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Cinema-verdade pega um táxi em Teerã

Claudia Bozzo O filme “Taxi Teerã”, do diretor iraniano Jafar Panahi, um persistente defensor do direito de expressão e dos direitos humanos, tem uma leveza e simpatia que disfarçam sua […]

22/11/15

Claudia Bozzo
O filme “Taxi Teerã”, do diretor iraniano Jafar Panahi, um persistente defensor do direito de expressão e dos direitos humanos, tem uma leveza e simpatia que disfarçam sua profunda crueza. É até possível sair com um sorriso do cinema. Mas o filme é daqueles que “grudam”. Ficam lá na sua cabeça e a realidade se impõe, com toda a brutalidade de uma existência sob mordaça, restrição ao pensamento independente e coordenadas oficiais sobre conduta que beiram o absurdo. Como as normas sobre o que é um filme “exibível”, mencionadas pela sobrinha de Panahi, uma das passageiras daquele improvável taxi.

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Panahi reforça o tema já desenvolvido em duas outras de suas obras, “Este não é um Filme”, de 2011 e “Cortinas Fechadas” de 2013: o cineasta que não pode se exprimir pela sua arte. Simulando um documentário, Panahi, já condenado pelo governo iraniano a seis anos de prisão domiciliar e proibido de realizar filmes durante vinte anos, circula com seu carro pelas ruas de Teerã e recebe passageiros que mostram um painel da sociedade na qual ele vive.

Um filme sem créditos, como se vê no brusco final, pois suas mãos estão atadas pelo governo iraniano que além de proibir que exerça sua profissão de cineasta, impede a distribuição de suas obras.

Nesse terceiro filme desde sua prisão, ele torna-se ainda mais ousado, quase um guerrilheiro, como definiu Peter Bradshaw, o mais importante crítico do jornal britânico “The Guardian”. Filma a si mesmo e a seus passageiros justificando o uso de uma câmera por uma questão de segurança. O que dá origem a um dos primeiros diálogos, entre um homem e uma mulher, ambos supostos passageiros. A menção da palavra segurança gera um revelador debate entre esses passageiros, com o homem defendendo a execução em praça pública de criminosos – uma prática do governo iraniano. Ficcional ou não, o debate é “molto bene trovato”. A mulher, que é contra, identifica-se como uma professora e o homem que defende a punição com tanto ardor, recusa-se a revelar sua profissão.

Outro passageiro é uma figura que pelo jeito, tem um papel muito importante entre as pessoas que defendem a liberdade de expressão: é um vendedor de filmes piratas, que reconhece o diretor e se lembra de ter-lhe vendido um filme de Woody Allen. Agora, ele presenteia o diretor com “Era uma Vez na Anatólia” (2011) do turco Nuri Bilge Ceylan. Ele transporta também duas senhoras e leva o vendedor de filmes piratas até um endereço, onde ele fornece filmes a um estudante de cinema.

Mais uma de suas temáticas, a situação enfrentada pela mulher no país, entra no banco traseiro de seu carro, na presença de um homem que sofreu um acidente e de sua mulher. Ele acha que vai morrer e tudo o que quer é deixar um testamento indicando-a como sua herdeira, senão, pelas normas da sociedade iraniana, tudo passará para os homens da família. O depoimento dele é filmado, para servir de garantia. Outra interessante passageira é uma advogada, amiga de Panahi, com a qual falam sobre direitos.

É com a presença da sobrinha, de 11 anos, que os melhores diálogos mostram a inevitável missão do filme. Ela conta ao tio que precisa fazer um filme que seja “exibível” para poder conquistar uma verba para fazer outro filme, também “exibível”. Panahi indaga qual o significado do termo, e a sobrinha tira de seu caderno as “instruções” de como se fazer um filme que possa ser apresentado. As regras vão desde evitar críticas (ou o “sórdido realismo”), a trazer personagens com barba e sem gravata. E, dentro do filme, a sobrinha de Panahi realiza um filme, ao acompanhar as desventuras de um catador de sucata que encontra dinheiro caído no chão.

Pode ser que “Taxi Teerã” não cruze a linha de apresentação do “sórdido realismo” mas traz uma enriquecedora visão do momento iraniano, além de mostrar as possibilidades de filmar digitalmente, transformando o pequeno espaço – o interior de um carro – em um microcosmo e janela para uma realidade. E a possibilidade de apresentar seus filmes a quem se interessa por essa tal de “liberdade de expressão”.


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