Frederico Turolla
O volume de vendas do comércio varejista, no ano de 2015, ficou 2% acima da média do ano de 2012. Este ano é referência por que já incorpora uma mudança técnica na estrutura de ponderação do IPCA.
O gráfico a seguir mostra o comportamento desse indicador dos estados brasileiros nesse período. Apresenta a variação entre a média do ano de 2015 e a média do ano de 2013.

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Como bem disse o grande Milton, uma notícia está chegando lá do Maranhão, cujo comércio desempenhou acima da média nacional, entre os sete melhores, nesse período. O Maranhão fraquejou no ano passado, mas ainda está melhor que nos últimos anos, em termos de volume de vendas.
Quatro estados tiveram dois dígitos de crescimento de volume de vendas no período: Roraima (mais de 20%), Acre, Mato Grosso do Sul e Rondônia.
Dezoito estados tiveram vendas maiores em 2015, relativamente a 2012. São Paulo fica perto da média brasileira, de 2%. Somente 9 estados apresentaram involução nesse indicador. Os motivos são idiossincráticos, com algum peso para fatores nacionais, como a influência da taxa de câmbio em economias regionais com maior potencial exportador.
É claro que o quadro geral é feio e não anima muito. Mas o pessimismo que se abateu sobre o país, fruto legítimo das grandes besteiras cometidas pela estratégia política macro e microeconômica nacional desde a última década, não vitimou a todos de forma homogênea. Há, ainda, bolsões de relativa prosperidade no mesmo Brasil que chora essa feia recessão do ano passado.

Frederico Turolla
A evolução diária do mercado financeiro é indecifrável, mesmo para iniciados. Porém, quem opera nesse mercado precisa tirar suas próprias conclusões. Como muita gente, volta e meia me dedico a procurar correlações para entender o mercado. A última que fiz, compartilho. Mas não acredite em nada do que segue.

Fiz um modelinho ingênuo para a taxa de câmbio do Real em relação ao dólar, que estima “elasticidades” do câmbio em relação aos preços de commodities: petróleo, metais, agropecuárias; e os juros americanos de 10 anos. Os resultados estão abaixo.

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Lendo a primeira linha da tabela, o modelinho boboca informa que, nos últimos 13 anos, qualquer mudança nessas variáveis vinha acompanhada de apreciação do real. Ou seja, o mercado da nossa moeda tupiniquim gostava de petróleo caro, juro alto nos EUA, metais caros e grãos inflados. Faz sentido, não por relação econômica, mas por simultaneidade: quando essas coisas estão pra cima, a economia vai bem e a nossa moeda se fortalece.

As duas linhas do meio informam que, em períodos selecionados, o mercado da moeda brasileira passou a “gostar” menos dos juros americanos e do petróleo caro. Morfina de gringo? Talvez. Mas o interessante é que o mercado aqui parece ter curtido muito mais os metais, caros pra chuchu. E, mais forte ainda, já nesta década, inventou o botão de “descurtir” para os grãos.

Naquele ano maluco que acabou de passar (o famigerado 2015), e até o comecinho deste ano, o mercado parece não estar muito aí pros juros americanos. Inventou de descurtir o preço do petróleo, o que não durou muito – de fato, rodando o modelo para o último mês até antes do feriado do aniversário de Sampa, a elasticidade fica negativa de novo. E o mercadinho passou a curtir bastante os metais e criou o botão de superlike para os grãos. Vale pros dois lados, quando caíam estes, a moeda aqui depreciava.

O que quer dizer isso tudo? Nada. A estatística não diz muita coisa. Mas dá pistas importantes sobre o movimento da moeda, para quem quer operar. Uma pista, para mim, é que a força do petróleo sobre o Real está sendo, nos últimos dias, superestimada. Outra pista é que o movimento do Fed já está precificado. E a última, valiosa pista, é o aumento da sensibilidade às commodities metálicas e minerais, nos movimentos de curto prazo.

Se você operar em cima dessa análise, eu não tenho nada com isto. Problema teu. Isto é um disclaimer, ok?

