Klaus Kleber
A fase de impulso às exportações de serviços do País junto com o crescimento das chamadas multinacionais brasileiras está sendo duramente afetada pela recessão, além dos danos à imagem no exterior das grandes empreiteiras nacionais que se expandiram no exterior e hoje estão envolvidas até o pescoço na Lava Jato. O balanço de pagamentos relativo a 2016 espelha claramente esse quadro. Nota-se, em primeiro lugar, que os investimentos diretos brasileiros no exterior em 2016 (US$ 7,748 bilhões) representam 43% a menos do total em 2015 (US$ 13,498 bilhões).

Este, porém, não é dado mais impressionante. As filiais em países estrangeiros de empresas com matrizes no Brasil fizeram empréstimos intercompanhias no total de US$ 24,136 bilhões no ano passado, 21,73% a mais que em 2015 (US$ 19,827 bilhões). Este movimento nos últimos dois anos é extraordinário. O mais comum são transferências das matrizes das multinacionais no exterior para as suas filiais no Brasil, que também foram substanciais em 2016 (US$ 22,122 bilhões).

Buscar recursos lá fora é normal em face do alto custo do dinheiro aqui, principalmente por parte das transnacionais brasileiras cujas matrizes têm sido muito abaladas pela queda geral da demanda. Vale notar que, pela metodologia do BC, as transferências de filiais no exterior para matrizes aqui — os chamados investimentos reversos — são contabilizados na conta de investimentos diretos no País.

Verifica-se, assim, que dos US$ 78,929 bilhões de investimentos diretos vindos do exterior em 2016, 30,58% vieram de empresas brasileiras com braços em países estrangeiros. Descontados esses investimentos reversos, o total de investimentos diretos no País cai para US$ 54,793 bilhões, um total relativamente baixo.

É fácil concluir daí que vem caindo a confiança dos investidores estrangeiros na economia brasileira, bem como o interesse das grandes múltis ou outras empresas do exterior na aquisição de parte das ações de companhias brasileiras ou de seu controle acionário. Essa situação, evidentemente, pode mudar e o governo conta, para isso, com as privatizações ou concessões, prometidas pelo Programa de Parceria de Investimentos (PPI), que está demorado a deslanchar.

Também devem ajudar, na ótica do governo, as reformas ainda a serem feitas, entre elas as tão controvertidas reformas previdenciária e trabalhista. Tudo isso pode contribuir em certa medida, mas os investidores estrangeiros que vieram para cá o fizeram atraídos pelo grande mercado potencial de consumo do País – e quando isso as perspectivas não devem mudar até o fim desta década. O Brasil nunca foi pensado pelas múltis como plataforma de exportação.

Quanto às multinacionais brasileiras, tão celebradas na primeira década do século XXI, cujo carro-chefe era a Petrobrás, devem, ao que tudo indica, caminhar para um período de hibernação. No máximo, deve ter continuidade
a escapadela de algumas indústrias para o Paraguai à procura de mão-de-obra mais barata. Felizmente, ainda não chegamos ao ponto de acreditar na construção de um muro na fronteira com o país vizinho.

Klaus Kleber
A partir desta semana, vamos ver como o presidente Donald Trump vai governar por atos. Tuitar agora não basta. O novo presidente dos EUA vai ter de tomar decisões e, a acreditar na retórica avassaladora de discurso de posse, ele pode, sim, operar mudanças por “muitos e muitos anos”. A certa altura de sua fala, ele disse, por exemplo, que “nós defendemos as fronteiras de outras nações, ao mesmo tempo em que nos recusamos a defender as nossas próprias” (tradução livre).

A segunda parte é fácil de entender. Embora os governos que o precederam, inclusive o de Barack Obama, tenham gasto bilhões de dólares para reforçar as fronteiras dos EUA com o México, aumentando substancialmente o contingente de guardas armados para impedir a entrada de emigrantes ilegais, Trump certamente está pensando de que forma fará o governo mexicano pagar pelo muro que pretende construir entre os dois países. Além das pressões que tem feito para que indústrias desistam de criar unidades além do Rio Grande, ele talvez reduza as importações do país vizinho no bojo de uma revisão do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta).

Ninguém sabe ao como isso seria feito e talvez nem mesmo Trump. Mas o que parece mais enigmático é sua aparente contrariedade com o fato de os EUA defenderem as fronteiras “de outros países”. Isso poderia significaria que Washington deveria deixar de preocupar-se com as fronteiras da Ucrânia e da Rússia? Ou com as fronteiras de Israel?

Uma das hipóteses é que, em um entendimento direto com Vladimir Putin, o governo de Trump estaria disposto a considerar que a ocupação da Crimeia pela Rússia como um fato irreversível. Evidentemente, Trump, que se gaba de ser um grande negociador, não faria isso de graça. Como contrapartida, Putin teria de retirar forças russas da fronteira da Ucrânia e se comprometer a garantir a independência dos países bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia). Nessa barganha, o presidente russo não deixaria de exigir a retirada de forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) desses países.

Evidentemente, isso não seria fácil, conhecida como é a resistência feroz de alguns senadores americanos e de chefes miliares a concessões à Rússia, que, no limite, poderiam colocar um ponto final nas sanções do Ocidente ao império de Putin, com o consequente enfraquecimento da Otan.

Ninguém parece mais indicado para levar a cabo uma ousada política desse tipo do que o secretário de Estado indicado por Trump: Rex Wayne Tillerson, que foi CEO por dez anos da ExxonMobil e é expert em coisas russas, tendo merecido uma condecoração por Putin por bons serviços petrolíferos.

Falando ainda de fronteiras, as declarações de Trump devem soado como uma música divina para o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu. Não bastasse Trump ter falado em transferir a sede da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém, o seu discurso de posse, ao que tudo indica, dá carta branca para novos assentamentos israelenses na parte leste da cidade sagrada para três religiões e na Cisjordânia.

Especula-se em Washington e pelo mundo afora muito mais que nos dias febris de Wall Street, como mostram os milhares de comentários que têm sido publicados sobre o novo presidente dos EUA.

