Klaus Kleber
Um amigo que pretende viajar para o exterior no início de 2018 está muito preocupado com a alta recente da cotação do dólar, que fechou em R$ 3,295 (venda, no mercado comercial) na última sexta-feira, dia 8. Ele não sabe se compra as verdinhas agora ou se deixa para depois e me pergunta o que deve fazer.

Bem sei que qualquer palpite sobre câmbio é extremamente arriscado, mas para não deixar meu amigo sem resposta, disse a ele que a tendência é que a cotação do dólar continue subindo, mas não está excluída a hipótese de que o Banco Central (BC) volte a intervir no mercado se a cotação da moeda americana passar muito de R$ 3,30.

A subida do dólar nos últimos dias tem sido atribuída às difíceis negociações parlamentares para uma problemática aprovação da reforma da Previdência. Na minha opinião, a insistência dos operadores nesse tema é mais para inglês ver. Poder ser que se a reforma for aprovada ainda este ano, em primeira votação na Câmara, isso venha ter alguma influência, principalmente sobre a cotação das ações na Bolsa.

Quanto ao câmbio, o efeito é duvidoso e se houver repercussão pode ser somente a curtíssimo prazo. Independentemente de qualquer reforma, há quem diga que, com a decisão do Copom de baixar taxa básica de juros a 7% ao ano, podendo cair mais no princípio de 2018, há maior procura de dólar pelas empresas para fazer hedge (proteção).

O fato inconteste é que a moeda americana está se valorizando nos mercados internacionais. O noticiário dá conta de que o dólar subiu diante do euro e do iene na última semana com a divulgação da taxa de desemprego baixíssima nos EUA (4,1% em novembro, a uma taxa anualizada). Além disso, a aprovação pelo Senado do corte de impostos proposto por Trump também influi para reforçar a moeda americana. E. para completar, espera-se que, em sua reunião nesta semana (dias 13/14), o Federal Reserve (Fed) aumente a sua taxa de juros (benchmark).

Isso deve ser levado em consideração, mas não se deve esquecer que o câmbio flutuante, que seria um dos pilares da política econômica ortodoxa, nunca foi para valer no Brasil. Sendo assim, o BC pode intervir no mercado não só para conter pressões inflacionárias, mesmo com o INPC devendo fechar o ano abaixo de 3%.

Há outro fator. O BC não desconhece que muitas empresas brasileiras estão endividadas em dólar. Este não é só o caso da gigante Petrobrás. Segundo a Folha de S. Paulo (10/12), metade do endividamento das empresas brasileiras está concentrado em 57 companhias e 40% da dívida desse grupo é em dólar. Com o crédito interno trancado pelos bancos, as empresas foram buscar dinheiro lá fora e agora estão expostas a uma maior cotação do dólar. Algumas podem quebrar, se o BC deixar como está para ver como é que fica.

De acordo com essa lógica, não faltariam motivos para o BC intervir no mercado de câmbio, utilizando os surrados “swaps” cambiais.

Klaus Kleber
Enquanto o presidente Donald Trump dava vazão a seus preconceitos em suas tuitadas, isso podia nos causar repugnância, mas não nos afetava. Agora é diferente. O presidente dos EUA obteve a sua primeira vitória legislativa com a aprovação pelo Senado de sua proposta de corte de impostos. Os grandes beneficiários serão as grandes companhias e os ricos, cuja alíquota do imposto de renda (IR) cairá de 35% para cerca de 20%.

A classe média também é beneficiada, pelo menos no papel, uma vez que os contribuintes não poderão de deduzir seus impostos locais e estaduais de suas declarações do IR. Mas, demagogicamente, a coisa pode funcionar a favor dos republicanos.

A turma de Trump diz que, com a redução dos impostos, as empresas americanas investirão mais, criarão mais empregos e serão menos tentadas a se expandir no exterior. Pode ser, mas muitos economistas duvidam. Não faltam aqueles que preveem que, com a redução da arrecadação, o déficit público dos EUA, que já é calculado em US$ 20 trilhões, terá um aumento de US$ 1,4 trilhão nos próximos dez anos, e essa carga recairá sobre as mais novas gerações.