Frederico Turolla
As projeções da Pezco Microanalysis sobre a recuperação da economia neste ano foram recebidas com surpresa. A consultoria previu que o PIB real ficará estável neste ano, o que exigirá uma recuperação nos trimestres seguintes, considerando que neste primeiro trimestre a economia ainda está em queda. Em uma pesquisa recente do Valor, o segundo mais otimista espera queda de 1,9%.
Os detalhes técnicos da projeção não cabem aqui. Vale apenas um conjunto de comentários, para que o leitor entenda por que este ano pode ter alguma recuperação – ainda que nada espetacular.

Em primeiro lugar, é preciso ressaltar que a recuperação da economia não significa que a política econômica esteja acertando ou que finalmente o país reencontrou o rumo do crescimento. Nada disso.

Aliás, a quantidade de desaforos que foram feitos nos últimos anos e que continuam sendo praticados pelo governo nos meteram numa enrascada difícil de sair.

Em palavras fortes e diretas, os governos Lula e Dilma foram indubitavelmente desastrosos sob o ponto de vista econômico. Mas, ao ler o restante do post e formar sua opinião, por favor esqueça as paixões políticas.

É que, mesmo com todo esse desaforo, a economia brasileira tem uma resiliência não desprezível. Não é a primeira vez que essa economia é vítima de grandes besteiras em matéria de política econômica, e em todos os casos ela se recuperou. Desde a crise dos anos 30, não há caso de duas belas quedas consecutivas no PIB anual do Brasil.

Mais tecnicamente, há grandes evidências de que esta economia já caiu abaixo de seu crescimento potencial, e tende a retomar esse potencial, senão por inércia.

O ano de 2016 traz diversas vantagens em relação ao conturbado ano de 2015. Vale lista-las:

– O mercado de trabalho já sofreu um duro ajuste, o que permite às empresas contratarem trabalhadores com melhor produtividade a preços mais razoáveis.

– O ajuste dos preços já ocorreu e agora há elementos favoráveis no preço da gasolina e da energia – em função da defasagem de preço (no primeiro caso) e da melhora nas condições de oferta (no segundo caso)

– Ativos financeiros já embutem expectativas muito ruins, precificadas, e qualquer suspiro poderia puxar esses preços para cima.

– Serão mais dias úteis, em ano bissexto, e os feriados cairão em dias neutros, com menos enforcamentos. Acho que vamos trabalhar mais, neste ano, o que ajuda o PIB. O carnaval será mais cedo, ou seja, o ano começa pra valer na segunda quinzena de fevereiro!

– Em um ponto bem técnico, os analistas apontam que o carry over negativo para 2016 é grande. Mas também era em 1992 e em 2009. Entretanto, o resultado negativo foi menos ruim do que indicava o carry over, ou seja, na margem, houve recuperação.

– A crise aberta (veja no fim do post nosso prognóstico no cenário alternativo) não interessa a ninguém. A chance de uma coalizão de forças que evite uma crise política não é desprezível, evitando uma deterioração das expectativas e até levando a uma recuperação dos ativos.

– Alguns players internacionais, como o Saxo Bank, já manifestaram que esperam uma recuperação da economia brasileira. Por outro lado, o comportamento de manada dos forecasters é típico e é difícil desviar dele sem ser uma casa de research independente. E há casas independentes apostando nessa recuperação.

– Copa e Olimpíadas são péssimos para a economia e os agentes sabem disso – já incorporaram as projeções de que megaeventos são coisas ruins. Mas esses agentes esquecem que jogos olímpicos têm efeito marginal de curto prazo mais positivo sobre a economia do que a Copa. Portanto, muita gente subestimou o efeito dos jogos do Rio, achando que é Fifa de novo.

– As projeções de queda do PIB levam em conta grandes quedas do investimento agregado, de até 10%. Mas o investimento já despencou em 2015. O que é que sobrou no CAPEX para se cortar em 2016? Na verdade, já há empresas retomando planos de investimento pensando que, em algum ponto nos próximos anos, essa economia volta a crescer minimamente.

– Ainda sobre investimento, os setores exportadores estão investindo com câmbio mais favorável. Na área de infraestrutura, alguns projetos que saem já impactam em relação a uma base que foi a mínima histórica. Isso reforça que é difícil o investimento cair muito abaixo do chão.

