Claudia Bozzo
Em mãos competentes, as câmeras cinematográficas podem abrigar, ao mesmo tempo, poesia e emoção, o momento, o passado e o futuro. É o que acontece com o mágico e belíssimo filme “Visages Vilages” (2017) de Agnés Varda, uma das mais importantes cineastas do mundo, que caminha para os noventa anos, em maio, e do fotógrafo JR.

O documentário levanta a questão várias vezes: onde foi que essas duas figuras, que 55 anos de idade separam, vieram a se encontrar? Não foi numa beira de estrada em busca de carona, nem numa padaria ou parada de ônibus. Nem num site de encontros.

O certo é que a parceria é perfeita. Os dois compartilham uma visão poética, estética, terna e emotiva pela França (país que a belga Varda adotou, e onde mora no 14eme., em Paris, tendo sido casada durante muitos anos com o cineasta Jacques Demy, falecido aos 59 anos, em 1990). Varda e JR enxergam o mundo pelas mesmas lentes, embora para Varda o foco, com a idade e uma condição clínica complicada, seja menos preciso.

O documentário concorre ao Oscar como melhor documentário de longa-metragem, e seu efeito é mágico. A leveza vem da facilidade de diálogo e convivência entre ela e o fotógrafo, ambos com um inteligente e rápido senso de humor.

É um mergulho no cotidiano das pessoas que vivem nos vilarejos do interior da França, levando o registro de seus personagens e integrando-os à paisagem. JR tem uma caminhonete que, além de fotografar as pessoas, imprime imagens no tamanho que ele quiser. São os os retratos que vão adornar o habitat daqueles cidadãos. A garçonete, o carteiro, as mulheres dos estivadores, os funcionários de uma fábrica, a moradora de uma antiga vila de mineiros que resiste à mudança, embora os vizinhos tenham ido embora. Ou a foto de um fazendeiro no galpão de sua propriedade.

Nem um enorme bloco de concreto jogado em uma praia da Normandia, rejeito ainda da segunda guerra, escapa de tornar-se personagem.

Mas o filme não é feito só de impactantes soluções estéticas. Há as histórias dos cidadãos, o respeito pelo passado e pelo ambiente, o amor à terra natal. Eles resgatam a foto de antepassados e a enquadram em uma moldura, antes de colar em uma parede. Todas as superfícies, ásperas, lisas ou deterioradas, dialogam com as fotos. Seja pelo local onde estão, como uma caixa d’água com peixes colados, a um vagão de trem com os olhos e os pés de Varda ou os contêiners com a foto das esposas de estivadores.

Uma arte efêmera, pois trata-se de papel, colado em superfícies ao ar livre. Mas multiplicada pela era digital, pois torna-se o tema de inúmeros selfies. Como comenta o dono do bar onde trabalha a garçonete, retratada descalça, com uma sombrinha: “ela chegou há pouco tempo, e agora é a pessoa mais famosa da cidade”. Entre seus fotógrafos, os dois filhos, buscando o melhor ângulo para um selfie.

Varda, personagem das mais importantes aa Nouvelle Vague, a onda que mudou o modo de fazer cinema no mundo, menciona várias vezes o cineasta Jean-Luc Godard, comparando à JR, pois como o cineasta mais amado e mais odiado em todos os tempos, JR também não se separa dos óculos escuros. Ela quer o tempo todo, que JR tire seus óculos. E há uma cena de Goddard sem os seus, com lágrimas nos olhos, que Varda filmou e reproduz no documentário.

A viagem de ambos pela França inclui uma visita ao túmulo de outro ícone da cultura francesa, o fotógrafo Henri Cartier-Bresson, em um pequeno cemitério com apenas 14 tumbas, no pé dos alpes.

O gato de Varda é personagem do documentário, às vezes nos ombros dela, ou deitado na estante ao lado da janela. Na semana passada, impossibilitada de ir a Hollywood para um almoço de candidatos ao Oscar, ela mandou fotos suas, em tamanho natural, que JR levou para ficar ao seu lado e uma delas, ao lado do diretor de “A Forma da Água”, Guillermo del Toro, tem Varda e seu gato.

Que não reste a menor dúvida: esse é um filme para quem quer sair feliz do cinema. Duvida? Pois veja o trailer, no YouTube, ou qualquer outro lugar. E não é o tipo de filme que se pode sentar no sofá e esperar que ele chegue pelo Netflix, ou pela TV a cabo. É na telona que ele está em seu ambiente e passa melhor toda a emoção da arte no cinema. Pura magia.

Claudia Bozzo
Em entrevista recente, Tom Hanks definiu o filme de Steven Spielberg, “The Post – A guerra secreta” como “a história da semana em que Katharine Graham tornou-se Katharine Graham”. Mais uma das razões que tornam o filme bastante atual e interessante, pois trata da atuação de vários presidentes que mentiram descaradamente ao povo americano sobre a condução da Guerra do Vietnã, contando com um roteiro bem amarrado e uma narrativa esclarecedora. A história traz temas atuais, pois os EUA de agora enfrentam um mandatário que acusa a imprensa de mentir (o ataque é a melhor defesa?) e uma espécie de ‘nova’ revolução feminista, quando um novo senso ético se impõe, com o movimento #MeToo, de denúncia dos casos de assédio sexual, contra mulheres e contra homens.

De qualquer forma, a bravura do The Washington Post, assim como do The New York Times – que na verdade foi responsável pelo furo – naqueles longínquos anos setenta (no século passado!) – é a saga de época em que ficou mais evidente o compromisso da imprensa com a ética, a denúncia de violações e o serviço público. No caso, a opção de Steven Spielberg, claramente, foi de fazer um filme didático, onde não faltam informações sobre o tema central da trama, o vazamento dos Papéis do Pentágono. Esses documentos faziam parte de um estudo encomendado pelo então secretário da Defesa, Robert McNamara, a uma empresa chamada Rand Corporation, sobre as possibilidades de vitória no conflito do Sudeste Asiático. O presidente na época era Richard Nixon.

