Klaus Kleber
Ao se confirmar a hipótese levantada pela Folha de S. Paulo (15/7) de que a turma do Palácio do Planalto já admite que só em setembro haveria quórum de 342 deputados para votar a denúncia por corrupção do presidente Michel Temer, não é improvável que ele saia fortalecido desse imbróglio.

É irônico o fato de que até há alguns dias atrás, o presidente preferia que a denúncia fosse julgada logo na próxima semana, antes do recesso do Congresso, confiante em que teria votos para rejeitá-la. Chegou-se a aventar a possibilidade de que um quórum de 257 deputados, ou seja maioria simples dos 513, poderia ser suficiente para abrir uma sessão tão importante. Mas, como se noticiou, o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, resistiu às pressões e manteve a exigência da presença de 342, o que significa que a denúncia só seria votada em plenário em 2 de agosto, depois do recesso.

Isso, que parecia ser contra os interesses do presidente, agora pode jogar a seu favor. É duvidoso agora o raciocínio de que, se fosse dado mais tempo para votar a denúncia, o presidente estaria sujeito a novas denúncias da Procuradoria Geral da Justiça e do surgimento de fatos novos provenientes de delações premiadas de Lúcio Funaro ou, principalmente, do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha.

Acontece que fatos novos, por mais graves que sejam, não seriam mais incriminadores do que a gravação da conversa do presidente com Joesley Batista no porão do Jaburu. Afinal, os chamados “fatos novos” são mais relevantes do que velhos costumes políticos que o presidente tem usado com tanta mestria? O troca-troca de membros do da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ da Câmara, à custa de liberação de emendas e distribuição de cargos é apenas uma amostra do rico repertório do Jaburu.

A constatação é de que, depois da aprovação pelo Congresso da reforma trabalhista, o compromisso do presidente com as reformas e com a austeridade fiscal é só da boca para fora. O senador Romero Jucá, um dos pilares de sustentação de Temer no Congresso, já fala em reforma “fatiada” da Previdência, o que pode significar manutenção dos privilégios corporativos e aumento do prazo para o trabalhador comum se aposentar. E vêm aí um Refis ainda mais ampliado, com perdão de dívidas e outras concessões já feitas ou por fazer, sempre oriundas de emendas apoiadas pelo mui leal Centrão.

De outra parte, o governo aumenta a aposta na divisão do PSDB. A facção do partido que não quer abandonar o governo parece ter hoje mais força ou mais capital que os que desejam que o partido entregue os cargos que detém, embora não para fazer exatamente oposição. O equilíbrio é difícil com um pé em duas canoas.

Neste sentido é simbólico que, depois de rejeitar o parecer do deputado Sergio Zveiter, a CCJ tenha aprovado o parecer do deputado Paulo Abi-Ackel, do PSDB de Minas. ligado ao senador Aécio Neves. É sabido também que tanto o governador Geraldo Alckmin como o prefeito de São Paulo João Doria, potenciais candidatos ao Planalto em 20l8, não querem saber de Rodrigo Maia na presidência da República, podendo vir a se candidatar pelo DEM em eleições diretas o ano que vem.

E Temer vai ficando…

Klaus Kleber
A grande pergunta que se faz no País, depois da vexaminosa vitória da chapa Dilma/Temer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é se, no fim e ao cabo, conseguirá o presidente Michel Temer dar “estabilidade” ao País?

O que se tem observado entre empresários e uma parcela do PSDB um sentimento de que, apesar dos pesares, o melhor daqui em diante seria a permanência do atual presidente até 31 de dezembro de 2018.

O próprio Temer se jacta de que teria votos suficientes na Câmara para barrar uma denúncia feita contra ele pelo procurador-geral Rodrigo Janot. Diferentemente do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o presidente julga ter garantidos mais do que os 172 votos necessários para que a denúncia não prospere.

Vá que ele obtenha 200, 220 ou mesmo 250. Significaria isso “estabilidade” daí por diante? Supondo que a denúncia seja apresentada por Janot dentro dos próximos 15 dias, o que é preciso saber, dentro desse período, é como o Congresso reagirá diante das possíveis delações premiadas de Rodrigo da Rocha Loures, Eduardo Cunha, Henrique Eduardo Alves, Lúcio Funaro, Antonio Palocci, Guido Mantega, Renato Duque, etc. O PT seria o principal alvo dessas denúncias, é certo, mas em que medida o governo Temer resistirá a elas?