– Alega-se que a vibe do Congresso não está para reformas estruturais. Só que, no vácuo do Executivo e por iniciativa do próprio Congresso (Senado, no caso) está andando o novo Código Nacional de Ciência & Tecnologia. Não é comum que iniciativas legislativas gerem reformas institucionais de longo alcance, e teremos uma neste ano, com efeito sobre a produtividade. Isto é pouco?

– Na margem, alguns indicadores de confiança mostram alguma recuperação. O Sudeste não está bem, mas as demais regiões têm um pouco mais de alento devido a negócios mais dependentes de exportação e de outros elementos regionais.

Claro que a Pezco um cenário alternativo. E o que poderia desencadear uma piora significativa das coisas? São duas respostas. A primeira vem de fora, como uma grave crise chinesa.

A segunda vem de dentro: uma forte deterioração das expectativas. Se a crise política degringolar, ou se a política econômica voltar com força à tal Nova Matriz, com certeza vamos despencar.

No cenário alternativo, entretanto, não cabe falar em queda de 3% na economia. Neste caso, estamos falando de crise aberta. Quebradeira de empresas em diversos setores. Empoçamento de crédito generalizado. Problemas de liquidez seríssimos.

Nesse cenário alternativo, o PIB cairia 5 ou 6%, pelo menos. É uma catástrofe econômica, que talvez arraste outros emergentes, com impacto global. Infelizmente, a probabilidade desse cenário alternativo não é desprezível. Mas este não é, de forma nenhuma, o cenário base. Portanto, apostamos no “otimismo” do crescimento zero.

Em outras palavras, os dois cenários da Pezco são polares. Ou a economia recupera um pouco, em direção ao seu potencial, mantendo o mesmo (baixo) PIB do ano passado; ou a coisa degringola de vez, com uma crise importante. Não tem meio termo. Os 3% de queda que o mercado espera não parecem factíveis.

A Pezco foi citada pelo El País como uma das que mais acertou para 2015. Tomara que esteja certa novamente. Neste caso, o ano não será maravilhoso, mas pelo menos teremos alguma recuperação. Pra bolinha que o Brasil vem batendo, empatar o PIB já será uma grande vitória!

Frederico Turolla
A mudança no Ministério da Fazenda, no finzinho deste inusitado ano de 2015, adicionou mais um elemento de dúvida ao cenário da infraestrutura para 2016. É um ministério importante nessa área.

É fato que o Ministro e sua equipe já vinham sendo fritados. Não conseguiam fazer muita coisa. Mas pelo menos havia uma agenda.

É sabido que Levy, o ministro demissionário, era um partidário da infraestrutura. Defendia instituições sólidas e, principalmente, gostava de atuar para que o sistema de financiamentos pudesse dar conta do recado da infraestrutura. Escolheu uma excelente equipe para isto.

Boa parte do esforço de Levy nessa área foi para executar uma transição entre a desastrosa “estratégia” do antecessor Guido Mantega e uma nova realidade. Não resisti às aspas. A nova estratégia deve ser fortemente calcada em mecanismos de mercado de capitais e em instituições mais sólidas, inclusive no ambiente regulatório.

O último pacote de concessões, de junho, deixou isso claro. Foi dimensionado com realismo, sem os arroubos da gestão anterior. Nada de enfiar trens bala à força. Alguém vai se lembrar que tinha, sim, algo estranho no pacote: uma ferrovia ligando dois oceanos; mas quem leu bem o anúncio percebeu que esse projeto estava “escalado” para o próximo governo – ou seja, não estava escalado.

Sem Levy, qual será a agenda? Até onde consta, o novo ministro Nelson Barbosa não parece ter planos da mesma envergadura para a infraestrutura.

Já sabemos um pouco sobre a abordagem de Barbosa enquanto Ministro do Planejamento, mas pouco sabemos sobre o que prepara enquanto Ministro da Fazenda. Cumpre reconhecer que as duas posições são muito diferentes em termos de atribuições e, portanto, o Ministro merece o benefício da dúvida.

