Leonardo Trevisan
Se existia, a dúvida sumiu. Automação e vida profissional viraram complementos. A prova mais consistente da velocidade dessa “mistura” aconteceu agora no setor bancário. Os dois maiores bancos privados do País sinalizaram significativas alterações na sua prestação de serviço. E no ritmo de startup.

A essência da mudança não é a automação ou a digitalização. Esta é só a ferramenta. Em maio, o Itaú comprou a XP Investimento, uma corretora, que opera como shopping. Por contrato, a gestão da XP permanece independente. Muita gente notou a “desbancarização”, isto é o Itaú comprou um negócio que quer tirar o banco do “meio campo” dos investimentos.

No começo de junho o Bradesco lançou o Next, um banco 100% digital. Com aviso explicito: o Next não pode ser contaminado pelos “vícios” dos grandes bancos.

Os dois movimentos têm o mesmo sentido. O banco digital terá função bem complexa: se envolver, de forma intermitente, na vida dos usuários. Com outro alvo: o correntista sabe que não há intermediário. Seja qual for o serviço pretendido, o contato (ou a “solução”) será direta, sem “meio campo”. Automatizada enquanto operação. Digital enquanto ferramenta.

A lógica dessa nova forma de prestação de serviço bancário é diferente da anterior, mediada por influência humana operacional. É a mesma lógica de serviço, por exemplo, do Google, Amazon ou Netflix. Quando se quer uma informação, comprar qualquer coisa, ou consumir lazer em uma tela, não se consulta ninguém, não se espera permissão, nem tem hora definida. Sumiu o “meio campo” que fazia isso.

O novo formato do serviço bancário foi nesse caminho. E irá se inserir, cada vez mais, na vida do usuário. Como todas as gigantes da internet já fazem.

Discutir automação no mundo do trabalho exige entender esse movimento. Quem se apegar a lógica de continuar a ser o “intermediário” vai sofrer. Na era da automação, pensar carreira exige outra “atitude mental” sobre o que é aprender, criar e superar dificuldades. É exatamente isso que quer dizer transformar emprego em “plataforma de negócio”.

Por culpa da internet, ganhar a vida vendendo “meio campo” entre oferta e consumo, seja do for, está no fim. Como dois negócios, do tamanho do Itaú ou do Bradesco, já descobriram.

(junho 2017)

Klaus Kleber
Mais que a recomendação do ex-presidente Fernando Henrique para que o presidente Michel Temer renunciasse ao seu mandato, tiveram mais repercussão as declarações do senador Tasso Jereissati sobre “ingovernabilidade” do País e o anseio geral de “estabilidade” que viria presidente da Câmara, Rodrigo Maia, passasse a despachar no Palácio do Planalto em lugar do peemedebista.

Não porque Jereissati é presidente em exercício do PSDB, mas porque ele é um rico empresário e falaria também pela sua classe. Pelo sim, pelo não, o fato que, enquanto permanece a incerteza, as chamadas lideranças empresariais vêm aproveitando para tirar suas lascas da fraqueza do governo.

Ninguém na equipe econômica, nem o ministro Henrique Meireles, chiou com a decisão da comissão mista da Câmara dos Deputados de modificar a MP 774, pela qual teria fim em 1º de julho a desoneração da folha de pagamento, benefício concedida em 2011 no governo da presidente Dilma Rousseff a um monte de setores empresariais, exatamente 56.

Agora, a desoneração só vai começar a partir de 1º. de janeiro de 2018, excetuados cinco setores em que será mantido o critério de dobrar a contribuição previdenciária sobre o faturamento. Com isso, o governo vai deixar de arrecadar R$ 8 bilhões no restante do ano.

