Ministro ficha limpa

11 / 10 / 11

Isabel Dias de Aguiar

O novo ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro Filho, 57, foi honesto. Avisou logo que não entende nada sobre as atividades no campo. Tal e qual o então ministro dos tempos de chumbo, Delfim Neto, nasceu em uma metrópole (Porto Alegre) e mal sabe distinguir um chuchu de uma abobrinha. É advogado, deputado Federal em seu quinto mandato e até assumir o cargo, não apresentou um projeto sequer que pudesse trazer benefícios à comunidade rural. Seus trabalhos estiveram ligados à ciência, tecnologia, comunicação, informática, constituição e justiça, que são os temas das comissões parlamentares que integrou nesses 20 anos que freqüentou a Câmara dos Deputados. Único requisito para ocupar o cargo, segundo os critérios da presidente da República: ficha limpa – o que, nos dias de hoje não é coisa pouca.

Mas, ao contrário de Delfim Neto, Mendes Ribeiro Filho encontra uma agropecuária extremamente motivada, fortalecida e dominando uma tecnologia apurada, a ponto de fazer do Brasil um dos principais players na produção de alimentos e capaz de, em pouco tempo, disputar com os Estados Unidos a liderança nesse setor de atividade. Após duas safras bem-sucedidas e um período de mais de quatro anos em que o mercado se apresentou um forte comprador de grãos e carnes (empurrado pela China e demais países emergentes), a agricultura brasileira nunca antes havia sido movida por ventos tão favoráveis.

A valorização das commodities agrícolas parece resistir às ameaças da crise financeira internacional, até o momento. Após uma queda de quase 20% no final de setembro, as cotações começam a reagir apesar da redução da liquidez dos mercados futuros.

Mas, mesmo sem entender direito a diferença entre uma espiga de milho e uma saca de café beneficiado, o ministro se mostra um servidor público aplicado.  Já trabalha em um projeto que atende a uma antiga aspiração dos produtores agrícolas: o seguro renda. Sua intenção é dar uma boa arejada na política agrícola, que anda um tanto envelhecida. E ainda, evitar as crises recorrentes causadas por mudanças conjunturais ou eventos climáticos que terminam invariavelmente em endividamento dos agricultores e longos processos de renegociação. Planeja também criar instrumentos para que os agricultores contratem créditos privados em tradings, fornecedores e outros players que atuam no mercado de produtos agrícolas.

Caso não fique só na retórica, será um avanço, porque além de oferecer um meio de sobrevivência, diante dos Continuar lendo

Isabel Dias de Aguiar

Depois de um período prolongado de seca (em 2010), com uma quebra de mais de 10% da produção, os plantadores de cana calculam os prejuízos adicionais, desta vez, causados pelas geadas ocorridas em junho. “Nunca vi uma lavoura tão feia”, diz um usineiro experiente.

O frio intenso alcançou lavouras recém-plantadas, com corte previsto para meados do próximo ano, a chamada cana de ano e meio. O resultado, não é só devastador para os agricultores e usineiros. A escassez de matéria- prima deverá frustrar o projeto brasileiro de se tornar o principal player mundial na produção e no fornecimento de combustível limpo para atenuar os efeitos do carbono na atmosfera.

O impacto ambiental também é relevante. O governo já estuda reduzir o percentual de etanol misturado à gasolina.

O déficit na oferta de cana para a produção de etanol e açúcar deverá se estender até o próximo ano. O preço do álcool poderá atingir níveis “estratosféricos” já a partir de outubro, quando termina a safra de cana, conforme avaliação de um analista.

O mercado aguarda também uma reação violenta do governo, caso esses prognósticos ameaçadores se confirmem. Não vai demorar a chegar a “represália”, segundo a interpretação dos usineiros, que entendem a redução do percentual de etanol misturado à gasolina como uma punição.

Na realidade, o propósito do governo ao mudar a composição do combustível é evitar a alta ainda maior no preço da gasolina e, consequentemente, nas taxas de inflação.

Questões climáticas como essas agravam o impasse que enfrenta o Continuar lendo

Isabel Dias de Aguiar

O agricultor médio brasileiro toma decisões surpreendentes. Depois de obter resultados extremamente favoráveis com sua safra, o que ocorreu com a maioria no ciclo 2010/11, não perdeu tempo: saiu a campo para gastar tudo, ou quase tudo, ou até mais do que ganhou com a compra de máquinas e implementos agrícolas e, segundo acredita, garantir uma boa produtividade nos próximos anos.

Essa história se repete e intriga o observador mais atento e com um raciocínio lógico do ponto de vista econômico. Se fizesse uma conta simples descobriria que poderia ganhar mais se aplicasse seus lucros no mercado financeiro, e que os riscos de sua atividade não compensam, nem de longe, os ganhos, quando eles ocorrem. Uma análise mais demorada também ajudaria a concluir que isso não é vida. Trabalhar de sol a sol e passar sua existência olhando para o céu torcendo para chover ou para parar de chover.

Mesmo assim, esse homem, geralmente dono de uma propriedade de médio porte, não muda suas decisões. A cada ano precisa arranjar mais espaço para abrigar um novo trator, plantadeira, colheitadeira, pulverizador etc, etc. Nem sempre a casa onde mora recebe a mesma atenção que a lavoura. Poderia até substituir algum eletrodoméstico, dar mais conforto à família, mas a prioridade geralmente é a plantação, que não para de evoluir, ganhar eficiência, embora nem sempre os ganhos correspondam ao esforço e dedicação.