A economia pode até aguentar o tranco por certo tempo, tendo o país com gordas reservas, excelentes saldos da balança comercial (e a crise até ajuda ao manter o real mais desvalorizado). a inflação em baixa com o consumo tão deprimido, e o Banco Central (BC) reduzindo os juros embora a um ritmo mais moderado. O problema é que, para se manter no poder, o governo vai fazer cada vez mais concessões, como já está fazendo.

Depois da liberação de emendas parlamentares, prorrogação de incentivos fiscais, aumento de uma classe de funcionários federais, do incompreensível Refis, o que mais virá? Será que a equipe econômica, que sustenta o governo, vai continuar dando aval a tanto casuísmo. O compromisso com a regularização fiscal será mantido?

A cada dia, surgem fatos novos e fala-se muito em desembarque de apoios ao governo. O PSDB tem reunião nesta segunda-feira, dia 10, dia dos namorados, quando deve decidir se desembarca ou não do governo. A aposta é que não desembarque e fique aguardando até setembro quando vence o mandado de Janot. Caberá a Temer indicar o sucessor do poderoso procurador. A dúvida é se ele poderia ser tirado do bolso do colete e passar a agir de acordo com o script do Planalto?

De qualquer forma, o governo Temer pode até se segurar com um desembarque parcial do PSDB. Contudo, do jeito que a coisa vai, de concessão em concessão, o desembarque que preocupa mesmo o Planalto é o de integrantes da equipe econômica. Maria Silvia já foi.

Klaus Kleber
A revista The Economist (2/6) tem razão: quer o presidente Michel Temer fique no Planalto quer saia, o Brasil será governado até o fim de 2018 por um presidente fraco. Para se manter no poder, Temer teria de fazer concessões ao Congresso e já está fazendo com a liberação de emendas parlamentares e outros agrados à chamada base parlamentar. Em seus dias finais, a fraca presidente Dilma procurou se aguentar da mesma forma.

A debilidade de Temer será transmitida ao seu eventual sucessor para um curto mandato, supondo que, no caso de destituição do inquilino do Jaburu, assuma outro político eleito de forma indireta pelo Congresso, possivelmente em agosto, depois de um período de 30 dias em que o Palácio do Planalto será ocupado pelo presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia.

Quanto à hipótese de eleições diretas, defendida pelo PT e outros grupos, precisaria da aprovação de um projeto de emenda constitucional (PEC), o que demoraria meses, e a essa altura é francamente inviável. Não passa de uma bandeira política.

O fato é que, saindo Temer, o novo presidente precisará de maioria no Congresso e, por isso mesmo, estará sujeito aos mandamentos do Centrão. The Economist diz que há esperança de que esse novo mandatário leve adiante o programa de reformas, mas isso é altamente improvável. Talvez a reforma trabalhista, que já está no Senado, seja aprovada. Pode ser também que, com a aceitação pela maioria dos Senadores de emendas, o projeto tenha de retornar à Câmara – e aí ninguém pode prever o que ocorrerá. Pode ser até que o imposto sindical, que seria extinto, consiga reemplacar.

Quanto à reforma da Previdência, os que a propugnam podem tirar o cavalinho da chuva. O que pode acontecer, como já preveem alguns analistas, é que o governo desista dessa reforma e tente dar uma arrumada nas contas da Previdência por meio de Medidas Provisórias pontuais, restabelecendo o fator previdenciário e alguma limitação para a idade para a aposentadoria. Com um presidente extremamente dependente do Congresso, como o atual e seu eventual sucessor, vetar projetos aprovados pelo Legislativo nem pensar.

Apenas para exemplificar, volto ao caso dos incentivos fiscais concedidos pelos Estados e que seria destinado a “acabar” com a guerra fiscal. O projeto oriundo do Senado foi aprovado pela Câmara por larga margem na semana passada e não só prorroga os incentivos por 15 anos, mas estabelece que as decisões sobre novos benefícios pelo Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), composto pelos secretários da Fazenda dos Estados, precisem do apoio de apenas dois terços do colegiado. Antes, era exigida a unanimidade.

