Antonio Corrêa de Lacerda
Garantir crédito e financiamento às empresas e consumidores a taxas de juros compatíveis com a rentabilidade da atividade produtiva e a capacidade de pagamento dos tomadores é fundamental para a retomada do crescimento.

No âmbito empresarial, diante da ausência de crédito de longo prazo privado no Brasil, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) sempre exerceu um papel preponderante para isso.

A gestão do banco decidiu alterar a taxa de juros de empréstimos ao setor privado, até então baseada na Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), fixada pelo Conselho Monetário Nacional. A nova taxa é a Taxa de Longo Prazo (TLP), referenciada à taxa das Notas do Tesouro Nacional (NTN-Bs) de cinco anos, títulos públicos atrelados à inflação, de acordo com a Medida Provisória 777.

Embora seja saudável corrigir distorções e estimular instrumentos de mercado para reduzir a dependência dos recursos públicos, é preciso fazê-lo com cuidado, ante a inexistência de um mercado privado que ofereça recursos compatíveis com a rentabilidade dos projetos. Sem financiamento compatível, os investimentos planejados travam.

Atualmente, o diferencial entre a TJLP e a taxa de juros básica (Selic) é relevante. Em 2016, por exemplo, enquanto em grande parte do ano a Selic – hoje em 10,25% ao ano – estava em 14,0%, a TJLP era de 7,5%. A ideia implícita é viabilizar os investimentos em projetos de infraestrutura e das empresas, já que a Selic ou a taxa de juros de mercado se distanciam da rentabilidade esperada dos projetos.

Um dos argumentos dos que defendem a alteração do critério é que essa prática implica uma espécie de subsídio. De fato, do ponto de vista fiscal stricto sensu e de curto prazo, o diferencial entre Selic e TJLP significa um subsídio, principalmente se considerarmos as taxas praticadas atualmente. Mas, considerando que o financiamento de projetos é de longo prazo e implica o efeito multiplicador dos investimentos realizados e seu potencial arrecadador tributário, o alegado “subsídio” não se sustenta.

Já do ponto de vista da competitividade, a TJLP não representa subsídio algum, simplesmente porque nossos concorrentes internacionais gozam de financiamentos a taxas de juros menores do que ela. Ou seja, a Selic é que precisa se aproximar da TJLP, e não o contrário, mesmo porque não há projetos ou atividades que ofereçam taxas de retorno semelhantes à Selic, ou menos ainda as disponíveis para financiamento no mercado.

O diferencial apresentado tem sido determinante no papel do financiamento público para o desenvolvimento do País nos 65 anos de existência do BNDES. Os desembolsos do banco, que por anos cresceram continuamente, passaram a cair e tiveram expressiva redução em 2016 (de 35%, para R$ 88,3 bilhões), comparado a 2015.

A recessão fez com que o total de investimentos realizados na economia, a Formação Bruta de Capital Fixo, caísse para só 14,2% do PIB, e a participação do banco no financiamento foi reduzida de 2,6% do PIB, em 2013, para 1,1%, em 2016. É preciso viabilizar uma nova fase de crescimento econômico, para a qual o financiamento é fundamental.

Fato é que o papel representado pelo financiamento dos bancos públicos no Brasil é insubstituível no curto prazo. Dadas as condições desfavoráveis oferecidas pelo mercado privado, escassez de recursos, exigência de contrapartidas e altas taxas de juros praticadas, ele não é uma alternativa viável para suprir as necessidades de financiamento de longo prazo dos setores produtivos e da infraestrutura. Daí ser imprescindível preservar o financiamento público nos moldes em que funcionava a TJLP.

Klaus Kleber
A grande pergunta que se faz no País, depois da vexaminosa vitória da chapa Dilma/Temer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é se, no fim e ao cabo, conseguirá o presidente Michel Temer dar “estabilidade” ao País?

O que se tem observado entre empresários e uma parcela do PSDB um sentimento de que, apesar dos pesares, o melhor daqui em diante seria a permanência do atual presidente até 31 de dezembro de 2018.

O próprio Temer se jacta de que teria votos suficientes na Câmara para barrar uma denúncia feita contra ele pelo procurador-geral Rodrigo Janot. Diferentemente do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o presidente julga ter garantidos mais do que os 172 votos necessários para que a denúncia não prospere.

Vá que ele obtenha 200, 220 ou mesmo 250. Significaria isso “estabilidade” daí por diante? Supondo que a denúncia seja apresentada por Janot dentro dos próximos 15 dias, o que é preciso saber, dentro desse período, é como o Congresso reagirá diante das possíveis delações premiadas de Rodrigo da Rocha Loures, Eduardo Cunha, Henrique Eduardo Alves, Lúcio Funaro, Antonio Palocci, Guido Mantega, Renato Duque, etc. O PT seria o principal alvo dessas denúncias, é certo, mas em que medida o governo Temer resistirá a elas?

