Klaus Kleber
A curta semana que se inicia será marcada pela política ou pela judicialização da política. Manobras no Congresso à parte, a grande questão que deve dominar o noticiário é a deliberação que o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) deve tomar no dia 11, quarta-feira, mantendo ou não o afastamento do senador Aécio Neves de suas funções, com obrigatório recolhimento noturno, uma medida cautelar que tem a aparência, o cheiro e o gosto de jabuticaba. As apostas variam de um placar no STF de 7 a 5 ou 6 a 5 a favor do senador mineiro, evitando assim uma crise institucional. Ufa!

No plano econômico, mais duvidosa será a decisão que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) na semana seguinte, ou seja, nos dias 24/25 de outubro. Para aqueles que preveem uma taxa básica de juros em 7% ao fim deste ano, não será surpresa se o Copom baixar a Selic em 0,75 ponto percentual no fim de outubro, trazendo a taxa para 7,50% e deixando para a reunião de 5/6 de dezembro uma redução de 0,50 ponto, fechando na marca prevista em 2017.

Acontece que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) emplacou 2,54% em 12 meses terminados em setembro e pode ser que a taxa acumula do Índice baixe mais em outubro, se não houver aumento dos combustíveis. Sem pressão dos preços dos alimentos e dos salários, apesar de recair em outubro a data-base de grandes categorias de trabalhadores. A maior pressão parece que deverá vir do aumento das contas de luz.

De qualquer modo, haveria condições para o Copom baixar a taxa de juros em 1 ponto percentual este mês, trazendo-a para 7,25%, o nível mais baixo obtido no governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Com uma baixa adicional de 0,75 ponto em dezembro, o BC diminuiria o juro real de forma apreciável e poderíamos, sim, ter uma Selic de 6,5% em 2018, como já antecipam algumas consultorias, o que parece uma quimera.

Contudo, não é só o comportamento da inflação que influi na fixação da Selic. Afinado com o Ministério da Fazenda e tendo lá suas próprias idiossincrasias, o BC também leva em conta a necessidade de aprovação da reforma da Previdência Social.

Para alguns analistas políticos, isso seria praticamente impossível ainda este ano, lembrando que a concessão ou não pela Câmara de licença para que o presidente Temer possa ser processado pelo STF – o que daria início a um novo processo de impeachment – vai ocupar o restante do ano legislativo.

Apesar de tudo, é possível que venha a ser aprovada uma reforma previdenciária ainda que aguada, se o governo recobrar força no Congresso. O que tudo parece indicar é que essa reforma continue no limbo até o final do governo Temer e que o tema domine os debates na eleição presidencial do ano que vem.

Klaus Kleber
O fato de as importações nacionais terem crescido 7,8% de janeiro a agosto em comparação com o mesmo período do ano passado é sinal de retomada da economia e assim é tido inclusive por instituições internacionais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC).

E, como se tem visto, a exportações, embora avançando mais lentamente (5,33% no período considerado), ainda garantem um superávit comercial recorde, que pode chegar a US$ 60 bilhões este ano.

A questão que alguns empresários vêm colocando é, se mantida a sobrevalorização do real, o crescimento da economia a taxa mais expressivas, a 3% ou 4% ao ano de 2018 em diante, acabaria canalizando uma grande parte do consumo interno para a importação, enquanto indústrias nacionais continuariam com grande capacidade ociosa.

Parece uma preocupação excessiva com uma coisa que ainda não aconteceu. A cotação do dólar deu recentemente uma deslizada e fechou na última semana em R$ 3,17, o que se tem atribuído à situação política interna e à valorização da moeda americana no mercado internacional. Contudo, não se pode negar que essa apreensão tem cabimento.

Como se tem visto, o Banco Central (BC) tem feito intervenções no mercado sempre que a cotação do dólar passa de R$ 3,25. A manutenção do câmbio flutuante continua, oficialmente, continua sendo um dos pilares da política econômica em vigor e, recentemente, o ministro Henrique Meirelles declarou que mexer com o câmbio não dá certo.