Leonardo Trevisan
Na véspera da posse de Donald Trump na presidência dos EUA o mundo ficou tomado por outro tipo de curiosidade. Bem diferente da característica destes momentos. Por exemplo, em Davos, no Fórum Econômico Mundial, o ponto comum de políticos, empresários, economistas, banqueiros não é a sensação de mudança com todos os riscos inerentes. Isso todo mundo sabe.

A questão que mais intriga é a velocidade dessa mudança. A lógica é simples: se as mudanças acontecerem de modo mais suave, de forma mais distribuída no tempo, os impactos serão menores. Não só em Davos, óbvio, mas especialmente lá, todos percebem que a vitória de um pensamento mais conservador em política e muito antiglobalização em economia está apenas começando.

O que se esperava é que a velocidade dessa mudança fosse algo controlada. Não é o que parece. Os primeiros sinais não foram de ritmo moderado na consolidação dessa vitória. O tom belicoso de Donald Trump – em todas as direções – foi só o aviso. O exercício prático dessa vitória ficou por conta da primeiro ministro britânico, Theresa May. O anúncio que ela fez anteontem sobre o formato que terá a Brexit é para não deixar qualquer dúvida sobre a velocidade escolhida para impor as mudanças no ciclo de globalização que o mundo vive desde o começo dos anos 90.

Quem exigia definições de Londres, sobre o ritmo da Brexit, já as encontrou. E não foram as mais agradáveis. Artigo do El País fez interessante classificação em 12 pontos do formato com que a Inglaterra pretende ativar o Artigo 50, que regula a saída do Tratado da União Europeia.

Primeiro, é a ostensiva declaração de May: o Reino Unido fala de uma posição de força. Custe o que custar, Londres quer de volta o “pleno controle”, ou seja, denuncia a jurisdição do Tribunal de Justiça Europeu. Em outras palavras, a livre circulação de capitais, mercadorias, serviços e pessoas (base da UE) terá o entendimento que o governo inglês quiser dar. Ponto!

E de forma imediata. A frase de May tira qualquer dúvida dos limites da negociação: “para o Reino Unido é preferível que hão haja qualquer acordo do que ocorra um mau acordo”. É neste contexto que Londres avisou: abre mão já do mercado único europeu (500 milhões de consumidores) porque quer resolver “o quanto antes possível” a questão dos direitos dos estrangeiros no seu território nos termos da legislação inglesa e não europeia. Isto é, Londres está disposta a pagar já, sem negociação, os custos de perder mercado para manter essa soberania anti europeia.

Na prática, May impôs condições que definem a não negociação da Brexit. Instantânea. Cabe a União Europeia só aceitar ou recusar. Sem muita conversa. O ritmo da Brexit será este. O artigo do El Pais mostra como os 12 pontos, incluindo o que será da Escócia e da Irlanda sem Europa, já estão definidos. Este artigo está no endereço:

http://internacional.elpais.com/internacional/2017/01/17/actualidad/1484670601_895879.html

É neste contexto que um dia antes de Theresa May ditar as regras de uma Brexit “feroz”, Donald Trump, definiu a OTAN (a aliança militar ocidental) como “obsoleta”, antecipou que outros países devem seguir o exemplo inglês e deixar o bloco europeu e, sem qualquer freio diplomático, disse que a chanceler alemã, Angela Merkel, cometeu “erro catastrófico” ao aceitar que um milhão de “ilegais” entrassem na Alemanha. Dois jornais conservadores europeus (Bild alemão e Times inglês) foram escolhidos para ouvir Trump afirmar: “para os EUA não tem nenhuma importância e não me interessa se os europeus estão unidos ou não”.

As mudanças antiglobalização terão um ritmo bem apressado. Motivo: deter, pela surpresa, qualquer reação do outro lado. A lógica dessa velocidade é a de criar o “fato consumado”. No caso da Brexit essa pressa tem a ver com inibir a reação do parlamento. Ontem, os parlamentares ingleses – inclusive do partido Conservador de May – queriam saber se a Casa será ouvida ou não para discutir a proposta de saída inglesa da União Europeia.

Tem mais. Em dezembro a Justiça inglesa deu razão a um grupo de cidadãos que reclamou o básico: foi o Parlamento que colocou o país na União Europeia, portanto, só ele a retira. Thereza May recorreu à Suprema Corte britânica. O resultado dessa decisão será divulgado em 24 de janeiro. Todos sabem que a Brexit não tem maioria no Parlamento, inclusive entre os conservadores. O motivo da pressa é esse: fazer valer o referendo antes que o eleitorado perceba bem o que a decisão significa economicamente.

Na verdade, nada é muito diferente na “pressa” de Trump. Matéria do Financial Times, assinada por Barney Jopson, publicada em 17/01, mostrou o grau de divergência da bancada dos Republicanos no Congresso quanto às ideias mais radicais do presidente eleito. O modo pouco ortodoxo de fazer declarações bombásticas , via twitter, visa derrubar ideias e movimentos nos quais os deputados e senadores republicanos trabalharam por meses.

A rejeição de Trump das propostas de reforma tributária dos republicanos é o ponto mais forte de discórdia entre o presidente e o Congresso. O artigo do FT mostra o quanto a ideia de Trump de “ajuste tributário na fronteira” prejudicaria , por exemplo, propostas de redução do imposto de renda, que os republicanos tanto prometeram aos eleitores. A violência das palavras de Trump e a pressa na execução de certas medidas radicais visa “avançar” rápido para dobrar essa resistência.

O mundo, principalmente quem está em Davos, percebeu bem o perigo dessa pressa. O jogo de criar “fatos consumados” para impor decisões nunca deu muito certo. Nem para os interesses da maioria das pessoas, muito menos para os negócios.

A pressa na imposição do pensamento conservador mais radical – em política e em economia – embutido na Brexit e na vitória de Trump, para ficar no começo da conversa (este ano teremos eleição na França, Alemanha, Holanda e possivelmente Itália), pode custar caro. Bem caro. Por isso a curiosidade com Trump não está nas mudanças prometidas, bem conhecidas, mas na velocidade delas. E com toda razão.