A economia pode até aguentar o tranco por certo tempo, tendo o país com gordas reservas, excelentes saldos da balança comercial (e a crise até ajuda ao manter o real mais desvalorizado). a inflação em baixa com o consumo tão deprimido, e o Banco Central (BC) reduzindo os juros embora a um ritmo mais moderado. O problema é que, para se manter no poder, o governo vai fazer cada vez mais concessões, como já está fazendo.

Depois da liberação de emendas parlamentares, prorrogação de incentivos fiscais, aumento de uma classe de funcionários federais, do incompreensível Refis, o que mais virá? Será que a equipe econômica, que sustenta o governo, vai continuar dando aval a tanto casuísmo. O compromisso com a regularização fiscal será mantido?

A cada dia, surgem fatos novos e fala-se muito em desembarque de apoios ao governo. O PSDB tem reunião nesta segunda-feira, dia 10, dia dos namorados, quando deve decidir se desembarca ou não do governo. A aposta é que não desembarque e fique aguardando até setembro quando vence o mandado de Janot. Caberá a Temer indicar o sucessor do poderoso procurador. A dúvida é se ele poderia ser tirado do bolso do colete e passar a agir de acordo com o script do Planalto?

De qualquer forma, o governo Temer pode até se segurar com um desembarque parcial do PSDB. Contudo, do jeito que a coisa vai, de concessão em concessão, o desembarque que preocupa mesmo o Planalto é o de integrantes da equipe econômica. Maria Silvia já foi.

Claudia Bozzo
Exibida em 55 cinemas brasileiros, a Mostra Varilux de Cinema Francês está de volta e vai até 21 de junho em 12 cinemas paulistanos. Traz uma grande variedade de temas, da comédia ao drama, e atores de primeira linha. O festival, como sempre, tem o melhor do bom cinema comercial francês e a programação – com os trailers de cada um dos filmes – pode ser consultada pela internet. 

Captura de Tela 2017-06-11 às 13.44.09

Entre outros, “Rodin”, de 2017, que marca o centenário da morte do escultor e o retrata depois dos 40 anos, logo após a conquista de sua primeira encomenda oficial do governo francês, a criação da Porta do Inferno. O filme de Jacques Doillon traz no papel principal um dos melhores entre os melhores atores franceses, Vincent Lindon (de “A Lei do Mercado”, 2016). Foi apresentado em Cannes este ano e indicado para sete prêmios, entre eles o de melhor roteiro para o diretor. 

Embora tenha a sensibilidade de mostrar o artista criando, pensando e analisando a obra, tendo em mente “O Inferno” de Dante Alighieri, o filme cai numa visão exageradamente “cool”, que o torna até mesmo enfadonho. Mas as informações sobre dilemas, sofrimento e angústias gerados na criação artística deixam sua marca, da mesma forma como são expostos os conflitos internos de Rodin em trabalho que levou 37 anos para ser feito, sem sequer ter sido formalmente terminado. 

Longe do impacto causado pelo excelente “Camille Claudel” (1988) de Bruno Nuyten, diretor e roteirista, com Isabelle Adjani e Gérard Depardieu, que é um drama rasgado e coloca o foco na relação entre mestre e aprendiz, depois parceira e amante, o recente “Rodin” tem quase que um caráter didático, ao expor o método de trabalho do genial escultor e suas relações com modelos, clientes e críticos.

A escultura que ele fez de Balzac, uma das mais importantes de suas obras, é dissecada, assim como detalhes da Porta do Inferno, talvez sua obra de maior prestígio, que já esteve em São Paulo, na Pinacoteca, na inesquecível mostra sobre o artista, em setembro de 2001. 

O filme de Doillon inclui, é claro, o relacionamento de Rodin com Camille Claudel, mas deixa clara a forte ligação dele com a esposa, Rose, com a qual se casou em 1864, e viveu até sua morte. 

Outro dos filmes interessantes do festival é “Frantz”, de François Ozon, o mesmo diretor de “8 Mulheres” (2002), “Potiche – Esposa Troféu” (2010) e do intrigante “Uma Nova Amiga “ (2014). 

O filme, co-produção franco-alemã, parece caminhar em direção à reconciliação. Uma jovem alemã que ainda sofre com a morte do noivo, na Primeira Guerra, em batalha na França, nota a visita de um jovem francês que deposita flores no túmulo do soldado morto.