Os documentos vieram a público graças ao esforço de um pacifista e ativista que trabalhou na Rand Corporation como analista militar, Daniel Ellsberg, que como John Snowden (no século XXI), sacrificou sua vida pessoal em nome de ideais. Nos EUA, tais pessoas são chamadas de “whistleblower” sem qualquer conotação negativa – alguém que “assopra o apito”, e expõe a público delitos ou infrações cometidas por uma organização com a finalidade de dar um fim a isso. Ele chegou a ser considerado “O Homem Mais Perigoso da América”, título do filme de 2009 que conta sua história. É interpretado pelo ator britânico Matthew Rhys.

Sempre competente, Meryl Streep faz o papel da dedicada e sábia dona do jornal, Khatarine Graham, empresa que era de sua família e estava sob o comando do marido Philip Graham. Depois de uma crise de depressão, ele se suicidou, e ela, que jamais trabalhara fora, viu-se à frente do jornal. Na época desses acontecimentos, a empresa estava abrindo o capital, mas sem abrir mão do controle editorial e Katharine mostra sua intenção de investir o dinheiro captado na Bolsa com a contratação de pelo menos 25 novos jornalistas. Ela tinha como homem de confiança um dos grandes editores que o país teve, Benjamin Bradlee, já interpretado com elevada competência por Jason Robards (Em “Todos os Homens do Presidente”, de 1976), mas agora nas mãos de um inócuo Tom Hanks e sua estranhíssima peruca, que deve dar inveja até ao Kim Jong-un.

Além de ser ‘a semana que revela Khatarine Graham’, os acontecimentos elevam o The Washington Post ao nível dos jornais de primeira linha do país, nos eventos que serviram para consolidar a importância da liberdade de imprensa no país. A posição é consolidada apenas um ano depois, graças à atuação corajosa do mesmo jornal no caso Watergate, com o mesmo Bradlee à frente da redação.

O fato de ser um filme didático não o desmerece, porque tais fatos, do século passado, estão presentes provavelmente apenas na cabeça de jornalistas de uma certa faixa etária. É importante que as novas gerações saibam o que pode ser a função de um jornal, como em “Spotlight: Segredos Revelados” de 2015, vencedor do Oscar de melhor filme, que traz o relato sobre a denúncia que o Boston Globe fez, de casos de pedofilia em meio ao clero local. Por coincidência, um dos chefes daquele jornal era o filho de Bradlee, Ben Bradlee Jr. Outros filmes ressaltam o mesmo tema, como “Snowden: Herói ou Traidor”, de 2016, dirigido por Oliver Stone. Há também a história do “whistleblower” do Watergate, “Mark Felt – O Homem que Derrubou a Casa Branca”, de 2017, que deixa muitas interrogações para quem não estava familiarizado com os acontecimentos e não sabia nem quem era o famoso “Deep Throat”. “O Quinto Poder” de 2013, tem Benedict Cumberbatch no papel de Julian Assange, o criador do Wikileaks.

A rivalidade entre os jornais, o poderoso NYT e o bravo Washington Post torna-se uma aliança em defesa da liberdade de imprensa quando ambos são processados – e absolvidos na Corte Suprema – por traição e conspiração contra o governo Nixon. Como alertou McNamara a Katharine Graham, pois eram amigos, “cuidado com Nixon. Ele é mau e fará tudo que puder para acabar com seu jornal”. Também Daniel Ellsberg foi processado e condenado a 115 anos de prisão, por espionagem e traição, mas teve a pena revogada por falhas no processo.

É uma viagem no tempo, de volta às redações esfumaçadas, aos telefones de discagem, ou telefones públicos, ao grande avanço tecnológico que era máquina de Xerox, aos tempos dos tipos de chumbo e rotativas gigantescas, em geral no subsolo dos jornais e de jornalistas com terno e gravata.

E quem se saiu mal, no final das contas, foram Richard Nixon e seus cúmplices. Uma lição a ser aprendida.

Claudia Bozzo
Tom Wolfe e seu sarcástico e irresistível livro “A Palavra Pintada” é a primeira referência que vem à mente no início de “The Square – A Arte da Discórdia”, uma coprodução entre Suécia, Alemanha, Dinamarca e França. Mas não é a única referência. Outras virão, com o desconforto que o filme vai provocando aos poucos, mesmo algumas resenhas o descrevam como “comédia dramática”, pois o senso de humor entra em pinceladas sutis.

Premiado com duas Palmas de Ouro em Cannes em 2017, para melhor filme e diretor, é obra de Ruben Östlund, o mesmo de “Força Maior” (2014), que retrata um pai de família que, ao tomar o café da manhã com mulher e filhos em uma estação de esqui, percebe o desencadear de uma avalanche e cuida da própria pele sem preocupar-se com qualquer um de seus familiares.

Já “The Square” está em outro ambiente. Ac0mpanha as atribulações do curador de uma importante galeria de arte de Estocolmo (com Claes Bang no papel), cujas tarefas incluem bajular muitos para obter verbas e dotações para manter as exposições. Ele quer criar polêmica, quer atrair o público e em resumo quer agradar a todos, mas parece conquistar poucos sucessos, tanto no campo social como profissional.

A referência a Tom Wolfe vem logo de início, quando o curador é entrevistado por uma jornalista americana, Anne (Elizabeth Moss, conhecida pelo seu papel em “Mad Men”) que repete uma frase do catálogo de apresentação da nova mostra, “The Square”, texto com frases pomposas e vazias. Ela cita uma das frases e pergunta ao curador, Christian, se ele poderia explicar a ela o que aquilo quer dizer. Ele se enrola e tenta sair pela tangente. A tal exposição consiste de uma instalação, concebida por uma artista argentina, que a define como uma ‘utopia em miniatura”, uma espécie de espaço de refúgio e calma.

