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“Capital Humano” faz a gente perguntar: onde foram parar os filmes italianos?

Claudia Bozzo Existem muitos “Oscars” no mundo. Os mais famosos são o britânico Bafta, o francês César, o italiano David de Donatello, o brasileiro Kikito, do Festival de Gramado, e […]

01/03/15

Claudia Bozzo
Existem muitos “Oscars” no mundo. Os mais famosos são o britânico Bafta, o francês César, o italiano David de Donatello, o brasileiro Kikito, do Festival de Gramado, e mais recente o Magritte, do cinema belga. E outros menos importantes. A curiosidade em descobrir quais foram os filmes escolhidos como melhor produção estrangeira em cada um deles, nesse último Oscar (o polonês “Ida” venceu, injusto para o argentino “Relatos Selvagens”) resultou na descoberta de um filme muito interessante.
Trata-se do italiano “Capital Humano”, que venceu vários David de Donatello 2015, mas foi ignorado solenemente em todo canto. Nenhuma indicação, em lugar algum. Aqui, ele foi visto na rua, em quiosque de piratas. Mas está na internet e pode ser baixado.
De início, o filme dá aquela impressão de “hi, já vi isso”. Mas é só de início. Depois a história evolui, a narrativa se desconstrói em episódios, criando um conjunto interessante. O seu diretor e roteirista é Paolo Virzi, um desconhecido por aqui, foi visto apenas fazendo uma pontinha como um dirigente maoista (é o que informa o MovieDataBase) em “O Crocodilo”, de 2006, filme de Nanni Moretti (bem, está em boa companhia). É muito estranho esse prêmio italiano. O filme é de 2013, e entre os concorrentes estava “A Grande Beleza”, de Paolo Sorrentino, que venceu como melhor diretor e teve o grande Toni Servillo como melhor ator.
Aí a gente já fica pensando: será que a pesquisa está certa? Será que o ano é mesmo 2015? Sim a pesquisa está correta, pois o ganhador de melhor filme estrangeiro foi “O Grande Hotel Budapeste”, de Wes Anderson. Mas o estranhamento continua, pois competiu com “12 Anos de Escravidão”, de Steve McQueen; “Trapaça” de David O. Russell, “Blue Jasmine” de Woody Allen e “O Lobo de Wall Street”, de Martin Scorsese.
O que anda fazendo o cinema italiano? Será que o fato de todos os filmes serem dublados atrasa tanto assim a ida de um filme para as telas?
No nosso caso, o pior é que ficamos sem poder acompanhar coisas boas que estão sendo feitas na antiga capital mundial do bom cinema, que era a Itália, o berço de inspiração de inúmeros talentos em todo mundo. A Itália já foi um Norte para quem fazia cinema. Ou para quem só gosta de bons filmes. Nem a RAI nos ajuda, pois tem o estranho hábito de apresentar filmes americanos e não possui nenhuma série (fora o inspetor Montalbano) que atraia qualquer interesse. Ao contrário da TV5, que além de apresentar bons filmes, séries interessantes, documentário de primeira linha, ainda participa do investimento em coproduções.
Recentemente, vimos muito pouca coisa, boas, por sinal, como a já mencionada “A Grande Beleza”; ou “Viva a Liberdade”, de Enrico Oliveri e Giovanni Ernani ou “Que Estranho Chamar-se Federico”, de Ettore Scola. É pouco, muito pouco. Falta empenho das autoridades italianas, em promover os filmes para outros mercados? Não é o que acontece com a França ou a Bélgica, países nos quais o cinema tem significativa participação na pauta de exportações. Ou o talento anda em baixa por lá?
No Netflix, por exemplo, podemos encontrar outro filme italiano muito interessante – e divertido – “O primeiro que Disse”, de 2011, dirigido por Ferzan Özpetek, turco, radicado na Itália, que fez também o delicado “A Janela da Frente” (2005). Esses dois foram exibidos no Reserva Cultural.
Mesmo nas sessões de DVD das lojas e livrarias o produto italiano é escasso.
É uma pena. “Capital Humano”, que tem a atriz Valeria Bruni Tedeschi (ganhou como melhor atriz) e Valeria Golino ( levou o David como atriz coadjuvante), Fabrizio Gifuni (melhor ator)além do prêmios de roteiro original conta a história de duas famílias unidas pelo namoro de dois jovens, que a cobiça e ganância aproximam ainda mais. O pai do jovem tem uma dessas grandes corretoras de ações e negocia trilhões nos mercados de capital, o que traz o interesse do pai da jovem, que quer dicas para se aproveitar da amizade, e enriquecer na bolsa. Já se sabe para onde a história caminha. Mas o filme dá uma virada e vai mostrando em episódios separados os dramas de cada um dos personagens, o que fraciona a história em vários pontos de vista. Muito bem manobrados pelo roteiro. Um filme que vale a pena ver. Até pelo fato de ser italiano, nesse deserto de lançamentos pelo qual passamos.


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