Mas o que se tem notado na prática é que o BC não descarta fazer uma manobra “suja” sempre que o real se desvaloriza mais do que os técnicos do BC consideram razoável, recorrendo a “swaps” cambiais, instrumento que a administração anterior de Alexandre Tombini usou e abusou.

E isto é feito, como convém, em nome do combate à inflação, sem esquecer que há muitas empresas brasileiras estão endividadas no exterior, entre elas a Petrobrás, a maior de todas. O que se pergunta é se o BC manterá a mesma política cambial se a taxa de inflação fechar este ano abaixo de 3%, como tudo está a indicar?

Pode ser que não, pois não haveria tanto temor dos efeitos inflacionários. Mas, na realidade, é que, apesar do movimento recente, a tendência do real é de valorização com a entrada de recursos externos não só para aplicação em ações e em títulos públicas, como em razão do processo de privatização, que, como se observou na venda de usinas da Cemig, tem atraído quase exclusivamente empresas estrangeiras.

Quer dizer, com o real tendendo a se valorizar mais, a autoridade monetária pode continuar falando de boca cheia em câmbio flutuante.

Claudia Bozzo
Há duas opções de filmes sobre mãe nas telas. Uma, insuportavelmente pretenciosa, chata e vazia é “Mãe” de Darren Aronofsky, que consegue transformar até Javier Bardén num ator menor.

A outra opção, deliciosamente inteligente e sensível, leva mãe só no título original, em francês, “Maman a Tort” (Mamãe errou) que recebeu aqui o título de “A Garota do Armário”.

O filme conta a história de Anouk, jovem de 14 anos que precisa, como todo estudante francês, fazer um estágio em uma empresa, em um determinado ponto de sua vida escolar. Filha de pais separados, ela pretendia cumprir a tarefa na emissora de TV onde o pai trabalha. Mas ele é demitido um pouco antes e ela acaba indo parar na seguradora onde sua mãe é funcionária de alto escalão.

O diretor, Marc Fitoussi, é o mesmo de “Um Amor em Paris” (2014), exibido aqui ano passado, uma história delicada sobre um casal de agricultores, os excelentes Isabelle Huppert e Jean-Pierre Darroussin.

A garota do armário é interpretada pela ruivinha Jeanne Justin, da qual é impossível gostar, logo no início, pois é o perfeito adolescente irritante. E lá vai ela sob protesto, para a grande seguradora na qual a mãe trabalha – claro, como toda empresa de grande porte o escritório fica em La Défense, o bairro mais modernoso da cidade.

A mãe, a belga Émilie Dequenne, é uma das atrizes favoritas dos irmãos Dardenne. Ela faz o que pode para ajudar a rebelde filha a se encaixar nos rituais e na estrutura da empresa, onde reina a atmosfera de tensão, puxa-tapete, fofocas e outras coisas que a esperta menina acaba descobrindo.

O filme é uma celebração da passagem de Anouk para a vida adulta, pois essa semana a faz amadurecer de forma extraordinária, ao se envolver com um dos casos que ela acaba tomando conhecimento, de uma viúva que não consegue receber o seguro pela morte do marido, devido a meandros jurídicos aos quais todos estamos sujeitos, embutidos nas letrinhas menores dos contratos que assinamos.

O diretor usa a personagem de Anouk para mostrar, a partir da visão de uma menina, como são surreais algumas das atitudes das pessoas envolvidas demais com os meandros corporativos. Quase como a personagem de “Toni Erdman”, um filme alemão, que mostra um pai preocupado com a excessiva dedicação da filha à carreira e ascensão aos estratos mais elevados. Um ambiente extremamente machista, belicoso, onde gente adulta brinca de bullying o tempo todo. Claro que existem as boas figuras. Mas estão nos andares inferiores da cadeia alimentar.