Até um sociólogo é chamado para explicar a obra à alta burguesia que frequenta os jantares do museu e abre suas carteiras, caindo no que Wolfe define como a palavra pintada que ajuda a entender essa forma de expressão que é parte da arte moderna. Irreverente e sarcástico, Wolfe, em 1974, concluiu, como explicou em inúmeras entrevistas, ao ler a edição dominical do The New York Times, que a arte moderna havia se tornado inteiramente literária: as pinturas e outras obras só existiam para ilustrar o texto.

Mas são duas horas e meia de filme, e a trama percorre o que há de mais inquietante nesse momento na Europa, mostrando-se uma verdadeira sátira surrealista. Ao andar distraidamente por uma rua de Estocolmo, o curador Claes vê-se envolvido em situação bizarra: uma mulher passa gritando e esconde-se atrás de outras pessoas. O clima de pânico se desfaz em instantes e ao chegar à galeria, ele percebe que está sem o celular, a carteira e as abotoaduras.

É a busca por esses objetos que traz a Europa de hoje à tela: a intranquilidade com a questão da imigração, tema que paralisa políticos em vários países. Pelo localizador de seu celular, descobre com a ajuda de um funcionário da galeria, que ele está em uma das regiões da periferia de Estocolmo (na verdade, é até difícil descobrir que tal local é periferia, mostrando que o fosso que separa as classes nos países nórdicos é bem raso, em relação a outros). Então resolve ir até lá com seu carro elétrico e colocar uma carta sob a porta de cada um dos apartamentos do prédio onde estaria seu telefone, dizendo ter sido roubado e ameaçando denunciar o caso à polícia.

O conflito se forma e é mais uma das confusões que deixam o curador à beira de um ataque de nervos, além de ter de cuidar das filhas, enfrentar um relacionamento com a jornalista que o entrevista no início e lidar com as repercussões da campanha criada por dois publicitários, cuja meta é “viralizar” na internet.

Desconfortável, surreal e denso, o filme percorre o terreno minado das relações e ressentimentos sociais, das estruturas do poder e prepotências em geral. O jantar, formal e requintado tem a participação de Oleg um “artista performático” que leva esse desconforto a um ponto quase insuportável, não fosse a necessidade de sempre manter as aparências. 

O desconforto está também nas interrupções feitas durante a palestra de um dos artistas com obra expostas no museu, interpretado pelo britânico Dominic West, ou ainda na criança que é levada pelo pai às reuniões de escritório, e não para de chorar. Ou no garoto que se sente com direito a um pedido de desculpas por ter sido punido pelos pais em função da carta deixada sob a porta de seu apartamento. Duro como a realidade, é um filme daqueles que ficam dando voltas na sua cabeça e a cada pouco mais uma porta se abre em sua mente.

Claudia Bozzo
A segunda temporada de “The Crown”, que já está no Netflix é uma preciosidade. Mais que um berilo, nome de um de seus melhores episódios, “Beryl”, todos os atores desempenham com excelência seu principal papel – o de comprovar que o Reino Unido é o berço da melhor dramaturgia.

A começar pela atriz que interpreta os dez primeiros anos – dos 65 recém-completados – da rainha Elizabeth II no trono, Clare Foy. Jovem, ela está no momento envolvida em outros quatro projetos e seu currículo inclui filmes, séries de TV e peças de teatro desde 2008, incluindo o papel de Ana Bolena na série “Wolf Hall”, também no Netflix e faz parte do elenco de várias outras séries e do ótimo “A Senhora da Van” de 2015, ao lado de David Jennings, que interpreta o rei – tio de Elizabeth – que não quis a coroa e tornou-se o Duque de Windsor. Na próxima temporada será substituída por Olívia Colman (que está em “Assassinato no Expresso Oriente”, em cartaz, como acompanhante de Judi Dench). Ela também trabalhou na série “Broadchurch”, exibida pelo GNT.

Além dela Matt Smith, excelente no papel de Philip, será substituído – mesmo porque ambos são jovens para interpretar os próximos anos da rainha e seu marido – mas o Netflix ainda não revelou qual o próximo ator. Smith foi o penúltimo “Dr. Who”, a série apresentada desde 2005, mas com episódios aqui e ali que a levaram a completar 50 anos na telinha. Ele também é o protagonista em um filme biográfico sobre o polêmico fotógrafo Robert Mapplethorpe, em fase de edição.

A série “The Crown” é densa, irreverente, bem escrita e irreverente de uma forma que até surpreende, ao revelar uma pesquisa histórica e um compromisso elogiável com a realidade, com os fatos que envolveram uma delicada fase da história britânica, após a Segunda Guerra. Nada é deixado de lado, nem mesmo questões delicadas com certas ligações com o nazismo, ou escândalos como o que envolveu John Profumo, político que escalou as mais altas hierarquias do governo britânico.

Também não são poupados os primeiros-ministros que vieram depois de Winston Churchill, como Anthony Eden (1955-1957), no cargo durante dois anos, e que enfrentou a difícil situação de nacionalização do Canal de Suez, decretada pelo presidente egípcio, Gamal Abdel Nasser. Foi substituído por Harold Macmillan, que ficou no cargo de 1957 a 1963. O fraco desempenho de ambos custou à Inglaterra o chamado “capital moral” conquistado com a vitória contra o Eixo, na Segunda Guerra.

“The Crown” traz o relacionamento da rainha Elizabeth com seus primeiros-ministros, família, conhecidos, em detalhes que revelam o rigor da pesquisa histórica feita pela produção dessa que é a mais cara série já feita.

