dez 29

Claudia Bozzo
A segunda temporada de “The Crown”, que já está no Netflix é uma preciosidade. Mais que um berilo, nome de um de seus melhores episódios, “Beryl”, todos os atores desempenham com excelência seu principal papel – o de comprovar que o Reino Unido é o berço da melhor dramaturgia.

A começar pela atriz que interpreta os dez primeiros anos – dos 65 recém-completados – da rainha Elizabeth II no trono, Clare Foy. Jovem, ela está no momento envolvida em outros quatro projetos e seu currículo inclui filmes, séries de TV e peças de teatro desde 2008, incluindo o papel de Ana Bolena na série “Wolf Hall”, também no Netflix e faz parte do elenco de várias outras séries e do ótimo “A Senhora da Van” de 2015, ao lado de David Jennings, que interpreta o rei – tio de Elizabeth – que não quis a coroa e tornou-se o Duque de Windsor. Na próxima temporada será substituída por Olívia Colman (que está em “Assassinato no Expresso Oriente”, em cartaz, como acompanhante de Judi Dench). Ela também trabalhou na série “Broadchurch”, exibida pelo GNT.

Além dela Matt Smith, excelente no papel de Philip, será substituído – mesmo porque ambos são jovens para interpretar os próximos anos da rainha e seu marido – mas o Netflix ainda não revelou qual o próximo ator. Smith foi o penúltimo “Dr. Who”, a série apresentada desde 2005, mas com episódios aqui e ali que a levaram a completar 50 anos na telinha. Ele também é o protagonista em um filme biográfico sobre o polêmico fotógrafo Robert Mapplethorpe, em fase de edição.

A série “The Crown” é densa, irreverente, bem escrita e irreverente de uma forma que até surpreende, ao revelar uma pesquisa histórica e um compromisso elogiável com a realidade, com os fatos que envolveram uma delicada fase da história britânica, após a Segunda Guerra. Nada é deixado de lado, nem mesmo questões delicadas com certas ligações com o nazismo, ou escândalos como o que envolveu John Profumo, político que escalou as mais altas hierarquias do governo britânico.

Também não são poupados os primeiros-ministros que vieram depois de Winston Churchill, como Anthony Eden (1955-1957), no cargo durante dois anos, e que enfrentou a difícil situação de nacionalização do Canal de Suez, decretada pelo presidente egípcio, Gamal Abdel Nasser. Foi substituído por Harold Macmillan, que ficou no cargo de 1957 a 1963. O fraco desempenho de ambos custou à Inglaterra o chamado “capital moral” conquistado com a vitória contra o Eixo, na Segunda Guerra.

“The Crown” traz o relacionamento da rainha Elizabeth com seus primeiros-ministros, família, conhecidos, em detalhes que revelam o rigor da pesquisa histórica feita pela produção dessa que é a mais cara série já feita.

Essa segunda temporada começa pela viagem de cinco meses do Duque de Edimburgo – Philip ainda não era príncipe – por países da Commonwealth – e registra os efeitos emocionais do distanciamento.

Quando terminam os episódios dessa segunda temporada, a grande pergunta é: como eles conseguiram colocar tanta coisa, tantas informações, sentimentos e fatos, em tão curto espaço de tempo? E com tanta competência? E além disso, com um senso cinematográfico de alta competência.

O episódio “Beryl”, por exemplo, mostra como é sair de uma camisa-de-força. A rigidez e o senso de estoicismo que é são britanicamente entranhados, principalmente na família real britânica, encontram uma contestadora à altura, a princesa Margaret, interpretada pela bela Venssa Kirby. A princesa, a 11ª na linha de sucessão para o trono, mas a mais imperial de toda família, como se fica sabendo nas conversas entre as irmãs Elizabeth e Margaret, é um sopro de joie de vivre naquela rigidez cerimoniosa palaciana. E esse episódio marca o encontro de dois seres independentes, ela e o fotógrafo Tony Armstrong-Jones, papel entregue ao carismático Matthew Goode, que passou por “Downton Abbey” e também pela série americana “The Good Wife”.

Na comparação, “Downton Abbey” acaba mostrando-se uma espécie de romance de folhetim, meio descolado da realidade, bem alienado, digamos. Pois “The Crown” passa longe da frivolidade – talvez ela venha quando entrar em cena o período Diana. Mesmo porque, como retratar a princesa sem sua característica principal, a vaidade, o estrelismo e a frívola forma de encarar a vida?

É aguardar e ver. Muita coisa boa ainda está por chegar, se a segunda temporada se consolidar como a bússola dessa interessante série.

written by Leonardo Trevisan


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