Isso quer dizer trânsito livre para o troca-troca de favores no Confaz, onde os Estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste terão folgada maioria. Um presidente comprometido com o ajuste fiscal em escala nacional — e não só no governo federal — poderia vetar esse projeto, pelo menos nessa parte. Mas será que Temer, tão abalado no posto, teria coragem de fazê-lo?

Negativo. Seu sucessor, escolhido em eleições indiretas, menos ainda. Podem dizer que o sucessor de Temer teria de se comprometer com as reformas, mantendo a mesma equipe econômica. Mas isso parece otimista. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, poderá tentar extrair um compromisso do novo presidente com as reformas, mas talvez não se segure no cargo em um governo que tende a ser não só fraco, mas ainda mais dadivoso.

Ou seja, chegamos por vias transversas a uma espécie de parlamentarismo tropical ou tabajara, para usar um termo da moda.

Klaus Kleber
A semana que está iniciando será marcada por incertezas mais agudas que as habituais. Afora a litania diária de delações que domina o noticiário, poucos analistas arriscam previsões sobre a votação da reforma trabalhista (PL 6787), que está marcada para ir a plenário na Câmara dos Deputados na próxima quarta-feira, dia 26. Acabou prevalecendo o regime de urgência para a votação, mas foram propostas 200 emendas ao projeto do governo, não obstante as mudanças propostas pela comissão especial instalada para examinar as mudanças na CLT.

Assim, ainda que aprovada a reforma, haverá uma longa discussão quanto aos destaques. De qualquer forma, será um teste para a votação da reforma da Previdência. Por precaução, o relator desta, que é a mãe de todas as reformas, deputado Arthur Maia (PPS-BA), resolveu adiar a sua votação para maio.

Além das denúncias de corrupção cada vez mais amplas e detalhadas – e talvez venha aí a delação do ex-ministro Antonio Palocci –, outra grande sombra se projeta sobre o ambiente político nesta última semana de abril. Está marcada para o dia 28 uma greve geral, convocada por oito centrais sindicais, que representariam 10 milhões de trabalhadores.

Pelo que se tem ventilado, a paralisação não se limitaria ao setor de transportes, que, por si só, causaria uma tremenda confusão. Sem ônibus e metrô, milhões de pessoas não teriam condições de chegar ao trabalho. Mas, como estão dizendo, até funcionários públicos estariam dispostos a decretar ponto facultativo por conta própria para protestar contra o corte de privilégios da categoria pela reforma da Previdência.

Pelos e-mails que lotam a caixa de entrada de muita gente, convocando para a paralisação, poderíamos ter uma greve geral à maneira argentina, com tudo parado? A data não foi escolhida ao acaso. Como os dias 29 e 30 serão sábado e domingo e há feriado em 1º. de maio, Dia do Trabalho, se a greve geral tiver a adesão que as centrais sindicais esperam, o País ficará praticamente paralisado por quatro dias em seguida.

Pode ser que a crescente mobilização para a greve influencie a votação sobre a reforma trabalhista. Ainda que isso não ocorra, uma paralisação generalizada tornará mais ingrato o percurso da reforma da Previdência. Sob o aspecto estritamente econômico, a perda de muitas horas de trabalho com tantos feriadões pesará nos resultados de abril, afetando a lenta recuperação do ritmo de atividade e criará mais incertezas daí para frente.

Klaus Kleber
Já li e ouvi várias explicações para o fracasso das manifestações do domingo passado (26 de março). Só uns gatos pingados apareceram diante do vão do MASP, na Av. Paulista, nas proximidades da Candelária, no Rio, na Praça Sete, em Belo Horizonte, e em outros locais públicos nas grandes capitais. Não se tem notícia de manifestações no interiorzão do País. Os noticiários das TVs falaram em centenas de pessoas portando faixas, mas tudo sem alarde.