Hostilizado pelos moradores da cidade natal do soldado Frantz, e pela família dele, Adrien (Pierre Niney) vai-se aproximando. Mas é uma obra François Ozon, não nos esqueçamos. Ele é um diretor que domina a delicada e imprecisa osmose entre audácia e lirismo. 

Mesmo longe da irreverência de “Sitcom” (1998) onde mescla os problemas de uma família rica com homossexualidade, tendências suicidas e um gigantesco rato, o caminho de “Frantz”  é tudo, menos linear. E Ozon mostra que é um cineasta cada dia mais sólido, estruturado e maduro.

Outro filme que promete é “Perdidos em Paris” do belga Dominique Abel e da australiana Fiona Gordon, o mesmo casal de “Rumba”(2008) e “Iceberg (2005) comédias irreverentes e originais. Para ter uma ideia do astral dessa dupla, deve-se ir ao YouTube em busca de um trailer de “Rumba”. Em “Iceberg”, exibido pela TV5, Fiona é a gerente de uma loja de congelados que passa a noite trancada acidentalmente no freezer do estabelecimento. Mas o marido não percebe sua ausência. O fato muda sua vida. Portanto, muito a esperar de “Perdidos em Paris”.

Leonardo Trevisan
Vítimas da era digital estão em todos os lugares. Até no consumo da Coca-Cola. Em entrevista para a Bloomberg, o novo CEO da gigante, James Quincey avisou que consumidores estão comprando mais pela internet, usando aplicativos, recebendo comida em casa e indo bem menos a shopping. A sentença veio dura: “a era digital tira vendas da Coca-Cola”, porque a “tecnologia mudou o comportamento das pessoas”.

Vidas e carreiras, óbvio, também foram afetadas pelo mesmo motivo O remédio é conhecido: estar completamente plugado. Será que resolve? A coluna de Pedro Dória no Estado, de 5/5, contou que Peter Shankman, que ganhou muito criando startups, hoje escritor, vive conexão absoluta. Mas, na hora de entregar seu livro mais recente, apenas deu pânico. Não tinha escrito nada.

Solução: Shankman comprou passagens de ida e volta San Francisco/ Tóquio. Desplugado de tudo, na ida escreveu cinco capítulos. Voltou no mesmo avião. Em 30 horas de voo escreveu 10 capítulos. Resumo da ópera: será obrigatório ficar desplugado para obter produtividade no tempo das enormes distrações digitais?

Estes dois extremos podem ensinar algo na construção ou transição de carreira. Primeiro, nem a Coca-Cola escapa das mudanças digitais. Segundo: conviver com elas exige outra percepção de foco.

Porém, a The Economist (de 12/05) mostrou que “dados” representam hoje o recurso “mais valioso”. A revista insiste que coleta crescente e acesso ultrarrápido a dados dá melhor condição a qualquer empresa de aperfeiçoar produto ou serviço. Capacidade de gerenciar dados é o que faz empresas valiosas. O Google vê (e armazena) o que as pessoas procuram, o Facebook o que compartilham e a Amazon o que compram. A Tesla vale mais que a GM pelo volume de dados que tem e que lhe permite aprimorar cada vez mais o sistema de autocondução de seu produto.

O que Shankman fez nas 30 horas desconectado foi “digerir” os meses de dados acumulados desde o livro anterior. Como um robô o faria, focado só em seu alvo, tratando os dados de seu big data particular. O mesmo que a Tesla faz.

Carreiras eficientes na era digital percorrem o mesmo percurso quanto ao tratamento de dados. O CEO da Coca-Cola disse que prefere o papel de vencedor ao de vítima da era digital. Isso dependerá de como, até a Coca-Cola, lidará com dados.

(maio 2017)

Klaus Kleber
A revista The Economist (2/6) tem razão: quer o presidente Michel Temer fique no Planalto quer saia, o Brasil será governado até o fim de 2018 por um presidente fraco. Para se manter no poder, Temer teria de fazer concessões ao Congresso e já está fazendo com a liberação de emendas parlamentares e outros agrados à chamada base parlamentar. Em seus dias finais, a fraca presidente Dilma procurou se aguentar da mesma forma.

A debilidade de Temer será transmitida ao seu eventual sucessor para um curto mandato, supondo que, no caso de destituição do inquilino do Jaburu, assuma outro político eleito de forma indireta pelo Congresso, possivelmente em agosto, depois de um período de 30 dias em que o Palácio do Planalto será ocupado pelo presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia.

Quanto à hipótese de eleições diretas, defendida pelo PT e outros grupos, precisaria da aprovação de um projeto de emenda constitucional (PEC), o que demoraria meses, e a essa altura é francamente inviável. Não passa de uma bandeira política.