Certamente foi uma derrota do governo Temer e mais uma vitória do lobby de entidades empresariais, que falam em reformas da boca para fora, mas cuidam sobretudo de manter antigos privilégios. Foi o mesmo lobby que derrubou Maria Sílvia Bastos Marques da presidência do BNDES, acusada de ter “fechado” a burras da instituição, embora os empréstimos da instituição para as empresas de menor porte tenham aumentando 200% nos cinco primeiros meses deste ano.

Para seu lugar foi designado o economista Paulo Rabello de Castro e, segundo se comenta, a equipe econômica não gostou. Agora sabemos por que. Dois diretores do BNDES, economistas também de renome, pediram demissão na semana passada por divergência com Rabello de Castro.

A briga não se deu por questões bizantinas que tanto dividem opiniões de economistas. É muito simples: Maria Sílvia é tinha decidido substituir, depois de um período de transição, a Taxa de Juros a Longo Prazo (TJLP), fixada a cada trimestre pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), pela Taxa de Longo Prazo (TLP), que seria baseada na taxa de juros de títulos do Tesouro NTN-N.

Rápido e rasteiro, o lobby fez lá suas continhas e concluiu que isso constituiria uma pisada no calo mais sensível dos empresários. Isso porque a TJLP está em 7% a.a. para o trimestre janeiro/setembro deste ano, o que e uma bondade em face das taxas que os bancos vêm cobrando em suas empréstimos normais.

Com a modificação proposta pela equipe de Maria Sílvia, a TLP seria, mais ou menos, igual à taxa básica de juros fixada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, atualmente em 10,25%. Ainda seria uma taxa caridosa, mas, alegadamente, representaria “aumento de custos”, embora Selic esteja com tendência de queda, o que se refletiria na TLP.

Bem falante, Rabello de Castro é capaz de falar duas horas para justificar sua decisão. Só não dirá os nomes dos empresários que foram lá cochichar no seu ouvido sobre as inconveniências da TLP.

Claudia Bozzo
“Perdidos em Paris” é certamente uma das melhores comédias dos últimos tempos. Claro, não é para público de chanchada, ou que gosta de diálogos e situações rudes, escatológicas e vulgares. É exatamente o contrário de tudo isso. E é um refresco em época de férias escolares, com os cinemas atolados em blockbusters.

Captura de Tela 2017-07-09 às 12.04.30

Fiona Gordon (canadense) e seu marido Dominique Abel (belga), juntos há 40 anos, criam o roteiro, atuam e dirigem seus filmes, dois deles já exibidos no Brasil. Foram “Rumba”, de 2008, sobre um casal de dançarinos que enfrenta uma tragédia, mas mantém o ânimo e a poesia e “Iceberg” de 2005, que conta a história da gerente de um fast-food que uma noite fica presa por acidente no refrigerador do restaurante e percebe no dia seguinte que ninguém se deu conta de sua falta. Há outro filme do casal, “A Fada” (“La Fée”, 2011), que pode ser visto em versão integral com legendas em espanhol no YouTube.

Ambos são também atores de teatro e explicaram em entrevista a uma emissora francesa que no palco, o riso e as reações da plateia funcionam como música, e é no seu ritmo que eles seguem. No cinema, vão pela intuição, muitas vezes no improviso, com dois pés no surrealismo e sempre dá certo. Impossível não se enternecer com “Perdidos em Paris”.

Fiona, bibliotecária no Canadá, recebe uma carta da tia, que mora em Paris e pede ajuda, pois há quem queira colocá-la em um asilo. “Imagine, tenho apenas 88 anos” conta a tia, Martha, interpretada por Emmanuelle Riva, que foi indicada para um Oscar por sua dramática participação em “O Amor”, ao lado de Jean-Louis Trintignant, falecida este ano, dois meses após o lançamento do filme na França.

