mar 07

Maria Cristina Amorim e Eduardo Perillo

A gestão dos serviços de saúde não pode prescindir de indicadores gerenciais. O gestor precisa acompanhar, controlar e assegurar processos e resultados, ou não há gestão de coisa alguma, muito menos do complexo sistema de saúde brasileiro. Os indicadores gerenciais são elementos-chave para controlar processos, resultados e pessoas, servem para subsidiar a decisão, mas a decisão de qualidade depende de muitos outros elementos – um gestor minimamente experiente sabe disso. A hipertrofia desses indicadores os transforma em agentes da ineficácia dos mesmos sistemas que deveriam ajudar a melhorar.

 Foucault (pensador francês do final do século XX) alertou que controlar não é trivial, os controles podem ser burlados ou desmontados. Os indicadores de desempenho e resultados são formas de controle poderosas: podem produzir exatamente o solicitado, mas também podem gerar efeitos perversos, até mesmo abaixo do limite ético e legal. A literatura sobre gestão avisa há mais de um século, indicadores devem ser usados com moderação e não substituem (e muito menos produzem) motivação e comprometimento, sem os quais, a casa cai.

 Vejamos exemplos de problemas causados pela substituição da gestão em seu sentido amplo por indicadores para controlar os sistemas de saúde. Nos EUA e Reino Unido, o uso de indicadores de resultados e do desempenho dos profissionais produziu distorções (de aumento de custos à redução da motivação dos trabalhadores) e não melhorou a saúde do público atendido. Assim, desde os anos 90, há um movimento para reduzir o uso dessas formas de controle. A íntegra da análise das experiências citadas está no artigo “Pagamento por desempenho: experiências e reflexões”, de Eduardo Perillo e Mª Cristina Amorim, disponível em cristinaamorim.com.br.

 No Brasil, problemas com indicadores de resultado na saúde pública datam 

da campanha de Osvaldo Cruz contra a peste bubônica, no início do século XX. O governo da cidade do Rio de Janeiro passou a pagar por rato recolhido, para incentivar o extermínio do vetor transmissor da doença. Ato contínuo, muitos brasileiros pobres elegeram a criação de ratos (verdadeiros ou falsos) como meio de vida, passaram a “viver de ratos”. A história está em Estratégias públicas no combate à peste bubônica no Rio de Janeiro, de Matheus Silva, e também no filme de 2011, A suprema felicidade, de Arnaldo Jabor.

 A Campanha da Fraternidade da Igreja Católica de 2012 elegeu a saúde como tema. Em entrevista à Folha de São Paulo (05/03/2012 – A16), o Arcebispo Metropolitano de São Paulo Dom Odilo Scherer chama atenção para o uso de modelos gerenciais nos hospitais, entre eles, a terceirização, enquanto “a saúde vai muito mal no Brasil”. Os contratos de terceirização dos serviços de saúde entre governo e organizações privadas dependem de indicadores de processos e resultados. De um lado, dinheiro público para agentes privados não pode circular sem controles, de outro, o uso indiscriminado de indicadores como parâmetros na gestão da saúde não garante a saúde do cidadão. Indicadores são sempre parciais, falíveis e podem induzir a severas distorções. Um pesquisador minimamente experiente sabe disso.

 A indução de distorções produzidas pelos modelos de gestão demasiadamente dependentes de indicadores não é um detalhe, é o problema que deve ser enfrentado pelos gestores de saúde. Temos que avaliar o quanto não estamos “vivendo de ratos”.

 Profª Dra. Maria Cristina Amorim. Prof. Dr. Eduardo Perillo.

Núcleo de Pesquisa em Regulamentação Econômica e Estratégias Empresariais do programa de pos-graduação em administração da PUC

written by Leonardo Trevisan


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