Prevendo um grande movimento, o aparato militar era forte em São Paulo, com sobrevoo de helicóptero, mais a passeio do que para garantir segurança. A própria Polícia Militar evitou apresentar seus cálculos sobre o número de manifestantes. Para não ter de dizer que gastou dinheiro público à toa.

Dizem que as últimas manifestações falharam porque a pauta era difusa: a favor da Lava-Jato, contra a reforma da Previdência, contra a terceirização do trabalho, contra e a favor disso ou daquilo (houve inclusive uma faixa a favor da volta da ditadura). Mas a melhor explicação que ouvi para o fracasso do protesto – desta vez sem pato da Fiesp, graças a Deus! – foi de um grupo de garotões reunido na padaria aqui perto de casa.

Uma senhora com camisa da seleção brasileira perguntou a eles que bebiam cerveja se eles iriam para a Av. Paulista. Um deles respondeu: “Manifestação não dá emprego!”. Seus amigos riram – e o garçom também. Entre um e outro gole de café, um senhor comentou que o único emprego criado por manifestação foi o de Fernando Holiday, coordenador do Movimento Brasil Livre, eleito vereador em São Paulo nas últimas eleições municipais. Rá-rá-rá.

Se fosse a manifestação de 26 de março fosse contra o desemprego, que já atinge 13,5 milhões de brasileiros, o comparecimento talvez fosse maior. Digo talvez, porque muitos desempregados não gostariam de mostrar a cara em protestos públicos, cercados por uma belicosa PM, o que poderia prejudicar o seu currículo. Mas, obviamente, este é o grande problema do País e que não pode ser resolvido no grito. Ao que tudo indica, a situação pode piorar. Há quem afirme que, antes de começar a baixar, o desemprego deve chegar a 15 milhões.

O País está se ajustando. A previsão é de que a inflação feche o ano em 4%, a balança comercial deve produzir um superávit de mais de US$ 50 bilhões, as reservas internacionais já chegam a US$ 375 bilhões, o governo está cortando desonerações para evitar que o déficit público dispare, o conceito internacional do Brasil está subindo como aquele balãozinho meia-boca na capa da revista The Economist (18/3), as privatizações tardaram mas começaram, afinal, com quatro aeroportos vendidos ao capital estrangeiro, a indústria dá alguns sinais de recuperação, sobe o consumo industrial de energia elétrica, etc. e tal. Mas cadê o emprego?

O quadro, afirmam alguns, vai começar a mudar partir do segundo semestre deste ano, mas tudo irá acontecer muito, muito lentamente… A grande pergunta é: chegaremos às eleições presidenciais de outubro de 2018 com dez milhões, 12 milhões de cidadãos na rua da amargura? E daí, e daí?

Klaus Kleber
Para quem viveu 21 anos sob a ditadura militar, a frequência de manifestações de autoritarismo no Brasil já preocupa. Nunca entendi a necessidade de condução coercitiva de cidadãos que não chegaram a ser intimados pela Justiça. Seria para evitar que o acusado ou denunciado destruísse provas se fosse intimado? Isso justificaria entrar na residência de uma família nas primeiras horas da manhã para revirar todas as gavetas, remexer nas camas e nos sofás e acabar levado documentos, papéis pessoais, computador, celular? “Provas” assim obtidas seriam sempre válidas?

Vá lá que isso seja necessário em alguns casos, mas é preciso tanto estardalhaço, convocando a imprensa para documentar? Será que operações desse tipo são realizadas apenas para “mostrar trabalho”? O caso da operação Carne Fraca é exemplo de como a Polícia Federal resolve agir por conta própria, sem, pelo menos, avisar o ministro da Justiça, que deveria ser seu superior hierárquico, e outros órgãos da administração que poderiam ser afetados.

Tendo havido uma denúncia de irregularidade por funcionários de um Ministério – no caso o da Agricultura – este poderia ser consultado sobre aspecto técnico, pelo menos. Mas a autossuficiência da PF exclui essa possibilidade, e os estragos estão aí. Em apenas uma semana, os frigoríficos perderam US$ 160 milhões em exportações, ou seja, em divisas que o País deixou de auferir. A PF cobre esse prejuízo?