Além disso, o trabalho e o envolvimento da jovem Anouk marcam uma nova fase de relacionamento com a mãe, pelo convívio com as pessoas que a cercam e pela queda de algumas barreiras, inevitáveis. Até fisicamente foi cuidado para que Anouk mostrasse seu amadurecimento, a partir de uma nova postura corporal, nova forma de se vestir.

Um filme de muitos predicados.

Klaus Kleber
Não sou contra a privatização de serviços públicos, mas pergunto: é necessário privatizar unidades de uma empresa bem administrada, que dá lucros, cotada na Bolsa de São Paulo e de Nova York, e que não é objeto de nenhum escândalo em meio a centenas de roubalheiras que vêm à tona praticamente todos os dias?

Esta pergunta se impõe no momento em que o governo resolver levar a leilão na próxima quarta-feira, dia 27, quatro hidrelétricas construídas e administradas pela Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), controlada pelo Estado de Minas.

O presidente da empresa, Bernardo Salomão de Alvarenga, diz que vai recorrer à Justiça para evitar o leilão, mas tudo indica que o governo federal irá em frente, apesar dos apelos dos políticos mineiros, indo do governador Fernando Pimentel (PT) ao senador Aécio Neves (PSDB), além da população do Estado, que tem visto quanto o desenvolvimento regional nas últimas décadas deve à ação da Cemig, fundada em 1952 quando o governador do Estado era Juscelino Kubitschek.

O preço mínimo fixado é de R$ 11 bilhões, mas o governo pretende arrecadar bem, mais. Pelo que foi anunciado, o leilão é parte da política do atual governo de sair do setor elétrico, conservando sob o controle da Eletrobrás apenas a hidrelétrica de Itaipu por ser binacional. Por que não começa pelas hidrelétricas do Norte e Nordeste, que eram controladas por governos estaduais e foram depois federalizadas? Porque sabe que são empresas deficitárias, incapazes até de cobrar contas de muitos consumidores, com intensa proliferação de “gatos”.

Bem ao contrário, as quatro hidrelétricas da Cemig – Jaguara, São Simão, Miranda e Volta Grande – estão bem arrumadinhas, estão aí funcionando dentro da lei e dos regulamentos da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e o governo federal prevê forte competição no leilão, citando-se entre as interessados a Alupar, a francesa Engie e a chinesa State Grid.

Pelo menos quanto a São Simão, a maior das quatro hidrelétricas, a Cemig poderá talvez conservar, atuando em consórcio com a Vale no leilão. Fala-se também que Volta Grande poderia ser “devolvida” à Cemig.

Toda essa confusão é devida à Medida Provisória 579, de 2012, do governo da presidente Dilma Rousseff, que determinou que empresas que desejassem renovar antecipadamente suas concessões deveriam baixar o preço para os consumidores.

Sendo Antonio Anastasia (PSDB) então governador de Minas, a Cemig não topou o esquema. Não vamos discutir aqui se esta foi uma decisão certa ou errada, mas o fato é que a concessão das quatro usinas venceu e o governo federal é agora outro. E, como disse Alvarenga, a Cemig acabou caindo em uma armadilha.

A Cemig e o governo mineiro pediram um adiamento de apenas 15 dias, para se articular com outras empresas como sócias, receber dinheiro que a União deve ao Estado e/ou obter empréstimos para poder disputar o leilão em igualdade de condições, mas o governo federal tem pressa em arrecadar todo o dinheiro que puder para cobrir despesas correntes, e não quer mais conversar.

Ou seja, o governo tem necessidade urgente de dinheiro para pagar a folha de pessoal, em contínuo aumento, além de emendas parlamentares generosas para derrubar a segunda denúncia do Ministério Púbico para levar o presidente Temer a julgamento pelo STF. Em suma, fazer caixa para manter o déficit público em R$ 159 bilhões este ano.
É isso que significa a desestatização do governo Temer, que patrocina o Programa de Parceria de Investimentos (PPI), que de investimentos não tem nada.

