jul 16

Claudia Bozzo
Quando o ex-presidente norte-americano Barak Obama visitou a Turquia, seu aliado na Otan, em 2009, foi recebido pelo então primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, atual presidente do país. Ambos visitaram um dos cartões postais de Istambul, a catedral de Santa Sofia e lá deixaram-se seduzir pelo charme de Gli, o gato da basílica. A foto correu o mundo e Gli virou estrela. Meses depois, em visita à mesma catedral, o que mais atraia turistas era o gato: todos queriam fotografá-lo ou tirar uma selfie com ele.

Esse é um símbolo muito forte do amor que os turcos dedicam aos gatos e por Istambul, como dizem os anúncios de “Gatos” (Kedi, gato, em turco), documentário de Ceyda Torun, que estreou esta semana e tem recebido enorme atenção em todo mundo. Só nos Estados Unidos, por exemplo, foi uma surpresa o sucesso nas bilheterias pois rendeu mais de US$ 2,7 milhões. No site sobre cinema, Rotten Tomatoes recebeu um índice de aprovação de 98% e chegou a ser considerado “O ‘Cidadão Kane’ de documentários sobre gatos”, como relata o jornal britânico Guardian.

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Como a proporção de fãs de gatos só aumenta (nos Estados Unidos o número de ‘gatófilos’ duplicou em apenas 20 anos) há uma primeira e simples explicação para o sucesso do filme que traz a narrativa sobre as andanças de sete deles por uma das mais fascinantes metrópoles do mundo. A diretora Ceyda Torun comentou em entrevistas que muito tem mudado no país.

“As pessoas estão deprimidas e ansiosas… tentam mostrar resistência frente aos acontecimentos, mas é realmente difícil: há uma espécie de nuvem pairando sobre todas as coisas. Tudo aconteceu de forma distante enquanto filmávamos, no verão e 2014. Charlie (Charlie Wuppermann, cinegrafista e parceiro na empreitada) e eu debatíamos todo dia se era defensável fazer um filme sobre gatos, ao mesmo tempo em que ocorriam os problemas dos refugiados sírios ou as rebeliões no país. São tópicos muito importantes a serem explorados, mas ao mesmo tempo exigiam uma perspectiva que não tínhamos condições de prover na ocasião”, conta a cineasta, que viveu em Istambul até os 11 anos e atualmente mora em Los Angeles.

O que ela pretendia era “escrever uma carta de amor à cidade e aos gatos. Com o documentário eu podia imortalizar a beleza de Istambul – essa é a minha forma de resistência”.

Ela escolheu os gatos de rua que resumem as características: independentes, com personalidade, cada qual com sua típica atitude felina. Alguns não sobreviveram nos últimos anos, mas como conta Ceyda Turon, “outros são resistentes e jamais morrerão. Psikopat é um deles. Gamsiz vai muito bem, embora o padeiro que o alimentava tenha mudado”.
 
A cidade, que é a união de dois continentes, com o Bósforo cortando-a no meio, tem uma intensa atividade pesqueira e é de lá que vem boa parte da alimentação que os gatos recebem. Existe ainda o fato de os muçulmanos reverenciarem os felinos: há múltiplas referências de que o profeta Maomé tinha o seu gato. Segundo a diretora, a população, que era de quatro milhões em sua infância, supera os 20 milhões atualmente.

A paixão vem de longe. Para filmar “Zedi” foram entrevistadas muitas pessoas, entre elas escritores, poetas, cientistas e arqueólogos. Um zoólogo mostrou um esqueleto de gato com 3.500 anos, encontrado durante a escavação do novo túnel sob o Bósforo. Foi possível verificar que ele tivera uma pata quebrada, que só sarou porque certamente um humano a enfaixou, cuidando dele. O filme, com apenas 79 minutos, conta ainda que muitos dos gatos chegaram à cidade a bordo de navios, onde tinham a missão de controlar a população de ratos. Também são entrevistadas pessoas que cuidam de inúmeros gatos e o pescador que sai para seu trabalho na companhia de quatro deles.

Mas esse não é o único filme sobre felinos à vista. Depois do tolinho “Virei um Gato” (2016), com Kevin Spacey, há o britânico “Um Gato de Rua Chamado Bob” (2016) de Roger Spottiswoode, que entre muitas outras películas, entre elas um 007, em 1989 dirigiu o ótimo “Uma Dupla Quase Perfeita”, no qual Tom Hanks interpreta um policial, encarregado de cuidar de um cachorro cujo dono foi assassinado. O gato chamado Bob é sobre um rapaz, viciado em drogas, que tocava em esquinas de Londres para conseguir uns trocados que alimentassem seu vício. E ao passar a se apresentar ao lado do ruivinho Bob virou um sucesso de público, foi parar na internet, virou livro e filme também.

written by Leonardo Trevisan


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