Claudia Bozzo
Quando o ex-presidente norte-americano Barak Obama visitou a Turquia, seu aliado na Otan, em 2009, foi recebido pelo então primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, atual presidente do país. Ambos visitaram um dos cartões postais de Istambul, a catedral de Santa Sofia e lá deixaram-se seduzir pelo charme de Gli, o gato da basílica. A foto correu o mundo e Gli virou estrela. Meses depois, em visita à mesma catedral, o que mais atraia turistas era o gato: todos queriam fotografá-lo ou tirar uma selfie com ele.

Esse é um símbolo muito forte do amor que os turcos dedicam aos gatos e por Istambul, como dizem os anúncios de “Gatos” (Kedi, gato, em turco), documentário de Ceyda Torun, que estreou esta semana e tem recebido enorme atenção em todo mundo. Só nos Estados Unidos, por exemplo, foi uma surpresa o sucesso nas bilheterias pois rendeu mais de US$ 2,7 milhões. No site sobre cinema, Rotten Tomatoes recebeu um índice de aprovação de 98% e chegou a ser considerado “O ‘Cidadão Kane’ de documentários sobre gatos”, como relata o jornal britânico Guardian.

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Como a proporção de fãs de gatos só aumenta (nos Estados Unidos o número de ‘gatófilos’ duplicou em apenas 20 anos) há uma primeira e simples explicação para o sucesso do filme que traz a narrativa sobre as andanças de sete deles por uma das mais fascinantes metrópoles do mundo. A diretora Ceyda Torun comentou em entrevistas que muito tem mudado no país.

“As pessoas estão deprimidas e ansiosas… tentam mostrar resistência frente aos acontecimentos, mas é realmente difícil: há uma espécie de nuvem pairando sobre todas as coisas. Tudo aconteceu de forma distante enquanto filmávamos, no verão e 2014. Charlie (Charlie Wuppermann, cinegrafista e parceiro na empreitada) e eu debatíamos todo dia se era defensável fazer um filme sobre gatos, ao mesmo tempo em que ocorriam os problemas dos refugiados sírios ou as rebeliões no país. São tópicos muito importantes a serem explorados, mas ao mesmo tempo exigiam uma perspectiva que não tínhamos condições de prover na ocasião”, conta a cineasta, que viveu em Istambul até os 11 anos e atualmente mora em Los Angeles.

O que ela pretendia era “escrever uma carta de amor à cidade e aos gatos. Com o documentário eu podia imortalizar a beleza de Istambul – essa é a minha forma de resistência”.

Ela escolheu os gatos de rua que resumem as características: independentes, com personalidade, cada qual com sua típica atitude felina. Alguns não sobreviveram nos últimos anos, mas como conta Ceyda Turon, “outros são resistentes e jamais morrerão. Psikopat é um deles. Gamsiz vai muito bem, embora o padeiro que o alimentava tenha mudado”.
 
A cidade, que é a união de dois continentes, com o Bósforo cortando-a no meio, tem uma intensa atividade pesqueira e é de lá que vem boa parte da alimentação que os gatos recebem. Existe ainda o fato de os muçulmanos reverenciarem os felinos: há múltiplas referências de que o profeta Maomé tinha o seu gato. Segundo a diretora, a população, que era de quatro milhões em sua infância, supera os 20 milhões atualmente.

A paixão vem de longe. Para filmar “Zedi” foram entrevistadas muitas pessoas, entre elas escritores, poetas, cientistas e arqueólogos. Um zoólogo mostrou um esqueleto de gato com 3.500 anos, encontrado durante a escavação do novo túnel sob o Bósforo. Foi possível verificar que ele tivera uma pata quebrada, que só sarou porque certamente um humano a enfaixou, cuidando dele. O filme, com apenas 79 minutos, conta ainda que muitos dos gatos chegaram à cidade a bordo de navios, onde tinham a missão de controlar a população de ratos. Também são entrevistadas pessoas que cuidam de inúmeros gatos e o pescador que sai para seu trabalho na companhia de quatro deles.

Mas esse não é o único filme sobre felinos à vista. Depois do tolinho “Virei um Gato” (2016), com Kevin Spacey, há o britânico “Um Gato de Rua Chamado Bob” (2016) de Roger Spottiswoode, que entre muitas outras películas, entre elas um 007, em 1989 dirigiu o ótimo “Uma Dupla Quase Perfeita”, no qual Tom Hanks interpreta um policial, encarregado de cuidar de um cachorro cujo dono foi assassinado. O gato chamado Bob é sobre um rapaz, viciado em drogas, que tocava em esquinas de Londres para conseguir uns trocados que alimentassem seu vício. E ao passar a se apresentar ao lado do ruivinho Bob virou um sucesso de público, foi parar na internet, virou livro e filme também.

Claudia Bozzo
“Perdidos em Paris” é certamente uma das melhores comédias dos últimos tempos. Claro, não é para público de chanchada, ou que gosta de diálogos e situações rudes, escatológicas e vulgares. É exatamente o contrário de tudo isso. E é um refresco em época de férias escolares, com os cinemas atolados em blockbusters.