Claudia Bozzo
Está acontecendo uma briga de foice entre os fornecedores de filmes por demanda e produtores de conteúdo, da qual estamos mais ou menos distantes, embora sejamos os alvos e os reais culpados. Alvos, porque todos querem nossa atenção. E culpados pela falta de fidelidade. TV a cabo, por exemplo: são cada vez maiores as desistências, pois as empresas (poucas opções, na verdade) servem um cardápio sem graça e caro demais. A TV aberta resiste, mas todos sabem que jovens não assistem mais, ou sequer conhecem novelas, por exemplo. Esse é um ambiente em ebulição.

Uma das razões para esse caos é que o cancelamento de assinaturas nos Estados Unidos, por exemplo, está se acelerando de forma mais rápida que o esperado pelos executivos de mídia. No último trimestre, quase um milhão de americanos desistiram de suas inscrições em serviços de TV paga, segundo uma estimativa de Craig Moffett, analista de meios de meios de comunicação na MoffettNathanson. (O Netflix acrescentou quase a mesma quantidade de assinantes nos Estados Unidos ao mesmo tempo).

Jovens, grupo particularmente cobiçado pelos anunciantes, estão se afastando da TV de forma especialmente rápida. A quantidade de pessoas com menos de 35 anos que assistem TV tradicional nos EUA caiu pela metade desde 2010, diz Matthew Ball, diretor de estratégia nos Estúdios Amazon.

No caso do Brasil, a séria crise pela qual passamos acelerou ainda mais essa tendência, embora os números sejam desconhecidos. Na semana passada, por exemplo, nos Estados Unidos, o Facebook caiu na boca dos críticos e da concorrência ao divulgar dados informando que tem como meta atingir um público de jovens que tem 25 milhões de pessoas a mais do que os dados oficiais do censo do país. A empresa disse que quer chegar aos 41 milhões de jovens entre 18 e os 24 anos (eles são 31 milhões segundo o Censo) e a 60 milhões entre 25 a 34 anos (são 45 milhões, informou o governo).

Entende-se tanto o esforço do Facebook, que está com os olhos voltados para a divulgação de vídeos, que virá no formato de uma aba, o Watch, invadindo o campo de outros serviços, como o YouTube ou de vídeos por demanda (como Netflix, Amazon, HBO, Hulu e outros). A empresa acredita que quanto mais tempo seus usuários permanecerem no site, mais anúncios verão e o lançamento de vídeos curtos e mesmo pequenos reality shows estão nos planos da inquieta empresa.

Segundo reportagem do New York Times, o futuro da TV é “desordenado e confuso”. Lá nos EUA a tendência de cancelamento de assinaturas gerou um fenômeno chamado de “caça ao canal”. São tantas as novas opções de vídeo por demanda que as pessoas passeiam de aplicativo em aplicativo até encontrar qual era o programa que estavam seguindo.

Isso já aconteceu com você no Netflix? As opções são tantas que a gente até esquece o que estava acompanhando, a não ser que seja uma dessas séries imperdíveis, como “House of Cards”, “Downton Abbey”, “The Crown”, “River”, “Narcos” e outras. Mesmo porque gosto é gosto e cada qual tem o seu. As novelas turcas, por exemplo, encontraram fieis seguidores, que elogiam a discrição e romantismo.

Pois imagine um ambiente no qual por enquanto temos, em volume bastante limitado pelo alto custo para o assinante, Amazon, HBO, Fox, Disney, e os interesses envolvidos na captação de novos clientes. A ousadia do Netflix pegou muitos desprevenidos, e agora a empresa é alvo de uma ofensiva da parte da concorrência. Alguns de seus fornecedores de conteúdo, como a Disney, anunciaram que vão suspender seus contratos com ela e passar seu conteúdo para um serviço próprio. A dúvida é saber se a Netflix terá fôlego para continuar com sua política de produzir conteúdo – o catálogo de produções da empresa é extenso e variado – uma atividade bastante cara. E tudo indica que esse é mesmo o rumo escolhido por ela, pois este ano até levou um filme a Cannes, levando arrepios aos puristas, afinal aquele é o templo da telona de cinema.

