Turbilhão de dólares

04 / 02 / 18

Klaus Kleber
Há quem já preveja que a redução dos impostos para as empresas e para os mais ricos nos EUA, a única vitória importante do presidente Donald Trump até agora, vai prejudicar o Brasil, carreando menos dólares para cá. Isso sem falar no recrudescimento do protecionismo, outra marca do controverso ocupante da Casa Branca.

Isso pode ocorrer em algum ponto no futuro, mas até onde se pode prever, esta é uma perspectiva remota. Como foi noticiado, a captação de empresas brasileiras no mercado internacional em janeiro não foi impactada pelo rebaixamento da nota do País pela Standard & Poor’s (S&P), ensaiado também por outras agências ede classificação de risco.

Até 29 de janeiro, essa captação já tinha chegado a US$ 7,155 bilhões. É verdade que houve o lançamento de US$ 2 bilhões de bônus pela Petrobrás, em condições muito favoráveis. Mas algumas empresas privadas estrearam no mercado externo com sucesso, como a Natura e a Hidrovias do Brasil.

Além disso, o saldo da balança comercial em janeiro (US$ 2,76 bilhões) foi muito bom, com um avanço de 13,8% das exportações em comparação com o mesmo mês de 2017, somando US$ 16,96 bilhões). Essa performance mostra que o ciclo de alta das commodities ainda está em curso. As importações estão reagindo, tendo tido um crescimento de 16,4%, chegando a US$ 14,19 bilhões, mas isso está longe de comprometer o saldo comercial.

A continuar nessa marcha, é possível que o País venha ter um novo superávit comercial recorde em 2018. O Banco Central prevê um saldo de US$ 59 bilhões, mas, como ocorreu em 2017, isso pode ser uma subestimativa.

A grande preocupação é com investimentos estrangeiros diretos (IED). Trump quer que as multinacionais com sede nos EUA abram mais fábricas ou laboratórios no território americano, aproveitando a redução da carga tributária. Acontece que, no Brasil, os maiores investimentos estrangeiros têm vindo da China e, em casos específicos, como do petróleo, da Noruega e outros países.

E não deixa de ser duvidoso que companhias americanas, há décadas instaladas no País, venham a ceder espaço para concorrentes, deixando de investir aqui. De qualquer forma, se as privatizações forem em frente, a entrada de IED pode superar US$ 80 bilhões este ano, que a projeção do do BC.

Em suma o turbilhão de dólares não deve encolher tão cedo, apesar de este ser um ano eleitoral. Bem a propósito, as reservas internacionais do Brasil continuam subindo e entraram fevereiro na marca de US$ 383,47 bilhões.

Klaus Kleber
Com a condenação do ex-presidente Lula pelo Tribunal Regional Federal da 4ª. Região (TRF-4) no último dia 24, pode-dizer que se encerra um ciclo histórico iniciado com a promulgação da Constituição de 1988. A rigor, o ciclo de 30 anos chegaria ao fim em outubro, mês em que foi promulgada a Carta Magna, mas o virtual afastamento de Lula do pleito presidencial deste ano é um dos acontecimentos mais marcantes deste período.

Caberá aos historiadores analisar a ascensão e queda de Lula e do PT, depois da maior recessão de nossa história. Os que escreverem sobre esses tempos bicudos, não deixarão de salientar também a exacerbação das atribuições do Poder Judiciário, a agressividade da direita, o clima de violência que toma conta do País e, para completar, o surgimento de uma epidemia de febre amarela.

Sob o ponto de vista puramente econômico, esse ciclo começou com o Brasil altamente endividado no exterior, com hiperinflação, com a economia crescendo ainda que tropegamente, mantendo o emprego em níveis razoáveis, com péssima distribuição de renda, mas havia muita esperança no futuro, em um ambiente de euforia democrática, com imprensa e eleições realmente livres.