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Fiona Gordon (canadense) e seu marido Dominique Abel (belga), juntos há 40 anos, criam o roteiro, atuam e dirigem seus filmes, dois deles já exibidos no Brasil. Foram “Rumba”, de 2008, sobre um casal de dançarinos que enfrenta uma tragédia, mas mantém o ânimo e a poesia e “Iceberg” de 2005, que conta a história da gerente de um fast-food que uma noite fica presa por acidente no refrigerador do restaurante e percebe no dia seguinte que ninguém se deu conta de sua falta. Há outro filme do casal, “A Fada” (“La Fée”, 2011), que pode ser visto em versão integral com legendas em espanhol no YouTube.

Ambos são também atores de teatro e explicaram em entrevista a uma emissora francesa que no palco, o riso e as reações da plateia funcionam como música, e é no seu ritmo que eles seguem. No cinema, vão pela intuição, muitas vezes no improviso, com dois pés no surrealismo e sempre dá certo. Impossível não se enternecer com “Perdidos em Paris”.

Fiona, bibliotecária no Canadá, recebe uma carta da tia, que mora em Paris e pede ajuda, pois há quem queira colocá-la em um asilo. “Imagine, tenho apenas 88 anos” conta a tia, Martha, interpretada por Emmanuelle Riva, que foi indicada para um Oscar por sua dramática participação em “O Amor”, ao lado de Jean-Louis Trintignant, falecida este ano, dois meses após o lançamento do filme na França.

Fiona parte em busca da tia, com sua imensa e desajeitada mochila mas há um desencontro, pois Martha quer se esconder para não ser conduzida pela assistência social a um asilo. Nesse desencontro ela conhece Dom (Dominique Abel), um vagabundo de bom coração, que vai ajudá-la, de forma canhestra, a encontrar a tia. Outro par é formado, quando a tia conhece Duncan, interpretado pelo talentoso cômico francês Pierre Richard, nas telas desde 1958. Os dois veteranos atores interpretam uma das mais belas cenas do filme, ao formarem dupla numa delicada dança num banco. Com Fiona e Dominique, formam um quarteto irresistível.

Conhecidos na França como Abel e Gordon, os dois atores reinventam o burlesco ao optarem pela comédia física e homenageiam ícones como Jacques Tati, Chaplin, Harold Lloyd, o mímico Marcel Marceu, entre tantos outros, sem jamais se afastarem do bom gosto, da ironia e sutileza. Outra das belas cenas é Fiona sendo conduzida… por um cego, até o consulado canadense, a fim de conseguir novo passaporte, pois perde a mochila nas águas do Sena.

“Perdidos” é desses filmes que deixam o espectador leve, e o riso no cinema acaba sendo contagiante. E comprova que fazer humor é mesmo muito difícil. Afinal, são tão raras obras simpáticas e comoventes como essa, que não dá para deixar passar.

Claudia Bozzo
Nicole Garcia, a diretora do delicado, denso e sensível “Um Instante de Amor”(2016), já exibido na Mostra Varilux e agora em circuito normal teve, como atriz, mestres diretores como Bertrand Tavernier e Alain Resnais, com o qual fez o já clássico “Meu Tio na América” (1980). Já o seu prestígio como diretora permitiu-lhe ter em suas histórias atores como Catherine Deneuve e Jean-Pierre Bacri (“Place Vendôme”, 1998), Daniel Auteuil e François Cluzet (“O Adversário”, 2002) Gérard Lanvin e Jean Marc Barr (“O Filho Preferido”, 1994). E agora Marion Cotillard. Em “Um Instante de Amor” ela interpreta Gabrielle, uma instável e enigmática jovem.

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Bela, elegante, inteligente e talentosa são características que definem as duas, diretora e atriz, mesmo que algumas décadas de idade as separem. No momento, Cotillard é uma das mais requisitadas em vários países, e tem no currículo um Oscar, um Bafta e um César por seu papel em “Piaf: Um Hino ao Amor”, de 2007 e outros 75 prêmios. Foi indicada de novo ao Oscar por interpretar uma combativa trabalhadora, prestes a ser demitida, em “Dois Dias, Uma Noite” (2014).

No papel de Gabrielle, Cotillard traz uma intensidade que choca, ao passar do desejo praticamente irrefreável a um distanciamento misterioso e incompreensível, uma espécie de melancolia. De forma espontânea e imprevisível. O filme é baseado no livro ‘Mal de Pierres’ de Milena Agus, e Nicole Garcia explicou, em entrevista dada em Cannes, quando o filme foi exibido que “foi a própria natureza da personagem, mulher feita desejo que não se reprime e reza a Jesus pedindo que lhe dê ‘la chose principale’. A expressão mexeu comigo. Essa coisa é o sexo, mas também é sagrada. Nós, mulheres, não somos estimuladas, na vida social, a externar nosso desejo, e menos ainda dessa maneira franca e direta.”

Vivendo no campo, em meio a plantações de lavanda, com os pais e a irmã, uma família tradicional e católica, na década de 1950, ela cria constrangimentos que levam sua mãe a sair em busca de um marido que lhe traga a desejada contenção. E o casamento é acertado como se fora um negócio, com o pedreiro José (interpretado pelo catalão Alex Brundemühl, que em 2013 fez o papel de Joseph Mengele em “O Médico Alemão”). Gabrielle alerta o marido de que não terá intimidade com ele e ainda indaga se isso será um problema. “Não”, ele responde. “Há outras mulheres para isso”.