O fato é que, saindo Temer, o novo presidente precisará de maioria no Congresso e, por isso mesmo, estará sujeito aos mandamentos do Centrão. The Economist diz que há esperança de que esse novo mandatário leve adiante o programa de reformas, mas isso é altamente improvável. Talvez a reforma trabalhista, que já está no Senado, seja aprovada. Pode ser também que, com a aceitação pela maioria dos Senadores de emendas, o projeto tenha de retornar à Câmara – e aí ninguém pode prever o que ocorrerá. Pode ser até que o imposto sindical, que seria extinto, consiga reemplacar.

Quanto à reforma da Previdência, os que a propugnam podem tirar o cavalinho da chuva. O que pode acontecer, como já preveem alguns analistas, é que o governo desista dessa reforma e tente dar uma arrumada nas contas da Previdência por meio de Medidas Provisórias pontuais, restabelecendo o fator previdenciário e alguma limitação para a idade para a aposentadoria. Com um presidente extremamente dependente do Congresso, como o atual e seu eventual sucessor, vetar projetos aprovados pelo Legislativo nem pensar.

Apenas para exemplificar, volto ao caso dos incentivos fiscais concedidos pelos Estados e que seria destinado a “acabar” com a guerra fiscal. O projeto oriundo do Senado foi aprovado pela Câmara por larga margem na semana passada e não só prorroga os incentivos por 15 anos, mas estabelece que as decisões sobre novos benefícios pelo Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), composto pelos secretários da Fazenda dos Estados, precisem do apoio de apenas dois terços do colegiado. Antes, era exigida a unanimidade.

Isso quer dizer trânsito livre para o troca-troca de favores no Confaz, onde os Estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste terão folgada maioria. Um presidente comprometido com o ajuste fiscal em escala nacional — e não só no governo federal — poderia vetar esse projeto, pelo menos nessa parte. Mas será que Temer, tão abalado no posto, teria coragem de fazê-lo?

Negativo. Seu sucessor, escolhido em eleições indiretas, menos ainda. Podem dizer que o sucessor de Temer teria de se comprometer com as reformas, mantendo a mesma equipe econômica. Mas isso parece otimista. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, poderá tentar extrair um compromisso do novo presidente com as reformas, mas talvez não se segure no cargo em um governo que tende a ser não só fraco, mas ainda mais dadivoso.

Ou seja, chegamos por vias transversas a uma espécie de parlamentarismo tropical ou tabajara, para usar um termo da moda.

Claudia Bozzo
O The Wall Street Journal de 29 de maio passado publicou uma reportagem sobre forças especiais da França que buscam no Iraque militantes franceses que lutam pelo Estado Islâmico. A proposta, segundo o jornal, é caçar e matar franceses que tenham alcançado postos de comando na organização e como fontes são citados oficiais iraquianos e franceses, na ativa ou não.

As forças especiais forneceram aos soldados iraquianos que atuam no setor de contraterrorismo os nomes, dossiês e fotos de cerca de 30 homens identificados como “alvos de elevado valor”. Até agora, um número não revelado de cidadãos franceses já foram mortos por essas forças.

Essa realidade não escapou ao cinema. Além do filme exibido pelo Netflix (“Decisão de Risco”, 2015) com Helen Mirren no papel principal, que mostra a caçada a uma inglesa que aderiu aos grupos terroristas e o uso de drones nessa guerra muito particular, há dois filmes franceses que se destacam entre outros, sobre o tema. Um deles é “Os Cowboys” (2015), inspirado em “Rastros de Ódio” (1956). Nele, John Wayne é um veterano da Guerra Civil, que procura uma jovem, sequestrada por comanches (Natalie Wood no papel de Debbie).

Captura de Tela 2017-06-04 às 14.43.37

Em “Os Cowboys” quem desaparece é a jovem Kelly, que frequentava com o pai e o irmão os bailes onde se dançava a quadrilha bem no estilo americano.

De um dia para outro Kelly some e o pai, Alain, interpretado pelo excelente François Damiens (está nas telas no momento com o filme “Más Notícias para o Sr. Mars”, 2016) começa uma busca de anos e anos, que depois recebe o reforço de seu filho apelidado “Kid” (Finnegan Oldfield) e aos poucos vai descobrindo que ela se envolvera com um rapaz de origem muçulmana.

O filho vai bem longe em sua obstinada procura pela irmã e acaba recebendo a colaboração de uma espécie de mercenário norte-americano, com o ator John C. Reilly no papel. O que move tanto pai quanto filho é a incansável necessidade de saber o motivo do desaparecimento, e a tentativa de trazer a jovem de volta. É bom ficar de olho, pois deve ser exibido ou na TV a cabo ou no Netflix.