O ciclo termina com o País com reservas de US$ 380 bilhões, com uma dívida interna pífia, com uma inflação em torno de 3% ao ano, mas com uma crise fiscal ao lado de um desemprego altíssimo e com poucos avanços na distribuição de renda. Diriam alguns que o País trocou a dívida externa pela interna e deu no que deu. A economia começa a reagir, mas o governo só acena para o povo com novos sacrifícios. E nunca talvez tantos brasileiros emigraram ou pensam em emigrar.

Há pitonisas por todo canto, mas ninguém é capaz ainda de esboçar um cenário crível para as eleições presidenciais. Estando excluída a hipótese de uma candidatura de Lula, embora alguns graduados petistas insistam que o ex-presidente será candidato, o que se procura discernir é se qual será o vencedor do pleito de outubro: a direita, o centro-direita, o centrão ou a centro-esquerda.

A meu ver é que tudo vai depender de como Lula e cúpula do PT vão agir daqui em diante. Se tiverem bom senso – e bom senso não é uma das características do partido – não levarão a candidatura do ex-presidente “até o fim”, mesmo estando ele preso.

A melhor alternativa para o partido, a meu ver, seria apoiar um dos candidatos da centro-esquerda no plano presidencial, fortalecer os governadores petistas que buscarão a reeleição e procurar garantir uma boa bancada no Congresso. O candidato apoiado pelo PT pode perfeitamente ir para o 2º. turno e talvez chegar ao Palácio do Planalto.

Tudo isso é especulação, mas o certo é que o ciclo de Lula acabou e a questão agora saber em que medida o ex-presidente, ainda tão popular, poderá influenciar o ciclo seguinte.

Klaus Kleber
Finalmente, o governo parece ter acordado para as tentativas de certos setores industriais para reforçar o protecionismo, convindo lembrar que o Brasil continua sendo um dos países mais fechados do mundo em matéria de comércio exterior.

Rejeitando pressões, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) decidiu em reunião extraordinária na semana passada não elevar as sobretaxas sobre a importação de chapas laminadas de aço procedentes da China e da Rússia, que hoje variam entre 10% e 14%. A imposição de uma nova sobretaxa vinha sendo reivindicada por siderúrgicas com alegação de “dumping”, com apoio do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

Prevaleceu, no entanto, o ponto de vista do Ministério da Fazenda de que a imposição desse gravame poderia ter efeitos maléficos sobre a cadeia produtiva e sobre a inflação. Além disso, como se manifestaram o Ministério da Agricultura e o Itamaraty, a sobretaxa poderia provocar retaliação por parte de mercados como os da China e da Rússia que são grandes importadores de produto agropecuários do Brasil.

A decisão tomada pela Camex não podia ser mais adiada, vencendo no dia 20/1 fixado, de acordo com a lei que rege a aplicação de direitos antidumping. Em reunião em novembro, o tema foi colocado, mas houve divergências que acaram tolhendo uma deliberação pela Camex. De qualquer forma, como deixou claro o ministro do Planejamento, a decisão não significa que o País tenha se tornado condescendente com a prática de “dumping”, desde que ela seja perfeitamente configurada. Por esse motivo, o ministro do Planejamento Dyogo Oliveira disse que o governo vai investigar cinco empresas suspeitas de praticar preços artificialmente reduzidos, em desacordo com as normas da Organização Mundial de Comércio (OMC). Assim, a imposição de um novo gravame sobre essas importações fica suspensa por um ano.

Como seria de prever, empresas do setor siderúrgico reclamaram, mesmo porque este é um caso raro em que o governo adota uma postura claramente antiprotecionista. O fato é que, como notou a Camex, tem havido redução das importações de laminados de aço, sendo as empresas estrangeiras que vendem o produto para o País responsáveis por apenas 6% do mercado.

Como tem sido noticiado, a China desativou várias de suas siderúrgicas mais antiquadas, sob o controle do Estado, que vinham praticando preços irrealistas e que eram praticamente insolventes. Isso fez com que a oferta de aço da China se reduzisse bastante no mercado internacional.