A construção do filme é bastante interessante. Começa com Gabrielle, José e o filho, no banco de trás, dirigindo-se para um concurso de piano em Lion, quando ao passar por uma rua ela nota um endereço. Desce do carro e diz aos dois que sigam, ela os encontrará depois. Há um corte e voltamos à história da jovem, que sofria de dores definidas como câimbras pela mãe.

Já casada, ela vai ao médico, que lhe recomenda uma internação em clínica na Suíça, para tratar-se de ‘mal de pierres’, ou pedras nos rins. O local é o mesmo retratado no livro de Thomas Mann, A Montanha Mágica, escolhido porque na França todas as instituições desse tipo foram renovadas e essa mantém a arquitetura original. Lá ela conhece O tenente André Sauvage (interpretado por Louis Garrel), também em tratamento e vindo da Indochina. Do interesse ela rapidamente passa à paixão e ao amor sem freios.

Nicole Garcia explicou em entrevista o que representa a história para ela: “para mim o cinema está conectado à imaginação. A imaginação tem a função de consertar as coisas que não funcionam na vida. Isso é cinema para mim e é o que a imaginação faz por Gabrielle”. É uma bela explicação para o final escolhido. E uma boa notícia: um filme francês sem final em aberto….

Claudia Bozzo
“Uma Família a Dois” (2016), o filme francês já exibido no Festival Varilux, que entra em cartaz esta semana, é um caso raro no cinema francês. Embora à primeira vista pareça ser o remake do ótimo “Kramer Versus Kramer”, de 1979, dirigido por Robert Denton e tendo Dustin Hoffman e Meryl Streep, suas origens são mais singelas. É um remake sim, mas de um filme mexicano de 2013, “No se aceptan devoluciones”, de Eugenio Derbez. 

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Promete grande bilheteria, pois traz como chamariz o companheiro de François Cluzet em “Os Intocáveis”  –  a história do milionário quadriplégico que reencontra o prazer de viver graças ao seu irreverente cuidador, no caso, Omar Sy. Esse filme fez grande sucesso na França em 2014 (quando tornou-se o mais rentável do cinema francês e rendeu um César de melhor ator a Omar Cy). 

O diretor de “Uma Família a Dois”, Hugo Gélin, vem da aristocracia cinematográfica, pois é neto de um dos mais famosos atores do país, Daniel Gelin. Também é autor do roteiro de “A Gaiola Dourada”(2013) sobre um casal de portugueses, que durante 30 anos vive em um elegante prédio na capital francesa e decide então retornar à terrinha. Lançado no Brasil em 2014.

A narrativa de “Uma família” tem toques edulcorados e é descaradamente melodramática ao contar a história do folgado e festeiro Samuel que ao acordar com fortes batidas à porta acaba recebendo um bebê de uma bela jovem (Clémence Poésy) bem no estilo “toma que o filho é seu”. Ela ainda lhe pede dinheiro para pagar o táxi. Por esse caminho, lembra outro filme francês, de alta qualidade, “Três Homens e um Bebê” (1986, de Colie Serreau), que também rendeu remakes, como o norte-americano, e uma continuação, “18 Anos Depois” (2003), da mesma diretora e com o elenco original. 

Samuel, todo inseguro para cuidar da filha Gloria (Gloria Colston), sabendo que a mãe (Kristin) partira para Londres, vai à sua procura, tentando devolver a bebê. Não a encontra, é claro, mas torna-se um dublê de sucesso, ganha muito dinheiro e dá à filha um elevado padrão de vida na caríssima Londres, graças à amizade com Bernie (Antoine Betrand) que lhe abre muitas portas na cidade. Um pai ideal, uma filha perfeita, amigos leais, uma escola perfeita. Precisa mais para retratar a felicidade? 

Sim, a bruxa malvada, que vem na figura da mãe, acompanhada do namorado, pedindo a guarda da filha. O filme derrapa em todos os clichês possíveis, incluindo a interpretação de Omar Sy, bem “over”. Ele está bem em “Chocolate” (2016) e “Samba“ (2014) e seu currículo inclui incursões em blockbusters. Mas essa família de dois deve ser evitada por diabéticos. E também por quem gosta de um pouco mais de sutileza.

Claudia Bozzo
Exibida em 55 cinemas brasileiros, a Mostra Varilux de Cinema Francês está de volta e vai até 21 de junho em 12 cinemas paulistanos. Traz uma grande variedade de temas, da comédia ao drama, e atores de primeira linha. O festival, como sempre, tem o melhor do bom cinema comercial francês e a programação – com os trailers de cada um dos filmes – pode ser consultada pela internet. 

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Entre outros, “Rodin”, de 2017, que marca o centenário da morte do escultor e o retrata depois dos 40 anos, logo após a conquista de sua primeira encomenda oficial do governo francês, a criação da Porta do Inferno. O filme de Jacques Doillon traz no papel principal um dos melhores entre os melhores atores franceses, Vincent Lindon (de “A Lei do Mercado”, 2016). Foi apresentado em Cannes este ano e indicado para sete prêmios, entre eles o de melhor roteiro para o diretor. 

Embora tenha a sensibilidade de mostrar o artista criando, pensando e analisando a obra, tendo em mente “O Inferno” de Dante Alighieri, o filme cai numa visão exageradamente “cool”, que o torna até mesmo enfadonho. Mas as informações sobre dilemas, sofrimento e angústias gerados na criação artística deixam sua marca, da mesma forma como são expostos os conflitos internos de Rodin em trabalho que levou 37 anos para ser feito, sem sequer ter sido formalmente terminado. 