Esse é o primeiro filme dirigido pelo talentoso Thomas Bidegain, que já mostrara sua sensibilidade no premiado roteiro de “O Profeta” (2009), acompanhando o aprendizado no crime de um jovem árabe, na prisão. São dele também os roteiros de “Ferrugem e Osso” (2012) e “Dheepan: O Refúgio” (2015), todos com exibição nos cinemas paulistanos.
 
Outra obra, que ainda pode ter sua chance nas telas paulistanas, foi apresentada na Mostra de Cinema de 2016, “O Caminho Para Istambul”, dirigida por Rachid Bouchareb, diretor e roteirista de “Dias de Glória” (2006) e “London River- Destinos Cruzados” (2009), entre outros.

Feito para a TV, o filme tem uma qualidade comum aos filmes de Bouchareb: sensibilidade e poucas concessões. Conta a história de Elisabeth, uma cidadã belga, que recebe da polícia a notificação de que sua filha Elodie, de 19 anos, juntara-se ao Estados Islâmico e estava em algum lugar entre o Iraque e a Síria.

A mãe, como o pai de “Os Cowboys” não compreende as motivações da filha e literalmente move montanhas para encontrá-la. Vai para as zonas de guerra. Passa dias na fronteira da Síria, tentando entrar, mesmo que esta esteja fechada para qualquer pessoa, ainda mais um europeu.

Nesses filmes e em outros sobre o mesmo tema, a preocupação principal é saber por que os jovens europeus estão trilhando o caminho do terror em uma guerra que não parece ser deles. A constante é a adesão aos valores dos grupos aos quais eles  pertencem e a necessidade de integrar-se com os “irmãos”.

Na verdade o cinema só reflete a perplexidade dos pais e mães e de toda sociedade envolvida no drama. Mesmo porque os atentados continuam a levar o caos e o pânico às cidades europeias, como Londres, mais uma vez atingida no sábado (3/6/17) por mais um desses ataques.

Leonardo Trevisan
Números do imposto de renda também podem ajudar a pensar melhor sobre carreiras. Em 2014, entre os que fizeram a declaração anual, já havia 7.9 milhões de autônomos, microempreendedores, empresários, ante 8,9 milhões que informaram ser empregados com carteira assinada. Os cálculos são do professor José Roberto Afonso, do Instituto Brasiliense de Direito Público.

Escondidos nesses milhões de autônomos estão milhares de formas novas de trabalho. Parte considerável deles são produto da automação, da prestação de serviço por plataformas digitais. Não há pesquisas sobre quantas dessas 7,9 milhões de declarações são “filhas da automação”. Mas, são muitas.

O que fazer com esta realidade? Dois fatos são indiscutíveis. Um, esse processo é mundial, não só daqui. Nem, só da “sua” empresa ou setor. Dois: o melhor caminho para cuidar “dele” é informar-se melhor.

Artigo da edição de 20/04 da Nature, de Tom Mitchell e Erik Brynjlfsson, explica como lidar melhor com robôs e empregos. O texto não vende ilusão: automação provoca maior desigualdade e mais pressão social. Os autores insistem que é preciso reformular políticas, tanto públicas, como as de cada empresa. O texto (em http://www.nature.com/news/track-how-technology-is-transforming-work-1.21837) mostra que na organização, os tomadores de decisão carecem de informações reais sobre automação.

Nas empresas, pondera a Nature, não é só que não se sabe a solução sobre dramas da robótica. Na verdade, não se fazem as perguntas certas. Principalmente, porque se busca informação no lugar errado. Os autores recomendam que se colete dados nas outras empresas que já dependem de plataformas digitais para operar, buscando entender o que é essa “nova força de trabalho”, pós-automação.

Nos sites eletrônicos de emprego, tipo Linkedin, há dados para entender melhor as “novas habilidades” pretendidas pelos empregadores destes “novos” trabalhadores. E insiste: políticas públicas ou decisões de empresa devem fazer “pequenos experimentos” antes de expandir decisões sobre “populações inteiras”.

Automação vai impactar qualquer carreira. É ingênuo não aceitar este fato. A questão essencial é saber como lidar com ela. Como os dados do IR já sinalizam.

(maio 2017)

Klaus Kleber
O presidente Temer vem-se gabando de que o país não parou, citando como evidência a aprovação na semana passada de sete Medidas Provisórias pelo Congresso. A economia já vem se ressentindo fortemente da crise política e o clima de indefinição — o presidente ou sai ou não sai — prejudica tudo.

