out 22

Claudia Bozzo
Isso não é comum, mas a sequencia de “Blade Runner, o Exterminador de Andróides” (1982) está sendo considerada ainda melhor que o filme original, pela maioria das pessoas que viram “Blade Runner 2049” (2017). E desta vez, críticos e público ficaram no mesmo time.

Passados 35 anos, a saga baseada no livro de Philip K. Dick manteve tudo que havia de bom no primeiro filme – e não era pouca coisa – acrescentando detalhes fascinantes à história. E mantendo o padrão estético que caracterizou e ajudou a fazer a fama do primeiro. Só a música não tem o mesmo impacto do original. Mas isso é só detalhe.

O primeiro “Blade Runner” não teve uma passagem marcante pelos cinemas. E aqui chegamos a uma das importantes mudanças tecnológicas que marcaram nesses trinta e cinco anos, passagens cada vez mais rápidas, como apontava Alvin Tofler (definido como ‘futurista’), que faleceu em 2016. Ele escreveu “O Choque do Futuro”, de 1970, mas ainda atual, mostrando como era cada vez mais acelerado o avanço da ciência e da tecnologia.

Esse é um dos fatores que explicam como “Blade Runner”, sem ser um blockbuster veio a tornar-se um dos mais cults entre os cults. Ele chegou em meio à briga pela definição de um reprodutor de vídeo. Era a Sony de um lado, com o seu Betamax, e outras empresas do outro, com o VHS, entre o final da década de 1970 e final da década de 1980. Esse e outros filmes da época tiveram uma carreira doméstica, pois os videocassetes começavam a se popularizar e embora extremamente caros, foram-se tornando cada vez mais acessíveis. Ao mesmo tempo veio a febre dos videoclubes.

Por fora corria outro sistema, com melhor definição, melhor qualidade de reprodução e confiabilidade, porém, extremamente caro, o laser disc (de certa forma, o antecessor do CD). Claro que as empresas pretendiam faturar com a venda de filmes – como a Atari, cujos anúncios aparecem também na continuação de “Blade Runner” – faturava na venda de cartuchos para seus jogos, cobrando pelo console um preço até simbólico.

Filmes em Betamax exigiam o console próprio, pois o formato era diferente do VHS e a maioria era encontrada apenas em lojas na Liberdade, por ser a Sony uma companhia japonesa e porque o formato e sua definição em muitos casos, melhor que o VHS, caiu no gosto da colônia japonesa. Sem contar com a imensidão de filmes japoneses que havia em tais videoclubes.

Foi pelo VHS, na época quase todos piratas, pois a produção demorou para engatar, devido à falta de definição por um dos dois formatos. E foi em VHS, em cópias bem ruinzinhas, que vi pelas primeiras dez ou quinze vezes a epopeia dos androides que haviam fugido de uma colônia em outro planeta, em busca de mais vida, pois tinham um prazo de validade que expirava com o tempo. A qualidade da reprodução dos vídeos não interferia na qualidade artística do filme dirigido pelo britânico Ridley Scott (é produtor executivo de “Blade Runner 2049”) já famoso por “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979) e “Os Duelistas” (1977). Uma direção de arte de tirar o fôlego, atores de primeira, incluindo os belos androides Rutger Hauer, Sean Young e Joanna Cassidy e o já então icônico Harrison Ford.

Nesse meio tempo vieram as TVs digitais, os reprodutores e gravadores de CD, a TV a cabo, a popularização do celular (inventado por Martin Cooper em 1973, era um “tijolo” de mais de um quilo, só começou a ser utilizado, mesmo nos EUA, em 1983). No Brasil, o primeiro foi lançado em 1990. Realidade, o carro elétrico deve ser compulsoriamente adotado por muitos países europeus, e o carro sem motorista avança dia a dia. A ficção científica deixou de ser ficção há um bom tempo. Harrison Ford, por exemplo, dá ordens por voz ao seu computador no “Blade Runner” de 1982. E aquilo era um “nossa!” na época.

Uma boa sugestão, se você não assistiu o primeiro filme umas dez ou quinze vezes, no mínimo – e ainda o director’s cut, que foi apresentado nos cinemas com a versão final do próprio Ridley Scott – é assistir pelo menos uma vez, antes de ver o novo. Mesmo porque estamos atravessando mais uma fase inovadora na evolução tecnológica. Estamos passando para o fim a “mídia física”, como são definidos CDs (de filmes ou música) para a versão digital de tudo. Os serviços de streaming (Netflix, Amazon e outros) estão avançando sobre o território da TV convencional e também da TV a cabo. Outras espécies percebem o bafo da extinção se aproximando. E é bom ficar atento, para poder acompanhar os tempos, aproveitando o que há de melhor por ai.

written by Leonardo Trevisan


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