Longe do impacto causado pelo excelente “Camille Claudel” (1988) de Bruno Nuyten, diretor e roteirista, com Isabelle Adjani e Gérard Depardieu, que é um drama rasgado e coloca o foco na relação entre mestre e aprendiz, depois parceira e amante, o recente “Rodin” tem quase que um caráter didático, ao expor o método de trabalho do genial escultor e suas relações com modelos, clientes e críticos.

A escultura que ele fez de Balzac, uma das mais importantes de suas obras, é dissecada, assim como detalhes da Porta do Inferno, talvez sua obra de maior prestígio, que já esteve em São Paulo, na Pinacoteca, na inesquecível mostra sobre o artista, em setembro de 2001. 

O filme de Doillon inclui, é claro, o relacionamento de Rodin com Camille Claudel, mas deixa clara a forte ligação dele com a esposa, Rose, com a qual se casou em 1864, e viveu até sua morte. 

Outro dos filmes interessantes do festival é “Frantz”, de François Ozon, o mesmo diretor de “8 Mulheres” (2002), “Potiche – Esposa Troféu” (2010) e do intrigante “Uma Nova Amiga “ (2014). 

O filme, co-produção franco-alemã, parece caminhar em direção à reconciliação. Uma jovem alemã que ainda sofre com a morte do noivo, na Primeira Guerra, em batalha na França, nota a visita de um jovem francês que deposita flores no túmulo do soldado morto.

Hostilizado pelos moradores da cidade natal do soldado Frantz, e pela família dele, Adrien (Pierre Niney) vai-se aproximando. Mas é uma obra François Ozon, não nos esqueçamos. Ele é um diretor que domina a delicada e imprecisa osmose entre audácia e lirismo. 

Mesmo longe da irreverência de “Sitcom” (1998) onde mescla os problemas de uma família rica com homossexualidade, tendências suicidas e um gigantesco rato, o caminho de “Frantz”  é tudo, menos linear. E Ozon mostra que é um cineasta cada dia mais sólido, estruturado e maduro.

Outro filme que promete é “Perdidos em Paris” do belga Dominique Abel e da australiana Fiona Gordon, o mesmo casal de “Rumba”(2008) e “Iceberg (2005) comédias irreverentes e originais. Para ter uma ideia do astral dessa dupla, deve-se ir ao YouTube em busca de um trailer de “Rumba”. Em “Iceberg”, exibido pela TV5, Fiona é a gerente de uma loja de congelados que passa a noite trancada acidentalmente no freezer do estabelecimento. Mas o marido não percebe sua ausência. O fato muda sua vida. Portanto, muito a esperar de “Perdidos em Paris”.

Claudia Bozzo
O The Wall Street Journal de 29 de maio passado publicou uma reportagem sobre forças especiais da França que buscam no Iraque militantes franceses que lutam pelo Estado Islâmico. A proposta, segundo o jornal, é caçar e matar franceses que tenham alcançado postos de comando na organização e como fontes são citados oficiais iraquianos e franceses, na ativa ou não.

As forças especiais forneceram aos soldados iraquianos que atuam no setor de contraterrorismo os nomes, dossiês e fotos de cerca de 30 homens identificados como “alvos de elevado valor”. Até agora, um número não revelado de cidadãos franceses já foram mortos por essas forças.

Essa realidade não escapou ao cinema. Além do filme exibido pelo Netflix (“Decisão de Risco”, 2015) com Helen Mirren no papel principal, que mostra a caçada a uma inglesa que aderiu aos grupos terroristas e o uso de drones nessa guerra muito particular, há dois filmes franceses que se destacam entre outros, sobre o tema. Um deles é “Os Cowboys” (2015), inspirado em “Rastros de Ódio” (1956). Nele, John Wayne é um veterano da Guerra Civil, que procura uma jovem, sequestrada por comanches (Natalie Wood no papel de Debbie).

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Em “Os Cowboys” quem desaparece é a jovem Kelly, que frequentava com o pai e o irmão os bailes onde se dançava a quadrilha bem no estilo americano.

De um dia para outro Kelly some e o pai, Alain, interpretado pelo excelente François Damiens (está nas telas no momento com o filme “Más Notícias para o Sr. Mars”, 2016) começa uma busca de anos e anos, que depois recebe o reforço de seu filho apelidado “Kid” (Finnegan Oldfield) e aos poucos vai descobrindo que ela se envolvera com um rapaz de origem muçulmana.

O filho vai bem longe em sua obstinada procura pela irmã e acaba recebendo a colaboração de uma espécie de mercenário norte-americano, com o ator John C. Reilly no papel. O que move tanto pai quanto filho é a incansável necessidade de saber o motivo do desaparecimento, e a tentativa de trazer a jovem de volta. É bom ficar de olho, pois deve ser exibido ou na TV a cabo ou no Netflix.

Esse é o primeiro filme dirigido pelo talentoso Thomas Bidegain, que já mostrara sua sensibilidade no premiado roteiro de “O Profeta” (2009), acompanhando o aprendizado no crime de um jovem árabe, na prisão. São dele também os roteiros de “Ferrugem e Osso” (2012) e “Dheepan: O Refúgio” (2015), todos com exibição nos cinemas paulistanos.
 