Como os insumos (minério de ferro e carvão) também estão em alta, isso tem levado a um aumento do preço do aço, em benefício inclusive das siderúrgicas nacionais. Segundo relatório de analistas desse mercado do BTG, de autoria de Leonardo Corrêa e Gerard Roure, “estamos mais otimistas com o setor como jamais estivemos em anos”. (Infomoney, 12/1). Uma prova disso é que as exportações brasileiras de produtos laminados de ferro e aço alcançou US$ 2,204 bilhões em 2017, um aumento de 38,2% em relação ao ano anterior (US$ 1,595 bilhão).

Pesou também na decisão da Camex o impacto do aumento de preços para os setores consumidores de aço, podendo levar a uma redução da atividade econômica, afetando a indústria de bens de capital, a produção de vários bens duráveis de consumo, indo de eletrodomésticos a veículos. e também a construção civil, que vem empregando cada vez mais aço.

Estudo da ICA Consultores, por encomenda da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), estimou que o aumento pretendido da alíquota do Imposto de Importação (II) para laminados de aço levaria a aumento de custos de R$ 1,5 bilhão.

A suspensão da sobretaxa é um desafio às siderúrgicas instaladas no País, que, pois da crise pela qual passaram, têm oportunidade de demonstrar se têm ou não condições de competir em um mercado globalizado, sem as muletas do aumento de tarifas alfandegárias.

Klaus Kleber
A não ser o ministro da Fazenda Henrique Meirelles, ninguém esquenta mais a cabeça com as notas dadas ao Brasil pelas agências internacionais de classificação de risco. Os técnicos da Standard & Poor’s resolveram na semana passada dar um susto nos brasileiros baixando a nota de crédito do País de BB para BB-. Os mercados não reagiram como se estivesse sendo anunciada uma catástrofe — a Bolsa pouco se mexeu e o dólar também não disparou.

Aí veio a explicação, que o próprio Meirelles comprou depois de se refazer de uma declaração infeliz: o mercado já havia “precificado” a baixa da nota de crédito do Brasil, pois, como todo mundo sabe, está difícil equacionar a questão do déficit das contas públicas em 2019, sem quebrar a chamada regra de ouro. Um amigo meu comentou que, na realidade, o mercado brasileiro já “precificou” as próprias agências de risco, cujas notas só valem para dar ou tirar grau de investimento. Baixar de BB para BB- não diz nada.

Brasileiro só dá importância quanto seu time ou sua escola de samba ganha o campeonato. Ser vice interessa tanto como ser terceiro ou quarto lugar. Um tracinho numa nota não sensibiliza ninguém. Além disso, dizer que a nota da S&P tira o selo de bom pagador do Brasil é conversa fiada. O País está pagando tudo lá fora, inclusive aquela multa que a Justiça americana impôs a Petrobrás de US$ 2,95 bilhões.

Aliás, a S&P fez uma ressalva: o Brasil está em boa situação quanto à dívida externa. Com reservas de US$ 382 bilhões poderia até eliminá-la. Foi pouco mencionado o fato de que, há pouco, o governo brasileiro usou US$ 1,818 bilhão para recomprar títulos antigos que remontam à renegociação da dívida externa — e as reservas nem se mexeram. E o governo pode e deve comprar mais títulos que estão no mercado internacional, com o que até economistas mais ortodoxos concordam.

Assim, se a Moody’s e a Fitch — as outras duas grandes agências de classificação de risco – não devem fazer a burrada de acompanhar a S&P, que acabou tendo mais influência política do que econômica. A consequência do rebaixamento da nota foi esquentar a briga entre o ministro Henrique Meirelles e o presidente da Câmara Rodrigo Maia, ambos presidenciáveis já não mais “in petto”. O melhor que podem fazer as agências internacionais é ficar quietinhas nesse ano eleitoral.

Regra folheada a ouro?

08 / 01 / 18

Klaus Kleber
A discussão sobre a tomada de empréstimo para cobrir o rombo orçamentário previsto, quebrando assim a chamada regra de ouro — o dispositivo da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) que proíbe o governo de tomar empréstimo para pagar despesas correntes — não faria sentido ocorrer neste momento.