Fiona parte em busca da tia, com sua imensa e desajeitada mochila mas há um desencontro, pois Martha quer se esconder para não ser conduzida pela assistência social a um asilo. Nesse desencontro ela conhece Dom (Dominique Abel), um vagabundo de bom coração, que vai ajudá-la, de forma canhestra, a encontrar a tia. Outro par é formado, quando a tia conhece Duncan, interpretado pelo talentoso cômico francês Pierre Richard, nas telas desde 1958. Os dois veteranos atores interpretam uma das mais belas cenas do filme, ao formarem dupla numa delicada dança num banco. Com Fiona e Dominique, formam um quarteto irresistível.

Conhecidos na França como Abel e Gordon, os dois atores reinventam o burlesco ao optarem pela comédia física e homenageiam ícones como Jacques Tati, Chaplin, Harold Lloyd, o mímico Marcel Marceu, entre tantos outros, sem jamais se afastarem do bom gosto, da ironia e sutileza. Outra das belas cenas é Fiona sendo conduzida… por um cego, até o consulado canadense, a fim de conseguir novo passaporte, pois perde a mochila nas águas do Sena.

“Perdidos” é desses filmes que deixam o espectador leve, e o riso no cinema acaba sendo contagiante. E comprova que fazer humor é mesmo muito difícil. Afinal, são tão raras obras simpáticas e comoventes como essa, que não dá para deixar passar.

Klaus Kleber
O presidente do Banco Central, Ilan Goldfjan declarou há pouco que o Brasil está hoje menos vulnerável a crises internas e externas. Isso só é verdadeiro com relação ao setor externo. Não é possível abstrairmos da crise política, mas a sinalização do BC quanto ao ritmo de atividade de da economia doméstica até o fim do ano vai depender da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), em reunião marcada para os próximos dias 25 e 26 de julho.

Nesta encruzilhada em que nos encontramos, se o Copom reduzir a taxa básica de juros em 0,75 ponto percentual, já teríamos uma taxa de um dígito (9,50%), o que é alguma coisa, mas ainda frustrante. Se, porém, houver coragem para baixar a taxa em um ponto percentual, trazendo-a para 9,25% a.a., baseando-se no fato de que o IPCA está em 3,60% nos últimos 12 meses terminados em maio, não seria otimismo demais acreditar em um crescimento do PIB este ano superior talvez a 0,5%, apesar das trapalhadas políticas.

Aí, sim, o presidente do BC poderá se gabar de evitar que o país resvale novamente para a recessão. Quanto ao desempenho excepcional das contas externas, é um resultado que não pode ser creditado à autoridade monetária. Foi graças a uma safra agrícola recorde que as exportações deram um salto de quase 20% de janeiro a maio, alcançando US$ 87,712 bilhões em comparação com US$ 73,175 bilhões no mesmo período do ano passado.

Se os manufaturados e semimanufaturados tiveram algum respiro foi por causa da taxa de câmbio, que estacionada por muito tempo em R$ 3,10 por dólar, gira hoje em torno de R$ 3,30, a despeito das repetidas intervenções do BC via swaps para conter a elevação das cotações.

O real se desvalorizou, como muitos economistas recomendavam, mas isso não foi por decisão do BC, apesar da retórica de manutenção do câmbio flutuante E, bem ao contrário que seria de esperar, a desvalorização do câmbio não teve um efeito prejudicial ao combate à inflação que continua caindo, a ponto de encorajar o BC a baixar o centro da meta da inflação para 4,25 em 20l8 e a 4% em 2019, com três pontos percentuais para cima ou para baixo.

Em contraposição à disparada do superávit comercial que alcançou US$ 27,973 bilhões de janeiro a maio, a conta de serviços não estourou, ficando o déficit em US$ US$ 12,359 no período considerado, um avanço pouco significativo em relação a 2016 (US$ 11,220 bilhões), isso se deve a uma economia em recessão.

A constatação é de que as projeções do BC quanto ao comportamento do balanço de pagamentos parecem agora mais furadas do que nunca. Nos cinco primeiros meses deste ano, o déficit em transações corrente ficou em magérrimos US$ 616 milhões, dez vezes menor em comparação com US$ 5,998 bilhões no mesmo período do de 2016. Apesar desse fenômeno, o BC projeta um déficit em conta corrente de US$ 24 bilhões em 2017, o que é um exagero.

