jul 09

Claudia Bozzo
“Perdidos em Paris” é certamente uma das melhores comédias dos últimos tempos. Claro, não é para público de chanchada, ou que gosta de diálogos e situações rudes, escatológicas e vulgares. É exatamente o contrário de tudo isso. E é um refresco em época de férias escolares, com os cinemas atolados em blockbusters.

Captura de Tela 2017-07-09 às 12.04.30

Fiona Gordon (canadense) e seu marido Dominique Abel (belga), juntos há 40 anos, criam o roteiro, atuam e dirigem seus filmes, dois deles já exibidos no Brasil. Foram “Rumba”, de 2008, sobre um casal de dançarinos que enfrenta uma tragédia, mas mantém o ânimo e a poesia e “Iceberg” de 2005, que conta a história da gerente de um fast-food que uma noite fica presa por acidente no refrigerador do restaurante e percebe no dia seguinte que ninguém se deu conta de sua falta. Há outro filme do casal, “A Fada” (“La Fée”, 2011), que pode ser visto em versão integral com legendas em espanhol no YouTube.

Ambos são também atores de teatro e explicaram em entrevista a uma emissora francesa que no palco, o riso e as reações da plateia funcionam como música, e é no seu ritmo que eles seguem. No cinema, vão pela intuição, muitas vezes no improviso, com dois pés no surrealismo e sempre dá certo. Impossível não se enternecer com “Perdidos em Paris”.

Fiona, bibliotecária no Canadá, recebe uma carta da tia, que mora em Paris e pede ajuda, pois há quem queira colocá-la em um asilo. “Imagine, tenho apenas 88 anos” conta a tia, Martha, interpretada por Emmanuelle Riva, que foi indicada para um Oscar por sua dramática participação em “O Amor”, ao lado de Jean-Louis Trintignant, falecida este ano, dois meses após o lançamento do filme na França.

Fiona parte em busca da tia, com sua imensa e desajeitada mochila mas há um desencontro, pois Martha quer se esconder para não ser conduzida pela assistência social a um asilo. Nesse desencontro ela conhece Dom (Dominique Abel), um vagabundo de bom coração, que vai ajudá-la, de forma canhestra, a encontrar a tia. Outro par é formado, quando a tia conhece Duncan, interpretado pelo talentoso cômico francês Pierre Richard, nas telas desde 1958. Os dois veteranos atores interpretam uma das mais belas cenas do filme, ao formarem dupla numa delicada dança num banco. Com Fiona e Dominique, formam um quarteto irresistível.

Conhecidos na França como Abel e Gordon, os dois atores reinventam o burlesco ao optarem pela comédia física e homenageiam ícones como Jacques Tati, Chaplin, Harold Lloyd, o mímico Marcel Marceu, entre tantos outros, sem jamais se afastarem do bom gosto, da ironia e sutileza. Outra das belas cenas é Fiona sendo conduzida… por um cego, até o consulado canadense, a fim de conseguir novo passaporte, pois perde a mochila nas águas do Sena.

“Perdidos” é desses filmes que deixam o espectador leve, e o riso no cinema acaba sendo contagiante. E comprova que fazer humor é mesmo muito difícil. Afinal, são tão raras obras simpáticas e comoventes como essa, que não dá para deixar passar.

written by Leonardo Trevisan


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