Reportagem recente da revista Barron’s revela que o serviço – que tem cerca de 100 milhões de assinantes no mundo, presente em 60 países (sem incluir a China) – gastará muitos bilhões este ano arriscando-se com títulos de ‘alto risco’. Segundo analistas do setor financeiro, mais interessados nos números que na programação, as assinaturas não cobrem todos os custos. A favor da empresa está a marca de ousadia e inovação de seu CEO, Reed Hastings, que soube qual o momento exato de passar da entrega de filmes para aluguel pelo correio, tirando da jogada nos EUA um concorrente do porte da Blockbuster, para depois iniciar o serviço de streaming, canibalizando o seu próprio aluguel de vídeos. Firme na competição está a Amazon, que anunciou um orçamento para conteúdo ao redor dos US$ 4,5 bilhões.

Quem viu a série que agrupou os três antigos participantes do “Top Gear” da BBC, um programa sobre automobilismo, viagens e etc., agora chamado de “The Grand Tour”, percebe que não se fez economia para tentar reconquistar a antiga audiência do programa (antes transmitido por TV a cabo), uma das maiores da história da TV.

O certo é que haverá em breve muito mais opções. Até o Google tem um sistema de streaming, pelo qual se paga por filme. O problema será ajustar a escolha ao orçamento, à garantia de qualidade e o gosto pessoal quanto ao que é oferecido. “Em caso de dúvida”, dizia uma jovem no cinema, ao namorado, “todo mundo acaba escolhendo sorvete de chocolate, não é?” Bom, não é tão simples…

Leonardo Trevisan
Carreiras dependem cada vez mais de dados. Talvez, eles até ganhem das competências específicas. Estas podem ser adquiridas no mercado do conhecimento. Em múltiplas formas, fora e dentro da empresa. Dado é outra coisa. E eles serão básicos para o sucesso ou fracasso das trajetórias profissionais.

A capa do Carreiras & Empregos (23/07) apontou o essencial: Recursos Humanos já se digitalizaram. Informações próprias já integram um “Big Data do RH”. Indicadores de gestão já avançaram para indicadores específicos que fazem o “controle de coerência”, para méritos ou desligamentos. Esta coerência já adequa candidatos às vagas.

Esta é a realidade que temos. A questão é para onde vamos. Artigo da The Economist (21/07) mostrou que a China deve ultrapassar os EUA em inteligência artificial.

Motivo: melhor uso dos dados. A questão está nos algoritmos que aprendem, que ligam uma informação na outra. Em qualquer área, inclusive RH.

A revista conta a função do Xiaoice, sistema operado pela Microsoft, ainda só na China. É um “robô-confidente”, que já foi comprado por mais de 100 milhões de chineses. A maioria fala com “ele” das 11 da noite até as 3 da manhã. O robô ouve queixas do dia de trabalho, do relacionamento com o chefe e colegas. E fala frases de apoio e lê poemas de autoajuda.

O Xiaoice oferece conforto a partir do que ouviu. Não há registro de queixas com o uso dos dados. O fabricante do Xiaoice quer vender dados, não só robôs. O artigo está em: https://www.economist.com/news/business/21725018-its-deep-pool-data-may-let-it-lead-artificial-intelligence-china-may-match-or-beat-america

O Big Data chinês desperta preocupações. Editorial do Financial Times (27/07) lamentou que 4 províncias chinesas operam sistema que prevê crimes analisando comportamento a partir de base de dados. A China é o “laboratório” mundial na área. Apple, Facebook, Microsoft e Amazon obedecem Pequim, aceitam imposições, porque precisam “acompanhar” a China.