De qualquer forma, o Brasil hoje tem um escudo mais forte para resistir à vulnerabilidade externa. Isso é bom, mas não responde aos anseios da população.

Claudia Bozzo
Nicole Garcia, a diretora do delicado, denso e sensível “Um Instante de Amor”(2016), já exibido na Mostra Varilux e agora em circuito normal teve, como atriz, mestres diretores como Bertrand Tavernier e Alain Resnais, com o qual fez o já clássico “Meu Tio na América” (1980). Já o seu prestígio como diretora permitiu-lhe ter em suas histórias atores como Catherine Deneuve e Jean-Pierre Bacri (“Place Vendôme”, 1998), Daniel Auteuil e François Cluzet (“O Adversário”, 2002) Gérard Lanvin e Jean Marc Barr (“O Filho Preferido”, 1994). E agora Marion Cotillard. Em “Um Instante de Amor” ela interpreta Gabrielle, uma instável e enigmática jovem.

Captura de Tela 2017-07-02 às 13.00.08

Bela, elegante, inteligente e talentosa são características que definem as duas, diretora e atriz, mesmo que algumas décadas de idade as separem. No momento, Cotillard é uma das mais requisitadas em vários países, e tem no currículo um Oscar, um Bafta e um César por seu papel em “Piaf: Um Hino ao Amor”, de 2007 e outros 75 prêmios. Foi indicada de novo ao Oscar por interpretar uma combativa trabalhadora, prestes a ser demitida, em “Dois Dias, Uma Noite” (2014).

No papel de Gabrielle, Cotillard traz uma intensidade que choca, ao passar do desejo praticamente irrefreável a um distanciamento misterioso e incompreensível, uma espécie de melancolia. De forma espontânea e imprevisível. O filme é baseado no livro ‘Mal de Pierres’ de Milena Agus, e Nicole Garcia explicou, em entrevista dada em Cannes, quando o filme foi exibido que “foi a própria natureza da personagem, mulher feita desejo que não se reprime e reza a Jesus pedindo que lhe dê ‘la chose principale’. A expressão mexeu comigo. Essa coisa é o sexo, mas também é sagrada. Nós, mulheres, não somos estimuladas, na vida social, a externar nosso desejo, e menos ainda dessa maneira franca e direta.”

Vivendo no campo, em meio a plantações de lavanda, com os pais e a irmã, uma família tradicional e católica, na década de 1950, ela cria constrangimentos que levam sua mãe a sair em busca de um marido que lhe traga a desejada contenção. E o casamento é acertado como se fora um negócio, com o pedreiro José (interpretado pelo catalão Alex Brundemühl, que em 2013 fez o papel de Joseph Mengele em “O Médico Alemão”). Gabrielle alerta o marido de que não terá intimidade com ele e ainda indaga se isso será um problema. “Não”, ele responde. “Há outras mulheres para isso”.

A construção do filme é bastante interessante. Começa com Gabrielle, José e o filho, no banco de trás, dirigindo-se para um concurso de piano em Lion, quando ao passar por uma rua ela nota um endereço. Desce do carro e diz aos dois que sigam, ela os encontrará depois. Há um corte e voltamos à história da jovem, que sofria de dores definidas como câimbras pela mãe.

Já casada, ela vai ao médico, que lhe recomenda uma internação em clínica na Suíça, para tratar-se de ‘mal de pierres’, ou pedras nos rins. O local é o mesmo retratado no livro de Thomas Mann, A Montanha Mágica, escolhido porque na França todas as instituições desse tipo foram renovadas e essa mantém a arquitetura original. Lá ela conhece O tenente André Sauvage (interpretado por Louis Garrel), também em tratamento e vindo da Indochina. Do interesse ela rapidamente passa à paixão e ao amor sem freios.