O que nos interessa é como o Federal Reserve Board (Fed) reagirá. Com o aquecimento da economia americana este ano, já era previsto um aumento da taxa básica de juros (benchmark – agora em 1,5% — m meados deste mês. Se não for elevada agora, os analistas projetam uma taxa de 2% no início de 2018.

Isso, por si só, levará a uma fuga de capitais para o mercado americano e terá repercussões nos mercados de todo o mundo. A questão é saber se depois do corte de impostos de Trump — que ainda precisa ser conciliado com proposta semelhante em tramitação na Câmara dos Representantes — qual será a política a ser adotada pela autoridade monetária americana.

É verdade que Trump, contrariando a expectativa, nomeou Jerome Powell como “chairman” do Fed no lugar de Janet Yellen. Não se sabe se Powell, que assume em 2018, é ou não adepto da política econômica expansionista patrocinada pelo presidente americano. Pelas previsões normais, o Fed teria de elevar ainda mais os juros se a cotações das ações na Bolsa de Nova York dispararem nos próximos meses.

Previsivelmente, menos aplicações financeiras e investimentos tendem a vir para o Brasil partindo de empresas e investidores americanos, abrindo ainda mais espaço para os investimentos da China e talvez da União Europeia (UE), se finalmente, o Mercosul conseguir firmar um acordo de livre comércio com o bloco europeu. Há uma chance de que isso ocorra também em meados de dezembro, durante reunião da Organização Mundial de Comércio (OMC) em Buenos Aires.

Em suma, este mês de festas começa com definições no campo externo que podem afetar diretamente a política econômica brasileira de 2018 em diante.

Claudia Bozzo
Como qualquer epidemia dos tempos modernos, as doenças viajam de continente por continente. Seja pelos meios de transporte ou pelos meios de comunicação. E a onda de denúncias de assédio sexual, inaugurada contra Harvey Weinstein, em tempos de internet e TV a cabo, chegou até a Nigéria, o terceiro – ou segundo, de acordo com a estatística que se consulta – maior produtor de filmes no mundo, depois da Índia (Bollywood) e Estados Unidos (Hollywood).

Conhecida como Nollywood, a indústria cinematográfica nigeriana foi notícia na semana passada pois em novembro, a atriz Eniola Omoshalewa Eunice enviou uma queixa ao Ministério dos Assuntos das Mulheres, que encaminha as denúncias à polícia. Ela acusou um comediante, Yomi Fabiyi (prêmio de melhor ator no Nollywood Awards de 2016) de tê-la chantageado, em 2008. “Ele me disse que teríamos que dormir juntos antes que ele pudesse transformar-me em uma estrela”, relata a atriz, em reportagem do jornal Le Monde.

Essa denúncia, porém, foi precedida por outra, um mês antes de vir à tona o caso Weinstein. Emeka Rollas Ejezie, presidente da Associação de Atores manifestou a intenção de travar uma guerra contra o assédio sexual em Nollywood, denúncia à qual até agora ninguém deu atenção.

Em seguida à denúncia de Eniola, veio outra acusação, contra um ator veterano de 57 anos, Yemi Solade. Os casos estão ainda na fase de inquérito policial. Um golpe sério para uma indústria que movimenta US$ 3,3 bilhões por ano e produz dezenas de filmes por semana.

Aqui cabe informar que essa produção é toda em vídeo, pois o pais tem poucos cinemas e 90% da produção é de home vídeos. Há mais de 15 mil videoclubes e locadoras no país e uma pirataria altamente disseminada. Calcula-se, por exemplo, que cada filme tenha uma venda de 25 mil cópias.

