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Cinema contribui para discussão do tema fake News com obras do Reino Unido, EUA e Polônia

Claudia Bozzo Se alguém ainda estava em dúvida se acompanhava o noticiário sobre a convenção republicana que ratificou a candidatura de Donald Trump, existem pelo menos três filmes imperdíveis que […]

30/08/20

Claudia Bozzo

Se alguém ainda estava em dúvida se acompanhava o noticiário sobre a convenção republicana que ratificou a candidatura de Donald Trump, existem pelo menos três filmes imperdíveis que servirão como um bom norteador. O discurso de encerramento do atual ocupante da Casa Branca, que quer manter o endereço na avenida Pensilvânia por mais quatro anos, desenhou um cenário distópico, assustador, dos Estados Unidos nas mãos dos democratas, na liderança das pesquisas, com Joe Biden. Receita pronta de fake news. Segundo o comentarista Daniel Dale, da rede CNN, Trump apresentou pelo menos 20 fatos mentirosos ou enganadores no discurso. E chamou o presidente de um “mentiroso serial”. Para o Washington Post, foram 25 as declarações falsas.

Como sempre, o bom da Netflix é a Netflix. A plataforma de streaming é um sonho realizado. A seleção de filmes, que incluem Noruega, Grécia, Turquia, Islândia e temas que vão do documentário sobre culinária ou arquitetura e questões atuais, incluindo imigração, refugiados, corrupção, política. Muito oportunamente para o Brasil atual, traz a discussão em torno das fake news e os discursos de ódio.

O conceito de notícias falsas – presente todos os dias nas declarações de líderes populistas e em período pré eleitoral, pode ser uma abstração para muitas pessoas, tão bem produzidas e elaboradas que descem goela abaixo como se verdade fossem.

Há o filme “Brexit”, com Benedict Cumberbatch, apresentado há alguns meses pela HBO, e a Netflix traz o documentário americano “Invasão da Privacidade”, que graças à mobilidade permitida pelo serviço, exibe uma versão atualizada. 

Mas a boa novidade é polonês “Rede do Ódio”, mostrando as entranhas de uma agência encarregada de destruir reputações e carreiras políticas, dirigido por Jan Komasa, o mesmo de “Corpus Christi”, um dos indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro na última edição da premiação e confirmando a tradição de qualidade do cinema polonês. Foi premiado também no Festival de Cinema de Tribeca.

Esse último, “Rede de Ódio” (The Hater, em inglês) acompanha o eficiente funcionário da agência, o jovem Tomasz Giemsa (Maciej Musialowski), que navega com grande participação nesse mar de turbulência por conta de frustrações pessoais, que são expostas aos poucos. Sua atividade mostra o ambiente tóxico onde circulam essas pessoas, suas motivações e ambições desmesuradas. É um filme que discute ética, noção desconhecida e ignorada pelos personagens.

Importante é como a obra retrata os ressentimento de Tomasz e dos outros integrantes desse tipo de mundo, uma visão muito útil para quem acompanha o noticiário sobre a repressão a essa “variedade” de notícias e a atividade na chamada mídia social, que dá o privilégio do anonimato (perfis falsos, atuação de robôs replicando a mentira e a difamação e outras atitudes) a seres tão fora de um padrão de normalidade psíquica.

Acolhido por uma família, Tomasz se vê obrigado a explicar que foi expulso da faculdade de Direito por ter gerado um texto com base em informações plagiadas. Ao sair, deixa o celular como se o tivesse esquecido, com o gravador ligado e depois ouve o quanto de desprezo a família – que o ajudava a pagar pela faculdade – tem por ele. Seu ressentimento alimenta o ódio e as medidas que toma para conquistar seu lugar na agência de marketing que o abriga, escalando degraus ao destruir vidas e reputações por onde passa.

A existência dessas “notícias” influenciou o Centro de Estudos sobre Tecnologias Web (Ceweb.br) – do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) – a desenvolver um projeto de pesquisa para a categorização de discursos de ódio na internet com uso de inteligência artificial. Em fase inicial, o programa conta com as parcerias da Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC) e Queen Mary University of London, e inclui a categorização dos discursos de ódio, e ainda criação de um código (em linguagem Python) capaz de identificar declarações hostis expostas na rede. O NIC.br foi criado para implementar decisões e projetos do Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.br, que é o responsável por coordenar e integrar as iniciativas e serviços da Internet no País.

Os fatos relatados em “Rede do Ódio” estão presentes nos outros dois filmes citados, como  “Brexit” (2019), que mostra a atividade do grupo que ajudou a Grã Bretanha a “optar” pela saída da União Europeia, tendo como personagem central Dominic Cummings (Benedict Cumberbatch), chamado de o “Rasputin” de Boris Johnson) hoje o consultor sênior do primeiro-ministro britânico. Toby Haynes, o diretor, vindo de uma bem-sucedida carreira na BBC, chegou a ser indicado para o Bafta, o Oscar britânico. Em detalhes, a colaboração estreita com a Cambridge Analytica.

Essa empresa é o centro de atenções de “Privacidade Hackeada”, outro bom documentário que a Netflix traz. Depoimentos de Steve Bannon, o articulador supremo de atividades desse tipo, que só não está na cadeia porque seus amigos pagaram fiança de US$ 5 milhões, pelas acusações de fraude contra contribuintes para a construção do muro entre os EUA e o México. Ele mesmo revela ter sido o criador do nome e do método de atuação da empresa, fechada para escapar das investigações. Bannon, articulador da campanha de Trump é sempre citado na imprensa brasileira como amigo da família Bolsonaro.


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