Esse perfil do agricultor médio brasileiro é traçado com base no depoimento de alguns profissionais – agrônomos, extensionistas rurais e técnicos que prestam assistência técnica a pequenos e médios agricultores. O produtor agrícola, esse apaixonado por sua atividade, não pensa em mudar de vida, segundo acreditam esses observadores. E é com essa ligação afetiva com o campo que foi possível o setor alcançar um superávit comercial de US$ 65,5 bilhões, segundo dados do Ministério da Agricultura.

Também por causa dessas estranhas decisões que as 20 principais lavouras chegassem este ano, de acordo com o Mapa, a um faturamento de R$ 193,2 bilhões e, ainda,  que  o País se tornasse líder na produção e nas exportações de café, açúcar, suco de laranja e de carnes bovinas e de aves.

Diferentemente dos agricultores europeus e norte-americanos, o homem do campo brasileiro conta com pouca ajuda do poder público. Em vez de subsídios, como recebem seus pares dos países desenvolvidos, pagam impostos e arcam com 

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Euforia no campo

29 / 04 / 11

Isabel Dias de Aguiar

O agricultor brasileiro contou com uma boa ajuda de São Pedro. Mas não se pode dizer que foi apenas a chuva na hora certa a responsável pelo País ter colhido mais uma vez a sua maior safra.

Competência, alta tecnologia e preços remuneradores não faltaram neste ano agrícola e contribuíram para que o resultado fosse tão favorável.  Serão 157,4 milhões de toneladas, produção 5,5% maior no ciclo 2010/11, em relação ao anterior, colhidos em 49,2 milhões de hectares de área cultivada, segundo o levantamento preliminar da Conab, Companhia Nacional de Abastecimento.

Apenas no caso do algodão, o plantio cresceu 62,9% (835,7 mil ha) e teve muito agricultor lamentando o fato de não ter plantado ainda mais.

O saldo desse sucesso terá reflexos positivos na economia do País. Uma delas será o incremento da renda no campo. O faturamento das 20 maiores lavouras do País deve chegar a R$ 193,2 bilhões — 7,3% mais que no ano passado.  Outra contribuição serão as exportações de produtos agrícolas, com incremento da receita cambial e ajuda significativa nas contas externas do País – o valor das exportações em março último (último dado disponível) cresceu 22,5%, em relação ao mesmo período do ano passado, e atingiu a maior marca para o mês desde 1989 quando foi iniciada a série histórica pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Quanto à inflação, o impacto da nova safra poderá ser modesto. A maioria dos produtos agrícolas que acaba de ser colhida vem sendo disputada a peso de ouro no mercado internacional.

No período de 12 meses encerrado em março, as exportações do setor alcançaram US$ 79,8 bilhões , 19,7% mais que em igual período anterior. As importações aumentaram ainda mais – US$ 14,3 bilhões (+35,7%), mas isso pode ser atribuído ao incremento dos investimentos no campo, o que inclui compras externas de fertilizantes.

Nem mesmo a oferta de milho deverá contribuir para a derrubada dos preços porque essa foi a única, entre as grandes culturas, a apresentar resultado negativo no que diz respeito à produção (55,6 milhões de toneladas, com queda de 0,7% na safra 2010/11 se comparada a anterior).

O País, entretanto, tem muito a comemorar.  A riqueza do campo servirá para manter o crescimento da economia de forma sustentada neste ano. Os fabricantes de máquinas e implementos agrícolas contam para este ano com um acréscimo de 20% nas suas vendas totais e chegar a quase R$ 9 bilhões de faturamento, movimento que servirá para assegurar mais eficiência e produtividade nos próximos plantios e colheitas.

Isso também deverá ocorrer com as chamadas máquinas agrícolas automotrizes, ou seja, tratores e colheitadeiras, cujas vendas de março já superaram as de fevereiro em 13,7% e os fabricantes representados pelo Anfavea contam com a manutenção do faturamento nesse ritmo acelerado ao longo do ano.

As cidades das regiões interioranas também devem experimentar um pouco desse sucesso com vendas maiores no varejo, mercado imobiliário.  Continuar lendo

Isabel Dias de Aguiar

Sempre que os preços do etanol fogem ao controle, o governo brasileiro sai em campo em busca dos culpados. Quase sempre o mercado internacional do açúcar e o clima estão na mira. Mas, na retórica oficial, os usineiros acabam sempre como vilões, o que põe a perder o discurso em defesa da livre economia de mercado.

É o que, mais uma vez, ocorre no atual período de entressafra da lavoura canavieira.

Faltou chuva nas regiões produtoras do Brasil em 2010 e a safra de cana-de-açúcar acabou ficando menor que o esperado. O que mais pesa nesse cenário são as expectativas – não muito otimistas em relação ao próximo ciclo nas lavouras canavieiras, cujos primeiros cortes do ano ocorrem agora.

Estiagem prolongada, além de comprometer o resultado da safra, induz à produção de açúcar em detrimento da do etanol. Isso ocorre por causa da concentração de sacarose, que proporciona maior rendimento no processamento do açúcar. Uma escolha correta do ponto de vista empresarial, especialmente num momento de cotações em alta.

Com a aceleração da demanda por combustíveis, ocorreu o inevitável: a disparada dos preços. Numa situação como esta, ter uma frota de carros predominantemente flex não serviu para neutralizar os perversos efeitos da escassez.

Com o preço do etanol hidratado nas alturas, o consumidor migrou para a gasolina, já que o derivado do combustível fóssil rende 30% mais. Ocorre que a gasolina no Brasil contém etanol anidro na proporção de 25%.

Conclusão: os custos da gasolina dispararam, e o governo teve até de cogitar a importação do combustível dos EUA. Em 12 meses (até o início de abril), os preços do etanol hidratado subiram 51% e o do anidro, 128%, segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada  (Cepea/Esalq/USP).

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