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Cinema comercial não é palavrão. Pelo menos não em francês

Claudia Bozzo O melhor do Festival Varilux de Cinema Francês (de 10 a 17 de junho passado), é saber que os filmes são lançados no circuito comercial. E já estão […]

05/07/15

Claudia Bozzo
O melhor do Festival Varilux de Cinema Francês (de 10 a 17 de junho passado), é saber que os filmes são lançados no circuito comercial. E já estão chegando. Esta semana entrou em exibição “Os Olhos Amarelos dos Crocodilos” que é uma bela amostra do bom cinema comercial francês: bons atores, uma história interessante, sempre baseado em um livro, boa direção.

O festival este ano esteve em cidades (80 cinemas), com 16 filmes, entre eles, o soberbo “De Cabeça Erguida”, com Catherine Deneuve e Benoît Magimel, o filme de abertura do festival de Cannes. Sua diretora Emmanuele Bercot, esteve em São Paulo, entre os convidados especiais, que incluíram o ator e cantor Patrick Bruel, que está em “Os Olhos Amarelos”..; e em “Sexo, Amor e Terapia”, comédia romântica de Tonie Marshall, a mesma diretora do conhecido “Instituto de Beleza Vênus” (1999).

Embora com os dois pés no folhetim, “Os Olhos Amarelos…” conta com os talentos de Bruel, da bela Emmnuelle Béart e Julie Depardieu. Mostra o relacionamento de irmãs (tão diferentes quanto podem ser duas irmãs) a vaidosa, frívola e mimada Iris (Béart), casada com um advogado bem sucedido e Josephine (Depardieu), uma pesquisadora e tradutora, que resolve se separar do marido desempregado e sonhador e fica com as dívidas contraídas por ele e os filhos. É a ele que se remete o título do filme.

Baseado no livro de Katerine Pancol, que vendeu mais de um milhão de exemplares, talvez não seja um filme imperdível, mas tem seu interesse, e é muitos furos acima de muitos outros em exibição. Iris, em busca de alguma relevância, dado o vazio de sua existência, resolve contar durante um jantar que está escrevendo um livro. E cita como tema exatamente a tese de sua irmã, sobre a Idade Média. Um editor se interessa e lá se vai a trama com suas voltas e reviravoltas.

Outra das grandes presenças do festival foi “De Cabeça Erguida”, no qual Catherine Deneuve interpreta uma juíza de menores encarregada de dar um rumo possível para a vida de Malony, papel carregado com brilho pelo jovem Rod Paradot. A juíza conta com a colaboração de um educador, Yann, papel de Benoît Magimel.

Juíza e educador fazem o possível e dão o melhor de si e do que o sistema fornece, para encaminhar Malony, um jovem dominado pela raiva e ódio descontrolados, em razão de suas difíceis relações com a mãe e a ausência de um pai. Todas essas carências explodem em fúria quando menos se espera: um filme que emociona e prende a atenção até o último instante, ainda mais no momento em que vivemos no Brasil, toda essa comoção pela redução da maioridade penal. É extremamente oportuno e tomara que entre logo em cartaz.

Emmanuelle Bercot já dirigiu Catherine Deneuve em “Ela Vai”, de 2013 e além de diretora (tem 13 filmes no currículo) é atriz, trabalhando por exemplo, em “Polissia”, visto em 2012, filme que mostra o trabalho de uma divisão da polícia francesa encarregada de crimes contra crianças e adolescentes. “De Cabeça Erguida” tem uma força interna que faz dele uma das excelentes
possibilidades dramatúrgicas e humanistas do cinema. É ficar de olho quando for apresentado.
E não dá para deixar de falar de uma comédia – ah, o bom cinema comercial francês! ¬– “Que Mal eu Fiz a Deus”, com Christian Clavier. Ele é, sem dúvida um dos atores de maior bilheteria na França, pois é o Astérix da série, além de ter interpretado, com Jean Reno “Os Visitantes”. Nesse filme, apresentado na mostra da Varilux (que conta com inúmeros e importantes copatrocínios) Clavier é Claude, um pai de família católico, pertencente à chamada à tradicionalista “vielle France”, cujo ídolo é o general De Gaulle, que vê suas quatro filhas casarem com um chinês, um judeu, um árabe e um africano, da Costa do Marfim.

O diretor Philippe de Chauveron foi associado na França, às boas comédias de costumes e seu filme joga com os estereótipos e preconceitos o tempo todo, colocando-os em todos os personagens, sem deixar um sequer de fora. O que rende bons sorrisos, mais que gargalhadas. É um filme que, de uma certa forma, lembra vários outros, inclusive o ótimo “A Culpa é do Fidel”, recentemente reapresentado pela TV5. E para quem gosta de cinema francês, nunca é demais recomendar um passeio pela TV5, que no momento traz filmes de Jean Paul Belmondo (um total e absoluto desconhecido para quem tem menos de 40 anos!). A mostra Varilux trouxe um filme dele: “O Homem do Rio” (1964) , de Philippe de Broca.


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