O ministro da Fazenda Henrique Meirelles, agora também um presidenciável, assegura que que a meta para o déficit primário em 2018 (R$ 159 bilhões para o governo central) pode ser cumprida com corte de despesas e aumento das receitas tributárias em razão do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), oficialmente estimado em 2%.

O problema só se tornaria mais agudo em 2019 e assim é impossível separá-lo da questão da sucessão presidencial e isso explica o açodamento da proposição de um “waiver” ou suspensão provisória das obrigações impostas pela LRF. Aberto esse precedente com o tal empréstimo, a regra de ouro seria, por assim dizer, folheada, baixando ao nível de bijuteria.

Acontece que caberá ao atual governo apresentar até o fim de agosto a proposta orçamentária para o ano que vem, dentro do teto estabelecido, ou seja, deve elaborar o orçamento para o primeiro ano do presidente a ser eleito em outubro ou novembro, se houver, como tudo indica, um segundo turno. Aí está o embrulho, pois já se sabe que as receitas não cobrirão as despesas correntes no próximo ano. A solução que vem sendo discutida seria suspender a regra de ouro para 2019, pelo menos, de modo a evitar que o presidente Michel Temer incorra em crime de responsabilidade.

Se não for encontrada uma saída, será mais um dos crimes que Temer terá de responder depois de deixar o Planalto. Mas, se concordar com o empréstimo, o atual governo desmentiria os esforços de seu governo para controle das contas públicas, reduzindo ainda mais o seu capital político para aprovação da reforma da Previdência.

A saída ortodoxa seria um corte violento de despesas em 2019, abrangendo mesmo as dotações obrigatórias para educação, saúde, bolsa-família, etc. Regra de ouro ou não, a grande questão é que não há como garantir que o próximo presidente da República, além de ter de engolir o teto de gastos, venha aceitar um corte violento de verbas.

Há uma outra hipótese que, ao que eu saiba não foi cogitada: o uso de parte — uns US$ 10 bilhões ou US$ 20 bilhões — das reservas internacionais, atualmente em US$ 382 bilhões. Ora, se é para tomar empréstimo pagando juros mais spread para cobrir rombo orçamentário, é melhor usar as reservas, na maior parte aplicada em títulos do Tesouro dos EUA e que rendem l,5% a.a.

Dirão que usar reservas para cobrir despesas correntes é um absurdo – no que eu concordo – mas, pelo menos, poderia ser introduzida uma salvaguarda de que os recursos daí decorrentes seriam aplicados exclusivamente em educação e saúde e áreas sociais e, quem sabe, na infraestrutura, se sobrar algum dinheiro.

Não acredito que o atual governo tome uma medida tão ousada, mas o que fará o próximo presidente?

Klaus Kleber
Um amigo que pretende viajar para o exterior no início de 2018 está muito preocupado com a alta recente da cotação do dólar, que fechou em R$ 3,295 (venda, no mercado comercial) na última sexta-feira, dia 8. Ele não sabe se compra as verdinhas agora ou se deixa para depois e me pergunta o que deve fazer.

Bem sei que qualquer palpite sobre câmbio é extremamente arriscado, mas para não deixar meu amigo sem resposta, disse a ele que a tendência é que a cotação do dólar continue subindo, mas não está excluída a hipótese de que o Banco Central (BC) volte a intervir no mercado se a cotação da moeda americana passar muito de R$ 3,30.

A subida do dólar nos últimos dias tem sido atribuída às difíceis negociações parlamentares para uma problemática aprovação da reforma da Previdência. Na minha opinião, a insistência dos operadores nesse tema é mais para inglês ver. Poder ser que se a reforma for aprovada ainda este ano, em primeira votação na Câmara, isso venha ter alguma influência, principalmente sobre a cotação das ações na Bolsa.

Quanto ao câmbio, o efeito é duvidoso e se houver repercussão pode ser somente a curtíssimo prazo. Independentemente de qualquer reforma, há quem diga que, com a decisão do Copom de baixar taxa básica de juros a 7% ao ano, podendo cair mais no princípio de 2018, há maior procura de dólar pelas empresas para fazer hedge (proteção).