Nesse ritmo, sem dúvida a expressão “capital humano” terá outro sentido. Já é possível, inclusive no Brasil, selecionar gente a partir de dados de coerência e valores. O passo seguinte será o domínio das expectativas. Como o Xiaoice já ajuda a fazer. Sem esquecer que o robô também conta quem, de verdade, o chefe é. Sem intermediários.

(agosto 2017)

Klaus Kleber
É furada a afirmação pelo ministro da Fazenda Henrique Meirelles, repetida pelo presidente Michel Temer, de que a elevação do déficit fiscal de R$ 139 bilhões em 2017 e de R$ 129 bilhões em 2018 para R$ 159 bilhões em cada um desses dois anos foi resultado da frustração das receitas tributárias devido a uma queda maior da inflação do que se esperava. Inflação caindo é fato positivo, ninguém nega, mas pegou o governo de cuecas.

De fato, a inflação deu um drible na equipe econômica, tendo o IPCA fechado em 2,71% nos últimos 12 meses findos em julho. Mas seria enganoso atribuir esse resultado à política monetária posta em prática pelo Banco Central. A inflação caiu violentamente por causa da recessão que teve continuidade a partir de 2015 pela falta de investimentos públicos, que historicamente no Brasil puxam os investimentos privados.

E a “política de austeridade” posta em prática pelo atual governo tem significado apenas corte dos investimentos públicos, mesmo em obras em fase de acabamento. Depois de tantos danos ambientais, a usina de Belo Monte, no rio Xingu, por exemplo, já está quase pronta e poderia ligar mais duas turbinas a partir de setembro, mas, por falta de linhas de transmissão, essas turbinas ficarão paradas. Muitos outros exemplos podem ser citados, mas o governo não está nem aí para essas coisas.

O que interessa a este governo, especialmente depois de maio, quando vieram a luz as conversas no Jaburu entre o presidente e o empresário Joesley Batista, é sobreviver, e isso custa caro. Cálculos do Estadão indicam que os perdões tributários podem custar R$ 78 bilhões. Pode a Fazenda alegar que o Congresso desfigurou a MP do Refis, mas porque o governo teria de propor essa medida, se está mesmo comprometido com a austeridade nos gastos públicos?

E quem inventou esse negócio de perdoar as dívidas do Funrural, em uma fase que o País está exportando commodities agrícolas como nunca? E por que cobrir dívidas previdenciárias de Estados e municípios antes de aprovar a grande reformada Previdência à qual dá tanta ênfase?

Se a isso adicionarmos a prorrogação dos incentivos fiscais por mais 15 anos, o adiamento do fim das desonerações para 2018, e as emendas parlamentares para os integrantes da base parlamentar, pode-se concluir que este é o governo mais dadivoso da história recente do País.

O rombo seria coberto com privatizações, cuja lista de “prospects” aumenta a cada dia, devendo agora incluir o aeroporto de Congonhas em São Paulo, o mais lucrativo da Infraero. Mas as privatizações não andam, estando a cargo de Moreira Franco, que só é ministro para ter foro privilegiado, e está no Planalto para dar palpite político.

Ele não faz leilão de coisa alguma, escudando-se no fato de que os ativos brasileiros na área de infraestrutura estão desvalorizados demais por falta de demanda, ou seja, por causa da recessão. E não há melhor exemplo que o aeroporto de Viracopos, devolvido pelos concessionários..

Para fugir à regra, o governo programou para setembro ou outubro os leilões de áreas de exploração de petróleo, o que não tem nada a ver com o Programa de Parceria de Investimentos (PPI), de Moreira Franco, e que poderá render, espera-se, R$ 9,49 bilhões.

Ajuda, mas não resolve. O fato é que as contas públicas não se sustentem se não houver novos aumentos de impostos, como tantos economistas têm afirmado. Será que o governo, afinal, terá coragem de enfrentar o pato da Fiesp?

Leonardo Trevisan
A pergunta está longe de ser inocente: o que acontece com os humanos quando chegam os robôs? De qualquer tipo. Inclusive os que chegam embutidos nos softs mais baratinhos.
Uma resposta é a necessidade de desenvolver o conceito de emprego híbrido o que pede “nova combinação de habilidades”. Este formato convive bem com automação.