Essa segunda temporada começa pela viagem de cinco meses do Duque de Edimburgo – Philip ainda não era príncipe – por países da Commonwealth – e registra os efeitos emocionais do distanciamento.

Quando terminam os episódios dessa segunda temporada, a grande pergunta é: como eles conseguiram colocar tanta coisa, tantas informações, sentimentos e fatos, em tão curto espaço de tempo? E com tanta competência? E além disso, com um senso cinematográfico de alta competência.

O episódio “Beryl”, por exemplo, mostra como é sair de uma camisa-de-força. A rigidez e o senso de estoicismo que é são britanicamente entranhados, principalmente na família real britânica, encontram uma contestadora à altura, a princesa Margaret, interpretada pela bela Venssa Kirby. A princesa, a 11ª na linha de sucessão para o trono, mas a mais imperial de toda família, como se fica sabendo nas conversas entre as irmãs Elizabeth e Margaret, é um sopro de joie de vivre naquela rigidez cerimoniosa palaciana. E esse episódio marca o encontro de dois seres independentes, ela e o fotógrafo Tony Armstrong-Jones, papel entregue ao carismático Matthew Goode, que passou por “Downton Abbey” e também pela série americana “The Good Wife”.

Na comparação, “Downton Abbey” acaba mostrando-se uma espécie de romance de folhetim, meio descolado da realidade, bem alienado, digamos. Pois “The Crown” passa longe da frivolidade – talvez ela venha quando entrar em cena o período Diana. Mesmo porque, como retratar a princesa sem sua característica principal, a vaidade, o estrelismo e a frívola forma de encarar a vida?

É aguardar e ver. Muita coisa boa ainda está por chegar, se a segunda temporada se consolidar como a bússola dessa interessante série.

Claudia Bozzo
Como qualquer epidemia dos tempos modernos, as doenças viajam de continente por continente. Seja pelos meios de transporte ou pelos meios de comunicação. E a onda de denúncias de assédio sexual, inaugurada contra Harvey Weinstein, em tempos de internet e TV a cabo, chegou até a Nigéria, o terceiro – ou segundo, de acordo com a estatística que se consulta – maior produtor de filmes no mundo, depois da Índia (Bollywood) e Estados Unidos (Hollywood).

Conhecida como Nollywood, a indústria cinematográfica nigeriana foi notícia na semana passada pois em novembro, a atriz Eniola Omoshalewa Eunice enviou uma queixa ao Ministério dos Assuntos das Mulheres, que encaminha as denúncias à polícia. Ela acusou um comediante, Yomi Fabiyi (prêmio de melhor ator no Nollywood Awards de 2016) de tê-la chantageado, em 2008. “Ele me disse que teríamos que dormir juntos antes que ele pudesse transformar-me em uma estrela”, relata a atriz, em reportagem do jornal Le Monde.

Essa denúncia, porém, foi precedida por outra, um mês antes de vir à tona o caso Weinstein. Emeka Rollas Ejezie, presidente da Associação de Atores manifestou a intenção de travar uma guerra contra o assédio sexual em Nollywood, denúncia à qual até agora ninguém deu atenção.

Em seguida à denúncia de Eniola, veio outra acusação, contra um ator veterano de 57 anos, Yemi Solade. Os casos estão ainda na fase de inquérito policial. Um golpe sério para uma indústria que movimenta US$ 3,3 bilhões por ano e produz dezenas de filmes por semana.

Aqui cabe informar que essa produção é toda em vídeo, pois o pais tem poucos cinemas e 90% da produção é de home vídeos. Há mais de 15 mil videoclubes e locadoras no país e uma pirataria altamente disseminada. Calcula-se, por exemplo, que cada filme tenha uma venda de 25 mil cópias.

Com quase 160 milhões de habitantes, a Nigéria abriga vastos núcleos de pobreza e algumas ilhas de prosperidade, sendo um dos maiores produtores mundiais de petróleo, e integrando com outros 12 países a Opep. Além de petróleo o país tem gás natural, estanho, minério de ferro, nióbio, chumbo e zinco. Aderiu à ideia de criar uma “Opep do Cacau”, com Gana, Costa do Marfim, Camarões e Indonésia, países que juntos produzem 80% da oferta mundial de amêndoas.

Ele abriga outra versão de Nollywood, que reúne os filmes produzidos no idioma hausa, do norte do país, a Kannywood, onde se sabe que o fim da impunidade está longe. Lá a lei predominante é a do silêncio e a pressão sobre as atrizes sob o domínio muçulmano é poderosa. Mas uma atriz de 21 anos, Rahama Sadau denunciou a chantagem sexual e foi dispensada pelo diretor do filme. O caso acabou em pizza, após a intervenção da poderosa associação que controla a indústria cinematográfica hausa.

A história não acabou ai. Como observa o artigo do Le Monde, “na terra da sharia e do cinema, a culpa é da vítima” e a atriz acabou sendo banida das telas para sempre, acusada de ter “tocado” um homem em um vídeo romântico.

Alguns diretores contra-atacaram na Nigéria e a premiada diretora Mildred Okwo denunciou outro fenômeno, que chamou de “corrupção por sexo”, acusando atrizes de se oferecerem em troca de papeis. Não poupou ninguém: também se queixou da pressão exercida pelos produtores, querendo impor atrizes pelas quais se interessam.

A emergência de Nollywood aconteceu no fim dos anos 1980, coincidindo com uma crise econômica que privou os produtores do acesso aos custosos materiais para filmagem em película. Nessa época, um grupo yorubá de teatro itinerante gravava suas performances em VHS e as fitas eram vendidas em lojas de eletrônicos.