Leonardo Trevisan
De novo, não aconteceu o previsto. Nos dois primeiros dias úteis do ano, as bolsas no mundo inteiro avançaram. No primeiro dia, a alta foi bem forte – na Bovespa superou 3,7% – e, ontem, as bolsas ficaram estáveis, sem devolver o lucro do dia anterior. A maior parte das previsões sinalizavam exatamente o contrário. O principal motivo da subida é bem conhecido: China. Embora alta no petróleo também tenha ajudado.

Antes de traçar cenários muito dramáticos para 2017 é melhor prestar um pouco mais de atenção no que efetivamente ocorre na China nos últimos tempos. As bolsas dispararam porque o Índice de Gerentes de Compras (o PMI da consultoria internacional Markit) alcançou em dezembro o maior índice dos últimos seis anos. O PMI chinês ficou um ponto percentual a frente de qualquer cotação prévia . O PMI é relevante porque sinaliza, a grosso modo, os pedidos de insumos já feitos pelos gerentes, ou seja, dá sinal real do ritmo de produção.

Como mostrou artigo do Financial Times de 4/1, assinado por Gabriel Wildan e Yuan Yang, o crescimento do PIB chinês de 2015 foi responsável, sozinho, por um terço da expansão do PIB Mundial. Em outras palavras: as bolsas subiram porque muito gente acha que se a China cresce, o mundo acompanha.

A última edição da The Economist de 2016 já tinha antecipado a tendência de revisão para cima das expectativas sobre China para 2017, baseadas em uma série de evidências sobre o comportamento da economia chinesa durante o ano passado que são:
1 – a longa deflação chinesa, persistente ao longo dos últimos 54 meses, finalmente ”inverteu a tendência” e os preços de atacado voltaram a subir, com os lucros das empresas voltando a expansão no segundo semestre de 2016.
2 – as promessas oficiais de reverter a superprodução de carvão e aço, bem como a redução da oferta de casas “não vendidas” deram certo ao longo de 2016.
3 – no terceiro trimestre de 2016 já estavam bem definidas as tendências de que a expansão oficial prevista de 6,7% do PIB neste ano seria “efetivamente alcançada”.

Na raiz dessa expansão, como notou a Economist, está o bom resultado no controle da bolha imobiliária por Pequim. O governo definiu, desde meados de 2015, um conjunto de restrições determinando “quem pode comprar casa, onde e com que tipo de hipoteca”. A revista mostrou que a “micro administração” regulou a baixa oferta de casas e agiu sobre a bolha nos preços dos imóveis nas grandes cidades chinesas, ajustando o mercado da construção civil ao perfil regional da população.

Na prática, o governo chinês dirigiu a procura de baixa renda para fora do mercado das cidades maiores, regulando a oferta e controlando preço. Pequim, como apontou a Economist, enfrentou o risco desse “controle” e ganhou a aposta. Controlada a bolha imobiliária, a economia ganhou mínima estabilidade para preservar expansão.
A íntegra do artigo da Economist está no endereço:
www.economist.com/…/21712139-risks-lurk-outside…

A economia chinesa, na verdade, também avançou no troca do modelo. O artigo do Financial Times acima mencionado, mostrou cenários de como a batalha para estimular consumo está baseada em uma “nova economia”, com forte apelo para a expansão do setor de serviços. Com o governo sinalizando, lentamente, o declínio do setor de aço e carvão.

O FT escolheu três cidades para acompanhar esta “troca” de modelo. Em Shandong o jornal observou um contexto de estímulo de consumo, até de iates, sim iates, que tem preço mais barato do que um apartamento de dois dormitórios em Pequim.

Depois, em Sichuan, outro cenário. o de cidade “estagnada”, mas com fábricas “trocando de produto”, com forte apoio de financiamento oficial, para “não virar Japão, da década perdida”. O terceiro cenário, o de Shanxi, em que o consumidor “baofahu” (o que vive explosão de riqueza sem uma mínima sofisticação cultural e financeira) é o motor da chegada da economia de serviços na China. Há serviços em expansão para todos os “baofahu”, os que enriqueceram muito e para os que enriqueceram só um pouco.

É este conjunto de cenários que empurra a economia chinesa para um crescimento, se não pleno, ao menos perto das melhores expectativas. O PMI da Markit só captou essa realidade . E as bolsas perceberam.

Sem esquecer o essencial em todo o processo chinês. Em outubro, como mostrou com todo rigor a Economist, começa o “grande encontro quinquenal” do Partido, que definirá o poder das atuais lideranças, especialmente o poder de escolha do sucessor de presidente Xi Jinping daqui a cinco anos. Ou seja, 2017 não pode ser um ano de crise na China. Custe o que custar.

Como sempre, desde que o mundo é mundo, a política decidirá a economia. Não será diferente neste ano na China. E o mundo agradece.

Portanto, convém ter alguma cautela com previsões muito apocalípticas sobre 2017 nas economias emergentes dependentes do desenvolvimento chinês. Esta é uma das razões, talvez a maior, que levaram o economista chefe do itaú, Mario Mesquita, a falar (Valor Econômico de 22/12) em um crescimento de 1,5% no País em 2017 e de 4% em 2018. Esta previsão é quase três vezes maior do que a mediana das previsões acumuladas para o período.

O contexto chinês, dono de mais de um terço das expectativas de expansão do PIB mundial, sinaliza realidade menos dramática. As bolsas captaram isso, com a volatilidade de sempre. Talvez, fique melhor vender um pouco menos de tragédia para a economia neste ano. A prudência, mais os dados de Pequim, sugerem esse cuidado.

Leonardo Trevisan
“Fomos avisados”. Com estas duas palavras, um dos principais articulistas do Financial Times, Lionel Barber, fechou o texto em que descreveu 2016 como “o ano em que a demagogia avançou”. Pela ordem, no longo artigo, Barber responsabiliza Brexit e Trump pelo avanço. Mas não só. Bem longe disso.

O importante neste texto não é a constatação, mas a resposta de por que e como os demagogos avançaram. E, por que, em 2016 a democracia perdeu.