Outra obra, que ainda pode ter sua chance nas telas paulistanas, foi apresentada na Mostra de Cinema de 2016, “O Caminho Para Istambul”, dirigida por Rachid Bouchareb, diretor e roteirista de “Dias de Glória” (2006) e “London River- Destinos Cruzados” (2009), entre outros.

Feito para a TV, o filme tem uma qualidade comum aos filmes de Bouchareb: sensibilidade e poucas concessões. Conta a história de Elisabeth, uma cidadã belga, que recebe da polícia a notificação de que sua filha Elodie, de 19 anos, juntara-se ao Estados Islâmico e estava em algum lugar entre o Iraque e a Síria.

A mãe, como o pai de “Os Cowboys” não compreende as motivações da filha e literalmente move montanhas para encontrá-la. Vai para as zonas de guerra. Passa dias na fronteira da Síria, tentando entrar, mesmo que esta esteja fechada para qualquer pessoa, ainda mais um europeu.

Nesses filmes e em outros sobre o mesmo tema, a preocupação principal é saber por que os jovens europeus estão trilhando o caminho do terror em uma guerra que não parece ser deles. A constante é a adesão aos valores dos grupos aos quais eles  pertencem e a necessidade de integrar-se com os “irmãos”.

Na verdade o cinema só reflete a perplexidade dos pais e mães e de toda sociedade envolvida no drama. Mesmo porque os atentados continuam a levar o caos e o pânico às cidades europeias, como Londres, mais uma vez atingida no sábado (3/6/17) por mais um desses ataques.

Claudia Bozzo
O sucesso do filme premiado e bem recebido pela crítica “O Cidadão Ilustre” pode ser creditado tanto ao protagonista, Óscar Martínez, que recebeu a Copa Volpi de melhor ator no Festival de Veneza, como aos competentes diretores Gastón Duprat e Mariano Cohn (roteiro de Duprat). Os dois últimos já tiveram uma obra apresentada em São Paulo, o inquietante “O Homem ao Lado”, sobre o vizinho que resolve construir em sua casa uma janela que invade a privacidade do outro. Essa casa, em La Plata, foi projetada pelo famoso arquiteto Le Corbusier e é a única obra dele presente nas Américas. Moderna por fora e por dentro, a casa é cheia de rampas e vidros, mas ao mesmo tempo, não parece ser habitada por nada ou ninguém. Mas é.

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Duprat e Cohn voltam com filme igualmente denso, que a princípio se parece mais com uma comédia, com um ácido senso de humor e tiradas inteligentes. É um filme argentino, portanto mais que justo esperar por um roteiro inteligente, bons atores, conteúdo e excelência. “O Cidadão” do título é um escritor, Daniel Mantovani, vencedor do Nobel de Literatura. Depois de receber o prêmio, isola-se em sua casa na Espanha, onde vive há 30 anos e rejeita todo e qualquer convite para participar de conferências, eventos e solenidades. Até que lhe chega um convite vindo de sua cidade natal, a pequena Salas, que quer homenageá-lo. Para criar Salas e um microcosmo que abrigue a “alma” argentina, com o que o país possui de melhor e ou pior, os diretores filmaram externas criando uma cidade “Frankestein” em Navarro, Cañuelas, Aldo Bonzi e Lomas de Zamora

Para esse novo projeto, Cohn e Duprat tiveram um orçamento de US$ 1,7 milhão, o dobro do recebido por “O Homem ao Lado”, vencedor do prêmio de melhor filme no Festival de Sundance de 2010 e com boas bilheterias na Europa e nos Estados Unidos. Em entrevista a um site argentino, comentaram que existem centenas de formas de fazer filmes. “Estamos em busca das inovadoras”. Para o crítico Benjamín Harguindey, de “Escribiendo Cine” esse é o melhor já feito pelos dois, até agora, e ele prevê que “tem todo o jeitão de vir a converter-se em outro clássico moderno do cinema argentino”.

Sem dúvida, Óscar Martínez tem uma grande participação nesse sucesso. O ator tem atuação marcante como o escritor e ainda pode ser visto em “Relatos Selvagens”, filme lançado em outubro de 2014 em São Paulo, que continua em exibição no Caixa Belas Artes, onde é, em um dos episódios, o pai que tenta livrar o filho de uma encrenca e é chantageado de todos os lados. Outro de seus filmes exibidos no Brasil em 2009 é “O Ninho Vazio” (2008), de Daniel Burman, no qual contracena com Cecilia Roth. E as salas de cinema já exibem cartazes de um novo filme seu, “Inseparáveis”, de 2006, uma refilmagem do sucesso francês “Os Intocáveis” (2011), de Olivier Nakache.

Martínez une-se à formidável constelação de grandes atores do cine argentino, que inclui Ricardo Darin (“O Segredo dos Seus Olhos”, 2009); Dario Grandinetti (“Relatos Selvagens”, 2014); Leonardo Sbaraglia (“No Fim do Túnel”, 2014” e “Relatos”); Hector Alterio (”História Oficial”,1985 e “O Filho da Noiva”, 2001); Eduardo Blanco (o amigo do filho da noiva); Júlio Chavez (“O Guardião”, 2006) e tantos outros. Sem contar as atrizes do nível de Norma Aleandro (“O Filho da Noiva”, “História Oficial”), Cecilia Roth (“Kamchatka”, 2002 e “Tudo Sobre Minha Mãe” 1999.