Nicole Garcia explicou em entrevista o que representa a história para ela: “para mim o cinema está conectado à imaginação. A imaginação tem a função de consertar as coisas que não funcionam na vida. Isso é cinema para mim e é o que a imaginação faz por Gabrielle”. É uma bela explicação para o final escolhido. E uma boa notícia: um filme francês sem final em aberto….

Klaus Kleber
Não é a primeira vez nem será a última que autoridades monetárias, quando cogitam de tomar medidas impopulares, lançam balões de ensaio para testar a reação do público. Se os protestos forem muito fortes, os governantes põem a viola no saco, desistindo da medida, ou então propõem algo mais disfarçado.

À primeira vista, este é o caso da medida “em estudo” de parcelar a liberação para saque do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), bem como da multa de 40%, em caso de demissão por justa causa de trabalhador com carteira assinada. Ninguém apoia esse confisco a prazo, nem mesmo aqueles que são a favor da política de ajuste fiscal, tal como o atual governo tem procurado implementar.

Como muitos têm assinalado, o FGTS é dinheiro do trabalhador e constitui uma reserva que ele pode usar para enfrentar as agruras do desemprego ou para adoçar sua aposentadora, muitas vezes forçada, na era dos Programas de Demissão Voluntária (PDVs).

Além disso, há uma motivação política forte contra essa medida sacana. Em uma fase em que o exército de desempregados está na casa dos 14 milhões e pode aumentar até o fim do ano e no momento em que a aprovação do governo do presidente Temer cai a 7%, a menor taxa de qualquer presidente em 28 anos, uma medida como essa parece suicídio político.

Parlamentares que pretendem buscar a reeleição e que ainda fazem parte da base de apoio ao governo serão chamados a explicar aos eleitores uma medida inexplicável como esta, que faz recair sobre as costas do trabalhador o ônus de ajudar o governo a cumprir a meta do de um déficit primário de R$ 139 bilhões este ano.

Por todos esses motivos, o passa-moleque proposto no FGTS – “de uma insensibilidade social infinita”, como disse o senador José Serra — é mais que um simples balão de ensaio. Na realidade, embora o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, diga que a medida está sob análise técnica, o governo nunca cogitou seriamente de tomá-la. O que o governo está tentando fazer é dar um enorme blefe.

Com a arrecadação tributária em queda e sem esperanças de revertê-la, principalmente em face do agravamento da crise política, a equipe econômica não desistiu de manter o déficit primário dentro da meta. Como não é aceitável mexer no FGTS, o que o governo vai fazer é aumentar a carga tributária e, para sermos factuais, o ministro Meirelles nunca negou a uma medida como esta, se ela se fizesse necessária.

Aumentar a tributação sobre as grandes empresas está fora de questão, principalmente em um momento em que o governo luta para dar fim às desonerações concedidas no governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Essas desonerações, cujo impacto sobre a atividade econômica foi pífio, devem acabar em 1º. de julho, se o governo conseguir evitar que o fechamento essa válvula de escape seja prorrogado para 2018, como querem empresários e seus aliados no Congresso.

Fazer reforma tributária também não é viável. Tudo considerado, as micro, pequenas e médias empresas, portanto, que se cuidem para não serem elas as vítimas da blitz fiscalista.

Claudia Bozzo
“Uma Família a Dois” (2016), o filme francês já exibido no Festival Varilux, que entra em cartaz esta semana, é um caso raro no cinema francês. Embora à primeira vista pareça ser o remake do ótimo “Kramer Versus Kramer”, de 1979, dirigido por Robert Denton e tendo Dustin Hoffman e Meryl Streep, suas origens são mais singelas. É um remake sim, mas de um filme mexicano de 2013, “No se aceptan devoluciones”, de Eugenio Derbez. 