É interessante cruzar este texto do FT com a percepção de Margaret Sullivan, crítica de Mídia do Washington Post, sobre a inesperada vitória de Trump, contra a opinião de toda a mídia americana mais tradicional. “Acho que a imprensa viveu seu ano do pensamento mágico”, resumiu Sullivan, explicando: “você vê a coisa diante dos olhos, mas pensa que é óbvio que aquilo não vai acontecer. Quem fala o que Trump fala, quem faz o que ele faz, era óbvio que não iria ganhar. E passamos o ano desse modo”.

Essa percepção sobre “pensamento mágico” ajuda bem a entender o que não foi feito quando eram visíveis os sinais do avanço dos demagogos pelo mundo. Nesse ponto, observar o debate prévio ao Brexit é essencial. Barber chama a atenção para figuras como Nigel Farage, líder do Partido da Independência do Reino Unido, pela saída da União Europeia, amigo de Trump. Embora não seja só ele, muito longe disso, Farage foi o primeiro a ter grande sucesso como exato representante do “demagogo canastrão, que explora as paixões da multidão, sustentado pelas emoções e pelo preconceito”.

É inadequado fazer comparações automáticas com a década de 1930 e ver em Trump, Farage ou Duterte, das Filipinas, como “fascistas principiantes”. Semelhanças com os anos 30 exigiriam uma Grande Depressão. E estamos bem longe de uma dessas: a economia americana, por exemplo, se aproxima do pleno emprego, a britânica, pré Brexit, abriu 2 milhões de vagas desde 2010, a Alemanha vai bem obrigado. O lucro das empresas subiu muito como mostrou Barber.

O problema é outro: quem mora na periferia das grandes cidades, seja onde for, não tem a sensação de que a economia cresceu. Nos EUA, 95% das famílias tinham, em 2015, renda média inferior à de 2007, dados do Economic Policy Institute. O desemprego na zona do euro não cai. Mas, o patrimônio da faixa do 1% mais rico, como apontou Barber no FT, note-se bem no Financial Times, “continua a crescer forte”. Só se entende bem essa aparente distorção entre sensação de economia frágil de quase todos e renda de muito poucos crescendo muito, quando se assimila, sem pré – conceitos de qualquer espécie, o impulso da acelerada mudança tecnológica.

Inteligência artificial impulsionou bastante a mudança na produção, nos últimos dois anos, em qualquer setor de atividade. Se o smartphone deu voz e conexão a todos, o impacto da inteligência artificial sobre o emprego (que o celular com internet acelera) mal começou a aparecer. Quem quer entender isso, basta pensar no Uber bem além do táxi. O Uber quer entregar de tudo a todos, não só movimentar gente no lugar do antigo táxi. Nenhum emprego ficará do jeito que está hoje nos próximos anos. Todo mundo percebe isso.

Mudança tecnológica nessa rapidez, mais concentração de renda bem acelerada teve efeito demolidor em outras esferas. Especialmente, na política. O artigo do Barber bota o dedo nessa ferida: Brexit e Trump atestam o fim do sistema partidário (nos dois casos, conservadores e progressistas tradicionais foram derrotados impiedosamente) e da divisão esquerda/direita. Centro esquerda, então… Nela, o declínio é quase fatal no mundo todo.

O desdobramento mais violento dessa “desilusão generalizada” nas democracias ocidentais atingiu em cheio a globalização. O artigo de Barber vê 3 tendências na globalização. Primeira, desregulamentação, desde os anos 80, os de Thatcher e Reagan (de consumo e especulação financeira); segundo, o Acordo da Rodada Uruguai, de 1994, que liberalizou comércio no mundo e, terceiro, China, como economia de mercado.

Um bom resumo da ascensão e queda da globalização foi o mercado comum europeu, lugar em que efetivamente aconteceu o abandono progressivo do controle de movimento sobre capitais, produtos, serviços e mão de obra, sem fronteira entre países. O apogeu dessa “união” da Europa foi no terceiro trimestre de 2007. Em 2016, na sentença trágica de Barber, a “Globalização 2.0 acabou”.

O ponto central desse raciocínio é que ficou bem mais difícil vender a ideia de livre comércio para quem está preocupado com estabilidade no emprego e concorrência de produção de país em desenvolvimento. Não só a China. Acelerar livre comércio, via TPP ( o acordo Trans-Pacífico) por exemplo, é acelerar esse medo e aumentar a instabilidade.

Os demagogos de plantão pegaram essa percepção e deram a ela bem acabada feição política. Em especial, no que diz respeito a movimento de pessoas sem controle rigoroso, típico da União Europeia, para citar um exemplo. Daí transformar imigração em “inimigo eleito” foi apenas um passo natural para qualquer demagogo de esquina.

Alguns políticos de democracias consolidadas não nasceram demagogos, mas preferiram o caminho fácil para o poder. Melhor exemplo, Thereza May, a nova primeiro ministro britânica pós Brexit, que foi escolhida depois de um ataque fulminante de Thereza ao multiculturalismo, impensável até então: “quem acha que é um cidadão do mundo é um cidadão de lugar nenhum”. Sem comentários. A tragédia da frase é explícita.

Falta entender o procedimento operacional para que os demagogos avançassem como avançaram em 2016. O fosso econômico entre vencedores e perdedores da globalização apareceu inteiro, primeiro no Brexit, depois com Trump. O problema é que esse alvo, a globalização, era irreal. A razão da vida piorar não estava no livre comércio, no imigrante, na visão esclarecida do mundo. Não eram estes os culpados pela instabilidade, pela crise de emprego e pela concentração de renda. Mas, não interessa a racionalidade, a exposição de fatos bem articulada.

Em 2016, o avanço do demagogo foi feito exatamente nesse ponto, o “fim dos fatos”. Esse é o x da questão do nosso tempo. Ao longo de 2016, na luta política em todo canto do mundo, na imagem precisa de Barber, os fatos passaram a ser “conceitos elásticos”.