Um dia, o dono de uma dessas lojas escreveu e patrocinou um longa-metragem rodado inteiramente em VHS. O resultado, Living in Bondage (1992), foi o primeiro blockbuster de Nollywood, com mais de 750 mil cópias vendidas. Hoje, os filmes independentes continuam a ser rodados, com um número cada vez maior de lançamentos no cinema. O formato para vídeo permite que as produções sejam não só econômicas – com custo entre US$ 30 e US$ 200 mil –, mas também rápidas, com filmagens durando entre três e quatro semanas. O preço final de uma cópia sai entre US$ 1,5 e US$ 3, que são consumidas vorazmente por um público de milhares de pessoas espalhadas pelo continente africano e também pelos que emigraram.

Segundo um site de cinema africano, cerca de 40% da produção no país é em pidgin english, 35% em yorubá, 17,5% em hausa e os 7,5% restantes em outras línguas e dialetos locais. Embora a distribuição seja um grande gargalo, Nollywood também começa a conquistar espaço em outros países da África, com seus atores fazendo sucesso de Gana a Zâmbia.

Claudia Bozzo
Foi muito breve a carreira de “Uma Sequência Inconveniente”, apresentado em julho nos EUA, que ficou poucas semanas nos cinemas de São Paulo, depois do lançamento em 9 de novembro. O primeiro filme, “Uma Verdade Inconveniente” (2006), arrecadou quase US$ 50 milhões em todo o mundo, além de conquistar o Oscar de melhor documentário de longa-metragem em 2007. Um Oscar que não foi para seu idealizador e mentor, o ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore, mas sim para o diretor, Davis Guggenheim. Gore diz que tem “custódia partilhada” sobre a estatueta. E sem dúvida os méritos de um empreendimento de tal porte.

Mas a sequência do filme, rodada onze anos depois, certamente foi vitimada pelo grande vilão de nossos dias, o “implacável” adversário de Kim Jong-un (sem dúvida, inimigos que se merecem) o presidente Donald Trump. O filme estava pronto, quando foi necessário refazer o final, pois Trump anunciou, em junho, a retirada dos EUA do acordo de Paris sobre mudanças climáticas. Os cineastas de “Uma Sequência Inconveniente” viram-se à frente das dificuldades que ameaçam todos documentaristas. Da mesma forma como um roteirista pode moldar a narrativa, é impossível controlar os acontecimentos do mundo real. Novo material foi acrescentado à edição final do filme que teve sua première no Festival de Cinema de Cannes.

“Foi decepcionante e um tanto inesperada”, disse Al Gore sobre a decisão do presidente. “Eu havia conversado com ele e sua filha Ivanka, uma verdadeira defensora do acordo. Acreditei que havia uma chance 50/50 de ele permanecer no acordo, mas Deus sabe que não consigo analisá-lo psicologicamente,” disse Gore em entrevista ao The New York Times.

Isso acabou funcionando como um literal anticlímax para o filme que até então vinha num crescendo bem interessante, com os esforços de Gore para conseguir que a Índia abrisse mão de sua iniciativa de adotar o carvão para produzir energia. Pelo menos resta o consolo de que a Índia realmente adotou a opção favorável ao meio ambiente, graças aos incentivos econômicos que Al Gore intermediou e que são mostrados no filme em um clima de muito suspense. O elemento desestabilizador foi mesmo Trump.

Certamente esse desfecho atuou contra o filme, mas de qualquer forma, ele perdeu o impacto gerado há uma década por “Uma Verdade Inconveniente”.

Na sequência, Guggenheim atuou como produtor executivo e transferiu a tarefa de direção a Bonni Cohen e Jon Shenk, casal de documentaristas conhecidos por “The Island President” e “The Rape of Europa”. Em vez de se concentrar na apresentação de imagens de Gore sobre as mudanças climáticas, que integravam o núcleo básico do filme original, Cohen e Shenk adotaram uma abordagem de cinema-verdade, acompanhando o defensor do meio-ambiente durante mais de dois anos.

Mas o filme veio no sabor déja-vu e embora muito interessante e dedicado à esperança, mostrando o que existe em preparação em todo o mundo, quanto à substituição pela geração limpa de energia, não conseguiu emocionar.

Cohen e Shenk disseram-se confiantes de que o filme terá seu público entre pessoas de todas as idades, sedentas por autenticidade nessa era das chamadas “falsas verdades” (fake news). “O renascimento dos documentários mostra que eles estão tomando o lugar do jornalismo investigativo de longas matérias”, disse Shenk. “Há algo indiscutível num documentário – não se trata de uma reportagem sobre Al Gore, mas sim de estar com ele.” Essa é uma das partes mais interessantes do filme: o treinamento conduzido por Gore, às equipes de ambientalistas. Ele é visto com cientistas na Groenlândia, treinando ativistas nas Filipinas e ocupando-se das negociações para o acordo de Paris.

Reportagem publicada por The Economist na semana passada, sobre o encontro de Bonn para reavaliar as decisões da reunião, de Paris, diz que o grande dano provocado pelos Estados Unidos com a decisão do governo Trump pouco tem a ver com a redução das emissões de CO² pelo país. O pior mesmo é o mau exemplo: “o problema é a cobertura que os Estados Unidos deram a outros, ao evitar reconhecer a existência do problema”.

Em breve o documentário deve ser transmitido por TV a cabo, Netflix ou qualquer outro serviço de vídeo por demanda. E sempre se aprende alguma coisa com Al Gore, um paladino moderno, lutando contra inimigos sorrateiros, acobertados e patrocinados por poderosos.

Claudia Bozzo
O diretor, roteirista e produtor finlandês Aki Kaurismaki fez uma promessa há alguns anos. Disse que depois do 20º longa metragem iria se retirar do cinema. Então, é bom torcer para que seja apenas uma de suas “boutades” e não perder “O Outro Lado da Esperança”, pois a conta de suas obras – seja de longas ou curtas ou participação em filmes de vários diretores – vai longe no IMDB (Internet Movie DataBase, o mapa da mina para quem quer lembrar qual é o ator de um filme, o diretor de arte, ou roteirista ou até mesmo quem é a esposa de fulano…).

