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Carlos Sorín, o cineasta que da Patagônia fala ao coração das pessoas: “A Filha Distante”

Claudia Bozzo Além da reabertura do Belas Artes, agora o Caixa Belas Artes, há outro fato a ser comemorado: um filme do argentino Carlos Sorin, “Filha Distante”. Ele é o […]

28/09/14

Claudia Bozzo

Além da reabertura do Belas Artes, agora o Caixa Belas Artes, há outro fato a ser comemorado: um filme do argentino Carlos Sorin, “Filha Distante”. Ele é o mesmo diretor de “Histórias Mínimas”, de 2002, “O Cachorro” (2004) e “A Janela” (2008),  um melhor que o outro e todos inesquecíveis, na sua apurada abordagem visual, terno e competente trabalho de roteiro e escolha de elenco. Pena que o filme esteja sendo exibido em apenas um horário: às 18h30.

Sorin retrata a Patagônia e seus habitantes, gente simples, mas jamais simplória. Em “Filha Distante” (“Dias de Pesca”) ele conta a história de um vendedor, que viaja para a Patagônia em busca do diálogo perdido com a filha, por causa do seu divórcio e do vício da bebida. Depois de se submeter a tratamento, com nova energia e disposição ele parte em busca do diálogo perdido com a filha Ana. E aproveitando as férias, resolve tentar pescar uns tubarões, comuns na região.

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É também um caminho de reencontro consigo mesmo, de novas amizades, de coração aberto às possibilidades e chances que a vida pode trazer. É uma história de reconstrução pessoal, sem julgamentos ou questões morais. Um conto humano, sensível, o encontro com personagens inusitados ou banais. Um filme com a qualidade Sorin, sem a menor dúvida. E acima de tudo, montado a partir de um apuro visual  que torna cada fotograma uma obra de arte. Os enquadramentos são emocionantes, a direção de arte de uma simplicidade comovente.

Para falar a verdade, o filme pode ser visto, completo, no YouTube. Mas não vale a pena. É o tipo do filme que se deve ver no cinema, deixando-se envolver pela terna história, maravilhosas imagens, trilha sonora sempre adequada. Há uma comovente interpretação de “Che Gelida Manina”, de La Boheme, de Puccini, pelo personagem central, Marco, o cinquentão à procura de seu norte em uma das regiões mais ao sul do planeta.

Quem viu “Histórias Mínimas”, que acompanha a jornada de várias pessoas pelas planuras da fotogênica Patagônia, ou “O Cachorro”, a história do mecânico que possui um belo cão chamado “Bombón”, e também sonha com um recomeço na vida depois que seu mascote adotado ganha um prêmio em um concurso local, pode ir com a certeza de reencontrar Sorin em sua melhor forma. O mesmo diretor de “A Janela”, comovente relato das últimas horas de vida de um fazendeiro, à espera da chegada do filho, na mesma Patagônia.

Cineasta que não disfarça seu fascínio pela literatura e pelo bom cinema, admite a influência de “Morangos Silvestres” de Ingmar Bergman em “A Janela”, Sorin é um dos mais completos exemplos da grandiosa simplicidade argentina em cinema e literatura.

Como são bons seus roteiros! Como nossos “hermanos”, tão hostilizados no futebol, são mestres em bem contar uma história. Já foi dito aqui, eles representam hoje a mesma força que o cinema italiano já teve, pela generosa relação com os seres humanos que seu cinema demonstra. É até difícil entender o porquê dessa fama de ‘campeões mundiais de ego inflado’ da qual eles desfrutam.

A vontade que se tem, depois de assistir “A Filha Distante”, é de ver e rever todos os outros filmes de Sorin. Inclusive alguns que não chegaram ao Brasil, como se pode ver no site do Internet Movie Data Base (www.imdb.com).


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