Em 2016, o mundo despertou para a realidade eficaz das “notícias falsas” patrocinadas por ativistas políticos de qualquer origem. Como reproduziu o FT, foi Nell Hughes, comentarista da CNN, partidário de Trump, que fez o resumo certo: “o interessante na campanha eleitoral americana é que as pessoas dizem que fatos são fatos, quando não são realmente fatos. Todo mundo pode interpretar tudo como se fosse verdade ou não verdade. Infelizmente, não há mais tal coisa como fatos”. Bingo!

Este talvez seja o resumo mais eficiente da “era da pós verdade” de que falava a The Economist quando Trump ainda era visto só como um “canastrão”. A era da “pós verdade” significa que o político não tentará convencer o eleitor com argumentos, com “fatos” e sim tentará apenas açular os preconceitos já arraigados nesse eleitor. Nada mais. É exatamente nesse sentido que não importam os “fatos”, sejam eles quais forem. A mentira absurda e escandalosa, que apenas concorda com o preconceito já existente, vira verdade. Ponto!

É indiscutível que a demagogia de Trump rompeu todos os tabus clássicos, mexicanos como “estupradores”, ataque gratuito a mulheres, a muçulmanos, jornalistas e ao que fosse. Nada importa, nem mentir sobre a saúde da candidata democrata. O Washington Post provou que o candidato Trump mentiu sobre caridades a fundações que dizia ter feito. Mentiu sobre seu imposto de renda. Não interessa isso são “fatos”, não é o que vale na vigência da “pós verdade”, a “realidade”que parcela considerável do eleitorado queria acreditar. Na Inglaterra da Brexit, nos EUA de Trump, na França da Le Pen, na Alemanha da “Alternativa”, na Itália de Beppe Grillo, nas Filipinas de Duterte….

Nesse processo, ainda mais interessante foi o “pensamento mágico” do jornalismo. Tanto no Brexit como em Trump, a mídia mais tradicional apostou todas as suas fichas no que ela gostaria de ver acontecendo. Não no que estava acontecendo. “Pensamento mágico” é exatamente isso.

A trágica realidade, aquela construída pela “notícia falsa” e pela “pós verdade”, não foi captada pela mídia tradicional, nem pelas pesquisas eleitorais. Barber está assustado com os resultados do “populismo desenfreado” pelo mundo. O grave, de verdade, deste texto, é a frase final: “Fomos avisados”. Não adianta continuar a praticar “pensamento mágico” frente a este alerta.

Aos interessados, a íntegra do artigo de Lionel Barber no Financial Times está no endereço:

https://www.ft.com/content/7e82da50-c184-11e6-9bca-2b93a6856354

Bom Ano Novo a todos!

Leonardo Trevisan
É sempre a moeda. Não importam muito os disfarces usados pelo candidato Donald Trump. Na hora do “vamos ver”, o presidente Trump cuidou do essencial. A escolha do secretário do Tesouro (mais ou menos o nosso ministro da Economia), Steve Mnuchin, foi “esclarecedora”. Tanto quanto a nomeação do secretário do Comércio, Wilbur Ross, quem cuida do que os EUA devem comprar e vender do mundo.

Os disfarces para ganhar eleição, a guerra ao imigrante e ao politicamente correto, o apoio a posse de armas e `”supremacia branca” apenas sustentavam o discurso de Trump. Esse discurso, típico da nossa era, bem longe de ser só americano, era só herdeiro direto do desastre financeiro de 2008. Nada muito diferente do que já vinha sendo praticado lá (o segundo governo Obama expulsou quase 3 milhões de “ilegais”), tudo rigidamente definido pelo Congresso, bem controlado nas duas Casas pela direita republicana.

Nenhuma grande novidade nisso. Quem duvida pense, por exemplo, na tragédia operacional do Obamacare, que foi até aprovado pela Suprema Corte, mas pouco saiu do papel. Sem exageros, o discurso eleitoreiro de Trump, bem olhado os usos e costumes americanos dos últimos anos, era só “mais do mesmo”. De novo, quem duvida lembre do sucesso da “lógica Tea Party” das candidaturas republicanas nas duas eleições de Obama.

Outra coisa, bem diferente, foi a nomeação de Mnuchin para cuidar da economia americana. Nesse ponto aparece a face verdadeira da candidatura Trump que tanto assustava até a cúpula do Partido Republicano. É preciso olhar com mais cuidado quem é – e o que quer fazer – esse legítimo representante de um tipo de pensamento vigente em Wall Street. Em outras palavras, que tipo de raposa de Wall Street foi nomeada para cuidar do galinheiro econômico americano.

O fato de ser mais um banqueiro da Goldman Sachs neste posto não assusta em si mesmo. Os últimos secretários do Tesouro tiveram a mesma origem, tanto faz o presidente: Timothy Geithner, de Obama, Hank Paulson, de Bush, ou Robert Rubin, de Clinton, para lembrar três nomes. Mnuchin é mais um dessa mesma “família”. Mas, é um pouco “diferente” dos demais, para dizer o mínimo. Principalmente na coragem de dizer o que vai fazer, sem cerimonias. Desde Ronald Reagan, um representante de Wall Street nunca foi “tão Wall Street” ao exercer este o posto de secretário do Tesouro.

O histórico profissional de Mnuchin causou preocupação. A Bloomberg (matéria de Saleha Mohsin) lembrou que o Senado terá de fazer “exame rigoroso” da decisão de Mnuchin de comprar em 2009, no auge da crise, a falida instituição de crédito imobiliário Indy Mac, rebatiza-la de One West, recapitaliza-la de forma “inovadora” e revende-la depois, o que significa, “na prática lucrar muito pesado com a crise do crédito imobiliário, o subprime”. Em San Francisco há acusação formal à One West de “más práticas na retomada judicial de imóveis”.

A empresa de Mnuchin, One West, foi uma das maiores beneficiados pela quebra do mercado hipotecário americano como mostrou matéria do El Páis, assinada por Sandro Pozzi. Este texto relembra que Mnuchin e um irmão dele foram arrolados no processo para compensar os prejudicados pela enorme fraude de Bernard Madoff. A íntegra deste artigo está no endereço: http://internacional.elpais.com/internacional/2016/11/30/actualidad/1480462226_775020.html

Os problemas com tais “práticas” levaram Mnuchin a trocar de ramo, migrando para Hollywood. Os lucros com o negócio de títulos de “crédito podre” justificam o investimento na produtora de filmes Rat-PacDune, responsável por 34 blockbusters de altíssimo retorno como “Avatar”, por exemplo, a maior bilheteria da história do cinema, US$2,7 bilhões.