Tomara que o novo Ministro apresente bons planos e comece o ano apontando na direção de um ambiente que propicie mais investimentos. O mercado está latente, tem condições de retomar, e depende fortemente de planos que, se não atrapalharem, já ajudam e muito.

Frederico Turolla
Quem já sacou que crescimento econômico é sinônimo de ganho de produtividade não deveria estar surpreso com o desempenho sofrível da economia brasileira. Desde a última década, as políticas macro e microeconômicas compuseram um grande concerto de desaforos contra a eficiência, aliados a um voluntarismo destrutivo e inconsequente.

Os desaforos continuam, pois em geral Brasília não consegue entender o que está escrito no parágrafo anterior. Entretanto, é preciso abrir uma exceção. A Agenda Brasil, originada no Senado Federal, produziu uma peça boa, que ajuda a produtividade. É o novo Código Nacional de Ciência & Tecnologia.

O novo Código regulamenta a Emenda Constitucional no. 85. Ele traz mudanças significativas no âmbito operacional, promovendo transitividade entre os setores público e privado na geração e gestão de (bens) intangíveis, que são típicos da atividade de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I).

Destacam-se as seguintes propostas: altera dispositivos da Lei de Inovação (10.973/2004) visando fomentar a cooperação e interação entre universidade e empresa; promoção da competitividade empresarial; adoção de controle por resultados em sua avaliação; e a utilização do poder de compra do Estado para estímulo à inovação. Há também modificações para tornar mais ampla a definição de inovação e para manter programas específicos para micro e pequenas empresas.

O projeto também define melhor a propriedade intelectual resultante de parcerias acadêmico-empresariais. A transferência de tecnologia, objeto central dessas parcerias, tende a ser facilitada, com mais simplicidade e desburocratização do processo, como me disse a gestora de inovação, Dra. Marcia Rujner. Somente esta iniciativa, se convertida em lei, poderá trazer, a longo prazo, ganhos de produtividade.

Assim, este projeto de lei é uma daquelas raras iniciativas que rompem a ampla sequência de desaforos à eficiência econômica que emanam daqueles belos prédios cujo traço de arquiteto encantou Djavan e Caetano.

Cabeça rígida

04 / 12 / 15

Frederico Turolla
O Ministro sabe o que fazer. Ele mesmo disse tudo: “A gente não vai ter crescimento no Brasil só com Band-Aid. Você tem de realmente enfrentar as coisas estruturais. Isso é trabalho. Envolve uma parceria com a sociedade. Acho que é assim que a gente enfrenta os desafios e todas as coisas que a gente está vendo acontecer no Brasil para a gente ter um Brasil melhor e a gente ter um crescimento econômico que permita manutenção e ampliação do emprego e da renda” (G1)

Bom saber que o Ministro sabe o que fazer. Ruim saber que ele não faz o que tem que fazer. Culpa dele? Sem eximi-lo totalmente da culpa, pois tem algum raio de ação, certamente a culpa está em outra parte.

Não seria inédito o Brasil fazer o que tem que ser feito. Nos anos 90, fizemos justamente o que tínhamos que fazer. Grandes reformas, com impactos espetaculares sobre o crescimento, que começaram a se mostrar muitos anos depois.

Impacto tão positivo que levou Lula a uma popularidade imensa, simplesmente por ter usurpado a autoria das ações corajosas de seus antecessores. E convenceu os eleitores disso, conseguindo até mesmo culpar os tucanos que fizeram as reformas pelos males que as mesmas reformas começavam a remediar! Mas estas são dissonâncias cognitivas típicas de democracias.

E não é um ambiente tão hostil para se fazer o que tem que ser feito. O clima para reformas não está tão ruim, lá fora e aqui dentro.

Olhando para fora, o México acaba de conduzir um bom programa de reformas, mais modesto que o brasileiro dos anos 90, mas bastante importante. Com o necessário delay (essas coisas demoram a se materializar), o programa do presidente Peña Nieto mostrará resultados, daqui a alguns anos, em números mais vistosos de crescimento. Claro que nada disso aparece no curto prazo, vai demorar.