“O Outro Lado” sintetiza toda a sensibilidade que fez de Kaurismaki um dos mais respeitados cineastas da atualidade. Conta a história do refugiado sírio Khaled (Sherwan Haji), que acaba indo para a Finlândia, vindo da Turquia e passando por vários países. Assim que chega, sua primeira providência é pedir asilo e para isso vai a uma delegacia de polícia, percorrendo toda burocracia enfrentada pelos refugiados, numa Europa cada vez mais preocupada com o tema da migração. Em uma hospedaria para onde é enviado, faz logo amizade com outro refugiado, o iraquiano Mazdak (Simon Hussein Al-Bazoon).

Em paralelo, o filme vai contando a história de Wikström (Sakari Kuosmanen), um vendedor de camisas que resolve largar a esposa, mais interessada na garrafa que em qualquer outra coisa e ao apostar o resultado da venda de seu estoque no pôquer, consegue o suficiente para montar um restaurante.

A direção de arte e a fotografia são no mínimo, excepcionais, criando uma atmosfera meio anos 1950, com um toque dark, numa Finlândia tão atual quanto seus carecas fascitoides que mal conseguem controlar a fúria assassina, ao cruzar com alguém como Khaled. Usam roupas pretas de couro e alguns têm a inscrição “Exército de libertação da Finlândia” desenhada nas costas das jaquetas. Outro ponto interessante é a música: o diretor inclui um grupo onde os intérpretes são todos septuagenários (mas nada no estilo saltitante de Mick Jagger), executando temas de country e blues cantados em finlandês, mostrando que a miscigenação cultural começou muito antes da pessoal.

Khaled é o protótipo do bom moço. Tudo o que quer é regularizar sua situação e encontrar a irmã Miriam, da qual se perdeu na hora de cruzar a fronteira turca. O roteiro dá a ele todo o espaço do qual precisa para contar com calma sua história e calvário, uma trajetória comum a tantos desses migrantes, pegos no meio de um conflito que se resume à ganância das grandes potências. Escancarada por alguém como Donald Trump, ao afirmar, como reproduziu o The Economist, esta semana que, “antigamente, se alguém ganhasse uma guerra, ganhava uma guerra. Mantinha o país”, acrescentando que “bombardearia essa droga” de Estado islâmico e “ficaria com o petróleo”.

Trump não estava nem nos delírios de algum comediante ou analista político, quando em 2003 e 2006, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o diretor Aki Kaurismaki simplesmente boicotou os prêmios (por “O Homem sem Passado” de 2002 e “Luzes na Escuridão” de 2006), recusando-se sequer a ir aos EUA, país envolvido em guerra no Oriente Médio. Aqui é bom lembrar que a realidade às vezes é bem mais surrealista que a ficção, como o ex-presidente Bush declarando que votou em Hillary Clinton e criticando Trump.

O finlandês, que vive em Portugal desde 1989, é famoso também pelo senso de humor, dos mais refinados, bem presente no filme, em toques certeiros e enxutos. Já declarou, em entrevista, que “gosto de cachorros. Pela humanidade não me interesso muito. Eles são honestos e não mentem”. Outra: “Acho que quanto mais pessimista eu me sinto em relação à vida, mais otimistas deveriam ser os filmes”.

“O Outro Lado da Esperança”, é um atestado da sua crença nas pessoas e de uma atualidade impressionante. Embora se desenvolvam em paralelo durante a maior parte do filme, as vidas do refugiado e do ex-vendedor cruzam por um brevíssimo instante no início do filme. E depois, Khaled acaba indo trabalhar no restaurante de Wikström, que manteve os antigos funcionários e tenta conquistar fregueses inovando em cardápios. Como a noite de comida japonesa, e a contratação de um grupo musical. É, na medida exata, um filme para quem gosta do verdadeiro cinema, sem efeitos especiais e defeitos extraordinários.

Claudia Bozzo
Isso não é comum, mas a sequencia de “Blade Runner, o Exterminador de Andróides” (1982) está sendo considerada ainda melhor que o filme original, pela maioria das pessoas que viram “Blade Runner 2049” (2017). E desta vez, críticos e público ficaram no mesmo time.

Passados 35 anos, a saga baseada no livro de Philip K. Dick manteve tudo que havia de bom no primeiro filme – e não era pouca coisa – acrescentando detalhes fascinantes à história. E mantendo o padrão estético que caracterizou e ajudou a fazer a fama do primeiro. Só a música não tem o mesmo impacto do original. Mas isso é só detalhe.

O primeiro “Blade Runner” não teve uma passagem marcante pelos cinemas. E aqui chegamos a uma das importantes mudanças tecnológicas que marcaram nesses trinta e cinco anos, passagens cada vez mais rápidas, como apontava Alvin Tofler (definido como ‘futurista’), que faleceu em 2016. Ele escreveu “O Choque do Futuro”, de 1970, mas ainda atual, mostrando como era cada vez mais acelerado o avanço da ciência e da tecnologia.

Esse é um dos fatores que explicam como “Blade Runner”, sem ser um blockbuster veio a tornar-se um dos mais cults entre os cults. Ele chegou em meio à briga pela definição de um reprodutor de vídeo. Era a Sony de um lado, com o seu Betamax, e outras empresas do outro, com o VHS, entre o final da década de 1970 e final da década de 1980. Esse e outros filmes da época tiveram uma carreira doméstica, pois os videocassetes começavam a se popularizar e embora extremamente caros, foram-se tornando cada vez mais acessíveis. Ao mesmo tempo veio a febre dos videoclubes.