Quanto ao que fará, Mnuchin já avisou a que veio em termos de reforma fiscal. Como mostrou artigo detalhado de Amanda Mars no El País, o programa fiscal do secretário de Trump irá reduzir a três faixas o imposto de renda (12%, 25% e 33%) frente às sete faixas atuais. Nestas, o máximo de cobrança alcança 39,6%. A mudança de Mnuchin vai bem na direção de cobrar muito de quem tem pouco e cobrar bem pouco de quem tem muito. O mais preocupante – como já apontaram inclusive lideranças republicanas – é o anúncio de que o imposto para empresas cai dos atuais 35% para 15%. O impacto no déficit fiscal do país será razoavelmente rápido.

A mídia americana mais voltada para economia repetiu, com insistência, que o problema maior com Mnuchin é a “pressa” com que ele anunciou o plano de mudar a legislação de regulação financeira, estimulada pela gestão Obama , após a violenta crise de 2008.Na primeira entrevista após a escolha, Mnuchin avisou que todas as normas que passaram a regular o mercado financeiro após a crise, eram “demasiado complicadas” e que “restringia o crédito”. Mnuchi foi bem claro: “queremos desfazer partes da lei Dodd-Frank e essa será a prioridade número um”.

A lei Dodd-Frank é o conjunto de regras que coloca limites nos títulos de “crédito podre”. Em outras palavras, a lei que impede que bancos incentivem pessoas que não tem poder aquisitivo a endividarem-se com créditos que não podem pagar, especialmente os imobiliários.

A nomeação de Wilbur Ross, um investidor bilionário, para secretário do Comércio preocupa pela pouca familiaridade com a área. Ross foi o financiador dos empreendimentos de Trump, quando a rede de cassinos do então empresário faliu em 1990. Artigo de Matea Gold, no Washington Post, apontou em detalhes os problemas da “convivência” de Ross, um dos maiores financiadores da candidatura Trump, no comércio internacional

A senadora democrata Elizabeth Warren definiu a indicação de Mnuchin como “um tapa na cara dos eleitores que acreditaram em Trump para sacudir Washington”. A imagem é forte, mas não injusta.

Quem quis acreditou que Trump enfrentaria Wall Street. O maior receio da cúpula do Partido Republicano era quem Trump traria de Wall Street para Washington. Eles estavam certos.

Leonardo Trevisan
Donald Trump provavelmente assistiu House of Cards. A dúvida é se entendeu a principal mensagem. O deputado Frank tinha muito mais poder do que o presidente Underwood. Principalmente em termos de transformar intriga em fato. Quem ocupa o Salão Oval tem que fazer o inverso, desfazer a intriga por meio de fatos.

Aqui está o maior problema da era Trump, como a “entrega” das promessas de campanha já demonstra. Não só na hora de montar o governo, mas de se relacionar com o mundo. Este “relacionar” quer dizer, entre outras coisas, por exemplo, comércio. O que significa , dinheiro. Isto, o empresário Trump entende muito bem.

A melhor prova dessa compreensão foi a inesperada visita de ontem do premiê japonês Shinzo Abe a Nova York, o primeiro líder internacional recebido por Trump. Escondido nessa “visita” está a diferença entre intriga e fato na Parceria Transpacífico, o TPP. Na saída do encontro, Abe foi bem direto na avaliação: “como resultado das conversações estou convencido que o sr. Trump é um líder em que se pode ter grande confiança”.

O motivo de tanta confiança do primeiro ministro japonês é bem claro: China! O poder chinês olhou apenas a realidade e observou que as bravatas de campanha iriam custar bem caro e que ela, China, poderia tirar um bom proveito delas.

O TPP, na versão desenhada na era Obama, excluía a China (embora fixasse um tempo para aceita-la) e definia que o mercado das 12 maiores economias asiáticas ficaria muito mais próximo dos EUA do que de Pequim. Por exemplo, o produtor agrícola norte-americano venderia três vezes mais em cinco anos do que vende hoje para essas 12 economias. Em troca, o mercado americano estaria mais aberto para produtos dessas economias asiáticas em detrimento do que hoje é domínio quase exclusivo chinês.

Se Trump levar a cabo essa ruptura do TPP será excelente negócio para a China. Aliás, hoje, sábado, na conferência dos países da Ásia Pacífico, que acontece este ano em Lima, no Peru, a estrela foi o presidente chinês Xi Jinping, como mostrou matéria do site do The New York Times.

A fala de Xi foi claríssima: se Trump quer frear o livre comércio nós seguiremos sem ele, “nós não nos fecharemos, vamos nos abrir mais”. A resposta expressa ao protecionismo americano foi dada por Xi na presença dos 12 líderes dos países que assinaram o TPP.

Em outras palavras, a China já se ofereceu para substituir a liderança americana no comércio mundial. Uma liderança absoluta chinesa na Ásia ameaça em todos os aspectos o Japão. Foi exatamente isso que o primeiro ministro Shinzo Abe foi perguntar a Trump. Não foi por outro motivo que no dia seguinte da vitória republicana a Dieta, o parlamento japonês, sem surpresas, nem vacilações, ratificou por maioria absoluta o TPP.

O Congresso americano, com todos os interesses econômicos representados, fará o necessário para que os produtores americanos não percam mais espaço para os chineses no mundo todo. Especialmente na parte do mundo que mais irá crescer nas próximas décadas, a Ásia.

O discurso público é um, mas a conversa privada com o premiê japonês foi outro, bem outro, motivando a irônica frase de Abe de que Trump é um líder “de confiança”. A realidade do comércio internacional exige fatos e não intrigas, como o “presidente” Frank Underwood também rapidamente descobriu.