Com quase 160 milhões de habitantes, a Nigéria abriga vastos núcleos de pobreza e algumas ilhas de prosperidade, sendo um dos maiores produtores mundiais de petróleo, e integrando com outros 12 países a Opep. Além de petróleo o país tem gás natural, estanho, minério de ferro, nióbio, chumbo e zinco. Aderiu à ideia de criar uma “Opep do Cacau”, com Gana, Costa do Marfim, Camarões e Indonésia, países que juntos produzem 80% da oferta mundial de amêndoas.

Ele abriga outra versão de Nollywood, que reúne os filmes produzidos no idioma hausa, do norte do país, a Kannywood, onde se sabe que o fim da impunidade está longe. Lá a lei predominante é a do silêncio e a pressão sobre as atrizes sob o domínio muçulmano é poderosa. Mas uma atriz de 21 anos, Rahama Sadau denunciou a chantagem sexual e foi dispensada pelo diretor do filme. O caso acabou em pizza, após a intervenção da poderosa associação que controla a indústria cinematográfica hausa.

A história não acabou ai. Como observa o artigo do Le Monde, “na terra da sharia e do cinema, a culpa é da vítima” e a atriz acabou sendo banida das telas para sempre, acusada de ter “tocado” um homem em um vídeo romântico.

Alguns diretores contra-atacaram na Nigéria e a premiada diretora Mildred Okwo denunciou outro fenômeno, que chamou de “corrupção por sexo”, acusando atrizes de se oferecerem em troca de papeis. Não poupou ninguém: também se queixou da pressão exercida pelos produtores, querendo impor atrizes pelas quais se interessam.

A emergência de Nollywood aconteceu no fim dos anos 1980, coincidindo com uma crise econômica que privou os produtores do acesso aos custosos materiais para filmagem em película. Nessa época, um grupo yorubá de teatro itinerante gravava suas performances em VHS e as fitas eram vendidas em lojas de eletrônicos.

Um dia, o dono de uma dessas lojas escreveu e patrocinou um longa-metragem rodado inteiramente em VHS. O resultado, Living in Bondage (1992), foi o primeiro blockbuster de Nollywood, com mais de 750 mil cópias vendidas. Hoje, os filmes independentes continuam a ser rodados, com um número cada vez maior de lançamentos no cinema. O formato para vídeo permite que as produções sejam não só econômicas – com custo entre US$ 30 e US$ 200 mil –, mas também rápidas, com filmagens durando entre três e quatro semanas. O preço final de uma cópia sai entre US$ 1,5 e US$ 3, que são consumidas vorazmente por um público de milhares de pessoas espalhadas pelo continente africano e também pelos que emigraram.

Segundo um site de cinema africano, cerca de 40% da produção no país é em pidgin english, 35% em yorubá, 17,5% em hausa e os 7,5% restantes em outras línguas e dialetos locais. Embora a distribuição seja um grande gargalo, Nollywood também começa a conquistar espaço em outros países da África, com seus atores fazendo sucesso de Gana a Zâmbia.

Klaus Kleber
Fez bem a direção da Petrobrás em decidir pela abertura do capital da BR Distribuidora. A alternativa era a privatização da subsidiária mediante leilão ou compartilhamento do controle, o que poderia render mais de imediato aos cofres da estatal do petróleo, mas, nos dois casos, haveria o risco de formação de um oligopólio ou de desnacionalização. Já com a abertura do capital da BR Distribuidora, haverá dispersão de capital entre centenas ou milhares de acionistas, transformando a empresa em uma sociedade de economia mista, que pode, sim, vir a ser bem administrada, desde que adote critérios de governança corporativa.

Prevê-se uma oferta inicial de 25% das ações da Distribuidora, que pode ir a ser complementada com a venda de papeis adicionais, que elevaria a participação dos acionistas interessados a 33,75% do capital da empresa. Com o passar do tempo e dependendo das circunstâncias, a Petrobrás pode vender mais ações da BR e talvez alienar seu controle, presumindo que seja mantida a dispersão do capital, ou seja, a despersonalização da propriedade, acompanhando a tendência do capitalismo nos países mais desenvolvidos.