O fato inconteste é que a moeda americana está se valorizando nos mercados internacionais. O noticiário dá conta de que o dólar subiu diante do euro e do iene na última semana com a divulgação da taxa de desemprego baixíssima nos EUA (4,1% em novembro, a uma taxa anualizada). Além disso, a aprovação pelo Senado do corte de impostos proposto por Trump também influi para reforçar a moeda americana. E. para completar, espera-se que, em sua reunião nesta semana (dias 13/14), o Federal Reserve (Fed) aumente a sua taxa de juros (benchmark).

Isso deve ser levado em consideração, mas não se deve esquecer que o câmbio flutuante, que seria um dos pilares da política econômica ortodoxa, nunca foi para valer no Brasil. Sendo assim, o BC pode intervir no mercado não só para conter pressões inflacionárias, mesmo com o INPC devendo fechar o ano abaixo de 3%.

Há outro fator. O BC não desconhece que muitas empresas brasileiras estão endividadas em dólar. Este não é só o caso da gigante Petrobrás. Segundo a Folha de S. Paulo (10/12), metade do endividamento das empresas brasileiras está concentrado em 57 companhias e 40% da dívida desse grupo é em dólar. Com o crédito interno trancado pelos bancos, as empresas foram buscar dinheiro lá fora e agora estão expostas a uma maior cotação do dólar. Algumas podem quebrar, se o BC deixar como está para ver como é que fica.

De acordo com essa lógica, não faltariam motivos para o BC intervir no mercado de câmbio, utilizando os surrados “swaps” cambiais.

Klaus Kleber
Enquanto o presidente Donald Trump dava vazão a seus preconceitos em suas tuitadas, isso podia nos causar repugnância, mas não nos afetava. Agora é diferente. O presidente dos EUA obteve a sua primeira vitória legislativa com a aprovação pelo Senado de sua proposta de corte de impostos. Os grandes beneficiários serão as grandes companhias e os ricos, cuja alíquota do imposto de renda (IR) cairá de 35% para cerca de 20%.

A classe média também é beneficiada, pelo menos no papel, uma vez que os contribuintes não poderão de deduzir seus impostos locais e estaduais de suas declarações do IR. Mas, demagogicamente, a coisa pode funcionar a favor dos republicanos.

A turma de Trump diz que, com a redução dos impostos, as empresas americanas investirão mais, criarão mais empregos e serão menos tentadas a se expandir no exterior. Pode ser, mas muitos economistas duvidam. Não faltam aqueles que preveem que, com a redução da arrecadação, o déficit público dos EUA, que já é calculado em US$ 20 trilhões, terá um aumento de US$ 1,4 trilhão nos próximos dez anos, e essa carga recairá sobre as mais novas gerações.

O que nos interessa é como o Federal Reserve Board (Fed) reagirá. Com o aquecimento da economia americana este ano, já era previsto um aumento da taxa básica de juros (benchmark – agora em 1,5% — m meados deste mês. Se não for elevada agora, os analistas projetam uma taxa de 2% no início de 2018.

Isso, por si só, levará a uma fuga de capitais para o mercado americano e terá repercussões nos mercados de todo o mundo. A questão é saber se depois do corte de impostos de Trump — que ainda precisa ser conciliado com proposta semelhante em tramitação na Câmara dos Representantes — qual será a política a ser adotada pela autoridade monetária americana.

É verdade que Trump, contrariando a expectativa, nomeou Jerome Powell como “chairman” do Fed no lugar de Janet Yellen. Não se sabe se Powell, que assume em 2018, é ou não adepto da política econômica expansionista patrocinada pelo presidente americano. Pelas previsões normais, o Fed teria de elevar ainda mais os juros se a cotações das ações na Bolsa de Nova York dispararem nos próximos meses.