Captura de Tela 2017-06-25 às 17.06.41

Promete grande bilheteria, pois traz como chamariz o companheiro de François Cluzet em “Os Intocáveis”  –  a história do milionário quadriplégico que reencontra o prazer de viver graças ao seu irreverente cuidador, no caso, Omar Sy. Esse filme fez grande sucesso na França em 2014 (quando tornou-se o mais rentável do cinema francês e rendeu um César de melhor ator a Omar Cy). 

O diretor de “Uma Família a Dois”, Hugo Gélin, vem da aristocracia cinematográfica, pois é neto de um dos mais famosos atores do país, Daniel Gelin. Também é autor do roteiro de “A Gaiola Dourada”(2013) sobre um casal de portugueses, que durante 30 anos vive em um elegante prédio na capital francesa e decide então retornar à terrinha. Lançado no Brasil em 2014.

A narrativa de “Uma família” tem toques edulcorados e é descaradamente melodramática ao contar a história do folgado e festeiro Samuel que ao acordar com fortes batidas à porta acaba recebendo um bebê de uma bela jovem (Clémence Poésy) bem no estilo “toma que o filho é seu”. Ela ainda lhe pede dinheiro para pagar o táxi. Por esse caminho, lembra outro filme francês, de alta qualidade, “Três Homens e um Bebê” (1986, de Colie Serreau), que também rendeu remakes, como o norte-americano, e uma continuação, “18 Anos Depois” (2003), da mesma diretora e com o elenco original. 

Samuel, todo inseguro para cuidar da filha Gloria (Gloria Colston), sabendo que a mãe (Kristin) partira para Londres, vai à sua procura, tentando devolver a bebê. Não a encontra, é claro, mas torna-se um dublê de sucesso, ganha muito dinheiro e dá à filha um elevado padrão de vida na caríssima Londres, graças à amizade com Bernie (Antoine Betrand) que lhe abre muitas portas na cidade. Um pai ideal, uma filha perfeita, amigos leais, uma escola perfeita. Precisa mais para retratar a felicidade? 

Sim, a bruxa malvada, que vem na figura da mãe, acompanhada do namorado, pedindo a guarda da filha. O filme derrapa em todos os clichês possíveis, incluindo a interpretação de Omar Sy, bem “over”. Ele está bem em “Chocolate” (2016) e “Samba“ (2014) e seu currículo inclui incursões em blockbusters. Mas essa família de dois deve ser evitada por diabéticos. E também por quem gosta de um pouco mais de sutileza.

Klaus Kleber
Está cada vez mais difícil escrever sobre a conjuntura econômica no País enquanto não se resolve o problema político-institucional. Em sua maioria, os analistas políticos acreditam que o presidente Michel Temer sobreviverá à denúncia do procurador-geral da República, que deve ser apresentada à Câmara nos próximos dias. Talvez ainda durante a viagem que presidente fará, a partir desta segunda-feira, à Rússia e à Noruega. Talvez logo depois.

Mesmo que Temer continue no Planalto, a expectativa é de que tenderá a ceder às pressões do Congresso e dos empresárias para se manter no poder. Virou moda falar-se em “sarneyzação” de Temer de ora em diante — e o termo foi lançado por Mailson da Nóbrega, que como se recorda, foi ministro da Fazenda e o responsável pela política do “feijão com arroz” nos estertores do governo de Sarney.

É verdade que, como mencionou Mailson (Estadão, 11/6) não temos hoje crise do balança de pagamentos – as exportações vão muito bem e têm entrado capital estrangeiro em bom volume e a inflação está em baixa. Mas, simplesmente, o atual governo será obrigado a desistir, na prática, à sua política de austeridade fiscal e de ambiciosas reformas.

Quem dá um tostão furado pela manutenção da MP 774, de março e que deveria acabar com as generosas desonerações fiscais concedidas em 2011 pelo governo da ex-presidente Dilma Rousseff? Se a MP não for aprovada até lá pelo Congresso – e há o recesso parlamentar no meio — perderá validade.