O preço inicial da oferta do papel da BR foi estipulado entre R$ 15 e R$ 19, esperando-se que renda, no máximo, R$ 7,5 bilhões à Petrobrás. Considerando que a dívida total da estatal é calculada em R$ 280 bilhões, o dinheiro que a BR trará para o caixa da estatal, por si só, não resolve. Mas, como deixou claro o próprio presidente da estatal, Pedro Parente, a estatal vai vender outros ativos para aliviar seu endividamento e cumprir a meta de se desfazer de bens no valor total de R$ 21 bilhões até o fim de 2018.

O mercado reagiu bem à decisão de abrir o capital da BR, A grande questão que fica é saber de a decisão da Petrobrás é apenas episódica ou se representaria uma retomada pelos responsáveis pela condução da política econômica da orientação que levou Banco do Brasil (BB) em 2013 a abrir o capital da BB Seguridade, recolhendo a seus cofres R$ 11,475 bilhões, em vez de simplesmente privatizar a subsidiária.

Não se deve uma resposta definitiva quanto a isso no atual governo. No próximo, porém, esse tema vai se colocar. Fala-se, por exemplo, em “privatizar” a Caixa Econômica Federal. Dada a concentração bancária hoje existente, não faria sentido vendê-la para os grandes instituições nacionais ou para bancos do exterior. A abertura do capital poderia ser a solução ideal.

Voltaremos ao assunto.

Claudia Bozzo
Foi muito breve a carreira de “Uma Sequência Inconveniente”, apresentado em julho nos EUA, que ficou poucas semanas nos cinemas de São Paulo, depois do lançamento em 9 de novembro. O primeiro filme, “Uma Verdade Inconveniente” (2006), arrecadou quase US$ 50 milhões em todo o mundo, além de conquistar o Oscar de melhor documentário de longa-metragem em 2007. Um Oscar que não foi para seu idealizador e mentor, o ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore, mas sim para o diretor, Davis Guggenheim. Gore diz que tem “custódia partilhada” sobre a estatueta. E sem dúvida os méritos de um empreendimento de tal porte.

Mas a sequência do filme, rodada onze anos depois, certamente foi vitimada pelo grande vilão de nossos dias, o “implacável” adversário de Kim Jong-un (sem dúvida, inimigos que se merecem) o presidente Donald Trump. O filme estava pronto, quando foi necessário refazer o final, pois Trump anunciou, em junho, a retirada dos EUA do acordo de Paris sobre mudanças climáticas. Os cineastas de “Uma Sequência Inconveniente” viram-se à frente das dificuldades que ameaçam todos documentaristas. Da mesma forma como um roteirista pode moldar a narrativa, é impossível controlar os acontecimentos do mundo real. Novo material foi acrescentado à edição final do filme que teve sua première no Festival de Cinema de Cannes.

“Foi decepcionante e um tanto inesperada”, disse Al Gore sobre a decisão do presidente. “Eu havia conversado com ele e sua filha Ivanka, uma verdadeira defensora do acordo. Acreditei que havia uma chance 50/50 de ele permanecer no acordo, mas Deus sabe que não consigo analisá-lo psicologicamente,” disse Gore em entrevista ao The New York Times.

Isso acabou funcionando como um literal anticlímax para o filme que até então vinha num crescendo bem interessante, com os esforços de Gore para conseguir que a Índia abrisse mão de sua iniciativa de adotar o carvão para produzir energia. Pelo menos resta o consolo de que a Índia realmente adotou a opção favorável ao meio ambiente, graças aos incentivos econômicos que Al Gore intermediou e que são mostrados no filme em um clima de muito suspense. O elemento desestabilizador foi mesmo Trump.

Certamente esse desfecho atuou contra o filme, mas de qualquer forma, ele perdeu o impacto gerado há uma década por “Uma Verdade Inconveniente”.