Artigo da The Economist (https://economist.turtl.co/story/5846a4eca95bd66532d773d2.pdf?showall=true) discute como pessoas se reinventam na hora de sobreviver à experiência digital. Quando as máquinas envergonham os humanos com maior produtividade e menor custo, é preciso procurar que habilidade os computadores têm mais dificuldade de aprender.

Pesquisa de David Deming (Harvard) mostrou como avançar neste caminho: o mercado recompensa bem “habilidades sociais”. Estas são compostas tanto por criatividade, como por capacidade de solução de problemas e, principalmente por “empatia”. Todas úteis e complementares à automação.

Como sugeriu a Economist, para preservar emprego quando as máquinas chegam é preciso ter a capacidade de “manter-se aprendendo”. Aqui nasce o emprego híbrido. Nesse formato procuram-se pessoas “intelectualmente curiosas”. Empresas automatizadas preferem quem quer “treinar coisas novas” (com o risco do mais capacitado trocar de emprego) a preservar quem “não quer ter novas experiências para ficar onde está”.

A convivência amistosa com sucessivos ciclos tecnológicos desenvolve a necessidade da “inteligência de carreira”. Esse é o ponto. O conceito significa a constante procura do que são novas habilidades típicas das demandas impostas pela evolução tecnológica. Principalmente, buscando novas habilidades na própria empresa. Ou seja, automação pode gerar empregos e não os extinguir. Depende de como se lida com ela.

Nessa lógica, o perfil do profissional que procura apoio na “inteligência de carreira” inclui curiosidade, ambiguidade, flexibilidade e adaptabilidade, exatamente as habilidades que o robô ainda tem dificuldades para conquistar.

Tudo gerando dificuldade extra: empresas que querem conviver com automação devem passar a contratar por capacidade cognitiva. Critérios de obediência passiva e méritos consolidados ficam em segundo plano. Não será um cenário tranquilo.

(março 2017)

Klaus Kleber
O processo de privatização de infraestrutura no Brasil registrou um grande fiasco na semana passada. Como foi anunciado, os acionistas da Aeroportos Brasil, consórcio que assumiu 51% do Aeroporto de Viracopos, em Campinas, com a privatização realizada em 2012 no governo de Dilma Rousseff, decidiram em assembleia “devolver” ao governo a concessão, que deveria durar 30 anos.

Alega o consórcio que as projeções quanto ao número de passageiros e a tonelagem a ser transportada não se concretizaram em razão da recessão econômica e que, como se não bastasse, as tarifas autorizadas pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para transporte de carga são baixas.

A devolução será “amigável”, ficando a concessionária suspensa de pagar a outorga, ou seja, a licença para operar o aeroporto. Nada se falou sobre a Infraero, que ficou com 49%, como era a norma no governo anterior, e também deveria contribuir para as obras de modernização daquele importante terminal, principalmente para transporte de carga. Não se sabe se a estatal – ou seja, o governo — entrou com algum investimento.

Admite-se que os técnicos podem ter exagerado nas projeções de fluxo futuro em Viracopos, mas a história parece mal contada. Há alguns anos, o aeroporto era citado entre os terminais que mais cresciam no mundo, mas precisava de uma segunda pista, que ainda ficou no papel.

Sabe-se que, entre as empresas que fazem parte do consórcio controlador está a UTC, embrulhada na Lava Jato, e que já pediu recuperação judicial, e que detém 45% do consórcio. Outros 45% são de responsabilidade da Triunfo Participações, ficando a francesa Egis Airport Operation com 10%.

Pelo noticiário, o consórcio já investiu R$ 3 bilhões em Viracopos, mas há R$ 365 milhões de parcelas não liquidadas. A Anac, porém, já teria executado o seguro de garantia. Haverá multa pela quebra de contrato?