Nada é muito diferente no front interno. A nomeação de três conservadores ultra radicais para cargos operacionais, secretario da Justiça, comando da CIA e conselheiro de Segurança Nacional, esconde a difícil escolha do nome do secretário de Estado, algo mais do que o correspondente nosso de ministro das Relações Exteriores. Esses três cargos entregues a radicais extremados “obedecem” diretrizes, enquanto a secretaria de Estado “formula políticas”. E as opera.

Esse é o ponto. Se Trump for “obrigado” a nomear para secretário de Estado Mitt Romney, ex-candidato republicano, critico feroz da hipótese Trump no partido, na prática, estará entregando a formulação de política de volta à cúpula do Partido, ou seja, aceitando o controle do Congresso. A mídia americana especula forte com o nome de Romney. Para tentar conter esta óbvia imagem, antecipou as nomeações operacionais bem radicalizadas.

A conferir nos próximos dias… Sem esquecer que o cargo negado ao “deputado” Frank Underwood foi exatamente esse: o de secretario de Estado. O resto a série contou… Será que o Congresso atual é muito diferente daquele descrito no House of Cards? A conferir … de novo…

Leonardo Trevisan
Decisões políticas envolvendo economia são realmente curiosas. No dia seguinte da vitória de Donald Trump, o Parlamento japonês votou e ratificou a adesão do país ao TPP, a Parceria Transpacífico. Como se nada tivesse acontecido na véspera. Observar a confiança dos deputados japoneses pode ajudar a entender melhor o futuro das relações comerciais do mundo na era Trump. Até de países como o Brasil.

O exemplo do TPP talvez seja o mais significativo de que discurso e decisão são coisas bem diferentes em comércio exterior. Para começo de conversa, a Parceria Transpacífico , que abrange 12 países asiáticos sem a China, abre impressionante possibilidade para produtores americanos em um pedaço do mercado mundial que já compra 42% das exportações do agronegócio dos EUA.

Preservado o TPP, com tarifas tendendo a zero, a curto e médio prazo, exportações agrícolas americanas para a Ásia devem duplicar em cerca de cinco anos. Não será fácil convencer o produtor americano que o discurso de Trump de “sair do TPP” deve virar realidade. De novo: votar no conjunto ideológico das ideias de Trump é uma coisa; perder dinheiro com seu governo é outra bem diferente.

Aliás, o TPP era uma séria ameaça ao agronegócio brasileiro porque criava caminhos abertos e diretos para o produtor agrícola americano em toda a Ásia. O Congresso americano se incumbirá de conter essa proposta de campanha. Por essa razão, por exemplo, os deputados japoneses não alteraram a agenda de aprovar o TPP no day after da vitória de Trump.

É melhor ter cautela, portanto, nos prognósticos de forte ruptura nos grandes acordos comerciais, NAFTA inclusive. As grandes empresas americanas que fizeram enormes investimentos no México tem impressionante poder de lobby no Congresso. O mais provável é que além de impor algumas sobretaxas mais específicas sobre importações, o governo Trump aumente as aberturas de disputas contra parceiros na Organização Mundial do Comércio.

Neste ponto interesses brasileiros seriam mais atingidos. Não necessariamente os agrícolas. Até setembro, o fluxo de comércio entre Brasil e EUA alcançou US$ 39 bilhões, mas só 9% desse volume foi agronegócio. Como os dados da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) mostram, os EUA são o principal destino das exportações dos fabricantes brasileiros. Neste setor as vendas para o mercado americano cresceram 11% neste ano em relação a 2015.

Porém, o “namoro” de Trump com o “cinturão da ferrugem” pode atingir esse espaço conquistado, exatamente com abertura de “disputas”. Apenas bater às portas dos tribunais da OMC já seria suficiente para aquecer o “namoro” com trabalhadores dos setores industriais americanos. E prejudicar bastante os produtores brasileiros.

Em qualquer cenário, o maior fator de risco da era Trump para o Brasil está no setor financeiro, não nas ameaças de protecionismo comercial. Como bem mostra não só a volatilidade do câmbio. Aumentar o déficit, com disposição para gerar inflação como propõe Trump, provocará reação do FED, com maior ritmo de subida de juro. Só esta hipótese fará estragos consideráveis nas economias emergentes.

A percepção de que o Brasil vive certa “solidão estratégica” no mundo deve ficar ainda mais significativa na era Trump. E não apenas pelas oportunidades comerciais que podem diminuir.

Klaus Kleber
A política externa a ser posta em prática pelo governo Temer, conduzida pelo seu ambicioso chanceler José Serra, não será “apartidária”, com ele disse em seu discurso de posse. Nem representará “uma “guinada à direita”, como a classificou o ex-chanceler Celso Amorim. Será sobretudo uma diplomacia de resultados. Será muito difícil que, em pouco mais de dois anos e meio, Serra consiga obter alguns êxitos que consagrem sua gestão e o credenciem a ser candidato à Presidência nas eleições de 2018, mas é o que ele vai tentar.

Já nesta semana, como se anuncia, Serra embarca para a Argentina e seu objetivo é claro. Como o governo Mauricio Macri já manifestou o desejo de obter um acordo de livre comércio om a União Europeia (UE), o ministro vai lhe dizer que o Brasil está disposto a formar uma frente única com o país vizinho para chegar a esse entendimento o mais cedo possível. Dando de barato que Uruguai e Paraguai também aderirão à iniciativa, ela iria em frente mesmo sem consultar a Venezuela, que tenderia a ficar cada vez mais isolada dentro do bloco.

Há problemas, é claro. Para o Brasil, que vem obtendo gordos saldos na balança comercial e que dispõe de reservas internacionais de US$ 374 bilhões, não haverá problemas em negociar com os europeus a rebaixa de tarifas de certos produtos. Para a Argentina, a situação é mais delicada. Suas reservas eram estimadas em US$ 30 bilhões em janeiro antes do acordo feito no fim de fevereiro com os seus renitentes credores, antes chamados de abutres, o que exigirá consideráveis aportes de recursos. A balança comercial não vai tão bem, mas pode ser que, com a mudança da imagem do país no exterior, haja maior entrada de investimentos estrangeiros, compensando as saídas de capital.