“O Cidadão Ilustre” traz para a tela temas argentinos e globais. Um deles, a rejeição à visão crítica e externa representada pelo protagonista, exilado há décadas na Europa, frente ao nacionalismo extremado de seus conterrâneos. A exaltação da vida provinciana soma-se a uma espécie de ferida aberta no orgulho argentino, por ter grandes escritores como Jorge Luis Borges, por exemplo, e nenhum Nobel de Literatura. Recebido na cidade pelo prefeito e pela “miss” local, O escritor é levado em um carro do corpo de Bombeiros, como se fosse um herói do futebol. E não há que deixe de observar que ele se une aos grandes ídolos, Diego, o papa e Messi.

Daniel Mantovani é descrito por Óscar Martínez como um personagem contraditório “como todos nós”. Ele define o filme como “incômodo” por ser um tipo de espelho “que nos devolve a imagem que não queremos ver de nós mesmos. Um mostruário barroco de uma sucessão de coisas que particularmente abomino no argentino. O fanatismo ideológico, a violência a docilidade nas pessoas do povo, o chauvinismo espantoso e a destruição do ídolo”. Precisa mais?

E é bom ficar de olho na dupla Mariano Cohn y Andrés Duprat que competirá na Culinary Zinema 64º Festival Internacional San Sebastián, com um filme “Todo Sobre el Asado”. Tudo sobre o churrasco, informa Óscar Martínez, é uma outra viagem à Argentina profunda onde a comida é ao mesmo tempo um ritual primitivo, contemporâneo, selvagem e refinado, arte e ciência. “Esses dois ‘hijos de p…” serão expatriados quando for apresentado na Argentina o que acabam de fazer. ‘O Cidadão Ilustre’ é Disneylândia, em comparação.” Bem, o apetite dos cinéfilos ele já atiçou.

Claudia Bozzo
Para quem gosta de procurar pérolas para download na internet, há uma à disposição: a primeira temporada da série da BBC One, chamada “Taboo”, com a chancela de qualidade de Ridley Scott e o total empenho de Tom Hardy, o ator que interpretou “Mad Max, Estrada da Fúria”, de 2015 e dirigido por George Miller.

Embora Hardy entre mudo e saia calado em “Mad Max”, em “Taboo” ele tem uma presença forte, marcante, misteriosa e densa. Sua dedicação ao projeto foi tanta que trouxe para o roteiro o pai, Chips Hardy, participante de outra interessante série britânica, “Peaky Blinders” (2013), sobre o submundo das máfias e apostadores.

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As duas séries passam-se no início do século 19 e mostram uma Londres lamacenta, suja, infestada de ratos e atormentada por gângsters. Jornais britânicos noticiaram que o entusiasmo de Hardy foi tão grande que a série o deixou, até agora, com uma dívida de dois milhões de libras.

Um crítico britânico queixou-se da “moda” que aflige os espectadores de séries no império, com histórias que mais trazem dúvidas que respostas. Mas o tom enigmático é mais um ponto de interesse, e a grande curiosidade é saber quem é e o que pretende esse misterioso James Delany (Tom Hardy), do qual se sabe apenas que regressou em 1814, de um período de 12 anos na África, para receber a herança deixada pelo pai, dono de um império naval e que traz em um saco de couro uma grande quantidade de diamantes.

O elenco inclui atores de primeira linha, como Tom Hollander, (“Piratas do Caribe”, 2006 e 2007), Jonathan Pryce (“Brazil, o Filme”, 1985), Oona Chaplin (filha de Oona e neta de Charles Chaplin), Michael Kelly (o fiel assessor o presidente Frank Underwood em “House of Cards”) e Franka Potente (“Corra, Lola, Corra”, 1998).

A trama vai-se revelando aos poucos e é um prato cheio para quem gosta de história e economia. O misterioso Delany revela-se um determinado empreendedor ao confrontar o império britânico e a poderosa Companhia das Índias Orientais, a entidade comercial que detinha o monopólio da venda do chá nas colônias e ao mesmo tempo, tentar atrair os Estados Unidos para sua trama.

A Companhia consolidou sua presença em metade do comércio mundial, em mercados que incluíam algodão, seda, chá, ópio, corante índigo, sal e salitre. Criada por Carta Real da Rainha Elizabeth I em dezembro de 1600, comerciantes ricos e aristocráticos detinham as ações da companhia. Inicialmente, o governo não possuía ações e tinha apenas controle indireto.

Os conflitos com a França, que possuía a Companhia das Índias Orientais Francesa aparecem em “Taboo” em diálogos de personagens contra a França e os franceses. Depois de derrotar indianos, a companhia foi aumentando gradualmente a extensão dos territórios sob seu controle. Chegou a governar grandes áreas da Índia. Mas apesar de todo poder, e da ajuda frequente do governo britânico, os problemas financeiros resultaram na sua dissolução em 1874.

Na série, Delany-Hardy recebe como herança uma propriedade no Oeste do Canadá e vê ali a possibilidade de criar uma rota para a China. E dedica-se com vigor, crueldade e alianças improváveis, a conseguir um monopólio na importação de chá e outras commodities. Torna-se inimigo natural da poderosa Companhia e do governo britânico ao mobilizar uma série de alianças e uma rede de informantes que dariam inveja a qualquer mandatário atual.

