às sete faixas atuais. Nestas, o máximo de cobrança alcança 39,6%. A mudança de Mnuchin vai bem na direção de cobrar muito de quem tem pouco e cobrar bem pouco de quem tem muito. O mais preocupante – como já apontaram inclusive lideranças republicanas – é o anúncio de que o imposto para empresas cai dos atuais 35% para 15%. O impacto no déficit fiscal do país será razoavelmente rápido.

A mídia americana mais voltada para economia repetiu, com insistência, que o problema maior com Mnuchin é a “pressa” com que ele anunciou o plano de mudar a legislação de regulação financeira, estimulada pela gestão Obama , após a violenta crise de 2008.Na primeira entrevista após a escolha, Mnuchin avisou que todas as normas que passaram a regular o mercado financeiro após a crise, eram “demasiado complicadas” e que “restringia o crédito”. Mnuchi foi bem claro: “queremos desfazer partes da lei Dodd-Frank e essa será a prioridade número um”.

A lei Dodd-Frank é o conjunto de regras que coloca limites nos títulos de “crédito podre”. Em outras palavras, a lei que impede que bancos incentivem pessoas que não tem poder aquisitivo a endividarem-se com créditos que não podem pagar, especialmente os imobiliários.

A nomeação de Wilbur Ross, um investidor bilionário, para secretário do Comércio preocupa pela pouca familiaridade com a área. Ross foi o financiador dos empreendimentos de Trump, quando a rede de cassinos do então empresário faliu em 1990. Artigo de Matea Gold, no Washington Post, apontou em detalhes os problemas da “convivência” de Ross, um dos maiores financiadores da candidatura Trump, no comércio internacional

A senadora democrata Elizabeth Warren definiu a indicação de Mnuchin como “um tapa na cara dos eleitores que acreditaram em Trump para sacudir Washington”. A imagem é forte, mas não injusta.

Quem quis acreditou que Trump enfrentaria Wall Street. O maior receio da cúpula do Partido Republicano era quem Trump traria de Wall Street para Washington. Eles estavam certos.


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