fev 08

Na visita de Timothy Geithner ao Brasil sobraram sorrisos. Não poderia ser diferente. Afinal, o secretário do Tesouro dos EUA exibe a face soft power da diplomacia americana.

Tim Geithner não perdeu a linha nem mesmo quando disse: “nós mantemos a política do dólar forte, e nunca vamos enfraquecer a taxa de câmbio para obter vantagens em relação a outros países”. Falou isso, sem corar.

Sobre os US$ 600 bilhões que serão jogados no mercado ao longo deste semestre pelo banco central de seu país, o afrouxamento monetário quantitativo, Geithner garantiu que era só uma necessidade.

E, alertou os brasileiros que, com a taxa de juro que temos, é uma temeridade continuar a receber dólares a granel, porque o real irá se valorizar demais. E, prejudicar as exportações brasileiras, o que causa séria preocupação ao secretário do Tesouro.

Até o assunto da conclusão da Rodada Doha foi tratado. Como esperado, Geitner concordou inteiramente com a crítica brasileira quanto a proposta de Sarkozy de “vigiar e punir” o preço internacional das commodities.

Se tudo é desse modo, a responsabilidade sobre todos os desacertos cambiais e comerciais do mundo, óbvio, está com a China, na visão de Geithner

Tudo bem, cada um representa o seu papel da melhor forma que sabe. Geithner cumpriu sua tarefa até com certo brilhantismo, com diferentes platéias, incluindo a de Brasília.

O problema maior dessas delicadas exibições de soft power continua o mesmo: a realidade.

Primeiro, é melhor olhar bem o que acorre com a balança de comércio chinesa, antes de jogar todas as culpas dos males comerciais do mundo nas costas de Pequim.

O schollar chinês Fan Gang, professor de Economia na Universidade de Pequim, um nome reconhecido na comunidade científica internacional, assinou artigo mostrando que o superávit comercial chinês diminuiu 6,4% em 2010, em relação a 2009. Essa proporção é significativa porque a base dessa comparação foi a queda de30% do superávit chinês em 2008, explicado pela crise financeira.

Segundo as contas de Fan Gang, o superávit chinês diminuiu 36% em termos absolutos, em dólares americanos e recuou 53% enquanto percentual do PIB , nos últimos dois anos. Em 2010 esse superávit representou 4,6% do PIB, enquanto em 2007 representava 11,3%.

O professor da Universidade de Pequim aponta o crescimento do mercado interno chinês como o maior responsável pela queda do superávit.

As vendas de bens de consumo subiram 14,8% em 2010, em relação 2009. Segundo Fan Gang a demanda fez as importações subirem 38,7% enquanto as exportações subiram 30,9% em 2010, em relação ao ano anterior.  Ele lembrou a decisão política já tomada de cortar imposto de renda das pessoas físicas nos próximos anos “para incrementar a renda das famílias”. (O artigo de Fan Gang foi traduzido pelo Valor Econômico e publicado em 3/2/2011)

Na conclusão, o professor chinês pegou  pesado: o alívio monetário criou expectativas de desvalorização do dólar para ajudar as exportações dos EUA.  “Mas, a poupança doméstica permanece baixa em função do alto grau de endividamento público” E arrematou seu texto sem dó: a causa fundamental do atual desequilíbrio pode ser detectada em problemas estruturais domésticos nos dois países. Portanto “as taxas de câmbio desempenharão um papel apenas secundário no reequilíbrio”.

Fan Gang , naturalmente, puxou as sardinhas para sua brasa chinesa. Porém, o crescimento da economia – com o quarto trimestre, a China fechou 2010 com expansão de 10,3%, a maior desde 2007 – reacendeu forte a inflação.

A pressão inflacionária pela expansão no mercado interno chinês é bem real. Um artigo de James A. Areddy, publicado no The Wall Street Journal , mostrou que os alimentos representam apenas um terço do IPC chinês, mas responderam por 75% da alta do índice no quarto trimestre.

Em novembro, a inflação na China bateu em 5,3% anualizada. É consenso entre os analistas que chegará a 6% ou mais no primeiro trimestre, apesar da subida do compulsório dos bancos e do juro básico.

O artigo de Areddy mostrou que em dezembro, por exemplo, o preço da gasolina subiu 3,4%, fechando alta de 11,2% no preço interno do combustível em 2010. O óleo de soja subiu 23% no ano passado (básico para a cozinha chinesa). O jornalista contou que nas duas últimas semanas as autoridades chinesas tiveram de fazer grande esforço para debelar boatos de que faltaria óleo, porque o preço era insuficiente. Curioso: em 2009, os consumidores chineses gastaram 28 bilhões de yuans com óleo de cozinha de soja, o terceiro maior gasto em alimento do país, depois  do iogurte e do leite.

Em tempo: soja é a maior exportação americana para a China: US$ 9,19 bilhões em 2009. Em 2010 esse recorde deve ter sido batido, pois, até outubro a China já tinha comprado dos EUA 43 milhões de toneladas de soja, superando o ano anterior.

O Brasil vendeu menos soja para a China em 2010, 8,5% do total exportado, ante 11,5% em 2009. Minério de ferro compensou essa perda, vendendo 117% a mais que em 2009, vendas que totalizaram US$ 28, 9 bilhões só em minério brasileiro para a China.

Resultado: em 2010, a China comprou 15,3% do total das vendas brasileiras, bem a frente dos EUA que compraram 9,6% e da Argentina que ficaram com 9,2% dessas vendas.  Esses dados todos são da Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

Esses números todos apenas sugerem que nem sempre a China é culpada, sozinha, de todas as dificuldades comerciais do mundo. Incluindo o que acontece com o anabolizado avanço do real brasileiro em relação ao dólar.

written by Leonardo Trevisan


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