Em paralelo, há a história de amor entre os dois irmãos (Delany e Oona, filhos do mesmo pai) e mistérios como a origem da mãe de Delany. A trama é apimentada pelo incesto, exorcismos, histórias de escravidão e tráfico, espiões de todos os lados e violência.

O melhor de tudo é que a segunda temporada já está anunciada para este ano. E quem não fizer o download pela internet precisa torcer para que seja exibida em algum canal a cabo. Mesmo porque a BBC no Brasil foi sumariamente eliminada, depois de ter sido abatida aos poucos. Uma pena, pois foi o canal que trouxe séries  sobre nosso planeta e dramas como “Wallander”, “Luther”, “Call the Midwife”, e muitas outras, incluindo séries australianas.

Sem contar o divertido programa do Graham Norton, agora só pelo You Tube. Podemos ver algumas delas no Netflix, como “River”, “Interland”, “Whitechapel” “The Crown” e vale esperar que as novas sejam lá exibidas. Já o programa de automobilismo “Top Gear”, comandado pelo destemperado Jeremy Clarkson, foi parar no serviço de streaming da Amazon, com o nome de “The Grand Tour”. Mas perdeu parte da graça, dispersa em sonhos de grandiosidade.

Claudia Bozzo
O cinema pode ser considerado uma arte eclética por excelência, ao abrigar generosamente em suas telas todas as outras manifestações artísticas. Poucos ambientes recebem com tanta reverência, respeito e amor, talentos expressos em dança, música, teatro, artes plásticas, poesia, literatura e outras, quanto salas de projeção.

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Prova disso é o novo filme de Carlos Saura, “Argentina” (de 2015), que com uma direção de arte à altura de seus filmes anteriores, emociona ao fazer par com os dançarinos músicos e poetas que dão e deram sua contribuição ao rico folclore argentino, numa coprodução que reúne Argentina, Espanha e França. O diretor espanhol, hoje com 85 anos, mantém a jovialidade de sua cinematografia e traz os ritmos, canções, conjuntos musicais e intérpretes de expressões como a zamba, chacarita, chamame, todas bem desconhecidas para nós, acostumados ao tango como a definitiva expressão musical argentina.

O próprio Saura, em 1998 nos trouxe “Tango”, em 2010 o documentário “Famenco, Flamenco”, e tantos outros, numa carreira iniciada em 1955. Se ante o franquismo expressava sua irreverência com alegorias sutis ou nem tanto, depois se firmou como diretor, ator, roteirista e diretor de fotografia. São dele clássicos do cinema mundial, como “Ana e os Lobos” (1973), “Fados” (2007), “Amor Bruxo” (1986), “Mamãe faz 100 anos” (1979), “Bodas de Sangue” (1981), “Cria Corvos” (1976), entre tantos outros.

Sempre em atividade, há notícias de que prepara duas novas obras, uma delas um documentário sobre o arquiteto Renzo Piano (autor, com Richard Rogers do ousado Centro Georges Pompidou em Paris). Também está em seus planos “33 Dias” um filme sobre Picasso e a criação do mural Guernica.

“Argentina”, em exibição desde a semana passada, é uma mistura de musical e documentário. Seu nome original é “Zonda”, e traz uma reverência ao folclore argentino “em estado puro”, como próprio Saura definiu em entrevista a um jornal de Buenos Aires. É um registro histórico, despretensioso, que reúne um punhado de artistas dedicados à preservação do que há de mais original e popular no cancioneiro popular das várias regiões do país. São letras de uma poesia emocionante, canções em estado puro, cercadas de um cenário sem pirotecnia, mas com uma beleza que se alia às músicas em harmonia poética e emocionante.

Não há uma história, nem a preocupação didática. É um filme que vai direto à veia da emoção. Como as homenagens a Mercedes Sosa, numa imagem de arquivo, apresentada a escolares que a acompanham de suas carteiras. Outro homenageado é Atauhalpa Yupanqui, certamente outro dos maiores nomes do folclore da Argentina.

No jogo de luzes, sombra e cores, está o olhar de Saura. “O cinema é uma grande mentira. A realidade existe apenas ao vivo e na hora, o resto é uma ficção inventada. Nesse sentido, este é um musical per se. Não há roteiro, nada mais que interpretações, cenografia, luz e um grande respeito pelos artistas”, disse ele em entrevista a jornal argentino.

Talvez esse seja o segredo de um filme que consegue emocionar, apenas reunindo os artistas com suas canções, danças e repertório, em um enorme galpão na região da Boca, em Buenos Aires, mostrando que a arte supera barreiras geográficas e se ela é legítima, sincera, verdadeira, une as pessoas, independente de fronteiras ou background cultural. Esse encontro, numa linguagem atual, constitui um verdadeiro documento cultural para o futuro, ao qual Saura empresta seu magnetismo e originalidade como cineasta.

Ainda segundo o diretor espanhol, “queremos mostrar, através da música e da dança tradicional argentina, uma cultura e um país. A ação visual está focada ao redor das diversas regiões que formam a Argentina e por sua vez formam um mapa de variantes musicais tais como o carnavalito, a zamba, a chacarera, a copla, o chamamé, a tonada e muitas outras expressões arraigadas na geografia e na alma das diversas comunidades do país”.