Com isso, segundo se tem afirmado, Temer ganha pontos com o empresariado, que está jogando duro, ameaçando demitir ainda mais se não continuar a desoneração “ad infinitum” da folha de 50 setores industriais.

O problema é sério porque a arrecadação federal persiste em queda, apesar de um sopro de alívio no ritmo de atividade. Indo a MP 774 pro brejo, o governo deverá deixar de arrecadar R$ 4,8 bilhões entre agosto e dezembro. Junto com outra “bondades” que o governo vem fazendo, com tendência a aumentar, como fica a meta de déficit primário do setor público consolidado em 2017, fixada em R$ 143,1 bilhões?

É curiosa também uma notinha de pé de página da Folha de S. Paulo: a reforma trabalhista seria aprovada pelo Senado da forma que saiu da Câmara. Mas Temer pretende corrigir algumas distorções da nova lei trabalhistas. Entre estas, estaria prorrogar a cobrança o imposto sindical por mais três ou quatro para dar tempo aos sindicatos se reajustarem… Com essa prorrogação malandra, à qual se seguiriam certamente outras, Temer também ganhará pontos com os pelegos.

Sim, o presidente cada vez mais fraco vai ganhando pontos para continuar como Sarney sentado na cadeira presidencial.

Antonio Corrêa de Lacerda
Garantir crédito e financiamento às empresas e consumidores a taxas de juros compatíveis com a rentabilidade da atividade produtiva e a capacidade de pagamento dos tomadores é fundamental para a retomada do crescimento.

No âmbito empresarial, diante da ausência de crédito de longo prazo privado no Brasil, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) sempre exerceu um papel preponderante para isso.

A gestão do banco decidiu alterar a taxa de juros de empréstimos ao setor privado, até então baseada na Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), fixada pelo Conselho Monetário Nacional. A nova taxa é a Taxa de Longo Prazo (TLP), referenciada à taxa das Notas do Tesouro Nacional (NTN-Bs) de cinco anos, títulos públicos atrelados à inflação, de acordo com a Medida Provisória 777.

Embora seja saudável corrigir distorções e estimular instrumentos de mercado para reduzir a dependência dos recursos públicos, é preciso fazê-lo com cuidado, ante a inexistência de um mercado privado que ofereça recursos compatíveis com a rentabilidade dos projetos. Sem financiamento compatível, os investimentos planejados travam.

Atualmente, o diferencial entre a TJLP e a taxa de juros básica (Selic) é relevante. Em 2016, por exemplo, enquanto em grande parte do ano a Selic – hoje em 10,25% ao ano – estava em 14,0%, a TJLP era de 7,5%. A ideia implícita é viabilizar os investimentos em projetos de infraestrutura e das empresas, já que a Selic ou a taxa de juros de mercado se distanciam da rentabilidade esperada dos projetos.

Um dos argumentos dos que defendem a alteração do critério é que essa prática implica uma espécie de subsídio. De fato, do ponto de vista fiscal stricto sensu e de curto prazo, o diferencial entre Selic e TJLP significa um subsídio, principalmente se considerarmos as taxas praticadas atualmente. Mas, considerando que o financiamento de projetos é de longo prazo e implica o efeito multiplicador dos investimentos realizados e seu potencial arrecadador tributário, o alegado “subsídio” não se sustenta.

Já do ponto de vista da competitividade, a TJLP não representa subsídio algum, simplesmente porque nossos concorrentes internacionais gozam de financiamentos a taxas de juros menores do que ela. Ou seja, a Selic é que precisa se aproximar da TJLP, e não o contrário, mesmo porque não há projetos ou atividades que ofereçam taxas de retorno semelhantes à Selic, ou menos ainda as disponíveis para financiamento no mercado.