Na sequência, Guggenheim atuou como produtor executivo e transferiu a tarefa de direção a Bonni Cohen e Jon Shenk, casal de documentaristas conhecidos por “The Island President” e “The Rape of Europa”. Em vez de se concentrar na apresentação de imagens de Gore sobre as mudanças climáticas, que integravam o núcleo básico do filme original, Cohen e Shenk adotaram uma abordagem de cinema-verdade, acompanhando o defensor do meio-ambiente durante mais de dois anos.

Mas o filme veio no sabor déja-vu e embora muito interessante e dedicado à esperança, mostrando o que existe em preparação em todo o mundo, quanto à substituição pela geração limpa de energia, não conseguiu emocionar.

Cohen e Shenk disseram-se confiantes de que o filme terá seu público entre pessoas de todas as idades, sedentas por autenticidade nessa era das chamadas “falsas verdades” (fake news). “O renascimento dos documentários mostra que eles estão tomando o lugar do jornalismo investigativo de longas matérias”, disse Shenk. “Há algo indiscutível num documentário – não se trata de uma reportagem sobre Al Gore, mas sim de estar com ele.” Essa é uma das partes mais interessantes do filme: o treinamento conduzido por Gore, às equipes de ambientalistas. Ele é visto com cientistas na Groenlândia, treinando ativistas nas Filipinas e ocupando-se das negociações para o acordo de Paris.

Reportagem publicada por The Economist na semana passada, sobre o encontro de Bonn para reavaliar as decisões da reunião, de Paris, diz que o grande dano provocado pelos Estados Unidos com a decisão do governo Trump pouco tem a ver com a redução das emissões de CO² pelo país. O pior mesmo é o mau exemplo: “o problema é a cobertura que os Estados Unidos deram a outros, ao evitar reconhecer a existência do problema”.

Em breve o documentário deve ser transmitido por TV a cabo, Netflix ou qualquer outro serviço de vídeo por demanda. E sempre se aprende alguma coisa com Al Gore, um paladino moderno, lutando contra inimigos sorrateiros, acobertados e patrocinados por poderosos.

Leonardo Trevisan
Números do imposto de renda também podem ajudar a pensar melhor sobre carreiras. Em 2014, entre os que fizeram a declaração anual, já havia 7.9 milhões de autônomos, microempreendedores, empresários, ante 8,9 milhões que informaram ser empregados com carteira assinada. Os cálculos são do professor José Roberto Afonso, do Instituto Brasiliense de Direito Público.

Escondidos nesses milhões de autônomos estão milhares de formas novas de trabalho. Parte considerável deles são produto da automação, da prestação de serviço por plataformas digitais. Não há pesquisas sobre quantas dessas 7,9 milhões de declarações são “filhas da automação”. Mas, são muitas.

O que fazer com esta realidade? Dois fatos são indiscutíveis. Um, esse processo é mundial, não só daqui. Nem, só da “sua” empresa ou setor. Dois: o melhor caminho para cuidar “dele” é informar-se melhor.

Artigo da edição de 20/04 da Nature, de Tom Mitchell e Erik Brynjlfsson, explica como lidar melhor com robôs e empregos. O texto não vende ilusão: automação provoca maior desigualdade e mais pressão social. Os autores insistem que é preciso reformular políticas, tanto públicas, como as de cada empresa. O texto (em http://www.nature.com/news/track-how-technology-is-transforming-work-1.21837) mostra que na organização, os tomadores de decisão carecem de informações reais sobre automação.

Nas empresas, pondera a Nature, não é só que não se sabe a solução sobre dramas da robótica. Na verdade, não se fazem as perguntas certas. Principalmente, porque se busca informação no lugar errado. Os autores recomendam que se colete dados nas outras empresas que já dependem de plataformas digitais para operar, buscando entender o que é essa “nova força de trabalho”, pós-automação. Nos sites eletrônicos de emprego, tipo Linkedin, há dados para entender melhor as “novas habilidades” pretendidas pelos empregadores destes “novos” trabalhadores. E insiste: políticas públicas ou decisões de empresa devem fazer “pequenos experimentos” antes de expandir decisões sobre “populações inteiras”.