Embora não envolva dinheiro, é ainda pior o caso do blogueiro Eduardo Guimarães, que teve a sua condução coercitiva ordenada pelo juiz Sérgio Moro. O motivo: o blog de Guimarães antecipou em fevereiro uma operação sigilosa determinada pela Lava Jato para conduzir coercitivamente o ex-presidente Lula, como de fato ocorreu. Moro não considerou que o blogueiro estava protegido pelo direito do jornalista de não revelar a fonte, isto porque Guimarães não teria registro profissional, sendo apenas um “comerciante”.

Depois, Moro voltou atrás, dando uma desculpa esfarrapada, em sua linguagem própria, por sua decisão anterior, tomada aparentemente para punir um ato sacrílego. Já em Brasília, vazamentos abundam, todo dia tem um listão “off” de políticos denunciados, e nenhum procurador ou juiz protesta. Como perguntou, o ex-ministro Nelson Jobim, em artigo na Folha de S. Paulo (26/3): “ é admissível o tratamento diverso de situações iguais?”

Antes que venham com pedras na mão, não estou dizendo que isso invalida a Operação Lava Jato. Só que, como todo gato escaldado, tanto mandonismo mexe com a gente.

Klaus Kleber
É quase inacreditável que se esteja propondo, como saída para a crise político-institucional que engolfa o País, a adoção dessa excrescência que é o voto em lista fechada, de modo a salvar mandados de caciques políticos enrolados na Lava Jato.

Se o Congresso tiver o desplante de apoiar essa ideia, pode-se prever até uma rebelião nas ruas, pois se retiraria do povão o direito de votar, pelo menos, naquele deputado de sua preferência, ou seja, seu representante, em tese.

São pouquíssimos os cidadãos que votem em um partido em mesmo os que o fazem, têm o seu candidato. Se a questão é baratear as campanhas eleitorais, poderia ser adotado sistema distrital puro ou combinado com o voto em lista, mais ou menos como o sistema alemão.

O problema do voto distrital, porém, é complexo, a começar pela divisão dos Estados em distritos. Da forma que for feita essa repartição pode beneficiar candidatos ou partidos. E é preciso considerar que teria de haver distritos para deputados federais e para deputados estaduais.

Convém lembrar aqui as distorções que um sistema distrital pode provocar. Um dos truque é o que, no folclore político dos EUA, é conhecido como gerrymandering. Lá nos albores da democracia americana, um governador de Massachusetts, Eldrige Gerry, criou um distrito geograficamente contorcido de tal forma que parecia uma salamandra (salamander), um mitológico dragão a serviço de seu partido. A imprensa inventou o termo (Gerry+ mander) para designar o estrambótico distrito. Como a expressão não caiu em desuso, pode-se presumir que até hoje existam distritos de formato específico para beneficiar candidatos ou partidos.

Mas isso pode ser evitado. Veja o caso de São Paulo, que tem 70 deputados federais e 94 estaduais. Há alguns casos, quando escrevia para a falecida Gazeta Mercantil, propus uma solução à brasileira: criar distritões verdadeiros em cada Estado, sem aquele passa-moleque pelo qual os Estados elegeriam tantos deputados federais ou estaduais, sendo considerados eleitos os mais votados.

Os distritos as que me referi serviriam tanto para as eleições de deputados federais como estaduais, baseados nas divisões administrativas ou mesorregiões de cada Estado, divididas pelos critérios do IBGE. Em cada distritão, seriam eleitos tantos deputados federais ou estaduais de acordo com a sua população.

Exemplificando: o Estado de São Paulo tem 15 regiões administrativas, que escolheriam, cada uma, de acordo com o número de eleitores, quatro, cinco ou seis deputados federais ou sete ou oito estaduais. Eleitos seriam os mais votados em cada distritão.

Assim, os eleitores de cada região poderiam saber exatamente quais são os seus representantes, independentemente de partidos. O sistema teria ainda a vantagem de contribuir para baratear os pleitos, já que os candidatos saberiam exatamente as regiões que teriam de concentrar suas campanhas.