Mas, deixando essa questões para a decisão que tomará o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 6 de junho, volto a focalizar a votação que ficou para esta semana pela Câmara de um propositura aprovado pelo Senado que vem sendo chamado projeto para “acabar com a guerra fiscal”, quando se trata exatamente do contrário.

Na realidade, o Projeto de Lei Complementar 54/15, já aprovado pelo Senado, objetiva prorrogar por até 15 anos no caso da indústria e da agropecuária e por cinco anos no caso de atividades comerciais incentivos fiscais concedidos sem aval do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), que é composto pelos secretários da Fazenda de todos os Estados e do Distrito Federal, cujas decisões devem ser tomadas por unanimidade.

Como não o foram, são ilegais em face da em face da Lei Complementar 24/75 em vigor, e o projeto não passa de uma grande tramoia para dar uma alegada “segurança jurídica” às empresas beneficiadas.

Ora, isso não é só absurdo por contrariar todo o esforço que vem sendo feito para regularização das finanças estaduais, de acordo com um esquema já aprovado pelo Congresso, mas também um incentivo à corrupção. Ninguém ignora que um dos instrumentos usados por empresas – entre as quais a famigerada JBS — para conceder dinheiro de caixa 2 ou simplesmente propina a candidatos ou governadores em exercício estava justamente para obter a promessa de isenção ou redução do ICMS, créditos presumidos do tributo, carência para recolhê-lo, descontos em juros, multas e outras mumunhas.

Pode-se alegar – e há lobbies que o fazem abertamente – que, como a carga tributária no Brasil é muito elevada, as empresas procuram justamente os Estados que lhes oferecem mais benesses, gerando o leilão que conhecemos como guerra fiscal. Isso estaria correto sob o ponto de vista empresarial, dizem, devendo a administração de qualquer empresa fazer tudo que puder para apresentar resultados a seus controladores ou acionistas.

Tudo, sim, mas dentro da lei, e os incentivos fiscais concedidos sem a aprovação do Confaz são manifestamente ilegais, repito, e frequentemente não foram autorizados para atrair empreendimentos para os Estados. Como foi noticiado, mesmo durante a grave crise financeira do Estado do Rio de Janeiro, foram concedidas vantagens fiscais até joalherias cariocas, como foi noticiado.

Isto está no cerne de uma grande discussão nacional neste momento: como separar corruptos de corruptores. Muito se fala da classe política, hoje tão desgastada por escândalos de corrupção e sem credibilidade entre a população. Mas há quem seja mais condescendente com as empresas corruptoras.

É verdade que grandes e pequenas empresas geram riquezas, dão empregos e concorrem para o desenvolvimento do país, mas teriam elas o direito de lesar deliberadamente as finanças estaduais por meio da guerra fiscal que há anos assola o País?

Talvez nada disso que escrevo venha a ter qualquer influência na decisão da Câmara, Uma solução de compromisso foi proposta, que prevê a redução desse incentivos por 1/15 por ano para a indústria ou 1/5 para o comércio, mas há poucas chances de essa proposta ser aceita porque o projeto teria de voltar ao Senado.

O melhor que se pode esperar é que este um governo futuro acabe que essa ficção que é o Confaz e que o Supremo Tribunal Federal (STF), mais do que nunca tão atarefado, venha um dia a declarar a inconstitucionalidade de incentivos concedidos por unidades federativas em detrimento de suas receitas tributárias e dos serviços públicos que devem prestar à população.

Klaus Kleber 
Ao que parece, o grupo que detém precariamente o poder vem procurando sinalizar que, mesmo que o presidente Michel Temer renuncie, seu sucessor – o presidente da Câmara, Rodrigo Maia – manteria a mesma orientação com relação à política econômica, tendo como homem forte o ministro da Fazenda Henrique Meirelles.

Pela Constituição, Maia teria 30 dias para convocar uma eleição pelo Congresso do novo presidente, mas o esforço que vem sendo feito é destinado a mostrar que não haveria uma ruptura dramática caso o presidente Michel Temer decida deixar o governo ou for forçado a isso.
 
Se a vacância ocorrer, o problema, naturalmente, é quem será o escolhido para comandar o governo até o término do mandato, conduzindo o país, com um mínimo de turbulência, às eleições previstas para outubro de 2018. Até o momento que escrevo, a equipe econômica vem agindo com prudência para conter os impactos da gravíssima crise política que ameaça paralisar o país.

O que que vai acontecer na Bolsa ninguém é capaz de prever, mas, pelo menos, o Ibovespa recuperou um pouco da derrocada de quinta-feira. Quanto ao câmbio, o Banco Central interveio para valer visando a conter a alta da cotação do dólar, que acabou fechando a R$ 3,25 na sexta.