Previsivelmente, menos aplicações financeiras e investimentos tendem a vir para o Brasil partindo de empresas e investidores americanos, abrindo ainda mais espaço para os investimentos da China e talvez da União Europeia (UE), se finalmente, o Mercosul conseguir firmar um acordo de livre comércio com o bloco europeu. Há uma chance de que isso ocorra também em meados de dezembro, durante reunião da Organização Mundial de Comércio (OMC) em Buenos Aires.

Em suma, este mês de festas começa com definições no campo externo que podem afetar diretamente a política econômica brasileira de 2018 em diante.

Klaus Kleber
Fez bem a direção da Petrobrás em decidir pela abertura do capital da BR Distribuidora. A alternativa era a privatização da subsidiária mediante leilão ou compartilhamento do controle, o que poderia render mais de imediato aos cofres da estatal do petróleo, mas, nos dois casos, haveria o risco de formação de um oligopólio ou de desnacionalização. Já com a abertura do capital da BR Distribuidora, haverá dispersão de capital entre centenas ou milhares de acionistas, transformando a empresa em uma sociedade de economia mista, que pode, sim, vir a ser bem administrada, desde que adote critérios de governança corporativa.

Prevê-se uma oferta inicial de 25% das ações da Distribuidora, que pode ir a ser complementada com a venda de papeis adicionais, que elevaria a participação dos acionistas interessados a 33,75% do capital da empresa. Com o passar do tempo e dependendo das circunstâncias, a Petrobrás pode vender mais ações da BR e talvez alienar seu controle, presumindo que seja mantida a dispersão do capital, ou seja, a despersonalização da propriedade, acompanhando a tendência do capitalismo nos países mais desenvolvidos.

O preço inicial da oferta do papel da BR foi estipulado entre R$ 15 e R$ 19, esperando-se que renda, no máximo, R$ 7,5 bilhões à Petrobrás. Considerando que a dívida total da estatal é calculada em R$ 280 bilhões, o dinheiro que a BR trará para o caixa da estatal, por si só, não resolve. Mas, como deixou claro o próprio presidente da estatal, Pedro Parente, a estatal vai vender outros ativos para aliviar seu endividamento e cumprir a meta de se desfazer de bens no valor total de R$ 21 bilhões até o fim de 2018.

O mercado reagiu bem à decisão de abrir o capital da BR, A grande questão que fica é saber de a decisão da Petrobrás é apenas episódica ou se representaria uma retomada pelos responsáveis pela condução da política econômica da orientação que levou Banco do Brasil (BB) em 2013 a abrir o capital da BB Seguridade, recolhendo a seus cofres R$ 11,475 bilhões, em vez de simplesmente privatizar a subsidiária.

Não se deve uma resposta definitiva quanto a isso no atual governo. No próximo, porém, esse tema vai se colocar. Fala-se, por exemplo, em “privatizar” a Caixa Econômica Federal. Dada a concentração bancária hoje existente, não faria sentido vendê-la para os grandes instituições nacionais ou para bancos do exterior. A abertura do capital poderia ser a solução ideal.

Voltaremos ao assunto.

Klaus Kleber
Primeiro, uma retificação. Em meu último comentário para este blog, afirmei que não era previsto um pagamento mínimo por hora de trabalho no País. Há, sim, uma previsão, embora abusiva. Atualmente, sendo o salário mínimo de R$ 937,00, o mínimo por hora de trabalho é R$ 4,26, valor obtido pela divisão do mínimo por 30 dias, equivalentes a 220 horas de labor, não sendo estabelecida folga semanal, o que é um absurdo.

Pelo mesmo critério, se o salário mínimo for elevado para R$ 969,00 em 2018, o salário-hora para o trabalho intermitente deverá ser de R$ 4,40 (o equivalente em dólar a US$ 1,25, estando a cotação da moeda americana em R$ 3,26). Por jornada de oito horas seriam R$ 35,20. Isso quer dizer, pela última Medida Provisória editada pelo governo, que o trabalhador intermitente for convocado para operar por 60 horas por mês, receberá R$ 260,00.