Automação vai impactar qualquer carreira. É ingênuo não aceitar este fato. A questão essencial é saber como lidar com ela. Como os dados do IR já sinalizam.

No seu tempo

21 / 11 / 17

Heraldo Bighetti
Outro dia, estava esperando a vez de ser atendido na loja de icônica marca para reparo de meu celular. Esperava lendo um livro em uma das várias mesas a disposição. Naquela mesma mesa, uma senhora de seus 70 anos já estava sendo atendida. Notando-me absorto na leitura, a improvável evangelizadora da marca interpelou-me questionando como eu poderia ler um livro naquele templo de tecnologia. “Coisa tão antiga” segundo ela. Meu detector de Zeitgeist imediatamente começou a soar um alerta.

Você certamente ouviu ou leu algo parecido com a próxima declaração: “Pois esta invenção vai produzir esquecimento na consciência daqueles que aprenderem a usá-la, porque estes deixarão de treinar a memória”. Quem disse isso não estava falando sobre o Google, mas sim de uma tecnologia que modificou o mundo: a escrita. O ludista em questão era ninguém senão Platão, citando Sócrates.

Mas vamos adiante. Após a invenção do livro, ler sem supervisão era uma atividade considerada subversiva. No final do século XVI, a Inquisição prendeu um trabalhador porque “lia o tempo todo”. A atividade era muito perigosa, especialmente se fosse feita por gente comum ou mulheres.

Aproveitando o conserto de meu celular, o telefone também foi criticado porque “bater papo por telefone” jamais substituiria uma conversa. Telégrafo, rádio, televisão, revistas, comics, todos os novos meios e formas de comunicação sempre foram criticados pois desestabilizavam o status quo. E todos sofreram a maldição do final próximo pelo próximo princípio inovador.

Os livro existem. Não foram substituídos. O telefone idem, apesar de modificado.
Entender o momento como resultado da sucessão de momentos que gerou o passado é a base para recepcionar o futuro. Por que então o mal estar geral por não compreender o momento? O conceito de rede sempre existiu. Afinal, o próprio universo é uma imensa Web de informação.

Ah… você não tem tempo para isso. Que pena. Coisa tão antiga quanto o pecado original.

Klaus Kleber
Primeiro, uma retificação. Em meu último comentário para este blog, afirmei que não era previsto um pagamento mínimo por hora de trabalho no País. Há, sim, uma previsão, embora abusiva. Atualmente, sendo o salário mínimo de R$ 937,00, o mínimo por hora de trabalho é R$ 4,26, valor obtido pela divisão do mínimo por 30 dias, equivalentes a 220 horas de labor, não sendo estabelecida folga semanal, o que é um absurdo.

Pelo mesmo critério, se o salário mínimo for elevado para R$ 969,00 em 2018, o salário-hora para o trabalho intermitente deverá ser de R$ 4,40 (o equivalente em dólar a US$ 1,25, estando a cotação da moeda americana em R$ 3,26). Por jornada de oito horas seriam R$ 35,20. Isso quer dizer, pela última Medida Provisória editada pelo governo, que o trabalhador intermitente for convocado para operar por 60 horas por mês, receberá R$ 260,00.

O pior é que, sendo o ganho mensal inferior ao mínimo, como informa a Folha de S. Paulo (16/11), o trabalhador terá de fazer uma contribuição adicional ao INSS para garantir a condição de segurado e ter direito aos benefícios daí decorrentes, como auxílio-doença e licença maternidade. Quanto ao seguro-desemprego, nem falar, porque o intermitente não é considerado empregado.

A MP prevê que serão necessários 18 meses para a migração de um contrato tradicional para um de caráter intermitente, mas, a partir de 2020, estará tudo liberado para que o comércio, bares e restaurantes e qualquer bodega ou tenda posam demitir e contratar à vontade, pagando esse valor vil por hora, se houver quem aceite. É verdade que o trabalhador intermitente pode trabalhar em um mês mais do que para um patrão, mas aí surge outra dúvida: não se saber qual empregador é que deve pagar a contribuição previdenciária e depositar o valor do FGTS.