Aqui dentro, nos meteram numa encrenca macroeconômica tão grande que o Congresso tem um bom argumento para andar com reformas necessárias, e pode ficar até mais propício sem Delcídio. A política ainda vai sangrar, mas essas “bombas” não vão durar para sempre. Só falta quem lidere essas reformas, o que no presidencialismo brasileiro envolve necessariamente o Palácio do Planalto.
Ali, não caiu a ficha. Movendo-se um pouco, na direção correta, a cabeça dura da Presidente – ou trocando-se a própria – dá para fazer um caminhão de reformas que vão restaurar o caminho do crescimento. Tudo bem, isto não é fácil, principalmente no que se refere à mencionada cabeça dura.

O mais impressionante é que dá para obter muito com pouco. O marco regulatório do pré-sal é tão inacreditavelmente ruim, nocivo ao crescimento, que pequenas mudanças já trariam impactos positivos sensíveis na economia. Em setores de infraestrutura, a coisa está tão mal parada, que alguns gestos pequenos mas firmes, por exemplo na área regulatória, já trariam mais investimentos no setor.

Difícil dizer em que país vive a Presidente que mantém a sua cabeça dura, mais que isto, rígida, desperdiçando o precioso tempo de um país. Se não pela falta de ação, ou pela hesitação e procrastinação quanto a ações já prometidas, pelo menos pela incapacidade de levantar qualquer coisa consistente que aponte para o futuro. Nem que seja para tirar o foco do noticiário policial!

Enquanto isto, muita gente boa paga caro, com seu próprio emprego ou com seu patrimônio, pela cabeça rígida da Presidente. É muito pra minha cabeça.

Frederico Turolla
Observador que sou, presto atenção no que vejo da janela da minha bicicleta. E ultimamente tenho visto muita coisa.

Há algum tempo atrás, na época das manifestações de rua, comecei a observar um feirão de ideias. Um espectro amplo que, do lado mais esdrúxulo, inclui até monarquia e militarismo. Do lado realista, não se vê quase nada mais do manual do perfeito idiota latino-americano que fez milhões de vítimas ideológicas, idiotizadas nesta terra. Ou seja, tem muita gente brigando para apresentar uma alternativa plausível às malfadadas políticas que estão destruindo esta economia desde a Era Lula.

Em um domingo, pedalando com a galera do grupo ITC, parei no Parque Vila Lobos e fui abordado por um militante do Partido Novo, com um discurso super legal. Tenho grandes dúvidas sobre a real viabilidade desse partido, e até o local onde fui abordado fundamenta essa dúvida: Parque Vila Lobos! (para os não paulistanos, o parque fica em uma área de “coxinhas”) Mas as ideias do Novo são fantásticas, os caras são muito bons e, testemunhando pelos que conheço, têm excelentes intenções. Se vingarem, lucra o país. Oxalá esteja eu subestimando a sua viabilidade efetiva.

Semana passada, parei na banca e vi as notícias de uma tal “Proposta Temer”. O movimento do PMDB, pelas mãos do vice-presidente Michel Temer na formatação de uma nova agenda anticrise é significativo. E não é a primeira agenda positiva que o PMDB faz rodar em meio à crise, os caras são bons nisso, mas importa seu conteúdo.

É só ler o resumo feito na reportagem de Raymundo Costa para o Valor. A proposta inclui o fim do regime de partilha na exploração do petróleo, adoção do “Orçamento de base zero”, fim da indexação pelo salário mínimo, inclusive dos benefícios previdenciários, e permissão para que as convenções coletivas prevaleçam sobre as normas trabalhistas. E a “Proposta Temer” tem muito mais que isso. E quase nada do velho idiotismo latino-americano.

A Presidente Dilma pedala, como eu, mas não vê nada do que vejo, parece alheia a esse feirão de ideias. Ela insiste em estratégias fracassadas, continua com políticas ruins e ainda prioriza a agenda da autopreservação. Com um ou outro acerto pontual e algumas iniciativas positivas vindas de um ou outro ministério, mas no conjunto de seu governo, um show de horrores.
Tenho claro que a opinião pública e o eleitorado estão em mudança.