Claudia Bozzo
O timing é perfeito. O lançamento do documentário “My Way”, pelo serviço de streaming Netflix chega em meio à convulsão criada pela divulgação de centenas de nomes de políticos envolvidos em corrupção no Brasil e na data próxima aos  100 dias do presidente Donald Trump na presidência dos Estados Unidos. Em todas as mentes, um nome é lembrado: Sílvio Berlusconi, o “Cavalieri”, que durante vinte anos dominou a cena política italiana, e como diz reportagem do jornal La Stampa, “mostrou ser Trump antes de Trump”.

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 “My Way” é de 2016 e baseia-se em livro do jornalista norte-americano Alan Friedman – uma biografia autorizada pelo próprio político – que lhe diz, logo no início do documentário:

“Durante anos, muitos jornalistas pediram-me para lhes contar a história da minha vida. Sempre recusei. Aceitei colaborar com Alan Friedman por confiar nele. Como disse Steve Jobs ao seu biógrafo: ‘eu contarei minha história, você escreverá o que quiser’”. Bom, quem assistir “My Way” verá que a adulação não inibe as investidas de Friedman. Nem muda a história.

É um trabalho imperdível. Friedman, que decidiu morar na Itália tem outros importantes livros em seu currículo. Ainda jovem, foi colaborador da administração Jimmy Carter (1987-1981) .  Depois correspondente do jornalFinancial Times, enviado especial do International Herald Tribune, editorialista do Wall Street Journal e produtor e diretor de vários programas de TV na Grã-Bretanha, Estados Unidos e Itália (onde trabalhou na RAI e Sky).

Ao todo, realizou 28 horas de diálogos com o político, registradas em vídeo e incluindo centenas de outras entrevistas, realizadas num período de 18 meses, que somadas completam 100 horas de conversas. O Leone Film Group, dirigido pelos filhos do cineasta falecido em 1989, Sergio Leone (“Era Uma Vez no Oeste” de 1968, “Por um Punhado de Dólares” 1964 e “Era uma vez na América”, 1984, entre outros), adquiriu direitos sobre o livro. O acordo garante que Raffaella e Andrea, filhos de Leone, ficarão com 50% dos direitos de distribuição do filme em todo mundo, além da série romanceada, inspirada na história do fundador de Forza Italia.

Friedman mostra de onde veio a fortuna de Berlusconi, criada a partir de empreendimentos imobiliários (mais uma semelhança com Trump, além da exagerada vaidade, temperamento histriônico, e amizades cultivadas em nome do interesse. As entrevistas são feitas em sua “Villa” em Arcore, com 73 hectares de área e uma mansão com 72 cômodos, recheada por obras de arte de valor incalculável. O ex-político tem quartos e quartos, usados apenas para guardar presentes recebidos de outros políticos, de eleitores e prêmios.

Mas não há espaço que contenha seu ego. Chegou à política como “o novo”, e acabou sendo o mandatário que por mais tempo manteve o cargo no período após a II Guerra. Foi ele o responsável pela “americanização” dos meios de comunicação da Itália, por meio de seu império de comunicações, a Mediaset. Ele se orgulha de ter levado “Dallas” e “Dinastia” para a terra de Michelangelo, e a RAI até hoje mantém o look berlusconiano, com toda a breguice de seus programas. Era proprietário do clube de futebol italiano A. C. Milan, até que vendeu o clube por R$ 2,5 bilhões a um grupo chinês.

Muitos críticos, italianos ou não, consideraram o documentário meio déjà-vu e até mesmo pouco crítico em relação ao retratado. Claro, faltou a virulência de um Nanni Moretti em “Il Caimano” (nome com o qual a esquerda italiana define o político, considerado um crocodilo, ou o predador por excelência). Mas é muito interessante a reconstrução do poderoso – que em muitos aspectos remete também ao personagem retratado em “Cidadão Kane”, obra-prima de 1941, de Orson Welles, que retrata o magnata da mídia norte-americana, Willian Randolph Hearst.

Além disso, é muito rica a pesquisa de imagens, o registro de passagens da vida do retratado, sempre à frente dos holofotes. Em companhia de outros políticos, como Bettino Craxi, o socialista que de 1983 a 1987 foi primeiro-ministro durante uma das fases mais turbulentas da turbulenta Itália, na crise do Banco Ambrosiano e que morreu no exílio na Tunísia aos 65 anos, além de Marcello Dell’Utri, suspeito de ligações com o mundo mafioso. Outro de seus grande amigos – o paralelo chega a ser irônico – é Vladimir Putin, que o “Cavaliere” sempre teve em alta estima.

Embora com mais luvas de pelica, o documentário lembra ainda o famoso encontro de Richard Nixon e David Frost. Friedman entrevista autoridades de peso, como o ex-premier espanhol José Luiz Zapatero e José Manuel Durão Barroso, atual presidente do Banco Goldman Sachs International, que na época da queda de Berlusconi era presidente da Comissão Europeia (2004 a 2014). As câmeras o acompanham ao vestiário do Milan, onde conversa com os jogadores.

Há até mesmo uma incursão ao famoso recinto onde eram realizadas as orgias das quais supostamente Berlusconi participava (ele chegou a ser condenado por manter relações com uma menor de idade) o famoso quarto do “bunga bunga”. O rumo ao declínio, depois de ocupar o cargo de primeiro-ministro em três períodos, mostra um homem que se considerava acima de tudo e todos, quase fragilizado. Ego é ego, mas tem uma hora em que o personagem percebe que é história, passado. Tomara.