Em uma, o intermitente passa a ser um pária do mercado de trabalho. Ainda mais porque, se certos trabalhadores, como o garçons e atendentes, receberam gorjeta, isso será considerado “serviço”, tendo o patrão direito a ficar com 20%.

Klaus Kleber
O presidente Temer resolveu dar ao ministro Moreira Franco todo controle sobre a comunicação e propaganda do governo com o objetivo de melhorar a sua imagem tão desgastada. O ministro, ao que se informa, será assessora do por um conselho composto pelos publicitários e marqueteiros mais badalados. Naturalmente, eles vão insistir no fato de que a inflação caiu, o poder de compra dos mais pobres aumentou, os juros também, embora para quem toma crédito isso não seja ainda visível, e outras “conquistas” do atual governo.

Pode ser até as campanhas tenham algum sucesso, mas virar o jogo quanto a popularidade de Temer e sua turma parece uma missão impossível. E isso não só por causa da corrupção, não, mas pelas atitudes que algumas “altas autoridades” vêm tomando e que o povo anda estranhando.

Digo isso com base na minha experiência no dia-a-dia. Na semana passada, tomei um táxi e o motorista disse ter ouvido no rádio que o salário mínimo para 2018 não será mais de R$ 979, mas de R$ 969. “Que mesquinharia”, comentou ele, “tiraram R$ 10 do salário mínimo!”. Concordei com ele, mesmo porque não tenho meios para confirmar ou negar que essa redução, segundo o cálculo de funcionários da Fazenda, deve proporcionar ao governo uma economia de R$ 3 bilhões. Quer dizer, se diminuíssem R$ 20 do mínimo, a economia seria de R$ 6 bilhões? (A corrida, aliás, me custou R$ 15).

No feriado, fui almoçar num restaurante aqui perto de casa e o garçom, meu velho conhecido, estava comentando o trabalho intermitente, criado pela nova legislação trabalhista. Ele disse que, como muitos garçons, estava registrado pelo mínimo, e sua renda maior vinha das gorjetas. Ele prevê que, com a nova legislação, vai ser demitido e contratado para trabalho intermitente em sábados, domingos e feriados.

A dúvida dele é quanto o patrão iria pagar por dia de trabalho e que ele achava, mesmo antes de saber o valor, que seria muito pouco. Limitei-me a comentar que, nos Estados Unidos, o salário mínimo é fixado por hora de trabalho, não por mês, detalhe que escapou do discernimento do governo e nossos legisladores.

Por coincidência, li no Facebook a queixa de um amigo quanto à ideia de aumentar a contribuição dos idosos nos planos de saúde privados. Ora, justamente na terceira idade, quando os rendimentos dos trabalhadores em geral diminui, é que eles precisam mais dos planos de saúde, pelos quais pagaram anos a fio sem praticamente utilizá-los. O que mais incomoda no caso é que o próprio ministro da Saúde, Ricardo Barros, defende uma mudança na regra que impede o aumento da contribuição para planos de saúde depois dos 60 anos de idade.

Para completar, ao chegar em casa um dia desses, perguntei a meu filho que estava assistindo TV qual era a novidade. “A ONU soltou uma nota condenando a portaria brasileira sobre trabalho escravo”, contou-me ele.

Claudia Bozzo
O diretor, roteirista e produtor finlandês Aki Kaurismaki fez uma promessa há alguns anos. Disse que depois do 20º longa metragem iria se retirar do cinema. Então, é bom torcer para que seja apenas uma de suas “boutades” e não perder “O Outro Lado da Esperança”, pois a conta de suas obras – seja de longas ou curtas ou participação em filmes de vários diretores – vai longe no IMDB (Internet Movie DataBase, o mapa da mina para quem quer lembrar qual é o ator de um filme, o diretor de arte, ou roteirista ou até mesmo quem é a esposa de fulano…).