O que não foi bem entendido foi o fato de BC, dispondo de reservas internacionais tão vultosas (ainda em R$377,066 bilhões na quinta-feira, dia 18), ter preferido usar o surrado mecanismo de “swaps” cambiais em vez de comprar dólares à visita, o que poderia ser mais eficaz como demonstração de força e poderia evitar uma nova carga para o BC.

Lembra-se, a propósito, que a autoridade monetária vinha procurando, nos últimos meses, se livrar de uma montanha dessas operações feitas na gestão anterior. 
Já no tocante à taxa básica de juros, o Comitê de Política Monetária (Copom) tem reunião marcada para os dias 30 e 31 e se até lá o presidente Temer tiver renunciado e o país estiver em um período de transição para uma eleição indireta e se o câmbio estiver controlado, a redução pode ser de 0,50 ou 0,75 ponto percentual – e não mais que isso. 

Independentemente de qualquer coisa, o Copom precisaria baixar a Selic de modo a sugerir que o BC está colaborando para volta à normalidade, A taxa, hoje em 11,25%, ficaria então em 10,5% ou 10,75% a.a. e só poderia cair para um dígito depois da escolha do novo presidente, se ele inspirar confiança. A possibilidade que vinha sendo aventada de um corte de 1 ou até 1,25 ponto percentual parece excluída.
 
No mais, o governo periclitante fez o que poderia. Foi sancionado o projeto para recuperação das finanças dos Estados e baixadas duas Medidas Provisórias já prometidas a grupos de interesse no Congresso. Uma das MP parcela débitos dos municípios e outra dá um tratamento dadivoso para regularização de pagamentos devidos ao Funrural. 

Felizmente, se se pode usar esse advérbio nos dias de hoje, a crise adiou votação na Câmara do projeto, já aprovado pelo Senado, que prorroga por mais 15 anos os incentivos fiscais concedidos pelos Estados sem aprovação do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz).

Se aprovada uma medida como esta, iria na contramão da lei sancionada para recuperação financeira dos Estados, dando continuidade à ruinosa guerra fiscal. Segundo o noticiário, tem sido proposta uma solução conciliatória, que seria a redução gradativa de 1/15 por ano desses incentivos.
 
Outra grande interrogação é como se comportará o Legislativo nesse período crítico. A permanência de Temer depende menos de questões jurídicas do que da reação dos partidos às investigações contra o presidente. Caso haja vacância no cargo, serão a Câmara o Senado que escolherão o novo presidente, depois do interregno de 30 dias. Os parlamentares, por mais envolvidos que estejam muitos deles na Lava-Jato, serão o fiel da balança. 

Se isso poderá significar o fim das reformas que Temer propôs, ninguém pode dizer, com certeza. As apostas são de que a reforma da Previdência dificilmente sairá ou, se sair, seria muito deturpada. Quanto à reforma trabalhista, já aprovada pela Câmara, o Senado terá de resistir às fortíssimas pressões das centrais sindicais que perderiam o maná do imposto sindical que sai do nosso bolso. Pode-se prever que a fraqueza do Executivo daria mais combustível para manifestações já planejadas das centrais.
 
Tudo pode ser diferente se Temer se recuperar do desgaste ou se o novo presidente, escolhido por eleições indiretas se comprometer com uma política de austeridade; se a presidente do Supremo Tribunal Federa (STF) puder assumir; se não houver ou não houver manifestações de massa nas ruas pedindo eleições diretas, se. se, se…. 

Vêm-me à cabeça alguns versos de Carlos Drummond de Andrade, muito apropriados ao nosso tempo: “Este é tempo de partido, tempo de homens partidos”.

Claudia Bozzo
O sucesso do filme premiado e bem recebido pela crítica “O Cidadão Ilustre” pode ser creditado tanto ao protagonista, Óscar Martínez, que recebeu a Copa Volpi de melhor ator no Festival de Veneza, como aos competentes diretores Gastón Duprat e Mariano Cohn (roteiro de Duprat). Os dois últimos já tiveram uma obra apresentada em São Paulo, o inquietante “O Homem ao Lado”, sobre o vizinho que resolve construir em sua casa uma janela que invade a privacidade do outro. Essa casa, em La Plata, foi projetada pelo famoso arquiteto Le Corbusier e é a única obra dele presente nas Américas. Moderna por fora e por dentro, a casa é cheia de rampas e vidros, mas ao mesmo tempo, não parece ser habitada por nada ou ninguém. Mas é.

