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Cinema francês retrata desesperança com humor

Detox está na moda, em todo canto. Que tal um detox cinematográfico para se afastar um pouco da cruel desesperança que nos cerca? Foi o que fez, no domingo (8/3/2020) […]

09/03/20

Detox está na moda, em todo canto. Que tal um detox cinematográfico para se afastar um pouco da cruel desesperança que nos cerca? Foi o que fez, no domingo (8/3/2020) o colunista de O Estado se S. Paulo, Luis Fernando Veríssimo; “Nesses dias em que a realidade nos assusta, o desafio é encontrar uma maneira de não escrever sobre a realidade, embora ela não nos saia da cabeça”?

E o cronista encontra nas batatas e no seu plantio um meio de ficar o mais longe possível do “catastrófico noticiário do dia”.

Cinema é uma ótima rota de fuga em tais momentos. Mas nem sempre recorre à alienação para obter resultados de narrativa ou estéticos. Por sorte, existe o cinema francês. Dois filmes exibidos recentemente fazem essa magia de nos levar à distração, ao riso, mas sem tirar os pés do chão. Tanto o ótimo O Melhor Está por Vir (2019), com dois dos bons atores franceses, Fabrice Luchini e o também cantor Patrick Bruel, que mostra recorrendo ao humor sutil, aos diálogos inteligentes, a história de dois amigos de infância, na qual um deles tem câncer. E ao outro, fica a dura tarefa de revelar ao primeiro sua real condição.

Outro filme que não deveria ter sido tirado de circuito, com a com a passagem do dia da mulher este mesmo domingo, é o belo e emocionante As Invisíveis (2018).

Nos dois, o melhor dos franceses, a solidariedade e a valorização do humano são personagens centrais. O Melhor Está Por Vir, sob a direção dos experientes Alexandre de La Patellière, Matthieu Delaporte recorre ao riso para enfrentar o difícil enrosco da confusão que serve de reforço à ligação dos dois amigos, cada qual com seus problemas mais intrincados e seus silêncios. Arthur (Fabrice Luchini) é um médico bem conservador, certinho, que ainda nem conseguiu tirar a aliança, mesmo separado há tempos da esposa, que até já vive com outro companheiro. Seu amigo, o bon-vivant César (Patrick Bruel) se esforça e até tem alguns bons resultados para tirá-lo do sério.

O tema é a morte que se aproxima rapidamente, um fato difícil de ser tratado com o humor ou mesmo ser encarada de frente por um dos amigos, mas é aí que está sua principal qualidade. Como uma comédia de erros, o filme vai de um mal-entendido ao outro, sem deixar vítimas pelo caminho e se traz alguma lágrima é pela sua valorização da humanidade, sensibilidade e acima de tudo, respeito.

As Invisíveis, embora nos jogue sem avisar no país dos coletes amarelos, também se escora no humor, para contar a história de um dos muitos casos de falta de sensibilidade do poder público em relação aos mais frágeis. O filme trata da condição de um grupo de mulheres sem-teto que precisarão recorrer a muita criatividade e artimanhas, ao ficar sabendo que o abrigo da prefeitura que as acolhe será fechado. O filme trata tanto da condição dessas mulheres como das três dedicadas assistentes sociais, que se unem para encontrar uma solução.

É um filme quase que recorrente na cinematografia francesa, que pela narrativa, humor e doçura carrega uma denúncia social que acaba sendo ouvida pelas autoridades, como foi o caso de Bem-Vindo, sobre a criminalização das pessoas que ajudavam os refugiados, protesto ouvido por políticos e autoridades. Ou de tantos outros que expuseram a situação de professores em escolas de periferias, de minorias injustiçadas, de estrangeiros vitimados pelo preconceito e até mesmo argelinos que lutaram pelos franceses na II Guerra e só receberam o prometido pelo governo (Dias de Gloria, 2006) após a consagração do filme.

Não é um problema simples, o das mulheres desabrigadas na França. Segundo estatísticas, elas representam 38% da população sem-teto do país, um índice que teve aumento geral de 50% nos últimos 11 anos. Os centros de acolhimento, porém só recebem as mulheres durante o dia, dando-lhes o direito de tomar banho, receber refeições e ter uma ou outra atividade. Mas os leitos para passar a noite devem ser buscados todos os dias, tão grande a procura por eles.

O humor ajuda a nos fazer deglutir a amarga realidade. As desabrigadas recorrem a pseudônimos: são Brigitte Bardot, Dalida, Lady Di. O diretor, Louis-Julien Petit de 36 anos, atuou como diretor assistente em Conversas com Meu Jardineiro (2006)com Daniel Auteuil, Jean-Pierre Darroussin. Ele tem grande experiência com comédias e sua atuação como diretor e roteirista se consolida pela sensibilidade ao mesclar humor a uma desconfortável realidade social.

Embora As invisíveis tenha saído de circuito, é bom guardar o nome, pois ele dever voltar por aí, seja pelo Netflix ou por algum dos canais a cabo que valorizam a qualidade.


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