Pelas últimas informações, o consórcio continuará administrando aeroporto por dois anos, quando ele irá novamente à licitação, devendo o governo vender também a parte da Infraero em futura licitação. Pelo que se tem notícia, a Anac ainda não se pronunciou sobre essa “desprivatização”.

A história parece mal contada. O Aeroporto Internacional Tom Jobim também teve seus problemas de fluxo, mas a Odebrecht, que detinha 31% do consórcio RioGaleão, vendeu sua participação para o chinês HNA Group, om sede em Haiku, associando-se à Changi, de Cingapura, naquele terminal. A Infraero continua lá, com 49% de participação.

Por que uma solução desse tipo não foi buscada para Viracopos, eleito o melhor aeroporto do Brasil em pesquisa de satisfação de passageiros? Os chineses e investidores do Leste Asiático não quiseram entrar? E o que acontecerá com outros aeroportos privatizados no governo Dilma, que também sofreram queda de demanda?

Já foi noticiado que o governo vai leiloar os 49% que a Infraero tem nesses aeroportos, mas, na bagunça administrativa em que se encontra o país, ninguém sabe o que acontecerá neste governo, se acontecer.

Klaus Kleber
Há anos, prefeitos e governadores, principalmente dos Estados de Minas Gerais e Pará, vêm reclamando, sem êxito, um aumento dos royalties sobre produtos minerais, muito baixos no Brasil em comparação ao que os governos cobram na Austrália e no Canadá. Mas o lobby das mineradoras sempre prevaleceu, sob o argumento de que, se reajustada a Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM), a designação oficial dos royalties no País, o minério brasileiro perderia competitividade.

Agora, finalmente, o aumento desses royalties pode sair através de três Medidas Provisórias, enviadas há pouco ao Congresso. Isso não ocorreu, porém, por pressão dos Estados e Municípios. O que o governo objetiva, como deixou claro ministro das Minas e Energia, Fernando Coelho, é elevar em 80% sua arrecadação nesse item, que não passou de R$ 1,6 bilhão em 2016. Claro, tudo depende das MPs passarem ilesas no Congresso, ajudando a manter o déficit público dentro da meta de R$ 139 bilhões este ano.

Certo, ninguém gosta de aumento de imposto e, realmente, cobrar mais PIS/Cofins sobre combustíveis, recaindo o ônus sobre o consumidor, em vez de batalhar para acabar com as desonerações que beneficiam 56 setores empresariais, o que deveria acontecer em 1º. de julho, seria muito mais aceitável. Mas, afinal, o que menos interessa ao governo Temer nessa altura é cobrar uma briga com o Congresso, que cedeu às pressões dos empresários e transferiu o fim das desonerações para 1º. de janeiro de 2019.

Apesar de tudo, o aumento dos royalties sobre produtos minerais já vem tarde. Para todos os que conhecem os prejuízos ambientais e sociais que a mineração causa a tantos municípios e Estados brasileiros, é alentador que a CFEM, além de ter suas alíquotas elevadas, será cobrada sobre a receita bruta das vendas das mineradoras e não mais sobre a receita liquida dessas empresas.

O importante é que não foi alterada a distribuição das receitas da CFEM: 12% vão para a União, 23% para os Estados e 65% para os municípios. Mas cuidado com o lobby das mineradoras! O seu novo presidente da Vale, Fábio Schwartsman, já deu entrevista classificando a nova tributação sobre minérios como “um monstrengo”, o que é sinal claro de que vem aí um forte lobby sobre o Congresso.

Só para esclarecer: a receita obtida pelo País com a exportação de minério de ferro chegou a US$ 10,55 bilhões no 1º. semestre deste ano e não foi sobre isso que incidiu a alíquota da CFEM, hoje de 2%. Esse tributo foi cobrado sobre a receita líquida das mineradoras, isto é, depois de deduzidos todos os custos. Pela nova política do governo, a CFEM será de 4% sobre o total bruto auferido, o que é nada mais que justo.