O feirão de ideias está aberto e ninguém consegue precisar, ao certo, quem é esse eleitor pós-lavajato, pós-PT, pós-esquerdismo barato. Aquele mesmo esquerdismo que, por razões corporativistas, defende que o pobre pague pela educação superior do rico e chama de neoliberal quem defende o contrário.

Até os taxistas, um grupo bem idiossincrático que muitos intelectuais fraquinhos têm o mau costume de tomar como voz do povo, já andam vocalizando coisas diferentes.

Não obstante a dúvida, parece certo que esse eleitor é menos propenso a cair nas conversas fiadas que o seduziram desde a última década. E tende a avalizar uma agenda mais pro-produtividade do que tivemos até recentemente. Até o tema privatização, oportunisticamente descontruído por Lula, volta a ganhar apoiadores pelo simples fato de que o recente achaque às estatais virou manchete.

Da janela da bike, nas ruas e faixas paulistanas, vejo mudanças latentes. Ouço-as, também. Será que eu só frequento redutos de coxinhas? Ou será que a liberdade em relação ao trânsito me deixou romântico?

Frederico Turolla
Visto do Brasil, o mundo está realmente em uma crise de grandes proporções. Pelo menos é o que o diz um desses argumentos que o governo usa para se esquivar da responsabilidade pela crise.

O gráfico a seguir diz isso claramente: a linha preta mostra o crescimento do mundo (linha preta) e o crescimento do Brasil (linha verde). Ambos são calculados para a média de quadriênios. Veja que o Brasil despencou em relação ao mundo, tanto agora quanto na época de Sarney.

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Bom, não é preciso repetir nem estressar o quão ridículo é o argumento governista de que a crise é mundial e que o Brasil apenas sente os maus ventos do mundo. Acho que pouca gente ainda se agarra nesse tronco, exceto por interesses pessoais ou partidários.
Impressiona a semelhança gráfica do momento atual com o fim dramático dos anos 80. Talvez isso valide a tese conspiratória de que a crise brasileira tem raízes políticas, causada, nesta e naquela ocasião, pela ação da imprensa golpista e das elites incomodadas. Aqueles argumentos que dão sono…

Quais foram os pontos de virada pós-Sarney? As eleições de 1989, e o fato de que o governo que assumiu em 1990, bem ou mal, era mais comprometido com reformas liberalizantes que têm efeito positivo sobre a produtividade da economia. E, em 1992, veio um bom impeachment.

E, após o impeachment, o governo Itamar realmente tomou o caminho das reformas institucionais, que foi seguido nas duas administrações seguintes de FHC. Foi uma bomba de ganhos de produtividade que até pouco tempo sustentou o crescimento, mesmo com os desaforos à produtividade desferidos desde Lula.

Por enquanto, esta é a principal diferença entre Sarney e Dilma. Ambos os governos foram desastrados, mas o primeiro foi sucedido por administrações que retomaram o caminho da prosperidade. O impeachment abreviou o processo e melhorou a história.
Já quanto ao segundo, ainda não podemos dizer nada. O melhor que temos hoje é um Levy, xingado e fritado, fazendo um papel de bobo que nenhum de nós gostaria de fazer. Se rir por último, será tido como um vencedor, mas está apostando muito alto diante da chefe que tem e das forças políticas que sustentam o governo de que participa.

A pergunta que todo mundo se faz é: onde é o fundo do poço? Os mais pessimistas perguntam: tem fundo? Considerando o óbvio exagero destes últimos, vamos à primeira pergunta.

A principal questão de achar o fundo é quando ocorrerão mudanças efetivas na correlação de forças políticas, já que sob Dilma só há um Levy e mais algumas centenas de técnicos de alta qualidade espalhados pela Esplanada e adjacências, mas todos estes sem poder para mexer em qualquer coisa.

Vejamos os sinais. Em 1989, as eleições já mostravam uma mudança de curso que, ainda que desastradamente com Collor, efetivamente ocorreu. Foi esse o ponto de virada. Qual o ponto de virada desta vez?