Captura de Tela 2017-05-21 às 13.39.35

Duprat e Cohn voltam com filme igualmente denso, que a princípio se parece mais com uma comédia, com um ácido senso de humor e tiradas inteligentes. É um filme argentino, portanto mais que justo esperar por um roteiro inteligente, bons atores, conteúdo e excelência. “O Cidadão” do título é um escritor, Daniel Mantovani, vencedor do Nobel de Literatura. Depois de receber o prêmio, isola-se em sua casa na Espanha, onde vive há 30 anos e rejeita todo e qualquer convite para participar de conferências, eventos e solenidades. Até que lhe chega um convite vindo de sua cidade natal, a pequena Salas, que quer homenageá-lo. Para criar Salas e um microcosmo que abrigue a “alma” argentina, com o que o país possui de melhor e ou pior, os diretores filmaram externas criando uma cidade “Frankestein” em Navarro, Cañuelas, Aldo Bonzi e Lomas de Zamora

Para esse novo projeto, Cohn e Duprat tiveram um orçamento de US$ 1,7 milhão, o dobro do recebido por “O Homem ao Lado”, vencedor do prêmio de melhor filme no Festival de Sundance de 2010 e com boas bilheterias na Europa e nos Estados Unidos. Em entrevista a um site argentino, comentaram que existem centenas de formas de fazer filmes. “Estamos em busca das inovadoras”. Para o crítico Benjamín Harguindey, de “Escribiendo Cine” esse é o melhor já feito pelos dois, até agora, e ele prevê que “tem todo o jeitão de vir a converter-se em outro clássico moderno do cinema argentino”.

Sem dúvida, Óscar Martínez tem uma grande participação nesse sucesso. O ator tem atuação marcante como o escritor e ainda pode ser visto em “Relatos Selvagens”, filme lançado em outubro de 2014 em São Paulo, que continua em exibição no Caixa Belas Artes, onde é, em um dos episódios, o pai que tenta livrar o filho de uma encrenca e é chantageado de todos os lados. Outro de seus filmes exibidos no Brasil em 2009 é “O Ninho Vazio” (2008), de Daniel Burman, no qual contracena com Cecilia Roth. E as salas de cinema já exibem cartazes de um novo filme seu, “Inseparáveis”, de 2006, uma refilmagem do sucesso francês “Os Intocáveis” (2011), de Olivier Nakache.

Martínez une-se à formidável constelação de grandes atores do cine argentino, que inclui Ricardo Darin (“O Segredo dos Seus Olhos”, 2009); Dario Grandinetti (“Relatos Selvagens”, 2014); Leonardo Sbaraglia (“No Fim do Túnel”, 2014” e “Relatos”); Hector Alterio (”História Oficial”,1985 e “O Filho da Noiva”, 2001); Eduardo Blanco (o amigo do filho da noiva); Júlio Chavez (“O Guardião”, 2006) e tantos outros. Sem contar as atrizes do nível de Norma Aleandro (“O Filho da Noiva”, “História Oficial”), Cecilia Roth (“Kamchatka”, 2002 e “Tudo Sobre Minha Mãe” 1999.

“O Cidadão Ilustre” traz para a tela temas argentinos e globais. Um deles, a rejeição à visão crítica e externa representada pelo protagonista, exilado há décadas na Europa, frente ao nacionalismo extremado de seus conterrâneos. A exaltação da vida provinciana soma-se a uma espécie de ferida aberta no orgulho argentino, por ter grandes escritores como Jorge Luis Borges, por exemplo, e nenhum Nobel de Literatura. Recebido na cidade pelo prefeito e pela “miss” local, O escritor é levado em um carro do corpo de Bombeiros, como se fosse um herói do futebol. E não há que deixe de observar que ele se une aos grandes ídolos, Diego, o papa e Messi.

Daniel Mantovani é descrito por Óscar Martínez como um personagem contraditório “como todos nós”. Ele define o filme como “incômodo” por ser um tipo de espelho “que nos devolve a imagem que não queremos ver de nós mesmos. Um mostruário barroco de uma sucessão de coisas que particularmente abomino no argentino. O fanatismo ideológico, a violência a docilidade nas pessoas do povo, o chauvinismo espantoso e a destruição do ídolo”. Precisa mais?

E é bom ficar de olho na dupla Mariano Cohn y Andrés Duprat que competirá na Culinary Zinema 64º Festival Internacional San Sebastián, com um filme “Todo Sobre el Asado”. Tudo sobre o churrasco, informa Óscar Martínez, é uma outra viagem à Argentina profunda onde a comida é ao mesmo tempo um ritual primitivo, contemporâneo, selvagem e refinado, arte e ciência. “Esses dois ‘hijos de p…” serão expatriados quando for apresentado na Argentina o que acabam de fazer. ‘O Cidadão Ilustre’ é Disneylândia, em comparação.” Bem, o apetite dos cinéfilos ele já atiçou.