jul 03

Klaus Kleber
O presidente do Banco Central, Ilan Goldfjan declarou há pouco que o Brasil está hoje menos vulnerável a crises internas e externas. Isso só é verdadeiro com relação ao setor externo. Não é possível abstrairmos da crise política, mas a sinalização do BC quanto ao ritmo de atividade de da economia doméstica até o fim do ano vai depender da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), em reunião marcada para os próximos dias 25 e 26 de julho.

Nesta encruzilhada em que nos encontramos, se o Copom reduzir a taxa básica de juros em 0,75 ponto percentual, já teríamos uma taxa de um dígito (9,50%), o que é alguma coisa, mas ainda frustrante. Se, porém, houver coragem para baixar a taxa em um ponto percentual, trazendo-a para 9,25% a.a., baseando-se no fato de que o IPCA está em 3,60% nos últimos 12 meses terminados em maio, não seria otimismo demais acreditar em um crescimento do PIB este ano superior talvez a 0,5%, apesar das trapalhadas políticas.

Aí, sim, o presidente do BC poderá se gabar de evitar que o país resvale novamente para a recessão. Quanto ao desempenho excepcional das contas externas, é um resultado que não pode ser creditado à autoridade monetária. Foi graças a uma safra agrícola recorde que as exportações deram um salto de quase 20% de janeiro a maio, alcançando US$ 87,712 bilhões em comparação com US$ 73,175 bilhões no mesmo período do ano passado.

Se os manufaturados e semimanufaturados tiveram algum respiro foi por causa da taxa de câmbio, que estacionada por muito tempo em R$ 3,10 por dólar, gira hoje em torno de R$ 3,30, a despeito das repetidas intervenções do BC via swaps para conter a elevação das cotações.

O real se desvalorizou, como muitos economistas recomendavam, mas isso não foi por decisão do BC, apesar da retórica de manutenção do câmbio flutuante E, bem ao contrário que seria de esperar, a desvalorização do câmbio não teve um efeito prejudicial ao combate à inflação que continua caindo, a ponto de encorajar o BC a baixar o centro da meta da inflação para 4,25 em 20l8 e a 4% em 2019, com três pontos percentuais para cima ou para baixo.

Em contraposição à disparada do superávit comercial que alcançou US$ 27,973 bilhões de janeiro a maio, a conta de serviços não estourou, ficando o déficit em US$ US$ 12,359 no período considerado, um avanço pouco significativo em relação a 2016 (US$ 11,220 bilhões), isso se deve a uma economia em recessão.

A constatação é de que as projeções do BC quanto ao comportamento do balanço de pagamentos parecem agora mais furadas do que nunca. Nos cinco primeiros meses deste ano, o déficit em transações corrente ficou em magérrimos US$ 616 milhões, dez vezes menor em comparação com US$ 5,998 bilhões no mesmo período do de 2016. Apesar desse fenômeno, o BC projeta um déficit em conta corrente de US$ 24 bilhões em 2017, o que é um exagero.

De qualquer forma, o Brasil hoje tem um escudo mais forte para resistir à vulnerabilidade externa. Isso é bom, mas não responde aos anseios da população.

written by Leonardo Trevisan


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