Hoje, a opinião pública hoje já mostra também uma mudança de curso semelhante (se quiser saber minha opinião sobre essas mudanças de curso, veja este post: http://leonardotrevisan.com.br/blog/a-feira-do-protesto/). Mas as eleições de 2018 estão distantes demais para ajudarem como ponto de virada.

Se nada acontecer antes de 2018, o fundo vai mudar de lugar. Para baixo. O que pode acontecer antes disso? Perdão por não responder, minha bola de cristal está bem embaçada.

Para empresas e investidores, a grande pergunta é quando acontecerá essa retomada, que vai ocorrer, acredite. Tudo depende dos fatos, que podem precipitar ou não a mudança de curso. Vivamos e vejamos.

Frederico Turolla
No começo de 2012, quando a economia ainda crescia quase 3%, escrevi neste Blog do Trevisan uma nota sem esconder a preocupação com o paralelo entre os fatos daquele momento e os anos 70 do século passado. Aí vai, com comentários na sequencia.

O novo setentismo (23 de janeiro de 2012)

Em “Matrix”, Neo percebe, na cena do gato, a sensação de déjà vu que é, na verdade, uma falha no Matrix.
Quem acompanha a vida brasileira anda experimentando a mesma sensação, do déjà vu: toda hora aparece uma nova iniciativa de proteção, substituição de importações e outros gatos dos anos 70.

Matrix traz uma ilustrativa manifestação do “fetiche do novo” da era moderna. Assim como o esperto Cazuza, que viu o futuro repetir o passado, em um museu de grandes novidades.

Aliás, a idéia de fetiche do novo vem perdendo seu charme justamente porque não é nova. Seja rápido: peça no Google “fetiche do novo” e só vêm 302 referências. Muito dessa discussão estará nas bibliotecas mas, para a nova geração, o que não está em PDF não existe.

O que há de mais novo no nível mais estratégico da política econômica brasileira é uma grande volta aos anos 70. Nem é preciso dizer que, com o cuidado de evitar uma falha no Matrix, as ideias setentistas (neste parágrafo sem acento conforme a nova ortografia) são apresentadas como novas e até inovadoras! Rapidamente viram tema de acaloradas discussões sobre a “nova política”, o “novo marco”…

O bordão setentista pode ser resumido mais ou menos assim: importa gerar emprego e renda no Brasil – tudo que se importa gera emprego e renda lá fora! Para leigos, é uma idéia charmosa, tão populista quanto uma idéia pode ser. Ultrapopulista, diria, sem exagerar. E que enche bolsos e urnas de muita gente, sem a necessária contrapartida em produtividade e desenvolvimento.

Pululam exemplos. A lei da Informática dos anos 80 foi uma genial sacada para proteger a produção nacional de computadores, gerando “emprego e renda no Brasil”. Talvez valha eleger a Cobra computadores, que hoje dá manutenção nos equipamentos do Banco do Brasil, um dos ícones do velho modelo setentista – bem sucedido, segundo alguns saudosistas.

Perdoe-me por citar um artigo bem velhinho, de Eduardo Luzio e Shane Greenstein, publicado na The Review of Economics and Statistics em 1995 (sugerido por Renato Nunes de Lima Seixas, em uma mensagem que circulou na rede da Academia Brasileira de Economistas Industriais).

Eles levantaram que o custo da proteção aos microcomputadores foi um terço do dispêndio total em computadores produzidos no Brasil. As empresas brasileiras, protegidas, não avançaram e se mostraram incapazes. No final, a conta é paga pelos consumidores. Afinal, diz a lenda, somos um país grande e rico, que pode pagar mais caro pelo do que consumimos!

O velho setentismo da ditadura militar, principalmente de Geisel, levou o Brasil ao fiasco, pondo a perder as grandes inovações da administração Castello Branco, que produziram um verdadeiro milagre econômico.

Que não foi milagre pois, como diz Delfim Netto, milagre é efeito sem causa. O crescimento entre 1968 e 1973, a taxas que hodiernamente chamaríamos de chinesas, veio inequivocamente das amplas reformas e inovações do período anterior, entre 1964 e 1967, ainda que desgraçadamente promovidas sob a ditadura.