Esse sistema poderia conviver com a lista fechada, ou seja, pode ser um voto distrital misto, favorecendo mais os distritões do que as listas partidárias, que abrigariam os candidatos com votação espalhada por todo o Estado. Seja como for, lista fechada neste momento seria o trágico fim da Constituição de 1988.

Klaus Kleber
A primeira semana de 2017 foi uma das mais trágicas da história do Brasil. O morticínio nos presídios de Manaus e Roraima dominaram o noticiário e ao que parece isso não deve acabar tão cedo (leio que, no último semana mais quatro presos foram massacrados em Manaus encontraram presos mortos e enterrados em prisão de Roraima). Diante desse verdadeiro genocídio, desencadeado por fações criminosas, o governo federal demonstrou uma insensibilidade quase inacreditável.

O presidente Michel Temer, só quatro dias depois do primeira matança achou que deveria se pronunciar e o fez de forma medíocre, enquanto seu ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, dava declarações desmentidas pelos fatos sobre a ajuda federal em uma crise anunciada.

Enquanto isso, foram divulgados previsões deprimentes sobre as possibilidades de crescimento da economia este ano. Alguns esperam que, na próxima quarta-feira, dia 11, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) possa dar uma injeção de ânimo no País se baixar a taxa básica de juros de forma significativa. Chegam a falar em uma redução de 0,75 pontos percentuais, trazendo a Selic para 13%. Isso talvez seja otimista demais. No máximo, o BC pode reduzir a Selic em 0,50 pontos, dizem os mais céticos. A decepção será profunda se fizer menos do que isso.

Seja como for, na situação melancólica a que chegou o País, só uma figura se destaca: a da ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). Logo em seguida ao massacre de Manaus, ela deslocou-se para a capital do Amazonas onde se reuniu com desembargadores dos Tribunais de Justiça da região Norte, numa tentativa de chamar-lhes a atenção para, pelo menos, desburocratizar o sistema judicial-penitenciário.

Ao mesmo tempo, como presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) Cármen Lúcia solicitou ao IBGE um levantamento sobre o número e o perfil dos encarcerados no Brasil. Ela já sabe o que mostram pesquisas preliminares: mais da metade dos presos são jovens, que cumprem pena por roubo ou pequenos delitos e não faltaram inocentes ou presos que já haviam cumprido suas penas quando foram trucidados. Isso tem de mudar.

Sensibilidade social, tão escassa no governo, a presidente do STF tem de sobra. Esse traço de caráter fez com que ela concedesse liminares para evitar o bloqueio pela União de R$ R$ 181 milhões e R$ 192 milhões destinados às contas do Estado do Rio de Janeiro. Esses recursos seriam retidos para pagar empréstimos contraídos pelo Estado e não pagos. A ministra justificou a sua decisão dizendo que o bloqueio prejudicaria, “de modo grave e irreversível, a execução de políticas públicas e a prestação de serviços essenciais à população”.

O desbloqueio irritou o presidente Temer, que foi à casa da ministra para conversar. O que resultará disso não se sabe. Outro encontro está marcado com o ministro Henrique Meirelles, que também está fulo da vida, falando em quebra de contratos, etc..Mas a decisão final, ao que tudo indica, ficará para fevereiro, quando o plenário do STF volta a se reunir. Comenta-se que, se o STF mantiver o entendimento da ministra Cármen Lúcia, o governo federal poderá revidar, tomando medidas de contenção em detrimento dos Estados.

Seria muito melhor, é óbvio, se houvesse um diálogo construtivo entre a União e os Estados, inclusive sobre o problema penitenciário. Mas isso exigira uma liderança com amplo descortino dos problemas nacionais, o que mais faz falta ao Brasil nesta etapa histórica.

Estado Policial?

21 / 03 / 16

Klaus Kleber
Alguns desdobramentos já podem ser previstos da infernal crise política que engolfa o País. Entre estes estão a reunião do PMDB no dia 29 de março, quando o PMDB deixaria formalmente o governo, e 30 de março, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) decidirá se o ex-presidente Lula pode ou não ocupar a Casa Civil da Presidência da República.