O pior é que, sendo o ganho mensal inferior ao mínimo, como informa a Folha de S. Paulo (16/11), o trabalhador terá de fazer uma contribuição adicional ao INSS para garantir a condição de segurado e ter direito aos benefícios daí decorrentes, como auxílio-doença e licença maternidade. Quanto ao seguro-desemprego, nem falar, porque o intermitente não é considerado empregado.

A MP prevê que serão necessários 18 meses para a migração de um contrato tradicional para um de caráter intermitente, mas, a partir de 2020, estará tudo liberado para que o comércio, bares e restaurantes e qualquer bodega ou tenda posam demitir e contratar à vontade, pagando esse valor vil por hora, se houver quem aceite. É verdade que o trabalhador intermitente pode trabalhar em um mês mais do que para um patrão, mas aí surge outra dúvida: não se saber qual empregador é que deve pagar a contribuição previdenciária e depositar o valor do FGTS.

Em uma, o intermitente passa a ser um pária do mercado de trabalho. Ainda mais porque, se certos trabalhadores, como o garçons e atendentes, receberam gorjeta, isso será considerado “serviço”, tendo o patrão direito a ficar com 20%.

Klaus Kleber
O presidente Temer resolveu dar ao ministro Moreira Franco todo controle sobre a comunicação e propaganda do governo com o objetivo de melhorar a sua imagem tão desgastada. O ministro, ao que se informa, será assessora do por um conselho composto pelos publicitários e marqueteiros mais badalados. Naturalmente, eles vão insistir no fato de que a inflação caiu, o poder de compra dos mais pobres aumentou, os juros também, embora para quem toma crédito isso não seja ainda visível, e outras “conquistas” do atual governo.

Pode ser até as campanhas tenham algum sucesso, mas virar o jogo quanto a popularidade de Temer e sua turma parece uma missão impossível. E isso não só por causa da corrupção, não, mas pelas atitudes que algumas “altas autoridades” vêm tomando e que o povo anda estranhando.

Digo isso com base na minha experiência no dia-a-dia. Na semana passada, tomei um táxi e o motorista disse ter ouvido no rádio que o salário mínimo para 2018 não será mais de R$ 979, mas de R$ 969. “Que mesquinharia”, comentou ele, “tiraram R$ 10 do salário mínimo!”. Concordei com ele, mesmo porque não tenho meios para confirmar ou negar que essa redução, segundo o cálculo de funcionários da Fazenda, deve proporcionar ao governo uma economia de R$ 3 bilhões. Quer dizer, se diminuíssem R$ 20 do mínimo, a economia seria de R$ 6 bilhões? (A corrida, aliás, me custou R$ 15).

No feriado, fui almoçar num restaurante aqui perto de casa e o garçom, meu velho conhecido, estava comentando o trabalho intermitente, criado pela nova legislação trabalhista. Ele disse que, como muitos garçons, estava registrado pelo mínimo, e sua renda maior vinha das gorjetas. Ele prevê que, com a nova legislação, vai ser demitido e contratado para trabalho intermitente em sábados, domingos e feriados.

A dúvida dele é quanto o patrão iria pagar por dia de trabalho e que ele achava, mesmo antes de saber o valor, que seria muito pouco. Limitei-me a comentar que, nos Estados Unidos, o salário mínimo é fixado por hora de trabalho, não por mês, detalhe que escapou do discernimento do governo e nossos legisladores.

Por coincidência, li no Facebook a queixa de um amigo quanto à ideia de aumentar a contribuição dos idosos nos planos de saúde privados. Ora, justamente na terceira idade, quando os rendimentos dos trabalhadores em geral diminui, é que eles precisam mais dos planos de saúde, pelos quais pagaram anos a fio sem praticamente utilizá-los. O que mais incomoda no caso é que o próprio ministro da Saúde, Ricardo Barros, defende uma mudança na regra que impede o aumento da contribuição para planos de saúde depois dos 60 anos de idade.

Para completar, ao chegar em casa um dia desses, perguntei a meu filho que estava assistindo TV qual era a novidade. “A ONU soltou uma nota condenando a portaria brasileira sobre trabalho escravo”, contou-me ele.