Por fora corria outro sistema, com melhor definição, melhor qualidade de reprodução e confiabilidade, porém, extremamente caro, o laser disc (de certa forma, o antecessor do CD). Claro que as empresas pretendiam faturar com a venda de filmes – como a Atari, cujos anúncios aparecem também na continuação de “Blade Runner” – faturava na venda de cartuchos para seus jogos, cobrando pelo console um preço até simbólico.

Filmes em Betamax exigiam o console próprio, pois o formato era diferente do VHS e a maioria era encontrada apenas em lojas na Liberdade, por ser a Sony uma companhia japonesa e porque o formato e sua definição em muitos casos, melhor que o VHS, caiu no gosto da colônia japonesa. Sem contar com a imensidão de filmes japoneses que havia em tais videoclubes.

Foi pelo VHS, na época quase todos piratas, pois a produção demorou para engatar, devido à falta de definição por um dos dois formatos. E foi em VHS, em cópias bem ruinzinhas, que vi pelas primeiras dez ou quinze vezes a epopeia dos androides que haviam fugido de uma colônia em outro planeta, em busca de mais vida, pois tinham um prazo de validade que expirava com o tempo. A qualidade da reprodução dos vídeos não interferia na qualidade artística do filme dirigido pelo britânico Ridley Scott (é produtor executivo de “Blade Runner 2049”) já famoso por “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979) e “Os Duelistas” (1977). Uma direção de arte de tirar o fôlego, atores de primeira, incluindo os belos androides Rutger Hauer, Sean Young e Joanna Cassidy e o já então icônico Harrison Ford.

Nesse meio tempo vieram as TVs digitais, os reprodutores e gravadores de CD, a TV a cabo, a popularização do celular (inventado por Martin Cooper em 1973, era um “tijolo” de mais de um quilo, só começou a ser utilizado, mesmo nos EUA, em 1983). No Brasil, o primeiro foi lançado em 1990. Realidade, o carro elétrico deve ser compulsoriamente adotado por muitos países europeus, e o carro sem motorista avança dia a dia. A ficção científica deixou de ser ficção há um bom tempo. Harrison Ford, por exemplo, dá ordens por voz ao seu computador no “Blade Runner” de 1982. E aquilo era um “nossa!” na época.

Uma boa sugestão, se você não assistiu o primeiro filme umas dez ou quinze vezes, no mínimo – e ainda o director’s cut, que foi apresentado nos cinemas com a versão final do próprio Ridley Scott – é assistir pelo menos uma vez, antes de ver o novo. Mesmo porque estamos atravessando mais uma fase inovadora na evolução tecnológica. Estamos passando para o fim a “mídia física”, como são definidos CDs (de filmes ou música) para a versão digital de tudo. Os serviços de streaming (Netflix, Amazon e outros) estão avançando sobre o território da TV convencional e também da TV a cabo. Outras espécies percebem o bafo da extinção se aproximando. E é bom ficar atento, para poder acompanhar os tempos, aproveitando o que há de melhor por ai.

Claudia Bozzo
Há duas opções de filmes sobre mãe nas telas. Uma, insuportavelmente pretenciosa, chata e vazia é “Mãe” de Darren Aronofsky, que consegue transformar até Javier Bardén num ator menor.

A outra opção, deliciosamente inteligente e sensível, leva mãe só no título original, em francês, “Maman a Tort” (Mamãe errou) que recebeu aqui o título de “A Garota do Armário”.

O filme conta a história de Anouk, jovem de 14 anos que precisa, como todo estudante francês, fazer um estágio em uma empresa, em um determinado ponto de sua vida escolar. Filha de pais separados, ela pretendia cumprir a tarefa na emissora de TV onde o pai trabalha. Mas ele é demitido um pouco antes e ela acaba indo parar na seguradora onde sua mãe é funcionária de alto escalão.

O diretor, Marc Fitoussi, é o mesmo de “Um Amor em Paris” (2014), exibido aqui ano passado, uma história delicada sobre um casal de agricultores, os excelentes Isabelle Huppert e Jean-Pierre Darroussin.

A garota do armário é interpretada pela ruivinha Jeanne Justin, da qual é impossível gostar, logo no início, pois é o perfeito adolescente irritante. E lá vai ela sob protesto, para a grande seguradora na qual a mãe trabalha – claro, como toda empresa de grande porte o escritório fica em La Défense, o bairro mais modernoso da cidade.

A mãe, a belga Émilie Dequenne, é uma das atrizes favoritas dos irmãos Dardenne. Ela faz o que pode para ajudar a rebelde filha a se encaixar nos rituais e na estrutura da empresa, onde reina a atmosfera de tensão, puxa-tapete, fofocas e outras coisas que a esperta menina acaba descobrindo.

O filme é uma celebração da passagem de Anouk para a vida adulta, pois essa semana a faz amadurecer de forma extraordinária, ao se envolver com um dos casos que ela acaba tomando conhecimento, de uma viúva que não consegue receber o seguro pela morte do marido, devido a meandros jurídicos aos quais todos estamos sujeitos, embutidos nas letrinhas menores dos contratos que assinamos.

O diretor usa a personagem de Anouk para mostrar, a partir da visão de uma menina, como são surreais algumas das atitudes das pessoas envolvidas demais com os meandros corporativos. Quase como a personagem de “Toni Erdman”, um filme alemão, que mostra um pai preocupado com a excessiva dedicação da filha à carreira e ascensão aos estratos mais elevados. Um ambiente extremamente machista, belicoso, onde gente adulta brinca de bullying o tempo todo. Claro que existem as boas figuras. Mas estão nos andares inferiores da cadeia alimentar.

Além disso, o trabalho e o envolvimento da jovem Anouk marcam uma nova fase de relacionamento com a mãe, pelo convívio com as pessoas que a cercam e pela queda de algumas barreiras, inevitáveis. Até fisicamente foi cuidado para que Anouk mostrasse seu amadurecimento, a partir de uma nova postura corporal, nova forma de se vestir.