Mas, enfim, é um primeiro passo., Se Serra conseguir, pelo menos, que haja uma diminuição das barreiras no comércio bilateral entre Brasil e Argentina já será um avanço importante. O Brasil pode fazer mais concessões, nas importações de trigo, por exemplo, para que o governo de Buenos Aires se engaje com mais entusiasmo no esforço de realizar um acordo com a UE.

Esse é apenas um aspecto. Adepto da bilateralidade, Serra vai buscar, como declarou, um acordo com o Irã. E vai trabalhar para uma aproximação com os países latino-americanos da Aliança do Pacífico (Chile, Peru e Colômbia). Com os EUA, a situação parece difícil. Mesmo se Hillary Clinton for eleita, não haveria condições para fazer um acordo como o que os EUA têm com o Chile e a Colômbia. Mas podem ser realizados acordos de cooperação em certas áreas. Já a Apex, passando para o Itamaraty, deve tornar mais ativa a promoção de exportações.

A questão de buscar um assento no Conselho de Segurança da ONU vai para o segundo plano e o resto é corte: Brasil pode retirar, mais cedo que se pensa, tropas que mantém no Haiti e fechar embaixadas na África em países do Caribe.

O que vai atrapalhar as iniciativas de Serra é a Lava Jato. Não que ele ou o Itamaraty estejam implicados na Operação. Mas as iniciativas de exportação de serviços , que tanto prosperaram nos últimos anos, financiadas pelo BNDES, foram realizadas por grandes empreiteiras nacionais, todas elas processadas por corrupção.

Leonardo Trevisan
Não esqueça a China, mas preste mais atenção na Índia. Como? Quem aposta que o investidor estrangeiro ficará longe dos BRICS nos próximos meses pode perder feio. Isto quer dizer: a recuperação pode ser mais rápida do que parece nas chamadas economias “emergentes”. Artigo do Financial Times mostrou: a região da Ásia-Pacífico manteve a liderança nos investimentos estrangeiros diretos (IEDs) com 45% do total aplicado em 2015. E o resto dos chamados “emergentes” não ficou mal na foto. Incluindo o Brasil. Com uma novidade impressionante: a locomotiva nos investimentos não é mais a China. A Índia tomou o lugar.

O motivo da mudança foi o conjunto de megainvestimentos indianos do ano passado. O país absorveu US $ 63 bilhões dos IEDs anunciados em 2015. O número de projetos cresceu 8%, alcançando 697 projetos. Para se ter uma ideia comparativa, a China – que por muitos anos liderou investimentos externos especialmente na Ásia – enfrentou, no ano passado, queda de 23% no IED e de 16% no número de projetos, tanto pela estabilização do crescimento como pela alta dos custos no país.

Os investimentos totais na região Ásia Pacífico atingiram US$ 302,5 bilhões em 2015. Os dados são da fDI Intelligence, a divisão de dados globais do Financial Times. Nessa região todos os países cresceram, mas a Índia cresceu bem mais. Na Indonésia, os investimentos atingiram US$ 38,5 bilhões, com múltiplos projetos nas áreas de metalurgia, química e energia. Até o Paquistão (com todos os seus problemas, incluindo terrorismo) amealhou IEDs de US$ 18,9 bi, expansão de 147% em relação a 2014. Filipinas e Tailândia também avançaram bastante.

Outros exemplos de crescimento de IEDs foram a Rússia (atraiu UU$ 11,6 bi, apesar de todas as sanções anunciadas) e a Turquia (US$ 5,8 bi). Oriente Médio e África também expandiram captação de investimentos. O Egito foi o país que mais captou: US$ 14,5 bilhões. Mas… a América Latina foi a região de pior desempenho, o número de projetos caiu 13%. Somente três países na região registraram crescimento de valor na região: Chile, Bolívia e Jamaica. Nesse caso, o Brasil não fez feio, pois manteve o valor dos investimentos estáveis, com declínio de apenas 0,2%, o que foi bastante bom em termos de comparação regional.

Estes dados, sobre IEDs globais, estão no artigo do Financial Times assinado por Courteney Fingar, disponível no endereço: http://www.ft.com/intl/cms/s/3/94351bda-0620-11e6-a70d-4e39ac32c284.html#axzz46xm98u3Y

Esse quadro é revelador da direção dos investimentos reais. O caso da Índia, óbvio, chama a atenção por ultrapassar a China. Mas, é preciso cautela em tudo que diz respeito à China. Pequim, sem aviso, como é costume, pode ter começado a mudar um pouco a sua estratégia de inserção na economia global.

Dos US$ 682 bilhões em fusões e aquisições no primeiro trimestre de 2016, no mundo todo, US$ 101 bilhões, quase 15% do total, foram feitas por compradores chineses. Os dados são da Thomson Reuters. Esse número é bem maior do que o alcançado no mesmo período de 2015. Parte considerável dessas fusões e aquisições foi feita aproveitando a abundante oferta de capital na economia global. Sem contar que bancos estatais chineses estão concedendo empréstimos para essas aquisições, em condições bem mais favoráveis do que as de dois anos atrás por exemplo.

Merece atenção que um dos principais negócios do trimestre foi a maior compra pelos chineses de empresa estrangeira na história: a da suíça Syngenta , de agronegócio, comprada pela ChemChina, no valor de US$ 43,8 bilhões. Estes dados estão na matéria do Financial Times, assinada por Arash Massoudi e Don Weinland, disponível no endereço: http://www.ft.com/intl/cms/s/0/9583e8ea-f70c-11e5-803c-d27c7117d132.html#axzz477Eo0LdI

Nesta matéria estão duas curiosidades; primeiro, a percepção de que a China “está comprando o que eles querem e não apenas o que eles precisam” feita por Stephen Williams , chefe da divisão de capital financeira para a Ásia-Pacífico do HSBC. Depois, que o volume de negócios dos chineses coloca em evidência o “forte declínio na atividade de fusões e aquisições nos EUA”.

O dinheiro “grande” no mundo tomou, portanto, esse caminho. É melhor prestar atenção nessa escolha.