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Boas opções nas telas e que 2016 tenha os bons filmes que merecemos

Claudia Bozzo Um italiano aqui, um argentino ali, um japonês lá, um alemão acolá. E com tantos outros bons filmes em cartaz este final de ano, até dá vontade de […]

27/12/15

Claudia Bozzo
Um italiano aqui, um argentino ali, um japonês lá, um alemão acolá. E com tantos outros bons filmes em cartaz este final de ano, até dá vontade de acreditar em papai noel!

O italiano é o novo filme de Nanni Moretti, “Mia Madre”, ainda em cartaz, que lida com o luto e a dor da perda de uma pessoa querida. E o argentino, “O Clã”, do diretor Pablo Trapero – o mesmo de “Família Rodante” (2004) e “Abutres” (2010) – é mais uma das belas obras que o país vizinho manda, quando se trata de contar uma história com rigor, competência e sensibilidade.

Captura de Tela 2015-12-27 às 11.50.40

Moretti, em “Mia Madre” é Giovanni, um engenheiro. A cineasta é a irmã, Margherita, interpretada por Margherita Buy, que além de estar às voltas com um filme sobre a ocupação de uma fábrica vendida a um grupo decidido a demitir funcionários, enfrenta outros dramas. Sofre com a doença da mãe – e um prognóstico dramático – uma separação, o relacionamento com a filha e os conflitos com o instável ator norte-americano convidado para um papel importante, no caso o ótimo John Turturro. O drama pendente acaba sendo aliviado em parte pela presença de Turturro, um ator incapaz de memorizar seus diálogos e que se gaba de ter trabalhado com Stanley Kubrick.

Giovanni e Margherita visitam a mãe todos os dias no hospital. Em entrevista a um jornal português, Nanni Moretti – cuja mãe, Agata Apicella – faleceu em 2010, enquanto ele estava filmando o premonitório “Habemus Papam” (filme que fala de um papa que deixa o posto, dois anos antes da renúncia de Bento XVI) nega que este seja um filme autobiográfico. Difícil de se acreditar.

O mesmo diretor de “Caro Diário”, “Aprile” “Caos Calmo” e outros, está lá. Só não vê quem não o conhece. Até ele admite, ao comentar a dor pela qual passou com a perda da mãe: “seria bonito dizer que este filme me ajudou a enfrentar o luto. Mas não foi assim. Não funciona assim. Pelo menos no que me diz respeito. Meus filmes não funcionam como uma autoterapia. Há tanto tempo, há tantos anos que faço filmes sobre meus tiques, sobre as minhas manias, sobre os meus nervos, sobre as minhas obsessões, mas ficou tudo na mesma. Se eu lhe contasse os meus filmes… Não há uma função autoterapêutica no cinema.”

As neuras de Moretti estão agora todas na irmã cineasta, a atriz Marguerita Buy, que interpreta uma psicanalista em “Habemus Papam”. Moretti explica que escolheu uma mulher para o papel porque a história, contada do ponto de vista feminino (contou com a colaboração de três mulheres roteiristas) deste modo “talvez a pudesse mostrar maior lucidez”.

Já o argentino “O Clã” opera em diferente registro dramático. Começa com um emocionante discurso de Raúl Alfonsín, o primeiro presidente civil depois da longa (1981-2001) e cruel ditadura que o país enfrentou, falando sobre direitos humanos, ao lado do escritor Ernesto Sábato que de 1983 e 1984 presidiu a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas, entidade que abriu caminho para a punição dos militares envolvidos em atos criminosos.

Jogando com flashbacks, Trapero mostra um cidadão, que em tudo parece ser o pai exemplar, Arquímedes Puccio (interpretado por Guillermo Francella), mas que na realidade operava um esquema de sequestros, ocultando-se sob uma fictícia Frente de Libertação Nacional.

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O caso é real, e o clã Puccio sequestrou quatro pessoas, na década de 1980, exigindo milhares de dólares dos familiares. Mesmo com o fim da ditadura, continuou agindo, pois como ex-funcionário de serviços de segurança, Puccio possuía muitos amigos ainda infiltrados no novo regime. É um homem frio, calculista, manipulador e envolve a família em seu esquema. Um filme bem estruturado, sem qualquer ponta solta, com atores excelentes – Trapero já havia mostrado essa habilidade de lidar com atores, com “Família Rodante”, que parece ter sido rodado apenas com amadores.

Mas nas telas não é só “A Força” que impera. As opções incluem o colombiano “A Terra e a Sombra”, “Macbeth – Ambição e Guerra”, o alemão “Labirinto de Mentiras”, “No Coração do Mar”, o japonês “Sabor da Vida”. Uma bela seleção e opções para quem escolheu a rara tranquilidade de São Paulo, cidade onde até o trânsito fica fácil de encarar nesses dias.


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