Um filme de muitos predicados.

Claudia Bozzo
Está acontecendo uma briga de foice entre os fornecedores de filmes por demanda e produtores de conteúdo, da qual estamos mais ou menos distantes, embora sejamos os alvos e os reais culpados. Alvos, porque todos querem nossa atenção. E culpados pela falta de fidelidade. TV a cabo, por exemplo: são cada vez maiores as desistências, pois as empresas (poucas opções, na verdade) servem um cardápio sem graça e caro demais. A TV aberta resiste, mas todos sabem que jovens não assistem mais, ou sequer conhecem novelas, por exemplo. Esse é um ambiente em ebulição.

Uma das razões para esse caos é que o cancelamento de assinaturas nos Estados Unidos, por exemplo, está se acelerando de forma mais rápida que o esperado pelos executivos de mídia. No último trimestre, quase um milhão de americanos desistiram de suas inscrições em serviços de TV paga, segundo uma estimativa de Craig Moffett, analista de meios de meios de comunicação na MoffettNathanson. (O Netflix acrescentou quase a mesma quantidade de assinantes nos Estados Unidos ao mesmo tempo).

Jovens, grupo particularmente cobiçado pelos anunciantes, estão se afastando da TV de forma especialmente rápida. A quantidade de pessoas com menos de 35 anos que assistem TV tradicional nos EUA caiu pela metade desde 2010, diz Matthew Ball, diretor de estratégia nos Estúdios Amazon.

No caso do Brasil, a séria crise pela qual passamos acelerou ainda mais essa tendência, embora os números sejam desconhecidos. Na semana passada, por exemplo, nos Estados Unidos, o Facebook caiu na boca dos críticos e da concorrência ao divulgar dados informando que tem como meta atingir um público de jovens que tem 25 milhões de pessoas a mais do que os dados oficiais do censo do país. A empresa disse que quer chegar aos 41 milhões de jovens entre 18 e os 24 anos (eles são 31 milhões segundo o Censo) e a 60 milhões entre 25 a 34 anos (são 45 milhões, informou o governo).

Entende-se tanto o esforço do Facebook, que está com os olhos voltados para a divulgação de vídeos, que virá no formato de uma aba, o Watch, invadindo o campo de outros serviços, como o YouTube ou de vídeos por demanda (como Netflix, Amazon, HBO, Hulu e outros). A empresa acredita que quanto mais tempo seus usuários permanecerem no site, mais anúncios verão e o lançamento de vídeos curtos e mesmo pequenos reality shows estão nos planos da inquieta empresa.

Segundo reportagem do New York Times, o futuro da TV é “desordenado e confuso”. Lá nos EUA a tendência de cancelamento de assinaturas gerou um fenômeno chamado de “caça ao canal”. São tantas as novas opções de vídeo por demanda que as pessoas passeiam de aplicativo em aplicativo até encontrar qual era o programa que estavam seguindo.

Isso já aconteceu com você no Netflix? As opções são tantas que a gente até esquece o que estava acompanhando, a não ser que seja uma dessas séries imperdíveis, como “House of Cards”, “Downton Abbey”, “The Crown”, “River”, “Narcos” e outras. Mesmo porque gosto é gosto e cada qual tem o seu. As novelas turcas, por exemplo, encontraram fieis seguidores, que elogiam a discrição e romantismo.

Pois imagine um ambiente no qual por enquanto temos, em volume bastante limitado pelo alto custo para o assinante, Amazon, HBO, Fox, Disney, e os interesses envolvidos na captação de novos clientes. A ousadia do Netflix pegou muitos desprevenidos, e agora a empresa é alvo de uma ofensiva da parte da concorrência. Alguns de seus fornecedores de conteúdo, como a Disney, anunciaram que vão suspender seus contratos com ela e passar seu conteúdo para um serviço próprio. A dúvida é saber se a Netflix terá fôlego para continuar com sua política de produzir conteúdo – o catálogo de produções da empresa é extenso e variado – uma atividade bastante cara. E tudo indica que esse é mesmo o rumo escolhido por ela, pois este ano até levou um filme a Cannes, levando arrepios aos puristas, afinal aquele é o templo da telona de cinema.

Reportagem recente da revista Barron’s revela que o serviço – que tem cerca de 100 milhões de assinantes no mundo, presente em 60 países (sem incluir a China) – gastará muitos bilhões este ano arriscando-se com títulos de ‘alto risco’. Segundo analistas do setor financeiro, mais interessados nos números que na programação, as assinaturas não cobrem todos os custos. A favor da empresa está a marca de ousadia e inovação de seu CEO, Reed Hastings, que soube qual o momento exato de passar da entrega de filmes para aluguel pelo correio, tirando da jogada nos EUA um concorrente do porte da Blockbuster, para depois iniciar o serviço de streaming, canibalizando o seu próprio aluguel de vídeos. Firme na competição está a Amazon, que anunciou um orçamento para conteúdo ao redor dos US$ 4,5 bilhões.

Quem viu a série que agrupou os três antigos participantes do “Top Gear” da BBC, um programa sobre automobilismo, viagens e etc., agora chamado de “The Grand Tour”, percebe que não se fez economia para tentar reconquistar a antiga audiência do programa (antes transmitido por TV a cabo), uma das maiores da história da TV.

O certo é que haverá em breve muito mais opções. Até o Google tem um sistema de streaming, pelo qual se paga por filme. O problema será ajustar a escolha ao orçamento, à garantia de qualidade e o gosto pessoal quanto ao que é oferecido. “Em caso de dúvida”, dizia uma jovem no cinema, ao namorado, “todo mundo acaba escolhendo sorvete de chocolate, não é?” Bom, não é tão simples…