O STF resolveu tirar férias justamente neste momento crítico e, ao que parece, até o fim do mês, prevalecerá a decisão do ministro Gilmar Mendes impedindo Lula de assumir o posto para o qual foi nomeado pela presidente Dilma Rousseff. Há recurso, etc., mas o drama culminará na votação impeachment da presidente, mas não se sabe, ao certo, quando ocorrerá. Uns dizem que tudo vai se encerrar em 45 dias. Outros dizem dois meses. Enquanto isso, a economia continuará em carrinho de rolimã ladeira abaixo, e Deus nos acuda!

O que me parece espantoso, para o dizer o mínimo, é que o processo de impeachment foi aberto pelo presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, e está sendo apressado por ele, que conseguiu até obter quórum para a sessão na Câmara na última sexta-feira, dia de revoada de deputados para fora de Brasília, de modo que o processo de impeachment começasse a andar. Talvez, Cunha até consiga obter quórum para uma sessão da Câmara nesta segunda-feira…

Cunha é réu em processo que tramita no Supremo. Já foi condenado pelo Conselho de Ética da Câmara e continua no seu posto. Será que ele presidirá a Câmara na sessão que decidirá o impeachment? E será que o senador Delcídio Amaral, que também passará a ser julgado pelo Conselho de Ética do Senado, conseguirá sobreviver politicamente e votar o impeachment? Não consigo encontrar respostas para estas perguntas pelo noticiário político, todo centrado em Lula e Dilma.

Em entrevista a Veja (edição 2470), o cineasta José Padilha diz taxativamente: “O que não pode agora é haver um acordo entre o PSDB e o PMDB e só PT ser punido significativamente. Os corruptos do PMDB e do PSDB têm de ser pegos também”.

Serão? Para Padilha, “tudo é caso de Polícia”. Será que a nossa República se transformou em Estado Policial?

Klaus Kleber
A minha impressão de que é pouco provável de que o impeachment contra a presidente Dilma seja decido pela “voz das ruas”, tal como ocorreu com ex-presidente Fernando Collor em 1992, como esperam alguns políticos. Houve manifestação na Av. Paulista neste domingo a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff e na quarta-feira, dia 16, segundo me informam, está prevista outra, desta vez a favor da presidente.

O que pode acontecer um dia desses é um confronto entre manifestantes de dois lados, levando a Política Militar a intervir, dando o espetáculo deplorável de sempre.

O que tenho ouvido de muitas pessoas – amigos, parentes, vizinhos, pessoas da rua e do boteco – pessoas a favor do impeachment ou contra, pessoas que acham que a presidente a renunciar junto com o vice Michel Temer, agindo caminho para novas eleições, enfim, pessoas que expressam toda a gama de opiniões – é o desejo de que o processo se resolva logo.

Todos abominam a politicagem e seu mais exímio praticante, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, objeto de um incisivo editorial na primeira página da Folha de S. Paulo no último domingo, considerando inadmissível a sua permanência no posto, o que adquire, segundo o jornal, “características nocivas para a ordem institucional do país”.

O fato é que, com a crise econômica e a falta de perspectivas, os cidadãos que trabalham já estão de saco cheio com a falta de definições. Como desabafou comigo um pequeno empreendedor — “Qual a utilidade de eu levantar cedo, enfrentar o trânsito, ir trabalhar por oito, nove horas, enfrentar de novo um trânsito caótico, e ouvir pela TV ao chegar em casa que não há saída para a economia enquanto não se resolver a crise política?”.

Não é um sentimento isolado. Admitindo que as chicanas sejam do jogo, que o processo de impeachment tem de ser “sem mácula”, como disse o ministro do STF, Edson Fachin e, por isso, tem de obedecer a determinadas normas, o que causa preocupação a muitos são as repetidas procrastinações, às vésperas do recesso parlamentar e também das festas fim de ano, seguidas de férias de milhões de pessoas.

Se o recesso parlamentar não for encurtado, o Congresso só volta um fevereiro, quando tudo, ao que parece, deve começar de novo. A solução só virá, certamente, depois do Carnaval e, da forma como vem sendo conduzido o processo, ninguém sabe dizer quando terá fim. Em março, abril ou maio de 2016?

Permanecerá o gigante adormecido por tanto tempo?