O novo setentismo pode ser tão deletério quanto se queira, principalmente para os que se encantam pelo fetiche sem realmente se beneficiarem dele. Há aparentes benefícios de curto prazo, mas a história mostra que o preço a pagar é muito alto.
Aumentar o PIB, como nos anos 70, sem grandes ganhos de eficiência e produtividade, com tributos exorbitantes, não nos levará muito longe.

O novo oitentismo (07 de outubro de 2015)

Os fatos se precipitaram, desde então, com uma deterioração da economia. Se há três anos vivíamos um clima setentista, com a economia crescendo com claros sinais de exaustão, parece que a hora dos anos 80 chegou. Será que os anos 80 já voltaram? Recessão e crise. Mas, pelo menos, boa música. Sou fã do rock daquela época e saudoso daqueles tempos… algo para se lembrar descalço à beira do lago, em boa companhia. Se a economia trôpega não nos tirava a diversão, por que há de fazê-lo agora?

Silly economics post

24 / 09 / 15

Frederico Turolla
Nos anos 70, muita gente achava que Paul McCartney só escrevia bobas canções de amor. Silly Love Songs respondeu justamente a essa acusação. Pois, em meio à crise, economistas são acusados de só escreverem textos “bobos” criticando a política macroeconômica. O que há de errado nisto? I’d like to know, cause here I go again…
Hoje, sem novidade: expectativas Focus e capas da The Economist.

Para ilustrar o movimento das expectativas, revolvi tomar três marcos interessantes. Os pontos que escolhi no tempo são os seguintes:
• Capa 1: a data da capa da The Economist, “Brazil takes off”
• Capa 2: a data da capa da The Economist, “has Brazil blown it?”
• Capa 3: se uma nova capa saísse hoje!

No meio do caminho, a mesma revista fez mais duas capas emblemáticas como o Brasil, uma delas “Brazil’s quagmire”, outra “Why Brazil needs change”. Porém, essas três datas emblemáticas bastam como marcos para avaliar a mudança de expectativas.

As expectativas para as principais variáveis econômicas e financeiras para o ano de 2015, conforme se via nas três ocasiões, estão na tabela a seguir. Em boa parte, são medianas do sistema Focus do Banco Central, sendo que no período da capa1 ainda não havia projeções no sistema do Banco Central.

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A deterioração das expectativas para este ano foi dramática. Na primeira capa se esperava um crescimento de 4%, que caiu para 2,5% na segunda capa e hoje já nos contentamos com 2,7% negativos.
A inflação era basicamente a meta na primeira capa; na segunda, a política monetária de Tombini já mostrava os primeiros sinais de perda da credibilidade, um trabalho de equipe do Conselho Monetário Nacional e de sua chefe.
Fica claro que, desde a chefia anterior do CMN, essas pessoas trabalharam duro. Desmontaram instituições que funcionavam, reverteram estratégias macroeconômicas saudáveis e introduziram distorções microeconômicas de toda sorte. Você acha que isso é fácil de fazer?
Já na época da segunda capa, o pessoal do mercado começava a notar mais claramente os efeitos da Nova Matriz Macroeconômica. O estrago foi realmente grande, como agora dá pra sentir. Se uma capa dessas saísse hoje, a revista mostraria uma projeção de inflação não muito longe dos dois dígitos, confirmando o estrago causado pelo trabalho árduo e incansável dessa equipe.
As expectativas para o ano que vem, 2016, estão na tabela a seguir.

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Para o ano que vem, menos ruim, com três batidas na madeira, por favor. De um crescimento de 4% que se esperava em 2009, já se espera uma queda de 0,8%. A inflação, que na primeira capa era tida como grudada na meta, já está projetada em 5,7%. A Selic que se esperava em 7,5% agora é vista em 12,25%. E o câmbio, que era esperado em R$ 2,20 agora vai a quatro.
Difícil ilustrar melhor a deterioração da economia brasileira melhor do que com o dramático movimento de expectativas nos últimos anos. O que se pensava que aconteceria em 2015, visto de hoje, era sonho.
Para quem achou que política macroeconômica é um tema batido demais, uma dura lição: macro policy isn’t silly at all. Sem poesia ou heterodoxia, por favor.