“O Outro Lado” sintetiza toda a sensibilidade que fez de Kaurismaki um dos mais respeitados cineastas da atualidade. Conta a história do refugiado sírio Khaled (Sherwan Haji), que acaba indo para a Finlândia, vindo da Turquia e passando por vários países. Assim que chega, sua primeira providência é pedir asilo e para isso vai a uma delegacia de polícia, percorrendo toda burocracia enfrentada pelos refugiados, numa Europa cada vez mais preocupada com o tema da migração. Em uma hospedaria para onde é enviado, faz logo amizade com outro refugiado, o iraquiano Mazdak (Simon Hussein Al-Bazoon).

Em paralelo, o filme vai contando a história de Wikström (Sakari Kuosmanen), um vendedor de camisas que resolve largar a esposa, mais interessada na garrafa que em qualquer outra coisa e ao apostar o resultado da venda de seu estoque no pôquer, consegue o suficiente para montar um restaurante.

A direção de arte e a fotografia são no mínimo, excepcionais, criando uma atmosfera meio anos 1950, com um toque dark, numa Finlândia tão atual quanto seus carecas fascitoides que mal conseguem controlar a fúria assassina, ao cruzar com alguém como Khaled. Usam roupas pretas de couro e alguns têm a inscrição “Exército de libertação da Finlândia” desenhada nas costas das jaquetas. Outro ponto interessante é a música: o diretor inclui um grupo onde os intérpretes são todos septuagenários (mas nada no estilo saltitante de Mick Jagger), executando temas de country e blues cantados em finlandês, mostrando que a miscigenação cultural começou muito antes da pessoal.

Khaled é o protótipo do bom moço. Tudo o que quer é regularizar sua situação e encontrar a irmã Miriam, da qual se perdeu na hora de cruzar a fronteira turca. O roteiro dá a ele todo o espaço do qual precisa para contar com calma sua história e calvário, uma trajetória comum a tantos desses migrantes, pegos no meio de um conflito que se resume à ganância das grandes potências. Escancarada por alguém como Donald Trump, ao afirmar, como reproduziu o The Economist, esta semana que, “antigamente, se alguém ganhasse uma guerra, ganhava uma guerra. Mantinha o país”, acrescentando que “bombardearia essa droga” de Estado islâmico e “ficaria com o petróleo”.

Trump não estava nem nos delírios de algum comediante ou analista político, quando em 2003 e 2006, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o diretor Aki Kaurismaki simplesmente boicotou os prêmios (por “O Homem sem Passado” de 2002 e “Luzes na Escuridão” de 2006), recusando-se sequer a ir aos EUA, país envolvido em guerra no Oriente Médio. Aqui é bom lembrar que a realidade às vezes é bem mais surrealista que a ficção, como o ex-presidente Bush declarando que votou em Hillary Clinton e criticando Trump.

O finlandês, que vive em Portugal desde 1989, é famoso também pelo senso de humor, dos mais refinados, bem presente no filme, em toques certeiros e enxutos. Já declarou, em entrevista, que “gosto de cachorros. Pela humanidade não me interesso muito. Eles são honestos e não mentem”. Outra: “Acho que quanto mais pessimista eu me sinto em relação à vida, mais otimistas deveriam ser os filmes”.

“O Outro Lado da Esperança”, é um atestado da sua crença nas pessoas e de uma atualidade impressionante. Embora se desenvolvam em paralelo durante a maior parte do filme, as vidas do refugiado e do ex-vendedor cruzam por um brevíssimo instante no início do filme. E depois, Khaled acaba indo trabalhar no restaurante de Wikström, que manteve os antigos funcionários e tenta conquistar fregueses inovando em cardápios. Como a noite de comida japonesa, e a contratação de um grupo musical. É, na medida exata, um filme para quem gosta do verdadeiro cinema, sem efeitos especiais e defeitos extraordinários.