O diferencial apresentado tem sido determinante no papel do financiamento público para o desenvolvimento do País nos 65 anos de existência do BNDES. Os desembolsos do banco, que por anos cresceram continuamente, passaram a cair e tiveram expressiva redução em 2016 (de 35%, para R$ 88,3 bilhões), comparado a 2015.

A recessão fez com que o total de investimentos realizados na economia, a Formação Bruta de Capital Fixo, caísse para só 14,2% do PIB, e a participação do banco no financiamento foi reduzida de 2,6% do PIB, em 2013, para 1,1%, em 2016. É preciso viabilizar uma nova fase de crescimento econômico, para a qual o financiamento é fundamental.

Fato é que o papel representado pelo financiamento dos bancos públicos no Brasil é insubstituível no curto prazo. Dadas as condições desfavoráveis oferecidas pelo mercado privado, escassez de recursos, exigência de contrapartidas e altas taxas de juros praticadas, ele não é uma alternativa viável para suprir as necessidades de financiamento de longo prazo dos setores produtivos e da infraestrutura. Daí ser imprescindível preservar o financiamento público nos moldes em que funcionava a TJLP.

Klaus Kleber
A grande pergunta que se faz no País, depois da vexaminosa vitória da chapa Dilma/Temer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é se, no fim e ao cabo, conseguirá o presidente Michel Temer dar “estabilidade” ao País?

O que se tem observado entre empresários e uma parcela do PSDB um sentimento de que, apesar dos pesares, o melhor daqui em diante seria a permanência do atual presidente até 31 de dezembro de 2018.

O próprio Temer se jacta de que teria votos suficientes na Câmara para barrar uma denúncia feita contra ele pelo procurador-geral Rodrigo Janot. Diferentemente do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o presidente julga ter garantidos mais do que os 172 votos necessários para que a denúncia não prospere.

Vá que ele obtenha 200, 220 ou mesmo 250. Significaria isso “estabilidade” daí por diante? Supondo que a denúncia seja apresentada por Janot dentro dos próximos 15 dias, o que é preciso saber, dentro desse período, é como o Congresso reagirá diante das possíveis delações premiadas de Rodrigo da Rocha Loures, Eduardo Cunha, Henrique Eduardo Alves, Lúcio Funaro, Antonio Palocci, Guido Mantega, Renato Duque, etc. O PT seria o principal alvo dessas denúncias, é certo, mas em que medida o governo Temer resistirá a elas?

A economia pode até aguentar o tranco por certo tempo, tendo o país com gordas reservas, excelentes saldos da balança comercial (e a crise até ajuda ao manter o real mais desvalorizado). a inflação em baixa com o consumo tão deprimido, e o Banco Central (BC) reduzindo os juros embora a um ritmo mais moderado. O problema é que, para se manter no poder, o governo vai fazer cada vez mais concessões, como já está fazendo.

Depois da liberação de emendas parlamentares, prorrogação de incentivos fiscais, aumento de uma classe de funcionários federais, do incompreensível Refis, o que mais virá? Será que a equipe econômica, que sustenta o governo, vai continuar dando aval a tanto casuísmo. O compromisso com a regularização fiscal será mantido?

A cada dia, surgem fatos novos e fala-se muito em desembarque de apoios ao governo. O PSDB tem reunião nesta segunda-feira, dia 10, dia dos namorados, quando deve decidir se desembarca ou não do governo. A aposta é que não desembarque e fique aguardando até setembro quando vence o mandado de Janot. Caberá a Temer indicar o sucessor do poderoso procurador. A dúvida é se ele poderia ser tirado do bolso do colete e passar a agir de acordo com o script do Planalto?

De qualquer forma, o governo Temer pode até se segurar com um desembarque parcial do PSDB. Contudo, do jeito que a coisa vai, de concessão em concessão, o desembarque que preocupa mesmo o Planalto é o de integrantes da equipe econômica. Maria Silvia já foi.